Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
sábado, 18 de julho de 2026
Viana do Castelo acolheu apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia
No passado sábado, 18 de julho, foi apresentado, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia, da autoria do historiador da diáspora Daniel Bastos, concebido a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos mais relevantes nomes do fotojornalismo português.
A obra reúne um valioso conjunto de imagens captadas por Marques Valentim, fotógrafo que acompanhou alguns dos momentos mais marcantes da história contemporânea portuguesa, documentando, com singular sensibilidade e rigor, o processo de transição da ditadura para a democracia e a consolidação do regime democrático.
A sessão, promovida pelo Centro de Estudos Regionais (CER), instituição dedicada ao estudo, à investigação, à preservação e à divulgação dos valores históricos, artísticos, antropológicos, culturais, socioeconómicos, científicos e paisagísticos do Minho, reuniu antigos combatentes e emigrantes, dirigentes associativos, académicos, representantes da comunicação social regional e personalidades da comunidade local.
A apresentação esteve a cargo de Licínio Rego, Diretor do Serviço de Cirurgia Geral da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, que destacou o valor histórico, documental e pedagógico da obra, salientando o seu papel na valorização do conhecimento sobre o processo de transição democrática portuguesa. Sublinhou, igualmente, que as imagens de Marques Valentim convidam à reflexão sobre os caminhos percorridos pela sociedade portuguesa na construção da democracia e sobre os desafios que se colocam às gerações presentes e futuras na salvaguarda desse legado.
Mesa de honra da sessão de apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia, realizada na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Da esquerda para a direita: o historiador da diáspora Daniel Bastos, o Presidente do Centro de Estudos Regionais (CER), Armando Borlido, e o Diretor do Serviço de Cirurgia Geral da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, Licínio Rego.
Editado em versão bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira e o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, o livro dá a conhecer um espólio fotográfico de inegável valor histórico. Ao longo de mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, entre imagens pouco divulgadas e registos inéditos, Marques Valentim retrata alguns dos acontecimentos e protagonistas mais marcantes da sociedade portuguesa da segunda metade do século XX.
A partir destas memórias visuais, a obra percorre episódios determinantes da história contemporânea nacional. Das vivências da Guerra Colonial em Moçambique ao processo de integração dos chamados “retornados” após a Revolução de 25 de Abril de 1974, passando pelos principais acontecimentos do período revolucionário, como o 11 de Março, o Verão Quente e o 25 de Novembro, o livro constitui um testemunho visual de excecional valor histórico. As fotografias documentam ainda as profundas transformações da sociedade portuguesa, revelando figuras da vida política e do processo de integração europeia, bem como o quotidiano de trabalhadores, famílias, comunidades do Portugal profundo e emigrantes que partiram em busca de melhores condições de vida, preservando a dimensão humana da construção da democracia.
A apresentação em Viana do Castelo integrou o roteiro nacional e internacional de divulgação de Portugal: da Ditadura à Democracia. Desde o seu lançamento, no passado mês de junho, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa, a obra tem sido apresentada em várias cidades portuguesas e junto de comunidades da diáspora, nomeadamente em Toronto, no Canadá, afirmando-se como um relevante testemunho para a compreensão da memória histórica, a valorização do património democrático português e o reforço dos laços culturais entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo.
terça-feira, 14 de julho de 2026
O Abade Correia da Serra: pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos
No passado dia 4 de julho assinalou-se o Dia da Independência dos Estados Unidos da América (EUA), o mais emblemático feriado nacional norte-americano, que evoca a adoção da Declaração de Independência, em 1776, quando as Treze Colónias proclamaram formalmente a sua separação do Império Britânico.
No ano em que os Estados Unidos celebram o 250.º aniversário da sua fundação, a efeméride constitui um oportuno pretexto para revisitar alguns dos momentos fundadores das relações entre Portugal e a América. Um vínculo histórico particularmente relevante para os portugueses, cuja comunidade nos EUA se distingue, desde há gerações, pelo espírito empreendedor, pelo dinamismo associativo e pelo forte sentido de solidariedade, contribuindo de forma exemplar para prestigiar Portugal além-fronteiras.
Importa recordar que Portugal foi o terceiro país a reconhecer formalmente a independência dos Estados Unidos, em 1783, circunstância que explica por que razão as relações diplomáticas entre os dois países figuram entre as mais antigas e duradouras da história norte-americana.
