Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 19 de abril de 2026

Monumentos ao Emigrante – Memória da Emigração Portuguesa nos Estados Unidos

Espalhados por todo o território nacional, do Minho às ilhas atlânticas, os monumentos dedicados aos emigrantes constituem marcas físicas de um dos fenómenos mais estruturantes da história contemporânea de Portugal: a emigração. Ao longo de décadas, milhões de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida, deixando para trás famílias, terras e afetos. Esta realidade encontrou expressão simbólica em monumentos que hoje funcionam como marcos de identidade, memória e reconhecimento coletivo. O livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa apresenta um levantamento destas estruturas, assumindo-se como uma homenagem à diáspora. Mais do que um inventário, oferece uma leitura interpretativa da linguagem simbólica que traduz a experiência migratória nas suas múltiplas dimensões. Entre os elementos mais recorrentes destacam-se a mala de cartão, símbolo maior da emigração do século XX; a esfera armilar e o globo terrestre, evocando a dimensão global da diáspora; e as figuras humanas, frequentemente em contexto familiar, sugerindo separação e esperança. As inscrições — com palavras como “saudade” ou “partida” — reforçam essa dimensão emocional, transformando muitos destes monumentos em autênticos espaços de memória. Entre os vários destinos da diáspora portuguesa, os Estados Unidos assumem um lugar de destaque, com particular incidência no arquipélago dos Açores, onde a intensidade dos fluxos migratórios para a América do Norte deixou marcas profundas na memória coletiva. Embora também presente noutras regiões, é sobretudo no contexto açoriano que essa ligação se manifesta de forma mais expressiva. No plano simbólico, os Estados Unidos surgem associados à mobilidade social e ascensão económica, sendo evocados através de elementos como rotas migratórias ou referências a cidades como New Bedford, Fall River, Newark ou San José, que remetem para o imaginário do “sonho americano”. Num primeiro ciclo migratório (finais do século XVIII a primeiras décadas do século XX), a presença portuguesa nos Estados Unidos desenvolveu-se sobretudo a partir dos Açores, ligada à baleação e, posteriormente, à agricultura e indústria, originando comunidades duradouras em estados como Massachusetts, Rhode Island e Califórnia. É neste contexto que se insere João Inácio de Sousa. Natural de Santo Amaro (São Jorge), ativo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, construiu fortuna em Bakersfield, Califórnia, destacando-se como empresário e filantropo. O monumento que perpetua a sua memória ilustra esta primeira vaga, marcada pela ascensão social e pelo retorno simbólico às origens. Num segundo ciclo (décadas de 1950 a 1970), a emigração intensificou-se devido à pobreza, à falta de oportunidades e à Guerra Colonial. A erupção dos Capelinhos, em 1957, desencadeou uma vaga significativa de emigração açoriana para os EUA. Este período encontra expressão nos monumentos através da “mala de cartão”, símbolo de rutura e recomeço. Num terceiro ciclo, já tardio (finais do século XX e início do século XXI), verifica-se um abrandamento — e em muitos casos declínio — da emigração para os Estados Unidos, em resultado de políticas migratórias mais restritivas e da reorientação dos fluxos para a Europa após 1986. Em paralelo, as comunidades luso-americanas entram numa fase de consolidação e mobilidade social. É neste enquadramento que ganham visibilidade figuras da diáspora, cuja memória é perpetuada em monumentos de natureza biográfica, como a estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e o busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia. Os seus percursos, no setor agrícola e no tecido empresarial e associativo, refletem uma fase mais madura da emigração, marcada pelo sucesso económico e pela ação filantrópica.
Estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia - © Livro “Monumentos ao Emigrante”. Estes monumentos introduzem uma dimensão individualizada na memória da emigração, valorizando trajetórias concretas e o contributo dos emigrantes para as sociedades de acolhimento e de origem. A Califórnia assume, neste contexto, um papel central, sendo um dos principais polos de fixação de lusodescendentes. Regiões como o Vale de São Joaquim ou cidades como San José tornaram-se referências dessa presença. As comunidades portuguesas nos Estados Unidos consolidaram-se ao longo do tempo, desenvolvendo uma vasta rede associativa e cultural. Este património imaterial encontra-se simbolicamente refletido nos monumentos, através de elementos que evocam continuidade e pertença. Hoje, a comunidade luso-americana constitui uma das mais antigas e influentes da diáspora portuguesa, contribuindo para o reforço das relações entre Portugal e os Estados Unidos. Os monumentos ao emigrante traduzem, assim, uma ideia essencial: Portugal prolonga-se na diáspora. O livro Monumentos ao Emigrante constitui, ele próprio, um instrumento fundamental dessa memória, ao preservar histórias individuais e coletivas. Em síntese, estes monumentos são testemunhos duradouros de uma história feita de partidas, sacrifícios e conquistas. No caso dos Estados Unidos, essa ligação assume especial relevância, refletindo uma das mais antigas e dinâmicas comunidades da diáspora portuguesa — uma memória viva, inscrita na pedra e na identidade coletiva de um povo que sempre soube partir sem deixar de pertencer.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Louis Pinto: um marco histórico da diáspora portuguesa no Luxemburgo

