Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
sábado, 26 de setembro de 2026
Porto acolhe apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia
O Porto recebe, no próximo dia 10 de outubro, sábado, às 16h00, a apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia, da autoria do historiador da diáspora Daniel Bastos, construído a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos nomes relevantes do fotojornalismo português. A sessão terá lugar na Livraria Cooperativa UNICEPE e será apresentada pelo jornalista Carlos Magno.
Publicada numa edição bilingue, em português e inglês, com tradução de Paulo Teixeira e prefácio de João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura, a obra reúne mais de duas centenas de fotografias, entre imagens emblemáticas, registos menos divulgados e fotografias inéditas.
Com o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, o livro revisita, através da fotografia, alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa das últimas décadas do século XX, desde a Guerra Colonial ao 25 de Abril de 1974, passando pelo processo revolucionário, pela chegada dos chamados “retornados” e pela construção e consolidação da democracia.
O espólio de Marques Valentim permite igualmente acompanhar as profundas transformações sociais vividas pelo país ao longo das décadas de 1970 e 1980. Ao lado de protagonistas da vida política nacional, surgem trabalhadores, famílias, comunidades e cenas do quotidiano de um Portugal em mudança, incluindo registos relacionados com a emigração, uma realidade que marcou profundamente a sociedade e reforçou os laços entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo.
Entre as fotografias reunidas na obra encontram-se também imagens captadas por Marques Valentim em Moçambique, onde cumpriu o serviço militar entre 1972 e 1974, como furriel miliciano de fotocine. Esses registos documentam a realidade da Guerra Colonial e as vivências das populações locais, constituindo um importante testemunho visual de um período determinante da história contemporânea portuguesa.
Num momento em que Portugal vive há mais tempo em liberdade e democracia do que viveu sob a ditadura, Portugal: da Ditadura à Democracia propõe uma reflexão sobre o passado recente do país e sobre o percurso histórico que conduziu ao fim do Estado Novo e à construção e consolidação do regime democrático.
Para Daniel Bastos, autor de várias obras dedicadas à memória da ditadura, à democracia e à emigração portuguesa, o livro pretende contribuir para “preservar e divulgar uma memória visual fundamental da história contemporânea portuguesa, aproximando-a também das novas gerações”.
Marques Valentim, nascido em 1949, destacou-se no fotojornalismo português, acompanhando, ao longo de mais de três décadas, alguns dos principais acontecimentos da vida nacional. O seu espólio constitui um importante testemunho das transformações políticas, sociais e culturais vividas em Portugal na segunda metade do século XX.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Paulo Fernandes: um emigrante entre duas pátrias, ao serviço da sua terra
Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de inúmeros compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo nos mais diversos domínios da vida cultural, social, económica, política e associativa.
Entre os vários exemplos de afirmação, difusão e promoção da presença portuguesa na diáspora, cada vez mais percecionada como um ativo estratégico para o desenvolvimento e reconhecimento de Portugal, destaca-se, ao longo dos últimos anos, a trajetória de vida de Paulo Fernandes, um genuíno emigrante bairrista e altruísta, profundamente ligado às suas raízes e ativamente dedicado ao associativismo, que vive e trabalha na Bélgica.
Natural de Vila Cova, pequena povoação rural do concelho minhoto de Fafe, onde nasceu em 1976, no seio de uma família humilde e de parcos recursos, Paulo Fernandes, como tantos outros conterrâneos e compatriotas, conheceu desde muito cedo os caminhos da emigração como forma de procurar melhores condições de vida. Aos 14 anos, partiu para a cidade francesa de Marselha, onde trabalhou no setor agrícola durante cerca de dois anos, regressando posteriormente a Portugal, onde cumpriu o serviço militar e, mais tarde, constituiu família com aquela que viria a ser a sua companheira de vida, Marisa Peixoto, também natural do concelho de Fafe.