Nas primeiras páginas desta relação bicentenária destaca-se a figura singular do Abade Correia da Serra, uma das personalidades mais notáveis da ciência, da cultura e da diplomacia portuguesas e o primeiro representante diplomático de Portugal junto dos Estados Unidos.
Natural de Serpa, José Francisco Correia da Serra (1751-1823) partiu ainda criança para Itália com a família, de origem cristã-nova, procurando escapar à perseguição da Inquisição. Entre Nápoles e Roma recebeu uma sólida formação intelectual, estudando com o economista António Genovesi e contactando com Luís António Verney, um dos maiores expoentes do Iluminismo português, que despertou nele o interesse pelas ciências naturais.
Abade Correia da Serra (1751–1823)
Licenciado em Direito Canónico, abraçou a vida religiosa e estabeleceu amizade com D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões. Regressado a Portugal em 1778, fundou, no ano seguinte, com o Duque de Lafões, a Real Academia das Ciências de Lisboa, instituição decisiva para o desenvolvimento científico e cultural do país.
As suas convicções iluministas, a proximidade à Maçonaria e a simpatia pelas Revoluções Americana e Francesa tornaram-no alvo de crescente hostilidade política. Em finais do século XVIII fixou-se em Londres, onde exerceu funções na legação portuguesa e consolidou o seu prestígio internacional como botânico, publicando estudos científicos nas mais prestigiadas sociedades científicas britânicas.
Em 1802 transferiu-se para Paris, onde conviveu com algumas das maiores figuras da ciência europeia, entre as quais Antoine Laurent de Jussieu, Alexander von Humboldt e Georges Cuvier. Nove anos mais tarde, recusando colaborar com a política napoleónica durante as invasões francesas de Portugal, partiu para os Estados Unidos.
Na América encontrou o ambiente ideal para desenvolver a sua atividade científica e intelectual. O prestígio internacional de que já gozava, aliado às cartas de recomendação dirigidas ao Presidente James Madison e a Thomas Jefferson por personalidades como o Marquês de Lafayette, abriu-lhe as portas da elite política e académica norte-americana. Tornou-se membro da American Philosophical Society, colaborou com a Universidade da Pensilvânia e cultivou uma estreita amizade com vários estadistas americanos.
A ligação a Thomas Jefferson foi particularmente significativa. Com o terceiro Presidente dos Estados Unidos trocou mais de uma centena de cartas e foi presença frequente em Monticello, na Virgínia. Ainda hoje é possível visitar naquela residência histórica o quarto reservado ao seu hóspede português — "The Abbé's Room" — testemunho da estima que unia os dois homens.
Em 1816, Correia da Serra foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Washington, tornando-se o primeiro representante diplomático permanente português junto dos Estados Unidos. O conhecimento profundo que possuía da realidade americana e a proximidade às principais figuras da jovem República permitiram-lhe desempenhar um papel relevante na consolidação das relações bilaterais durante um período decisivo da política externa norte-americana.
Regressado a Portugal na sequência da Revolução Liberal de 1820, foi eleito deputado às Cortes Constituintes pelo círculo de Beja, colocando a sua vasta experiência internacional ao serviço da construção do Portugal liberal. Viria a falecer nas Caldas da Rainha, em 1823, deixando uma obra científica, diplomática e intelectual que ultrapassou largamente as fronteiras nacionais e projetou o nome de Portugal nos mais prestigiados meios académicos e políticos do seu tempo.
Mais de dois séculos depois, o Abade Correia da Serra permanece como uma das figuras mais notáveis da história contemporânea portuguesa. Cientista de renome internacional, diplomata, intelectual cosmopolita e homem de diálogo entre povos e culturas, foi igualmente um pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos, muito antes das grandes vagas migratórias que marcaram a emigração portuguesa dos séculos XIX e XX. O seu percurso evidencia que os laços entre Portugal e a América nasceram também do intercâmbio de conhecimento, da diplomacia e da circulação de ideias, encontrando nele um dos seus mais lúcidos promotores. Evocar a sua memória é reconhecer uma personalidade ímpar, precursora da afirmação portuguesa nos Estados Unidos e uma das figuras que contribuíram para consolidar as históricas relações de amizade, cooperação e entendimento entre Portugal e a nação norte-americana.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Lena Barreto: um rosto da solidariedade luso-canadiana
Uma das características mais distintivas da diáspora portuguesa é a sua notável capacidade de iniciativa, refletida no percurso de milhares de compatriotas que, nos países de acolhimento, se afirmam no mundo empresarial, cultural, social, político e associativo. Entre esses exemplos de dedicação cívica, destaca-se o percurso de Lena Barreto, uma das personalidades mais respeitadas da comunidade portuguesa da região de Toronto.