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico e político. Entre os muitos exemplos de portugueses e lusodescendentes da diáspora, hoje amplamente reconhecidos como um ativo estratégico na projeção internacional de Portugal, destaca-se o percurso inspirador de Louis Pinto, o primeiro burgomestre (presidente da câmara municipal) de origem portuguesa no Luxemburgo, uma nação europeia onde os portugueses representam cerca de 15% da população total, constituindo, desde os anos 80, o mais importante grupo estrangeiro no país. Tradicionalmente ligados às atividades da construção civil, comércio, hotelaria, restauração e serviços, os cerca de 100 mil portugueses residentes no Grão-Ducado assumem uma relevância ímpar. Essa importância foi, aliás, sublinhada em 2023 pelo então primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, no Parlamento Europeu: “A comunidade portuguesa ajudou a construir o meu país. O Luxemburgo não seria o que é hoje sem a comunidade portuguesa.” A trajetória de vida de Louis Pinto corrobora, de forma exemplar, esse papel determinante dos portugueses no desenvolvimento de um dos países mais prósperos do mundo. Natural do concelho de Santo Tirso, distrito do Porto, onde nasceu em 1960, no seio de uma família numerosa, humilde e marcada por dificuldades económicas, César Luís da Costa Oliveira Pinto seguiu, ainda jovem, o caminho da emigração. Na esteira dos pais e dos seus nove irmãos, partiu no final da década de 1960 para o Luxemburgo, em busca de melhores condições de vida. Após uma primeira estadia num albergue, Louis Pinto, nome que adotou nos anos 80 aquando da aquisição da nacionalidade luxemburguesa, numa época em que não era possível a dupla nacionalidade, fixou-se com a família em Heisdorf, na comuna de Steinsel. Em 1984, após o casamento com Annette Wiltgen, natural de Lintgen, passou a residir nessa localidade situada no cantão de Mersch, nas margens do rio Alzette. No Grão-Ducado, encetou formação profissional, especializando-se na área da encadernação mecânica e de luxo. Paralelamente, integrou a equipa de futebol do clube de Steinsel e destacou-se como sindicalista, assumindo funções de secretário na Federação dos Trabalhadores da Indústria Gráfica, uma das mais antigas do país. Mais tarde, ingressou na OGBL, o maior sindicato independente do Luxemburgo, onde integrou o comité, mantendo-se ainda hoje como membro, já na condição de pensionista. Foi precisamente essa intensa atividade sindical que abriu caminho à sua participação política. Em 2005, integrou pela primeira vez listas para as eleições comunais em Lintgen. Não tendo sido eleito nessa ocasião, voltou a candidatar-se em 2011, numa fase de crescente envolvimento na vida associativa, desportiva e cultural local, vindo então a ser eleito conselheiro comunal. Posteriormente, exerceu funções como vereador e, em 2023, alcançou um feito histórico ao ser eleito burgomestre de Lintgen, com 1.167 votos. O seu grupo político, Engagéiert Bierger Lëntgen, “Cidadãos Envolvidos”, venceu com 43% dos votos, formando maioria em coligação com o DP. Desde então, assume a liderança da comuna, sendo responsável pela administração local e pela representação institucional do município.
Louis Pinto, burgomestre de Lintgen – © Commune de Lintgen A eleição de Louis Pinto como burgomestre de Lintgen, uma comuna com mais de dois mil habitantes, constitui um marco histórico de elevado significado político e simbólico. Ao tornar-se o primeiro burgomestre de origem portuguesa no Luxemburgo, o autarca, que nunca esconde o orgulho nas suas raízes, corporiza uma conquista coletiva da comunidade portuguesa. Mais do que um sucesso individual, a sua eleição traduz o reconhecimento público de décadas de trabalho, resiliência e integração exemplar de milhares de portugueses que ajudaram a edificar o Luxemburgo contemporâneo. Este feito representa uma mais-valia inequívoca para a comunidade portuguesa no Luxemburgo, reforçando o seu prestígio, visibilidade e capacidade de influência nas esferas de decisão. Simultaneamente, constitui um motivo de orgulho para Portugal, ao evidenciar a qualidade dos seus cidadãos além-fronteiras e o papel estruturante da diáspora na afirmação global do país. Num tempo em que a mobilidade internacional é uma constante, casos como o de Louis Pinto demonstram que a diáspora portuguesa não é apenas memória de partida, mas sobretudo uma força viva de construção, participação cívica e liderança, contribuindo ativamente para sociedades mais inclusivas, dinâmicas e plurais.