O jovem casal fafense, à semelhança de milhares de portugueses, rumou, nos primeiros anos do século XXI, para a Bélgica, país que acolhe uma das mais numerosas e dinâmicas comunidades portuguesas da Europa. A presença portuguesa no território belga, constituída por várias gerações de emigrantes e por uma expressiva população de lusodescendentes, mantém uma forte vitalidade social, económica, cultural e associativa, fazendo da Bélgica um dos principais destinos da emigração portuguesa contemporânea.
Numa primeira fase, ambos trabalharam numa empresa de embalamento de frangos, situada em Rotselaar, na região da Flandres. A partir de 2006, foram contratados como casal de governantes por uma família belga empreendedora de Petit-Enghien, localidade situada na província de Hainaut. É neste contexto profissional que Paulo Fernandes se tornou, desde então, homem de confiança de uma das principais famílias belgas ligadas ao setor da saúde, com atividade na Bélgica, no Luxemburgo e na Suíça.
A par do percurso profissional construído no país de acolhimento, Paulo Fernandes nunca perdeu a ligação ao torrão natal. Profundamente ligado às suas raízes, tem realizado, ao longo dos últimos anos, diversos investimentos imobiliários no concelho de Fafe e apoiado causas sociais e pessoas em situação de vulnerabilidade económica. O emigrante empreendedor, conhecido pelo trato fácil, pela humildade e pela generosidade, encontrou também no associativismo uma forma privilegiada de continuar a servir a sua terra.
Há cerca de uma década, assumiu a presidência do GAT – Associação Grupo de Amigos de Travassós, uma associação sem fins lucrativos e clube desportivo sediado na freguesia de Travassós, terra natal da sua esposa, e que se afirmou, entretanto, como uma das mais dinâmicas e representativas coletividades do concelho de Fafe.
O conhecido dirigente associativo local, radicado na Bélgica, personifica, de certa forma, esse singular “homem ubíquo” de que falava Miguel Torga, alguém dividido entre duas pátrias, a de acolhimento e a de origem, mas capaz de transformar a distância geográfica numa ponte permanente entre ambas. Com uma enorme capacidade de sacrifício pessoal, familiar e profissional, e contando com o apoio de uma direção constituída por elementos ativos e dedicados, Paulo Fernandes desenvolve uma relevante intervenção associativa em Fafe, assumindo-se como um dos rostos mais visíveis de uma coletividade que reúne cerca de uma centena de atletas nas modalidades de futebol e futsal.
Sob a sua liderança, o GAT dispõe atualmente de uma das mais recentes e modernas sedes associativas do concelho, um espaço que ultrapassa a sua dimensão estritamente desportiva e se afirma também como um importante lugar de encontro, convívio e sociabilidade da comunidade. A coletividade tem contribuído para dinamizar as tradições e a cultura local, fortalecer os laços comunitários e, simultaneamente, assumir-se como uma verdadeira bússola orientadora e promotora da participação, sobretudo entre os mais jovens.
O percurso de Paulo Fernandes é, assim, particularmente revelador de uma das dimensões mais nobres da emigração portuguesa: a capacidade de partir sem romper com as raízes. Entre a Bélgica, onde construiu a sua vida profissional e familiar, e Fafe, onde mantém um forte vínculo afetivo, patrimonial e comunitário, o seu percurso demonstra que a distância não significa necessariamente afastamento. Pelo contrário, pode transformar-se numa forma renovada de pertença, de participação e de compromisso com a terra de origem.
É precisamente nesta capacidade de permanecer ligado à terra de origem que reside uma das grandes forças da diáspora portuguesa. Muitos emigrantes, depois de construírem as suas vidas além-fronteiras, continuam a investir, a apoiar causas sociais, a preservar tradições, a dinamizar coletividades e a contribuir para o desenvolvimento das suas comunidades de origem. Paulo Fernandes inscreve-se nesse universo de homens e mulheres que fazem da sua condição de emigrantes uma verdadeira ponte entre Portugal e o mundo.
Paulo Fernandes
domingo, 20 de setembro de 2026
Daniel Bastos levou a Bruxelas a memória dos Monumentos ao Emigrante
No passado sábado, 19 de setembro, o historiador da diáspora Daniel Bastos apresentou em Bruxelas, capital da Bélgica e da União Europeia, o livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, numa sessão realizada na livraria La Petite Portugaise, espaço de referência na promoção da língua, da cultura e da identidade portuguesas na capital belga.