Natural do concelho minhoto de Fafe, Madalena Barreto, conhecida na comunidade luso-canadiana da região de Toronto como Lena, emigrou para o Canadá com a família em 1970, aos seis anos de idade. Cresceu em Toronto, cidade que acolhe uma das maiores e mais antigas comunidades portuguesas e lusodescendentes fora de Portugal, cujas raízes remontam à década de 1950. Desde muito jovem participou ativamente na vida comunitária, integrando iniciativas culturais e folclóricas, nomeadamente através do Rancho da Associação Cultural do Minho.
Entrega da Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, Grau Ouro, a Lena Barreto, pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, a 11 de junho, em Toronto.
Em paralelo, construiu uma sólida carreira profissional no Royal Bank of Canada (RBC), onde trabalhou durante quarenta anos. Terminou recentemente o seu percurso como Community Manager do Toronto West Community Hub, liderando a principal estrutura do banco dedicada à comunidade portuguesa. Ao longo de quatro décadas, distinguiu-se pela capacidade de liderança, pela criação de equipas de elevado desempenho e por sucessivos reconhecimentos de mérito profissional atribuídos pela instituição.
O sucesso profissional nunca a afastou do compromisso comunitário. Pelo contrário, reforçou uma vocação de serviço que a levou a dedicar milhares de horas ao voluntariado e à participação cívica. Convicta da importância da representação política da comunidade luso-canadiana, colaborou em diversas campanhas eleitorais de personalidades de origem portuguesa, entre as quais Ana Bailão, Charles Sousa e Peter Fonseca.
O seu voluntariado estendeu-se igualmente às áreas da educação, da saúde e da intervenção social. A partir de 1994, colaborou com a Junior Achievement, lecionando noções de economia a alunos do ensino básico em escolas de Toronto e Mississauga, cidade onde reside atualmente. Durante muitos anos coordenou iniciativas de angariação de fundos do RBC em benefício da United Way of Greater Toronto, do SickKids Hospital, da RBC Race for the Kids e do RBC Canadian Open.
No seio da comunidade portuguesa desempenhou funções dirigentes em várias organizações de referência, contribuindo para o seu fortalecimento institucional. No Portuguese Cultural Centre of Mississauga exerceu responsabilidades como diretora de relações públicas, coordenadora do Carassauga e diretora do grupo folclórico. Foi igualmente dirigente e presidente da Federation of Portuguese Canadian Business & Professionals, organização dedicada à valorização dos empresários e profissionais luso-canadianos.
Entre as instituições às quais mais dedicou o seu tempo destaca-se a Luso-Canadian Charitable Society, referência no apoio a adultos com deficiência física e intelectual, onde exerceu funções de vice-presidente e dinamizou importantes iniciativas de angariação de fundos para fins sociais.
Particular destaque merece também a sua ligação ao Abrigo Centre, uma das mais relevantes instituições sociais da comunidade luso-canadiana. Entre 2018 e 2026 presidiu ao Conselho de Administração, contribuindo para consolidar o papel da instituição no apoio a vítimas de violência doméstica, na proteção das mulheres, na integração comunitária e no acompanhamento de idosos e famílias em situação de vulnerabilidade. Mais recentemente assumiu funções de tesoureira da Magellan Community Charities, entidade responsável pela criação, em Toronto, do primeiro lar de cuidados continuados destinado à comunidade de expressão portuguesa.
O seu percurso tem sido amplamente reconhecido através de diversas distinções, entre as quais o RBC Community Leader Award, o RBC Community Spirit Award, o Professional Excellence Award da Federation of Portuguese Canadian Business & Professionals e a Medalha do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II. Em junho deste ano, durante a visita oficial a Toronto do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, foi agraciada com a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, Grau Ouro, em reconhecimento pelo seu extraordinário contributo para a comunidade portuguesa no Canadá.