domingo, 12 de abril de 2026

Daniel Bastos leva a Andorra a memória da ditadura e da emigração portuguesa nas comemorações do 25 de Abril

No próximo dia 25 de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos profere, em Andorra, país situado nos Pirenéus, entre Espanha e França, onde os portugueses constituem a segunda maior comunidade estrangeira residente, uma conferência subordinada ao tema “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”.
Promovida pelo Consulado-Geral de Portugal em Andorra e pelo Grupo Casa de Portugal, uma das mais dinâmicas e ativas associações do Principado, e contando com o apoio do Instituto Camões e da Comú d’Andorra la Vella, a iniciativa integra o ciclo de comemorações do 25 de Abril. A conferência tem como pano de fundo as memórias ilustradas do antigo oposicionista, militar, emigrante e exilado político Fernando Mariano Cardeira, a partir das quais Daniel Bastos concebeu uma obra historiográfica, com o apoio institucional da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril. A obra aborda o quotidiano marcado pela pobreza e pela miséria, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar e os percursos da emigração “a salto”, estratégia seguida por milhares de portugueses na procura de melhores condições de vida e como forma de escapar à Guerra Colonial, nas décadas de 1960 e 1970. No decurso da iniciativa, que terá lugar às 17h00, na sala de atos do Centro Cultural La Llacuna, o historiador da diáspora apresentará à comunidade andorrana, onde residem cerca de 10 mil portugueses, a sua mais recente obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa. O livro, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, resulta de um levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, constituindo um verdadeiro itinerário pela memória da emigração portuguesa. Assim como as obras Dias de Liberdade em Portugal e Terras de Monte Longo, também desenvolvidas nos últimos anos no âmbito da história contemporânea de Portugal, e que o autor concebeu em colaboração com consagrados fotógrafos. Respetivamente, Gérald Bloncourt, observador privilegiado da explosão de liberdade que marcou o país após a Revolução dos Cravos, e José de Andrade, que registou, em meios rurais entre o Minho e Trás-os-Montes, as vivências do interior profundo na transição da ditadura para a democracia. Autor de várias obras dedicadas às memórias da ditadura, à construção da democracia e à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.

Daniel Bastos mobiliza comunidade portuguesa na Califórnia em torno da obra Monumentos ao Emigrante

No início de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realizou um ciclo de apresentações na Califórnia, estado que acolhe a maior comunidade de origem portuguesa nos Estados Unidos, com o objetivo de dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa. Em português e inglês, com tradução de Paulo Teixeira, o livro resulta de uma colaboração com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseia-se num levantamento dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental, bem como nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. A obra afirma-se como um percurso pela memória da emigração portuguesa, valorizando o património material e simbólico que testemunha a experiência migratória. O ciclo decorreu em alguns dos mais relevantes polos da presença portuguesa na Califórnia, refletindo a vitalidade e o enraizamento desta comunidade. A sessão inaugural teve lugar na Casa dos Açores de Hilmar, no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como um dos principais centros da açorianidade no estado. Seguiram-se apresentações no Consulado-Geral de Portugal em São Francisco e no Portuguese Historical Museum, em San José instituições com papel determinante na preservação e promoção da herança cultural luso-americana.
No dia 6 de abril, a obra foi apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço de referência para a memória histórica da comunidade local. O ciclo encerrou a 8 de abril, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), em San José, instituição que celebra este ano o seu 50.º aniversário e que desempenha um papel central no apoio social à comunidade luso-americana. As diferentes sessões ficaram marcadas por uma expressiva adesão e mobilização das forças vivas da comunidade luso-californiana, incluindo emigrantes, empresários, dirigentes associativos e órgãos de comunicação social da diáspora. A forte participação conferiu particular relevância a esta iniciativa, que se afirmou não apenas como um momento de apresentação da obra, mas também como uma celebração da identidade e da memória coletiva. Com uma comunidade estimada em mais de 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, a presença portuguesa na Califórnia assume um papel de destaque no contexto da diáspora, tanto pelo contributo para o desenvolvimento das regiões de acolhimento como pela ligação contínua às terras de origem. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra foi apresentada na sequência de convites dirigidos ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos de mérito se encontram assinalados, respetivamente, nas ilhas do Pico e de São Jorge. Associaram-se igualmente à iniciativa o Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco, Filipe Ramalheira, o conselheiro das comunidades portuguesas, comendador Manuel Bettencourt, o cônsul honorário de Portugal em San Diego, Idalmiro da Rosa, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro tem vindo a ser apresentado, desde o seu lançamento no ano transato, em várias geografias da diáspora e do território nacional. Ao reunir mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo e os processos de construção da memória coletiva. Este ciclo de apresentações reforça a importância da valorização da história da emigração portuguesa e sublinha o papel determinante das comunidades no estrangeiro na preservação e projeção da identidade nacional.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Artur Brás: um empreendedor que prova a força da diáspora portuguesa