Concebida em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido, a obra resulta de um levantamento dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores. O livro percorre mais de uma centena de representações escultóricas e memoriais, entre bustos, estátuas e outros monumentos, que testemunham a presença da figura do emigrante na memória coletiva e no património das comunidades portuguesas.
A sessão esteve a cargo de Susana Pratt, cofundadora e responsável pela La Petite Portugaise, e contou com a presença de emigrantes e dirigentes associativos luso-belgas. Durante a apresentação, Susana Pratt sublinhou a importância de uma obra que, ao percorrer diferentes regiões de Portugal e dar visibilidade aos monumentos dedicados ao emigrante, constitui um contributo relevante para o conhecimento e a valorização da história da emigração portuguesa, enquanto dimensão fundamental da identidade coletiva nacional.
Publicada em edição bilingue, em português e inglês, com tradução de Paulo Teixeira, a obra conta com prefácio do filósofo e escritor Onésimo Teotónio Almeida e posfácio da socióloga das migrações Maria Beatriz Rocha-Trindade. O livro tem ainda o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa constitui uma viagem pela memória e pelo património português, valorizando, através dos monumentos, o papel dos emigrantes na história contemporânea de Portugal.
A apresentação em Bruxelas assumiu igualmente um significado especial pela ligação à comunidade portuguesa na Bélgica, uma das comunidades portuguesas mais expressivas e dinâmicas da Europa, à qual se junta uma importante população de lusodescendentes. A escolha da capital belga permitiu, deste modo, aproximar a obra de uma comunidade que, ao longo de décadas, tem contribuído para a presença e projeção de Portugal no espaço europeu.
A sessão marcou ainda, em território europeu, mais uma etapa do percurso de divulgação da obra, que, desde o seu lançamento em 2025, tem sido apresentada em diferentes geografias da diáspora portuguesa, levando consigo uma reflexão sobre memória, identidade, património e emigração.
Com esta passagem por Bruxelas, Daniel Bastos prossegue o propósito de dar visibilidade à história da emigração portuguesa e às suas múltiplas expressões patrimoniais, aproximando a investigação histórica das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e valorizando o legado de sucessivas gerações de emigrantes.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Dois oceanos, uma história: a homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum em San Diego
No início deste mês de setembro, Lisboa acolheu a 104.ª reunião anual da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC), organização regional responsável pela conservação e gestão dos atuns e de outras espécies associadas no Oceano Pacífico Oriental. Com sede em La Jolla, na cidade de San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América, a IATTC constitui uma das principais instituições internacionais de referência na gestão sustentável dos recursos haliêuticos desta região do Pacífico.
A organização integra 21 membros, entre Estados e entidades com estatuto próprio no âmbito da Convenção de Antigua, entre os quais a União Europeia. Portugal participa através da União Europeia, contribuindo para a definição das posições europeias e acompanhando, através das estruturas comunitárias competentes, a gestão das pescarias no Pacífico Oriental.
Desde outubro de 2017, as funções de Coordenador de Investigação Científica da IATTC são exercidas pelo investigador português Alexandre Aires-da-Silva, igualmente responsável pela Divisão de Investigação Científica da organização. Especialista em ciência das pescas e gestão sustentável dos recursos marinhos, Aires-da-Silva tem desenvolvido uma carreira internacional ligada ao estudo dos grandes peixes pelágicos e à cooperação científica no domínio das pescas.
Foi neste contexto que Alexandre Aires-da-Silva, juntamente com duas figuras de relevo da comunidade portuguesa de San Diego, Idalmiro da Rosa, natural da ilha do Pico, líder comunitário e Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, e Kenny Alameda, empresário luso-americano e fundador da Clipper Oil, promoveu uma sessão de homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum. A iniciativa realizou-se no Museu de Marinha, em Belém, assumindo um profundo significado histórico e simbólico.
