Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Abade Correia da Serra: pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos

No passado dia 4 de julho assinalou-se o Dia da Independência dos Estados Unidos da América (EUA), o mais emblemático feriado nacional norte-americano, que evoca a adoção da Declaração de Independência, em 1776, quando as Treze Colónias proclamaram formalmente a sua separação do Império Britânico. No ano em que os Estados Unidos celebram o 250.º aniversário da sua fundação, a efeméride constitui um oportuno pretexto para revisitar alguns dos momentos fundadores das relações entre Portugal e a América. Um vínculo histórico particularmente relevante para os portugueses, cuja comunidade nos EUA se distingue, desde há gerações, pelo espírito empreendedor, pelo dinamismo associativo e pelo forte sentido de solidariedade, contribuindo de forma exemplar para prestigiar Portugal além-fronteiras. Importa recordar que Portugal foi o terceiro país a reconhecer formalmente a independência dos Estados Unidos, em 1783, circunstância que explica por que razão as relações diplomáticas entre os dois países figuram entre as mais antigas e duradouras da história norte-americana. Nas primeiras páginas desta relação bicentenária destaca-se a figura singular do Abade Correia da Serra, uma das personalidades mais notáveis da ciência, da cultura e da diplomacia portuguesas e o primeiro representante diplomático de Portugal junto dos Estados Unidos. Natural de Serpa, José Francisco Correia da Serra (1751-1823) partiu ainda criança para Itália com a família, de origem cristã-nova, procurando escapar à perseguição da Inquisição. Entre Nápoles e Roma recebeu uma sólida formação intelectual, estudando com o economista António Genovesi e contactando com Luís António Verney, um dos maiores expoentes do Iluminismo português, que despertou nele o interesse pelas ciências naturais.
Abade Correia da Serra (1751–1823) Licenciado em Direito Canónico, abraçou a vida religiosa e estabeleceu amizade com D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões. Regressado a Portugal em 1778, fundou, no ano seguinte, com o Duque de Lafões, a Real Academia das Ciências de Lisboa, instituição decisiva para o desenvolvimento científico e cultural do país. As suas convicções iluministas, a proximidade à Maçonaria e a simpatia pelas Revoluções Americana e Francesa tornaram-no alvo de crescente hostilidade política. Em finais do século XVIII fixou-se em Londres, onde exerceu funções na legação portuguesa e consolidou o seu prestígio internacional como botânico, publicando estudos científicos nas mais prestigiadas sociedades científicas britânicas. Em 1802 transferiu-se para Paris, onde conviveu com algumas das maiores figuras da ciência europeia, entre as quais Antoine Laurent de Jussieu, Alexander von Humboldt e Georges Cuvier. Nove anos mais tarde, recusando colaborar com a política napoleónica durante as invasões francesas de Portugal, partiu para os Estados Unidos. Na América encontrou o ambiente ideal para desenvolver a sua atividade científica e intelectual. O prestígio internacional de que já gozava, aliado às cartas de recomendação dirigidas ao Presidente James Madison e a Thomas Jefferson por personalidades como o Marquês de Lafayette, abriu-lhe as portas da elite política e académica norte-americana. Tornou-se membro da American Philosophical Society, colaborou com a Universidade da Pensilvânia e cultivou uma estreita amizade com vários estadistas americanos. A ligação a Thomas Jefferson foi particularmente significativa. Com o terceiro Presidente dos Estados Unidos trocou mais de uma centena de cartas e foi presença frequente em Monticello, na Virgínia. Ainda hoje é possível visitar naquela residência histórica o quarto reservado ao seu hóspede português — "The Abbé's Room" — testemunho da estima que unia os dois homens. Em 1816, Correia da Serra foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Washington, tornando-se o primeiro representante diplomático permanente português junto dos Estados Unidos. O conhecimento profundo que possuía da realidade americana e a proximidade às principais figuras da jovem República permitiram-lhe desempenhar um papel relevante na consolidação das relações bilaterais durante um período decisivo da política externa norte-americana. Regressado a Portugal na sequência da Revolução