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua vocação empreendedora. Esta realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que criaram empresas de sucesso e assumem funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Entre os múltiplos exemplos de empresários lusos da diáspora — hoje cada vez mais reconhecidos como um ativo estratégico na projeção internacional de Portugal — destaca-se o percurso inspirador de Artur Brás. Natural da freguesia de Rossas, no concelho minhoto de Vieira do Minho, onde nasceu em 1948, no seio de uma família de lavradores, Artur Brás teve oportunidade de estudar em Braga até à adolescência, concluindo o 5.º ano na Escola Industrial Carlos Amarante. Em 1965, partiu para França, seguindo o caminho de milhares de jovens portugueses que, no contexto da ditadura salazarista, procuravam escapar ao serviço militar obrigatório na Guerra Colonial. Munido de um passaporte de estudante e com alguns conhecimentos de francês, não percorreu — ao contrário de muitos compatriotas — os trilhos da emigração clandestina. Ainda assim, a chegada a França ficou marcada por dificuldades iniciais, tendo sido acolhido durante três dias no “bidonville” de Saint-Denis, um vasto bairro de lata que, na década de 1960, acolheu milhares de portugueses em condições extremamente precárias. Dotado de uma personalidade resiliente e de uma ética de trabalho profundamente enraizada nos valores familiares, iniciou o seu percurso profissional como ajudante na construção civil. A sua determinação permitiu-lhe ascender rapidamente, tornando-se diretor de uma empresa francesa aos 26 anos, na região de Seine-et-Marne. Um ano depois, regressou a Vieira do Minho, movido pela saudade da terra natal, onde realizou alguns investimentos e deu início à sua atividade empresarial na construção civil. Contudo, um acidente de trabalho levou-o a regressar a França. Foi aí que, em 1977, fundou uma empresa especializada na construção de vivendas de luxo e conheceu, em Paris, Maximina da Silva, também natural de Vieira do Minho, que viria a tornar-se sua companheira de vida e um pilar fundamental no seu percurso. A empresa “Arthur Brás Construções” afirmou-se, na região de Chantilly, a norte de Paris, como uma referência de qualidade, rigor e credibilidade. Paralelamente, expandiu a sua atividade para o setor da promoção imobiliária, consolidando o “Grupo Arthur Brás”, hoje composto por mais de uma dezena de empresas ligadas à construção, património e investimento imobiliário.
O reconhecimento do seu percurso empreendedor materializou-se, em 2018, com a inauguração, no dia do seu 70.º aniversário, do Hyatt Regency Chantilly, um hotel de quatro estrelas que simboliza o culminar de décadas de trabalho, visão estratégica e capacidade de execução. Apesar do sucesso alcançado em França, Artur Brás nunca quebrou a ligação a Portugal. Discreto, fiel aos valores da família e da amizade, mantém uma relação próxima com o país de origem, sendo hoje um exemplo paradigmático do potencial estratégico da diáspora portuguesa. Num momento em que Portugal enfrenta um dos maiores desafios da sua contemporaneidade — a crise habitacional —, o empresário luso-francês tem vindo a afirmar-se como um agente ativo na resposta a este problema. Em Braga, desenvolve projetos junto à Universidade do Minho e ao Hospital de Braga, com forte procura por parte de docentes e profissionais de saúde. Para além deste investimento num dos concelhos mais dinâmicos do país, onde o crescimento demográfico tem sido particularmente expressivo na última década, Artur Brás impulsionou também a construção de cerca de meia centena de apartamentos em Amares. Simultaneamente, encontra-se a estudar novos projetos em Vieira do Minho, terra que, em 2021, o homenageou no âmbito do 507.º aniversário da sua elevação a concelho. Ao expandir a sua atividade em território nacional, o empresário não só reforça o crescimento do “Grupo Arthur Brás”, como contribui diretamente para o desenvolvimento económico regional, criando emprego, dinamizando o setor da construção e ajudando a fixar população. Mais do que um caso de sucesso individual, o percurso de Artur Brás — marcado também por diversas iniciativas de apoio à comunidade luso-francesa, designadamente na área do futebol e em ações de solidariedade em prol de crianças carenciadas — evidencia, de forma inequívoca, o papel estruturante da diáspora portuguesa no desenvolvimento do país. As comunidades portuguesas no estrangeiro não são apenas depositárias de memória e identidade: afirmam-se, cada vez mais, como agentes económicos e sociais de relevo, capazes de gerar investimento, promover a transferência de conhecimento e construir pontes duradouras entre Portugal e o mundo. Num tempo em que se impõe repensar estratégias de crescimento e coesão territorial, a valorização deste capital humano e empresarial da diáspora revela-se não apenas desejável, mas indispensável. O exemplo de Artur Brás demonstra que o empreendedorismo emigrante não é apenas uma história de superação individual — é, sobretudo, uma alavanca concreta para o futuro coletivo de Portugal.