Se Lisboa representa uma das grandes matrizes da vocação marítima portuguesa, San Diego constitui um dos mais expressivos destinos da emigração portuguesa ligada ao mar, à pesca e à indústria conserveira. Durante grande parte do século XX, a cidade foi conhecida como a “capital mundial do atum”, acolhendo uma das maiores frotas de pesca do atum dos Estados Unidos e uma importante indústria conserveira.
Neste processo, os pescadores imigrantes, nomeadamente portugueses, desempenharam um papel de relevo. A comunidade portuguesa, particularmente oriunda dos Açores e da Madeira, contribuiu para o desenvolvimento da economia marítima local, estabelecendo uma forte ligação entre emigração, trabalho, mar e identidade comunitária.
A presença portuguesa em San Diego remonta ao século XIX, tendo sucessivas vagas migratórias contribuído para a formação de um importante núcleo da comunidade portuguesa, particularmente em Point Loma. A ligação ao mar tornou-se uma das marcas mais fortes desta presença. Atualmente, estima-se que cerca de 20 mil pessoas de ascendência portuguesa residam no condado de San Diego, mantendo-se Point Loma como um dos principais espaços de referência da comunidade, onde a memória da pesca, as tradições religiosas, a gastronomia e o associativismo continuam a afirmar a identidade luso-americana.
Esta história cruza-se também com João Rodrigues Cabrilho, navegador ao serviço da Coroa espanhola que, em 1542, alcançou a atual costa da Califórnia e entrou na baía de San Diego, sendo tradicionalmente identificado pela historiografia portuguesa e luso-americana como português.
Foi precisamente esta longa ligação entre Portugal, os Açores e San Diego que esteve no centro da homenagem realizada no Museu de Marinha, junto ao Mosteiro dos Jerónimos. A iniciativa contou com o apoio da Marinha Portuguesa, do Museu de Marinha, das autoridades portuguesas, da União Europeia, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), de organizações ligadas ao setor das pescas e de famílias da comunidade portuguesa.
A sessão de abertura contou com a intervenção do Diretor do Museu de Marinha, Capitão-de-Mar-e-Guerra Augusto António Alves Salgado, e do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa. Seguiu-se uma apresentação de Kenny Alameda, intitulada Across Two Oceans, dedicada à história da pesca do atum no Pacífico Oriental e ao papel desempenhado pelos pescadores portugueses e pelas suas famílias.
A homenagem incluiu ainda uma exposição dedicada à história e ao legado dos pioneiros portugueses da pesca do atum, recuperando memórias de uma comunidade que, a milhares de quilómetros de Portugal, contribuiu para uma importante página da história marítima e económica de San Diego.
A iniciativa prolongou-se, uma semana depois, pelo arquipélago dos Açores, berço de muitos dos pioneiros portugueses que fizeram da pesca do atum em San Diego parte da sua história de vida. Com o apoio das Secretarias Regionais dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e do Mar e das Pescas, realizaram-se duas sessões públicas, na Horta e nas Lajes do Pico, aprofundando as dimensões científica, histórica e humana desta ligação transatlântica.
No dia 7 de setembro, o Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, na Horta, acolheu uma sessão dedicada à participação açoriana na pesca do atum no Pacífico Oriental, com a presença de Andreia Braga Henriques, Diretora Regional das Pescas, Alexandre Aires-da-Silva, Idalmiro da Rosa e Ricardo da Rosa, armador do Pacific Princess e vice-presidente da United Portuguese SES, Inc.
No dia seguinte, as Lajes do Pico acolheram, no Auditório do Museu dos Baleeiros, uma sessão de carácter histórico, que contou novamente com Alexandre Aires-da-Silva e Idalmiro da Rosa, bem como com José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, Manuel Costa, Diretor do Museu do Pico e presidente da Comissão Consultiva do Património Baleeiro Regional, e Rúben Alves, empresário ligado à pesca do atum.
A homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum foi, assim, muito mais do que a evocação de uma atividade económica. Constituiu um reconhecimento às gerações que levaram consigo o saber, a coragem e a cultura de um povo profundamente ligado ao mar, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades de acolhimento. Foi também uma expressão de valorização da diáspora portuguesa, do seu papel na preservação dos laços com Portugal e do seu contributo para a história económica, social e cultural dos países onde se fixou.
Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, ladeado por Idalmiro da Rosa, Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, e pelo empresário luso-americano Kenny Alameda, durante a exposição dedicada à história e ao legado dos pioneiros portugueses da pesca do atum, no Museu de Marinha, em Lisboa.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Padre João Felgueiras: uma vida ao serviço de Timor, da fé e da língua portuguesa
A presença portuguesa no Oriente, impulsionada pela expansão marítima iniciada no século XV, conduziu os portugueses à ilha de Timor nas primeiras décadas do século XVI. A partir da segunda metade desse século, a missionação católica ganhou uma expressão mais estruturada, contribuindo para a implantação do cristianismo e para a formação de uma profunda ligação histórica, religiosa, cultural e linguística entre Portugal e Timor.
É neste longo percurso histórico que se inscreve uma das figuras mais marcantes da história contemporânea de Timor-Leste: o padre João Felgueiras (1921-2026), sacerdote jesuíta português que dedicou mais de cinco décadas da sua vida ao povo timorense, à educação, à missão pastoral e à preservação e transmissão da língua portuguesa, inclusive durante os períodos mais difíceis da ocupação indonésia.
Nascido a 9 de junho de 1921, em Caldas das Taipas, no concelho de Guimarães, João Felgueiras ingressou na Companhia de Jesus em 1942. Estudou Filosofia em Braga e Teologia em Burgos, Espanha, sendo ordenado sacerdote a 30 de julho de 1950, em Oña. Antes de partir para Timor, trabalhou com a juventude em Braga e foi professor e diretor espiritual no Colégio de São João de Brito, em Lisboa. Entre 1962 e 1967, exerceu ainda o cargo de reitor do Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, em Cernache.
A 22 de janeiro de 1971, partiu para Timor, onde assumiu funções no Seminário de Díli. A partir desse momento, a sua vida ficaria indissociavelmente ligada à história do povo timorense. Como professor e educador, dedicou-se à formação de várias gerações de jovens, nomeadamente no Externato de São José, instituição que viria a desempenhar um papel singular na preservação da língua portuguesa.
A sua permanência em Timor adquiriu uma dimensão particularmente exigente depois da invasão indonésia de 7 de dezembro de 1975. Ao contrário de muitos estrangeiros que deixaram o território, João Felgueiras decidiu permanecer junto da população. Durante os anos da ocupação, acompanhou doentes e presos, prestou assistência pastoral e humana aos perseguidos e manteve uma relação de proximidade com comunidades submetidas à violência e à repressão. A sua opção de permanecer transformou a missão religiosa numa forma concreta de presença, solidariedade e defesa da dignidade humana.
Também no domínio educativo e linguístico o seu testemunho assumiu especial relevância. Num contexto em que as autoridades indonésias impuseram o bahasa indonésio no sistema educativo e proibiram o ensino do português, João Felgueiras continuou a ensinar a língua portuguesa no Externato de São José até ao seu encerramento, em 1992, prosseguindo posteriormente esse trabalho sempre que as circunstâncias o permitiam.
Esta ação ultrapassava, assim, a simples transmissão de conhecimentos linguísticos. Durante a ocupação, o português tornou-se também um instrumento de preservação da memória e da identidade timorenses. Ao lado do tétum, viria a ser consagrado como língua oficial da República Democrática de Timor-Leste, na Constituição de 2002. A defesa da língua portuguesa por João Felgueiras deve, por isso, ser compreendida no contexto específico de uma sociedade que procurava preservar referências culturais e identitárias perante uma política de assimilação.
O seu percurso missionário ficou igualmente associado a alguns dos momentos mais dramáticos da história recente de Timor-Leste. Entre eles esteve o massacre de Santa Cruz, em Díli, a 12 de novembro de 1991, quando militares indonésios abriram fogo sobre uma multidão de timorenses que participava numa manifestação e procissão fúnebre. A divulgação internacional das imagens da violência constituiu um ponto de viragem na internacionalização da causa timorense e contribuiu para o reforço da pressão internacional sobre a Indonésia.
