Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 4 de abril de 2020

Rostos da Emigração


No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um desses exemplos que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração portuguesa, encontra-se vertido no livro “Rostos da Emigração” da autoria de Joaquim Tenreira Martins. Assistente social que durante largos anos trabalhou no Serviço Social e Jurídico da Embaixada de Portugal em Bruxelas – Secção Consular, onde prestou apoio a milhares de compatriotas. 
 
O livro “Rostos da Emigração” do escritor Joaquim Tenreira Martins (esq.), entre várias sessões junto das comunidades portuguesas e no território nacional, foi lançado na cidade berço de Portugal em 2017, numa sessão de apresentação que esteve a cargo do historiador Daniel Bastos (dir.)
Foi a pensar nesses milhares de emigrantes portugueses radicados no centro da Europa, que o autor escreveu em 2017 esse livro que conta com chancela da Editora Orfeu. Um misto de livraria e de editora, dirigida desde o final dos anos 90 pelo ativista cultural  Joaquim Pinto da Silva, e que tem sido o berço de várias obras preteridas pelos circuitos comerciais e que manifestamente têm importância para a nossa cultura e para a sua expansão.


A obra, na esteira do primeiro trabalho que escreveu sobre a emigração “Visages de l’Émigration Portugaise”, publicado em Paris, assume-se declaradamente como uma homenagem aos emigrantes portugueses, os mesmos que segundo Joaquim Tenreira Martins “nunca aparecerão nas manchetes dos jornais”, mas que têm sido ao longo dos anos uma força motriz do desenvolvimento socioeconómico das suas pátrias de origem e de acolhimento. Muitas das vezes sem o devido reconhecimento de ambas as pátrias, e em vários casos com trajetórias de vida marcadas por dificuldades, situações de precariedade, doença, desemprego, abandono e solidão.

Como salienta Maria Manuela Aguiar, antiga Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas, que assina o prefácio de “Rostos da Emigração”, o livro constitui “uma viagem ao interior do mundo da realidade migratória português, de alguém que alia a experiência de anos e anos de contacto com situações concretas, difíceis e problemáticas a uma grande sensibilidade para o sofrimento de pessoas inadaptadas, marginalizadas, e que possui também um conhecimento das regulamentações jurídicas, das burocracias dos países de acolhimento, dos contornos das questões sociais que se colocam com premência, e que exigem soluções adequadas”.



sábado, 28 de março de 2020

Os soldados portugueses que se tornaram emigrantes em França no final da Grande Guerra


A presença da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas, está historicamente ligada ao processo de reconstrução francês após o fim da segunda Guerra Mundial. Reconstrução, que em parte, foi suportada por um enorme contingente de mão-de-obra portuguesa que motivada pela procura de melhores condições de vida, e nas décadas de 1960-70 pela fuga à Guerra Colonial e à repressão política do Estado Novo, encontrou nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris o seu principal sustento.
 
O historiador Daniel Bastos, cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2019 de Felícia Assunção Pailleux, filha do antigo combatente na I Guerra Mundial e depois emigrante em França, João Assunção, no Museu Nacional da História da Imigração em Paris
Mas originariamente, a emigração portuguesa para França está ligada à participação do Corpo Expedicionário Português (CEP) na frente europeia da Grande Guerra (1914-1918), acontecimento bélico que levou para França em 1917 cerca de 55 mil portugueses para lutar nas trincheiras dos aliados britânicos contra o inimigo alemão, e do qual milhares de soldados não regressaram, optando por se tornarem emigrantes em terras gaulesas.


Ainda hoje, existem descendentes destes soldados e emigrantes lusos que preservam a sua memória e zelam o cemitério militar português de Richebourg, no norte de França, um cemitério militar exclusivamente português, que reúne um total de 1831 militares mortos na frente europeia. É o caso da nonagenária Felicia Assunção Pailleux, filha do soldado e depois emigrante João Assunção, um minhoto de Ponte da Barca, que fez parte da 2ª Divisão do CEP e que como outros compatriotas que optaram no final do conflito bélico por não regressar a Portugal, onde grassava uma profunda crise política, económica e social, fixou-se na zona onde combateu, no Norte-Pas de Calais, uma zona de minas de carvão que absorveu muita mão-de-obra.

Ao longo das últimas quatro décadas, Felicia Paileux tem sido a porta-estandarte da bandeira de Portugal nas cerimónias evocativas da Grande Guerra no cemitério de Richebourg e no monumento aos soldados lusos em La Couture, no Norte-Pas de Calais, honrando a memória do seu pai, soldado e emigrante português falecido em 1975, que muito antes da emigração maciça dos anos 60 escolheu como muitos outros antigos companheiros de armas a França para viver, trabalhar e constituir família.