Mesmo após a aposentação, Lena Barreto continua a dedicar-se ao voluntariado, colaborando com a Canadian Cancer Society através do programa Wheels of Hope, que assegura o transporte de doentes oncológicos para tratamentos médicos.
O seu percurso demonstra que a vitalidade da diáspora portuguesa não se mede apenas pelo sucesso material dos seus membros, mas também pela capacidade de construir instituições sólidas, promover a solidariedade e preservar a identidade cultural. Lena Barreto representa exemplarmente essa tradição de serviço à comunidade, honrando Portugal e projetando o melhor da presença portuguesa no Canadá, ao mesmo tempo que evidencia o papel determinante das mulheres na afirmação e desenvolvimento das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
domingo, 28 de junho de 2026
Livro "Portugal: da Ditadura à Democracia" apresentado em Toronto perante uma expressiva participação da comunidade luso-canadiana
No passado sábado, 27 de junho, foi apresentado em Toronto, cidade canadiana que alberga uma das mais expressivas comunidades portuguesas e lusodescendentes do mundo, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia.
A obra, concebida pelo historiador da diáspora Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos nomes maiores do fotojornalismo português, que acompanhou alguns dos momentos mais decisivos da história contemporânea nacional durante o processo de transição e consolidação da democracia, foi apresentada na Peach Gallery, um dos mais relevantes espaços culturais da comunidade luso-canadiana.
Integrada nas celebrações do Mês do Património Português em Toronto, a sessão contou com uma expressiva participação da comunidade luso-canadiana, reunindo emigrantes, lusodescendentes, dirigentes associativos, representantes dos órgãos de comunicação social e diversas personalidades da comunidade, entre as quais o deputado federal canadiano Charles Sousa, o presidente da Aliança de Clubes e Associações Portuguesas de Ontário (ACAPO), Joe Eustáquio, e o presidente da Luso-Canadian Charitable Society, Jack Prazeres.
A apresentação esteve a cargo do empresário e filantropo Manuel DaCosta, que sublinhou a relevância histórica e documental da obra, considerando-a um importante contributo para a preservação da memória colectiva da construção da democracia portuguesa. Destacou igualmente a atualidade da sua mensagem, num contexto internacional marcado pela crescente polarização política, pela ascensão dos extremismos e pelo enfraquecimento da confiança nas instituições democráticas.
A sessão constituiu também uma homenagem ao papel desempenhado pela comunidade luso-canadiana na preservação e afirmação dos valores da liberdade, da democracia e da portugalidade, reforçando os laços históricos e afetivos que unem Portugal às suas comunidades espalhadas pelo mundo.
Editada em versão bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira e apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, a obra dá a conhecer o singular espólio fotográfico de Marques Valentim. Ao longo de mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, imagens pouco divulgadas e registos inéditos, o fotojornalista documenta, com notável sensibilidade e rigor, alguns dos acontecimentos e protagonistas mais marcantes da sociedade portuguesa na segunda metade do século XX.
A partir das memórias visuais de Marques Valentim, que registou o conflito colonial em Moçambique e integrou, durante mais de três décadas, as redações de alguns dos mais importantes jornais portugueses, o livro percorre momentos marcantes da história contemporânea portuguesa. Aborda as vivências da guerra e o processo de integração dos chamados «retornados», na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974, bem como os principais acontecimentos do período revolucionário, como o 11 de Março, o Verão Quente e o 25 de Novembro. As fotografias documentam também as profundas transformações da sociedade portuguesa, revelando tanto protagonistas da vida política e da integração europeia como o quotidiano de trabalhadores, famílias, comunidades do Portugal profundo e emigrantes que partiram em busca de melhores condições de vida, preservando a dimensão humana da transição democrática.
Refira-se que, paralelamente à apresentação em Toronto, cujas receitas da venda do livro revertem integralmente a favor da Magellan Community Foundation, entidade que está a desenvolver o primeiro lar de cuidados continuados destinado a idosos de expressão portuguesa naquela cidade, a obra foi lançada no passado dia 18 de junho, em Lisboa, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Mário Soares e Maria Barroso.
Ao longo dos próximos meses, estão previstas novas sessões de apresentação de Portugal: da Ditadura à Democracia em várias localidades de Portugal e em diferentes comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, dando continuidade à divulgação de uma obra que constitui um relevante contributo para a preservação da memória histórica e para a valorização do património democrático português.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Charles Sousa: um rosto maior da diáspora portuguesa no Canadá
Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua notável capacidade de integração e empreendedorismo. Ao longo de várias gerações, milhares de portugueses e lusodescendentes afirmaram-se nos mais diversos setores de atividade, fundando empresas de sucesso e assumindo responsabilidades de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Hoje, constituem um dos mais valiosos ativos estratégicos de Portugal na sua projeção internacional.