Liberal de 1820, foi eleito deputado às Cortes Constituintes pelo círculo de Beja, colocando a sua vasta experiência internacional ao serviço da construção do Portugal liberal. Viria a falecer nas Caldas da Rainha, em 1823, deixando uma obra científica, diplomática e intelectual que ultrapassou largamente as fronteiras nacionais e projetou o nome de Portugal nos mais prestigiados meios académicos e políticos do seu tempo. Mais de dois séculos depois, o Abade Correia da Serra permanece como uma das figuras mais notáveis da história contemporânea portuguesa. Cientista de renome internacional, diplomata, intelectual cosmopolita e homem de diálogo entre povos e culturas, foi igualmente um pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos, muito antes das grandes vagas migratórias que marcaram a emigração portuguesa dos séculos XIX e XX. O seu percurso evidencia que os laços entre Portugal e a América nasceram também do intercâmbio de conhecimento, da diplomacia e da circulação de ideias, encontrando nele um dos seus mais lúcidos promotores. Evocar a sua memória é reconhecer uma personalidade ímpar, precursora da afirmação portuguesa nos Estados Unidos e uma das figuras que contribuíram para consolidar as históricas relações de amizade, cooperação e entendimento entre Portugal e a nação norte-americana.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Lena Barreto: um rosto da solidariedade luso-canadiana

Uma das características mais distintivas da diáspora portuguesa é a sua notável capacidade de iniciativa, refletida no percurso de milhares de compatriotas que, nos países de acolhimento, se afirmam no mundo empresarial, cultural, social, político e associativo. Entre esses exemplos de dedicação cívica, destaca-se o percurso de Lena Barreto, uma das personalidades mais respeitadas da comunidade portuguesa da região de Toronto. Natural do concelho minhoto de Fafe, Madalena Barreto, conhecida na comunidade luso-canadiana da região de Toronto como Lena, emigrou para o Canadá com a família em 1970, aos seis anos de idade. Cresceu em Toronto, cidade que acolhe uma das maiores e mais antigas comunidades portuguesas e lusodescendentes fora de Portugal, cujas raízes remontam à década de 1950. Desde muito jovem participou ativamente na vida comunitária, integrando iniciativas culturais e folclóricas, nomeadamente através do Rancho da Associação Cultural do Minho.
Entrega da Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, Grau Ouro, a Lena Barreto, pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, a 11 de junho, em Toronto. Em paralelo, construiu uma sólida carreira profissional no Royal Bank of Canada (RBC), onde trabalhou durante quarenta anos. Terminou recentemente o seu percurso como Community Manager do Toronto West Community Hub, liderando a principal estrutura do banco dedicada à comunidade portuguesa. Ao longo de quatro décadas, distinguiu-se pela capacidade de liderança, pela criação de equipas de elevado desempenho e por sucessivos reconhecimentos de mérito profissional atribuídos pela instituição. O sucesso profissional nunca a afastou do compromisso comunitário. Pelo contrário, reforçou uma vocação de serviço que a levou a dedicar milhares de horas ao voluntariado e à participação cívica. Convicta da importância da representação política da comunidade luso-canadiana, colaborou em diversas campanhas eleitorais de personalidades de origem portuguesa, entre as quais Ana Bailão, Charles Sousa e Peter Fonseca. O seu voluntariado estendeu-se igualmente às áreas da educação, da saúde e da intervenção social. A partir de 1994, colaborou com a Junior Achievement, lecionando noções de economia a alunos do ensino básico em escolas de Toronto e Mississauga, cidade onde reside atualmente. Durante muitos anos coordenou iniciativas de angariação de fundos do RBC em benefício da United Way of Greater Toronto, do SickKids Hospital, da RBC Race for the Kids e do RBC Canadian Open. No seio da comunidade portuguesa desempenhou funções dirigentes em várias organizações de referência, contribuindo para o seu fortalecimento institucional. No Portuguese Cultural Centre of Mississauga exerceu responsabilidades como diretora de relações públicas, coordenadora do Carassauga e diretora do grupo folclórico. Foi igualmente dirigente e presidente da Federation of Portuguese Canadian Business & Professionals, organização