A repressão não interrompeu, porém, a ação do sacerdote jesuíta. A sua presença junto de doentes, presos, perseguidos e famílias atingidas pela violência tornou-se uma expressão concreta da missão pastoral entendida como serviço. Para João Felgueiras, evangelizar significava também estar junto daqueles que sofriam, acompanhar uma comunidade e defender a dignidade de cada pessoa.
A Igreja Católica assumiu, durante a ocupação, um papel particularmente relevante na sociedade timorense, constituindo um dos espaços onde a população encontrava proteção, expressão comunitária e preservação de elementos fundamentais da sua identidade. Essa realidade ajuda também a compreender a dimensão da missão de João Felgueiras, numa sociedade onde a fé católica se tornou profundamente enraizada e onde, atualmente, a esmagadora maioria da população se identifica como católica.
O percurso do jesuíta foi reconhecido tanto em Portugal como em Timor-Leste. Em 2002, o Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, distinguiu-o com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. Em Timor-Leste, recebeu a Ordem de Timor-Leste e a Medalha de Mérito, tendo-lhe sido posteriormente atribuído o Colar da Ordem de Timor-Leste. Em Portugal, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa concedeu-lhe, em 2022, a Grã-Cruz da Ordem de Camões, reconhecendo o seu contributo para a língua e a cultura portuguesas. Em 2011, recebera também a nacionalidade timorense.
Um dos momentos mais simbólicos da fase final da sua vida ocorreu em setembro de 2024, durante a visita apostólica do Papa Francisco a Timor-Leste. No encontro com os jesuítas em Díli, o pontífice dirigiu-se pessoalmente ao padre João Felgueiras, então com 103 anos, abraçou-o e agradeceu-lhe o serviço prestado ao povo timorense. Francisco, primeiro Papa pertencente à Companhia de Jesus, prestava assim uma homenagem particularmente significativa a um sacerdote cuja vida se encontrava profundamente ligada à história recente de Timor-Leste.
João Felgueiras morreu em Díli, a 3 de julho de 2026, aos 105 anos. Com a sua morte encerrou-se uma existência extraordinária, mas permaneceu um legado que ultrapassa largamente a história pessoal de um missionário português. Durante mais de cinco décadas, fez de Timor o lugar da sua missão, da sua ação educativa e do seu compromisso com uma comunidade que escolheu servir.
Em 2022, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou o padre jesuíta João Felgueiras com a Grã-Cruz da Ordem de Camões, distinguindo o seu longo percurso ao serviço da língua e da cultura portuguesas. © Observatório da Língua Portuguesa
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Daniel Bastos leva a Bruxelas os lugares de memória da emigração portuguesa
No próximo dia 19 de setembro, sábado, Bruxelas, capital da Bélgica e da União Europeia, acolhe a apresentação do livro “Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa”, uma obra que percorre, através da fotografia e da investigação histórica, a memória material da emigração portuguesa.
Concebido pelo historiador da diáspora Daniel Bastos, em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido, o livro resulta de um levantamento pioneiro dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes nos 18 distritos de Portugal continental e nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores.
A apresentação está marcada para as 15h00, na livraria La Petite Portugaise, espaço de referência em Bruxelas na promoção da língua e da cultura portuguesas, e estará a cargo de Susana Pratt, cofundadora e responsável pela livraria.
Com edição bilingue, em português e inglês, tradução de Paulo Teixeira, prefácio do filósofo e escritor Onésimo Teotónio Almeida e posfácio da socióloga das migrações Maria Beatriz Rocha-Trindade, a obra constitui uma viagem pela presença da figura do emigrante na memória e no património português.
Através de um itinerário profusamente ilustrado, “Monumentos ao Emigrante” percorre todas as regiões do país e dá a conhecer mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais, que evocam aqueles que partiram e testemunham a importância que a emigração assumiu na história contemporânea de Portugal.