Entre esses exemplos sobressai Charles Sousa, uma das personalidades políticas mais influentes da comunidade luso-canadiana e um dos mais destacados representantes da diáspora portuguesa na vida pública do Canadá.
Charles Sousa — © charlessousa.libparl.ca
Filho de emigrantes oriundos da Nazaré, Charles Sousa nasceu em 1958, no Canadá, país que acolhe atualmente mais de meio milhão de luso-canadianos, concentrados sobretudo nas províncias de Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica. O seu pai, António Sousa, pertenceu à geração pioneira da emigração oficial portuguesa para o Canadá, tendo desembarcado em Halifax, a bordo do navio Saturnia, a 13 de maio de 1953, num dos primeiros fluxos migratórios organizados entre os dois países.
Licenciado em Administração de Empresas, com especialização em Economia e Contabilidade, pela Wilfrid Laurier University, detém ainda um MBA Executivo em Finanças pela Ivey Business School e formação pelo Institute of Corporate Directors. Antes de ingressar na política, construiu uma sólida carreira de cerca de duas décadas no setor financeiro, desempenhando funções no Royal Bank of Canada e na RBC Dominion Securities, nas áreas da banca comercial, dos mercados de capitais e da gestão financeira.
Foi igualmente empresário no setor do financiamento empresarial e integrou os órgãos dirigentes de diversas instituições financeiras e organizações sem fins lucrativos. Participou ainda ativamente em importantes entidades empresariais canadianas, como a Câmara de Comércio do Canadá, a Câmara de Comércio de Toronto e a Câmara de Comércio Americana. O seu percurso foi reconhecido, entre outras distinções, com a Medalha do Jubileu de Ouro da Rainha Isabel II, em 2003, e a Medalha do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II, em 2012.
A sua carreira política iniciou-se em 2007, com a eleição para o Parlamento da província de Ontário pelo círculo eleitoral de Mississauga South. Em 2010 assumiu funções como Ministro da Cidadania e Imigração e, no ano seguinte, foi nomeado Ministro do Trabalho. Em 2013 tornou-se Ministro das Finanças de Ontário, tornando-se o primeiro luso-canadiano a assumir uma das mais importantes pastas governativas da província. Durante esse período apresentou seis orçamentos provinciais, liderou reformas estruturais nos sistemas financeiro e de pensões, promoveu investimentos em infraestruturas e transportes e desempenhou igualmente funções como Ministro responsável pelos Jogos Pan-Americanos e Parapan-Americanos de 2015.
Paralelamente ao percurso profissional e político, Charles Sousa manteve sempre uma estreita ligação à comunidade portuguesa. Presidiu, entre 1998 e 2006, à Federation of Portuguese-Canadian Business & Professionals, é Presidente Honorário da Luso Canadian Charitable Society e integra a direção da Magellan Community Charities, organização responsável pela criação, em Toronto, do primeiro lar de cuidados continuados destinado à comunidade de expressão portuguesa.
Esta dedicação à comunidade e ao serviço público valeu-lhe, em 2009, a condecoração de Comendador da Ordem do Mérito da República Portuguesa, distinção atribuída a cidadãos que se destacam pelos relevantes serviços prestados à coletividade. Em 2017, o seu nome passou igualmente a integrar o Portuguese Canadian Walk of Fame, que distingue anualmente portugueses e lusodescendentes cujo percurso constitui motivo de orgulho para a comunidade e para o Canadá.
Profundamente ligado às suas raízes, Charles Sousa continua a visitar regularmente a Nazaré, onde mantém fortes laços familiares e afetivos. Casado com Zenny Sousa e pai de três filhos, representa uma geração de luso-canadianos que conseguiu conciliar a afirmação plena na sociedade canadiana com a preservação da identidade portuguesa.
Desde 2022 é deputado federal pelo círculo eleitoral de Mississauga—Lakeshore e preside atualmente à Comissão Permanente de Defesa Nacional da Câmara dos Comuns do Canadá.