dedicada à valorização dos empresários e profissionais luso-canadianos. Entre as instituições às quais mais dedicou o seu tempo destaca-se a Luso-Canadian Charitable Society, referência no apoio a adultos com deficiência física e intelectual, onde exerceu funções de vice-presidente e dinamizou importantes iniciativas de angariação de fundos para fins sociais. Particular destaque merece também a sua ligação ao Abrigo Centre, uma das mais relevantes instituições sociais da comunidade luso-canadiana. Entre 2018 e 2026 presidiu ao Conselho de Administração, contribuindo para consolidar o papel da instituição no apoio a vítimas de violência doméstica, na proteção das mulheres, na integração comunitária e no acompanhamento de idosos e famílias em situação de vulnerabilidade. Mais recentemente assumiu funções de tesoureira da Magellan Community Charities, entidade responsável pela criação, em Toronto, do primeiro lar de cuidados continuados destinado à comunidade de expressão portuguesa. O seu percurso tem sido amplamente reconhecido através de diversas distinções, entre as quais o RBC Community Leader Award, o RBC Community Spirit Award, o Professional Excellence Award da Federation of Portuguese Canadian Business & Professionals e a Medalha do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II. Em junho deste ano, durante a visita oficial a Toronto do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, foi agraciada com a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, Grau Ouro, em reconhecimento pelo seu extraordinário contributo para a comunidade portuguesa no Canadá. Mesmo após a aposentação, Lena Barreto continua a dedicar-se ao voluntariado, colaborando com a Canadian Cancer Society através do programa Wheels of Hope, que assegura o transporte de doentes oncológicos para tratamentos médicos. O seu percurso demonstra que a vitalidade da diáspora portuguesa não se mede apenas pelo sucesso material dos seus membros, mas também pela capacidade de construir instituições sólidas, promover a solidariedade e preservar a identidade cultural. Lena Barreto representa exemplarmente essa tradição de serviço à comunidade, honrando Portugal e projetando o melhor da presença portuguesa no Canadá, ao mesmo tempo que evidencia o papel determinante das mulheres na afirmação e desenvolvimento das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

domingo, 28 de junho de 2026

Livro "Portugal: da Ditadura à Democracia" apresentado em Toronto perante uma expressiva participação da comunidade luso-canadiana

No passado sábado, 27 de junho, foi apresentado em Toronto, cidade canadiana que alberga uma das mais expressivas comunidades portuguesas e lusodescendentes do mundo, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia. A obra, concebida pelo historiador da diáspora Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos nomes maiores do fotojornalismo português, que acompanhou alguns dos momentos mais decisivos da história contemporânea nacional durante o processo de transição e consolidação da democracia, foi apresentada na Peach Gallery, um dos mais relevantes espaços culturais da comunidade luso-canadiana.
Integrada nas celebrações do Mês do Património Português em Toronto, a sessão contou com uma expressiva participação da comunidade luso-canadiana, reunindo emigrantes, lusodescendentes, dirigentes associativos, representantes dos órgãos de comunicação social e diversas personalidades da comunidade, entre as quais o deputado federal canadiano Charles Sousa, o presidente da Aliança de Clubes e Associações Portuguesas de Ontário (ACAPO), Joe Eustáquio, e o presidente da Luso-Canadian Charitable Society, Jack Prazeres. A apresentação esteve a cargo do empresário e filantropo Manuel DaCosta, que sublinhou a relevância histórica e documental da obra, considerando-a um importante contributo para a preservação da memória colectiva da construção da democracia portuguesa. Destacou igualmente a atualidade da sua mensagem, num contexto internacional marcado pela crescente polarização política, pela ascensão dos extremismos e pelo enfraquecimento da confiança nas instituições democráticas. A sessão constituiu também uma homenagem ao papel desempenhado pela comunidade luso-canadiana na preservação e afirmação dos valores da liberdade, da democracia e da portugalidade, reforçando os laços históricos e afetivos que unem Portugal