Mais do que um inventário patrimonial, o livro propõe uma leitura da forma como a sociedade portuguesa foi representando e inscrevendo no espaço público a experiência da partida, do trabalho, da ausência, do regresso e da construção de novas vidas além-fronteiras. Estes monumentos constituem, assim, uma relevante fonte material para compreender a história da emigração portuguesa e a dimensão da diáspora lusa espalhada pelos quatro cantos do mundo.
A sessão de apresentação em Bruxelas, aberta à comunidade, assume igualmente um significado especial pelo reconhecimento da importância da comunidade portuguesa na Bélgica, uma das mais numerosas e dinâmicas comunidades portuguesas na Europa, que conta atualmente com cerca de 70 mil cidadãos portugueses, a que se junta uma expressiva população de lusodescendentes.
A apresentação na La Petite Portugaise, ponto de encontro incontornável na promoção da língua, da cultura e da identidade portuguesas na capital belga, assinala também, em território europeu, o encerramento de um ciclo de apresentações de uma obra que, desde o seu lançamento, em 2025, tem levado a memória da emigração portuguesa a diferentes geografias da diáspora.
No prefácio, Onésimo Teotónio Almeida, Professor Emérito da Universidade Brown e uma das vozes mais reconhecidas no estudo e reflexão sobre a portugalidade, sublinha a força da dimensão visual da obra: “Se uma imagem vale mil palavras, temos aqui duas centenas e meia de milhar de belas palavras saltando-nos à vista com gritante eloquência.”
Por seu lado, Maria Beatriz Rocha-Trindade, autora de uma vasta bibliografia dedicada às migrações, destaca, no posfácio, o contributo da publicação para o conhecimento histórico: “Este livro constitui uma valiosa contribuição para o conhecimento da História de Portugal.”
Com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, “Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa” afirma-se como uma obra de memória, património e identidade, colocando em diálogo o Portugal de partida com o Portugal de hoje e com a sua vasta diáspora espalhada pelo mundo.
sábado, 29 de agosto de 2026
Orlando Pinto: uma história de emigração, empreendedorismo e compromisso com a diáspora
Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua extraordinária capacidade de trabalho, iniciativa e empreendedorismo. Ao longo de gerações, homens e mulheres que partiram de Portugal em busca de melhores condições de vida acabaram por construir, nos países de acolhimento, empresas de sucesso e percursos de reconhecido mérito, assumindo responsabilidades de relevo nas áreas económica, social, cultural e, tantas vezes, política.
Entre esses exemplos, cada vez mais reconhecidos como uma importante mais-valia estratégica para a afirmação internacional do país, destaca-se o percurso de Orlando Pinto, um dos empresários mais ativos e beneméritos da comunidade portuguesa no Luxemburgo.
No Grão-Ducado, onde os portugueses constituem cerca de 15% da população e representam, desde a década de 1980, a principal comunidade estrangeira, a presença portuguesa adquiriu uma dimensão particularmente relevante. O Luxemburgo tornou-se, assim, um dos mais expressivos espaços de afirmação contemporânea da emigração portuguesa na Europa, não apenas pela sua importância demográfica, mas também pelo contributo económico, empresarial, cultural e social dos portugueses que ali fizeram as suas vidas.
Natural de Adenodeiro, pequena aldeia do concelho de Castro Daire, no distrito de Viseu, Orlando Pinto emigrou para o Luxemburgo em 1982, com apenas 22 anos, movido pelo desejo, comum a tantos emigrantes portugueses da sua geração, de procurar melhores condições de vida. Levava consigo a experiência de uma infância e adolescência marcadas pelo trabalho agrícola e fabril, num contexto familiar humilde, mas também pelo conhecimento precoce das dificuldades e incertezas associadas à emigração.
O seu próprio pai havia emigrado para o Canadá e, numa época em que na aldeia não existiam eletricidade, telefone ou sequer correio regular, a família chegou a permanecer meses sem saber do seu paradeiro. É uma memória que ajuda a compreender a dureza de uma emigração feita, muitas vezes, com poucos recursos, mas sustentada por uma enorme esperança no futuro.