O percurso de Charles Sousa demonstra que a diáspora portuguesa é muito mais do que uma comunidade emigrante: é uma rede global de talento, competência e liderança. A sua carreira constitui um exemplo de como a dedicação ao serviço público, aliada ao orgulho nas origens, pode contribuir simultaneamente para o fortalecimento da sociedade de acolhimento e para a valorização do nome de Portugal no mundo.
sábado, 20 de junho de 2026
Livro Portugal: da Ditadura à Democracia apresentado na Fundação Mário Soares e Maria Barroso
Na passada quinta-feira, 18 de junho, foi apresentado ao final da tarde, em Lisboa, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia.
A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos nomes mais relevantes do fotojornalismo português, que acompanhou momentos decisivos da história contemporânea nacional durante o processo de transição e consolidação do regime democrático, foi apresentada na Fundação Mário Soares e Maria Barroso.
A sessão de apresentação, integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Mário Soares e Maria Barroso, contou com uma expressiva participação de público, reunindo representantes da sociedade civil, associações, órgãos de comunicação social e diversos agentes da vida cívica, cultural e política, entre os quais o Secretário-Geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, e a Presidente do Conselho de Administração da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Isabel Soares.
A sessão esteve a cargo de João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura, que assina o prefácio do livro e caracterizou o livro-álbum como “um contributo importante para a nossa memória coletiva. Para aqueles que viveram os tempos aqui retratados, representa um reencontro com momentos marcantes da nossa história. Para os que não os viveram, oferece uma oportunidade rara de os conhecer, ver e compreender, através do olhar atento e sensível de quem soube e teve a oportunidade de estar presente”.
Mesa da sessão de lançamento do livro Portugal: da Ditadura à Democracia, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso (da esq. para a dir.): o antigo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura, João Soares; o historiador da diáspora Daniel Bastos; o Diretor Executivo da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Filipe Guimarães da Silva; o fotojornalista Marques Valentim; e o tradutor Paulo Teixeira.
Nesta nova obra, uma edição bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira, o historiador da diáspora Daniel Bastos dá a conhecer o singular espólio fotográfico de Marques Valentim. Entre mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, registos menos divulgados e imagens inéditas, o fotógrafo captou, com notável sensibilidade, acontecimentos e protagonistas marcantes da sociedade portuguesa no último quartel do século XX.
A partir das memórias visuais do antigo fotojornalista, que registou o conflito colonial em Moçambique e integrou, ao longo de mais de três décadas, redações de jornais de referência em Portugal, são retratadas as vivências da guerra, bem como um universo humano intenso e diversificado, composto por populações locais, olhares expressivos e paisagens luminosas da então província ultramarina.
O livro aborda igualmente a chegada e o difícil processo de integração dos chamados “retornados”, na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974. Os principais acontecimentos revolucionários são amplamente documentados pela lente de Marques Valentim, desde a tentativa de golpe de Estado de 11 de março de 1975, passando pelo conturbado “Verão Quente”, até ao 25 de Novembro, um dos momentos mais marcantes e debatidos da Revolução portuguesa.
O olhar atento de Marques Valentim não se limita, contudo, aos grandes acontecimentos políticos. Ao captar as expectativas, tensões e transformações de uma sociedade em rápida mudança, o fotojornalista revela também a dimensão humana da transição democrática. Tornam-se visíveis não apenas os rostos de figuras incontornáveis da democracia portuguesa e do processo de adesão europeia, mas também os quotidianos de trabalhadores, famílias e comunidades do Portugal profundo nas décadas de 1970 e 1980, assim como as vivências de emigrantes que, em fuga à pobreza e à guerra colonial, partiram em busca de melhores condições de vida.
Antes da apresentação da obra, realizada com o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, teve lugar a inauguração de uma exposição fotográfica de Marques Valentim, inspirada na vida e nos legados do casal símbolo da luta pela liberdade e pela democracia em Portugal.
O livro será apresentado à diáspora portuguesa no dia 27 de junho, na Peach Gallery, em Toronto, no âmbito do Mês do Património Português. A sessão, conduzida pelo empresário e filantropo Manuel DaCosta, reconhece o papel da comunidade luso-canadiana na preservação da identidade e dos valores da liberdade. As receitas da venda do livro reverterão a favor da Magellan Community Foundation, que está a desenvolver em Toronto o primeiro lar de cuidados continuados para idosos de expressão portuguesa.
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