às suas comunidades espalhadas pelo mundo. Editada em versão bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira e apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, a obra dá a conhecer o singular espólio fotográfico de Marques Valentim. Ao longo de mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, imagens pouco divulgadas e registos inéditos, o fotojornalista documenta, com notável sensibilidade e rigor, alguns dos acontecimentos e protagonistas mais marcantes da sociedade portuguesa na segunda metade do século XX. A partir das memórias visuais de Marques Valentim, que registou o conflito colonial em Moçambique e integrou, durante mais de três décadas, as redações de alguns dos mais importantes jornais portugueses, o livro percorre momentos marcantes da história contemporânea portuguesa. Aborda as vivências da guerra e o processo de integração dos chamados «retornados», na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974, bem como os principais acontecimentos do período revolucionário, como o 11 de Março, o Verão Quente e o 25 de Novembro. As fotografias documentam também as profundas transformações da sociedade portuguesa, revelando tanto protagonistas da vida política e da integração europeia como o quotidiano de trabalhadores, famílias, comunidades do Portugal profundo e emigrantes que partiram em busca de melhores condições de vida, preservando a dimensão humana da transição democrática. Refira-se que, paralelamente à apresentação em Toronto, cujas receitas da venda do livro revertem integralmente a favor da Magellan Community Foundation, entidade que está a desenvolver o primeiro lar de cuidados continuados destinado a idosos de expressão portuguesa naquela cidade, a obra foi lançada no passado dia 18 de junho, em Lisboa, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Mário Soares e Maria Barroso. Ao longo dos próximos meses, estão previstas novas sessões de apresentação de Portugal: da Ditadura à Democracia em várias localidades de Portugal e em diferentes comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, dando continuidade à divulgação de uma obra que constitui um relevante contributo para a preservação da memória histórica e para a valorização do património democrático português.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Charles Sousa: um rosto maior da diáspora portuguesa no Canadá

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua notável capacidade de integração e empreendedorismo. Ao longo de várias gerações, milhares de portugueses e lusodescendentes afirmaram-se nos mais diversos setores de atividade, fundando empresas de sucesso e assumindo responsabilidades de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Hoje, constituem um dos mais valiosos ativos estratégicos de Portugal na sua projeção internacional. Entre esses exemplos sobressai Charles Sousa, uma das personalidades políticas mais influentes da comunidade luso-canadiana e um dos mais destacados representantes da diáspora portuguesa na vida pública do Canadá.
Charles Sousa — © charlessousa.libparl.ca Filho de emigrantes oriundos da Nazaré, Charles Sousa nasceu em 1958, no Canadá, país que acolhe atualmente mais de meio milhão de luso-canadianos, concentrados sobretudo nas províncias de Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica. O seu pai, António Sousa, pertenceu à geração pioneira da emigração oficial portuguesa para o Canadá, tendo desembarcado em Halifax, a bordo do navio Saturnia, a 13 de maio de 1953, num dos primeiros fluxos migratórios organizados entre os dois países. Licenciado em Administração de Empresas, com especialização em Economia e Contabilidade, pela Wilfrid Laurier University, detém ainda um MBA Executivo em Finanças pela Ivey Business School e formação pelo Institute of Corporate Directors. Antes de ingressar na política, construiu uma sólida carreira de cerca de duas décadas no setor financeiro, desempenhando funções no Royal Bank of Canada e na RBC Dominion Securities, nas áreas da banca comercial, dos mercados de capitais e da gestão financeira. Foi igualmente empresário no setor do financiamento empresarial e integrou os órgãos dirigentes de diversas instituições financeiras e organizações sem fins lucrativos. Participou ainda ativamente em importantes entidades empresariais canadianas, como a Câmara de Comércio do Canadá, a Câmara de Comércio