No Luxemburgo, Orlando Pinto começou a construir, passo a passo, um percurso que haveria de transformar profundamente a sua vida. Depois de conhecer e casar com a mãe das suas filhas, iniciou a sua atividade profissional numa empresa de construção civil. Durante cerca de duas décadas, exerceu diferentes funções, começando como pedreiro e progredindo até chefe de equipa e responsável de obra.
Foi nesse longo percurso profissional, feito de trabalho, aprendizagem e experiência acumulada, que encontrou os alicerces para concretizar um projeto próprio. Em 2002, no início do século XXI, decidiu criar a Sopinor, então com apenas um camião e quatro pedreiros.
Mais de duas décadas depois, aquela pequena empresa transformou-se num dos mais relevantes grupos empresariais do setor da construção e das obras públicas no Luxemburgo. Sediado em Schifflange, no cantão de Esch-sur-Alzette, o grupo SOPINOR reúne atualmente diversas entidades, entre as quais a SOPINOR Sarl, a SOPINOR Constructions, a SOPINOR Concassage, a AP Construction, a SopiConcept e a SopiTherme, proporcionando uma resposta integrada ao setor da construção, desde a conceção à execução de projetos.
O crescimento da empresa acompanha, de resto, a própria dimensão do percurso do seu fundador. Aquilo que começou com quatro trabalhadores é hoje uma estrutura empresarial com cerca de 350 colaboradores, maioritariamente portugueses, dezenas de estaleiros em funcionamento e uma faturação anual superior a 50 milhões de euros. Entre os projetos que contribuíram para a notoriedade da SOPINOR encontra-se uma das obras mais emblemáticas da modernização do Luxemburgo: o tram, o metro de superfície da capital do Grão-Ducado.
A participação da SOPINOR na construção desta infraestrutura, que marcou profundamente a paisagem urbana luxemburguesa, valeu a Orlando Pinto o epíteto de “Senhor Tram”, expressão que traduz não apenas a dimensão do projeto, mas também o reconhecimento alcançado pelo empresário no setor da construção.
A história da SOPINOR é, simultaneamente, uma história de empreendedorismo e uma história de família. Na empresa trabalham também as filhas de Orlando Pinto, Sylvie, jurista, e Stephanie, ligada à direção, bem como outros familiares, entre os quais a sua irmã, responsável pelos recursos humanos, e o sobrinho Mário, supervisor de obras. A presença de várias gerações da família na estrutura empresarial revela uma dimensão que ultrapassa a mera gestão de um negócio: a transmissão de responsabilidades, valores e de uma cultura de trabalho construída ao longo de décadas.
Uma das dimensões mais marcantes do percurso de Orlando Pinto é a forma como tem colocado o seu sucesso ao serviço da comunidade. Apaixonado pelo futebol, tem apoiado diversas equipas no Luxemburgo e, nos últimos dois anos, assumiu a presidência do Red Black Pfaffenthal, clube onde também treina o seu filho mais novo e que acolhe as escolinhas luxemburguesas do Sport Lisboa e Benfica.
A sua dimensão solidária revelou-se igualmente quando, na sequência dos graves danos provocados pela tempestade Kristin na região Centro, particularmente no distrito de Leiria, transformou um armazém da sede da empresa, em Schifflange, num centro de recolha de materiais de construção destinados às populações afetadas em Portugal.
Foi este percurso de sucesso, compromisso e solidariedade que esteve na origem da Comenda do Mérito Empresarial que lhe foi atribuída pelo Presidente da República, António José Seguro, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujo arranque oficial decorreu este ano no Luxemburgo. A distinção reconheceu, nas palavras do mais alto magistrado da Nação, a “singularidade de um percurso profissional do maior êxito e o extraordinário espírito de um homem fora do comum”.
O Presidente da República, António José Seguro, condecorou, no Luxemburgo, o empresário Orlando Pinto com a Comenda do Mérito Empresarial. Créditos: ©Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República.
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O historiador da diáspora Daniel Bastos, acompanhado por Susana Pratt, cofundadora e responsável pela livraria La Petite Portugaise, e por Catarina Carvalhido, em representação do fotógrafo Luís Carvalhido, durante a apresentação, em Bruxelas, do livro dedicado à história da emigração portuguesa.