de Toronto e a Câmara de Comércio Americana. O seu percurso foi reconhecido, entre outras distinções, com a Medalha do Jubileu de Ouro da Rainha Isabel II, em 2003, e a Medalha do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II, em 2012. A sua carreira política iniciou-se em 2007, com a eleição para o Parlamento da província de Ontário pelo círculo eleitoral de Mississauga South. Em 2010 assumiu funções como Ministro da Cidadania e Imigração e, no ano seguinte, foi nomeado Ministro do Trabalho. Em 2013 tornou-se Ministro das Finanças de Ontário, tornando-se o primeiro luso-canadiano a assumir uma das mais importantes pastas governativas da província. Durante esse período apresentou seis orçamentos provinciais, liderou reformas estruturais nos sistemas financeiro e de pensões, promoveu investimentos em infraestruturas e transportes e desempenhou igualmente funções como Ministro responsável pelos Jogos Pan-Americanos e Parapan-Americanos de 2015. Paralelamente ao percurso profissional e político, Charles Sousa manteve sempre uma estreita ligação à comunidade portuguesa. Presidiu, entre 1998 e 2006, à Federation of Portuguese-Canadian Business & Professionals, é Presidente Honorário da Luso Canadian Charitable Society e integra a direção da Magellan Community Charities, organização responsável pela criação, em Toronto, do primeiro lar de cuidados continuados destinado à comunidade de expressão portuguesa. Esta dedicação à comunidade e ao serviço público valeu-lhe, em 2009, a condecoração de Comendador da Ordem do Mérito da República Portuguesa, distinção atribuída a cidadãos que se destacam pelos relevantes serviços prestados à coletividade. Em 2017, o seu nome passou igualmente a integrar o Portuguese Canadian Walk of Fame, que distingue anualmente portugueses e lusodescendentes cujo percurso constitui motivo de orgulho para a comunidade e para o Canadá. Profundamente ligado às suas raízes, Charles Sousa continua a visitar regularmente a Nazaré, onde mantém fortes laços familiares e afetivos. Casado com Zenny Sousa e pai de três filhos, representa uma geração de luso-canadianos que conseguiu conciliar a afirmação plena na sociedade canadiana com a preservação da identidade portuguesa. Desde 2022 é deputado federal pelo círculo eleitoral de Mississauga—Lakeshore e preside atualmente à Comissão Permanente de Defesa Nacional da Câmara dos Comuns do Canadá. O percurso de Charles Sousa demonstra que a diáspora portuguesa é muito mais do que uma comunidade emigrante: é uma rede global de talento, competência e liderança. A sua carreira constitui um exemplo de como a dedicação ao serviço público, aliada ao orgulho nas origens, pode contribuir simultaneamente para o fortalecimento da sociedade de acolhimento e para a valorização do nome de Portugal no mundo.

sábado, 20 de junho de 2026

Livro Portugal: da Ditadura à Democracia apresentado na Fundação Mário Soares e Maria Barroso

Na passada quinta-feira, 18 de junho, foi apresentado ao final da tarde, em Lisboa, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia. A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos nomes mais relevantes do fotojornalismo português, que acompanhou momentos decisivos da história contemporânea nacional durante o processo de transição e consolidação do regime democrático, foi apresentada na Fundação Mário Soares e Maria Barroso. A sessão de apresentação, integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Mário Soares e Maria Barroso, contou com uma expressiva participação de público, reunindo representantes da sociedade civil, associações, órgãos de comunicação social e diversos agentes da vida cívica, cultural e política, entre os quais o Secretário-Geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, e a Presidente do Conselho de Administração da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Isabel Soares. A sessão esteve a cargo de João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura, que assina o prefácio do livro e caracterizou o livro-álbum como “um contributo importante para a nossa memória coletiva. Para aqueles que viveram os tempos aqui retratados, representa um reencontro com momentos marcantes da nossa história. Para os que não os viveram, oferece uma oportunidade rara de os conhecer, ver e compreender, através do olhar atento e sensível de quem soube e teve a oportunidade de estar presente”.
Mesa da sessão de lançamento do livro Portugal: da Ditadura à Democracia, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso (da esq. para a dir.): o antigo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura, João Soares; o historiador da diáspora Daniel Bastos; o Diretor Executivo da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Filipe Guimarães da Silva; o fotojornalista Marques Valentim; e o tradutor Paulo Teixeira. Nesta nova obra, uma edição bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira, o historiador da diáspora Daniel Bastos dá a conhecer o singular espólio fotográfico de Marques Valentim. Entre mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, registos menos divulgados e imagens inéditas, o fotógrafo captou, com notável sensibilidade, acontecimentos e protagonistas marcantes da sociedade portuguesa no último quartel do século XX. A partir das memórias visuais do antigo fotojornalista, que registou o conflito colonial em Moçambique e integrou, ao longo de mais de três décadas, redações de jornais de referência em Portugal, são retratadas as vivências da guerra, bem como um universo humano intenso e diversificado, composto por populações locais, olhares expressivos e paisagens luminosas da então província ultramarina. O livro aborda igualmente a chegada e o difícil processo de integração dos chamados “retornados”, na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974. Os principais acontecimentos revolucionários são amplamente documentados pela lente de Marques Valentim, desde a tentativa de golpe de Estado de 11 de março de 1975, passando pelo conturbado “Verão Quente”, até ao 25 de Novembro, um dos momentos mais marcantes e debatidos da Revolução portuguesa. O olhar atento de Marques Valentim não se limita, contudo, aos grandes acontecimentos políticos. Ao captar as expectativas, tensões e transformações de uma sociedade em rápida mudança, o fotojornalista revela também a dimensão humana da transição democrática. Tornam-se visíveis não apenas os rostos de figuras incontornáveis da democracia portuguesa e do processo de adesão europeia, mas também os quotidianos de trabalhadores, famílias e comunidades do Portugal profundo nas décadas de 1970 e 1980, assim como as vivências de emigrantes que, em fuga à pobreza e à guerra colonial, partiram em busca de melhores condições de vida. Antes da apresentação da obra, realizada com o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, teve lugar a inauguração de uma exposição fotográfica de Marques Valentim, inspirada na vida e nos legados do casal símbolo da luta pela liberdade e pela democracia em Portugal. O livro será apresentado à diáspora portuguesa no dia 27 de junho, na Peach Gallery, em Toronto, no âmbito do Mês do Património Português. A sessão, conduzida pelo empresário e filantropo Manuel DaCosta, reconhece o papel da comunidade luso-canadiana na preservação da identidade e dos valores da liberdade. As receitas da venda do livro reverterão a favor da Magellan Community Foundation, que está a desenvolver em Toronto o primeiro lar de cuidados continuados para idosos de expressão portuguesa.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sílvia Renda e a afirmação da diáspora portuguesa na Austrália

A comunidade portuguesa na Austrália, cujas origens remontam sobretudo à segunda metade do século XX, com a chegada de sucessivas vagas migratórias provenientes maioritariamente da Madeira, destaca-se hoje pelo elevado grau de integração alcançado no continente-ilha da Oceânia, amplamente reconhecido como uma das sociedades mais multiculturais do mundo. Entre os primeiros núcleos de fixação, assumiu particular relevância a cidade portuária de Fremantle, na Austrália Ocidental, porta de entrada de muitos emigrantes que procuravam novas oportunidades de vida num país então marcado por um vigoroso crescimento económico. Embora os dados oficiais apontem para uma comunidade de cerca de 55 mil portugueses e luso-descendentes, a sua influência ultrapassa largamente os números da estatística. Distribuída por cidades como Perth, Melbourne e Sydney, a diáspora luso-australiana mantém uma rede ativa de associações, clubes e instituições culturais que asseguram a transmissão da língua, das tradições e da herança cultural às novas gerações.
Sílvia Renda -©Ethnic Communities Council of Victoria Neste esforço de valorização da herança cultural portuguesa e de afirmação do contributo da diáspora para a sociedade australiana, tem-se destacado o percurso de Sílvia Renda, uma das mais influentes personalidades luso-australianas da atualidade e a primeira portuguesa a integrar o Conselho das Comunidades Étnicas do Estado de Vitória. Natural de Delães, no concelho de Vila Nova de Famalicão, Sílvia Renda emigrou para a Austrália no início da década de 1990, ainda adolescente. Desde então, construiu um percurso profissional e cívico de assinalável mérito, marcado por uma profunda ligação à comunidade portuguesa e pela defesa dos valores do multiculturalismo. Licenciada em Estudos Jurídicos e detentora de um mestrado em Gestão de Conflitos, é mediadora certificada e exerce atualmente funções de Assessora Principal e responsável pelas Relações Governamentais na Australian Financial Complaints Authority (AFCA). Com mais de duas décadas de experiência nas áreas da resolução de conflitos financeiros, estratégia institucional e políticas públicas, desempenha um papel relevante na articulação entre aquela entidade e o Governo Federal australiano. Paralelamente à sua atividade profissional, tem desenvolvido uma intervenção cívica de grande alcance. Em 2018 foi nomeada Comissária Multicultural do Estado de Vitória, assumindo a representação da Comissão Multicultural junto das autoridades governamentais e das diversas comunidades étnicas. Nesse mesmo ano esteve na génese da Associação das Mulheres Portuguesas na Austrália, organização que preside e que se tem afirmado como uma importante plataforma de apoio, capacitação e promoção da liderança feminina entre mulheres lusófonas. A sua dedicação à comunidade luso-australiana encontrou igualmente expressão no Conselho das Comunidades Portuguesas. Entre 2015 e 2023 liderou o Conselho Regional para a Austrália e Nova Zelândia, contribuindo para a representação dos emigrantes portugueses e para o reforço do diálogo entre as comunidades da Oceânia e o Estado português. Em 2025 foi ainda nomeada Conselheira de Portugal no Mundo pelo Conselho da Diáspora Portuguesa, passando a integrar uma rede de personalidades de referência empenhadas no fortalecimento das ligações entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo. O reconhecimento do seu percurso conheceu um novo marco quando se tornou a primeira portuguesa eleita para o Conselho das Comunidades Étnicas do Estado de Vitória, principal órgão de ligação entre o governo estadual e as diversas comunidades multiculturais e multirreligiosas. Na qualidade de Presidente do Conselho de Administração para o biénio 2025-2027, tem contribuído para a promoção de políticas de inclusão, coesão social e participação cívica. O seu trabalho foi igualmente distinguido com a atribuição do Prémio de Excelência Multicultural de Vitória. Recentemente, Sílvia Renda foi agraciada com a Medalha da Ordem da Austrália (OAM), uma das mais prestigiadas distinções civis do país, atribuída por ocasião das celebrações oficiais do aniversário do rei Carlos III. Esta distinção representa o reconhecimento de décadas de serviço público, liderança comunitária e promoção dos valores da diversidade cultural. Mais do que uma homenagem individual, esta distinção constitui também um reconhecimento simbólico do contributo da comunidade portuguesa para a sociedade australiana. Ao longo de várias gerações, os portugueses souberam afirmar-se como uma comunidade trabalhadora, empreendedora e plenamente integrada, preservando simultaneamente os seus laços culturais e identitários. Como sublinhou a embaixadora de Portugal em Camberra, Carla Saragoça, Sílvia Renda representa «um exemplo notável de liderança, serviço à comunidade, generosidade e profundo orgulho nas suas raízes portuguesas». O seu percurso demonstra de forma exemplar como a diáspora portuguesa continua a projetar o nome de Portugal além-fronteiras, através do mérito, da participação cívica e da excelência profissional. Num mundo cada vez mais interligado, onde as comunidades emigrantes desempenham um papel crescente na aproximação entre povos e culturas, o exemplo de Sílvia Renda evidencia a importância estratégica da diáspora portuguesa. O seu percurso mostra como é possível honrar as origens, contribuir para o desenvolvimento do país de acolhimento e, simultaneamente, fortalecer os laços que unem Portugal às suas comunidades espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

domingo, 7 de junho de 2026

Alexandre Aires da Silva: um português na liderança mundial da ciência das pescas

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas construíram percursos de sucesso, criando empresas sólidas e assumindo posições de relevo nos planos cultural, social, económico, político e científico. Num tempo em que o mundo assenta, cada vez mais, numa sociedade do conhecimento, em que a inovação tecnológica e a produção científica constituem motores fundamentais de desenvolvimento, a diáspora científica portuguesa afirma-se como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal e para a consolidação de uma ciência sem fronteiras. É neste contexto que se destaca o percurso do investigador português Alexandre Aires da Silva, Coordenador da Investigação Científica da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC) e membro do Comité Consultivo Científico da International Seafood Sustainability Foundation (ISSF).
Alexandre Aires da Silva © Inter-American Tropical Tuna Commission (IATTC) Nascido em 1971, em Lourenço Marques — atual Maputo —, na então província ultramarina portuguesa de Moçambique, Alexandre Aires da Silva licenciou-se, em 1996, em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Iniciou posteriormente a sua carreira profissional como técnico superior de investigação no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, instituição que tem desempenhado um papel relevante no desenvolvimento das ciências do mar em Portugal. Em 2000, iniciou o doutoramento como bolseiro do Programa Fulbright e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), na prestigiada School of Aquatic and Fishery Sciences da University of Washington, em Seattle, nos Estados Unidos da América. Viria a concluir o doutoramento, em 2008, distinguido com o Faculty Merit Award, na sequência de investigação avançada em métodos quantitativos aplicados à avaliação de recursos pesqueiros. Na sua tese de doutoramento, aprofundou o trabalho anteriormente desenvolvido nos Açores, centrando-se na dinâmica populacional da tintureira em todo o Atlântico Norte. O seu currículo académico e a elevada qualidade da sua atividade científica contribuíram decisivamente para que integrasse, em 2007, a equipa da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC), sediada em La Jolla, na área metropolitana de San Diego, no estado norte-americano da Califórnia, no então designado Programa Atum-Peixes-de-Bico. Entre as suas principais responsabilidades encontrava-se a avaliação da unidade populacional de atum-patudo no Oceano Pacífico Oriental. Importa recordar que San Diego, segunda maior cidade da Califórnia, chegou a ser conhecida, em meados do século XX, como a “capital mundial do atum”. A esse protagonismo esteve profundamente ligada a histórica comunidade luso-americana da região, composta sobretudo por emigrantes oriundos dos Açores e da Madeira, que desempenharam um papel determinante no desenvolvimento da indústria conserveira e da pesca do atum. Desde 2017, Alexandre Aires da Silva exerce funções de Coordenador da Investigação Científica da IATTC, organização regional responsável pela conservação e gestão sustentável do atum e de outras espécies marinhas no Oceano Pacífico Oriental, numa vasta área marítima que se estende do Alasca ao Chile. Paralelamente, integra o Comité Consultivo Científico da Fundação Internacional para a Sustentabilidade dos Produtos do Mar, entidade internacional de referência na promoção da sustentabilidade das pescas do atum e na conservação dos ecossistemas marinhos. O papel da União Europeia enquanto membro da IATTC, bem como a sua condição de anfitriã, contribuíram decisivamente para que a 104.ª Reunião Anual da Comissão Interamericana do Atum Tropical se realize este ano em Lisboa, entre 31 de agosto e 4 de setembro. O encontro internacional reunirá delegações governamentais, cientistas e representantes das principais partes interessadas das Américas, da Europa e da Ásia, para debater a gestão sustentável da pesca do atum no Oceano Pacífico Oriental. Será um momento particularmente relevante, em que ciência, política e cooperação internacional convergirão em Lisboa. No âmbito da reunião anual da IATTC, prevê-se igualmente, em articulação com o Museu de Marinha, uma homenagem aos pescadores portugueses que marcaram a história da frota do atum em San Diego. Uma iniciativa que contará com o contributo decisivo de Alexandre Aires da Silva, mas também com o empenho do Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, Idalmiro da Rosa, destacado promotor da portugalidade, e de Kenny Alameda, empresário luso-descendente de reconhecido sucesso na Califórnia. O percurso de Alexandre Aires da Silva constitui, assim, um exemplo maior da capacidade de afirmação internacional da diáspora científica portuguesa, demonstrando como o talento, o conhecimento e a ligação às raízes nacionais continuam a projetar Portugal nos mais elevados patamares da ciência global contemporânea.