domingo, 22 de março de 2026

Fundação Nova Era Jean Pina transforma sonhos em realidade para seniores portugueses em Paris

Ao longo das últimas décadas, a diáspora portuguesa tem afirmado, de forma consistente, um notável espírito de solidariedade — um dos mais elevados valores que enobrecem a condição humana e conferem sentido à vida em comunidade. Este desígnio manifesta-se tanto no apoio aos compatriotas radicados no estrangeiro como na permanente ligação solidária a Portugal, numa demonstração inequívoca de coesão e responsabilidade coletiva. Entre os múltiplos exemplos que ilustram esta vocação solidária, destaca-se, de forma particularmente expressiva, a ação desenvolvida pela Fundação Nova Era Jean Pina. Constituída em 2019 pelo empresário português João Pina, radicado na região de Paris, esta instituição tem vindo a afirmar-se como um dos mais relevantes agentes de intervenção social no seio da comunidade luso-francesa — a mais numerosa comunidade portuguesa na Europa. Natural de Trinta, no concelho da Guarda, João Pina emigrou para França na década de 1980, então com apenas 19 anos, acompanhando o fluxo de milhares de portugueses que procuravam melhores condições de vida na pátria gaulesa. Apesar das dificuldades iniciais inerentes ao processo migratório, construiu um percurso empresarial sólido e bem-sucedido na área da construção civil. Hoje, enquanto administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, lidera um conjunto diversificado de empresas com atividade nos setores da construção, limpeza e reciclagem de resíduos. Todavia, o seu percurso não se esgota no sucesso empresarial. Reconhecido em França como Jean Pina, tem desenvolvido, de forma contínua e empenhada, uma intervenção solidária de grande alcance, colocando os recursos e a capacidade organizativa ao serviço dos mais vulneráveis. É precisamente nesta dimensão que se destaca o papel estruturante da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão assenta no lema “Solidariedade em Movimento”. Sob a liderança direta do seu presidente, a instituição tem promovido uma relevante cooperação entre França e Portugal, através da conceção, financiamento integral e concretização de projetos dirigidos a públicos particularmente fragilizados, como idosos, crianças institucionalizadas e pessoas em situação de desemprego. Neste enquadramento, assume especial relevo o projeto “Sonhos sem Idade”, lançado no ano passado pela Fundação. Trata-se de uma iniciativa pioneira, de elevado alcance humano e simbólico, que visa concretizar o sonho de cidadãos seniores portugueses, com baixos rendimentos e beneficiários de apoio social, de viajarem de avião pela primeira vez e visitarem Paris — uma das cidades mais emblemáticas do mundo. Em 2026, a Fundação deu continuidade a este projeto através da sua segunda edição, integralmente suportada do ponto de vista financeiro pela própria instituição, reafirmando o seu compromisso inequívoco com a solidariedade ativa. Entre os dias 19 e 22 de março, quatro seniores beneficiários de apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe deslocaram-se à capital francesa, numa experiência transformadora e profundamente marcante. Esta instituição, de reconhecida relevância na sub-região do Douro, distrito de Viseu, tem desempenhado, desde a segunda metade do século XX, um papel essencial nas áreas da saúde e do apoio social, num território particularmente afetado pelo envelhecimento demográfico. Acompanhados pelo provedor Romeu Santos, pela diretora técnica Andreia Fonseca e pela enfermeira Maria Rodrigues, os participantes tiveram oportunidade de visitar alguns dos mais icónicos locais de Paris, como a Torre Eiffel, a Basílica do Sacré-Cœur, o bairro de Montmartre e o Palácio de Versalhes, culminando com um cruzeiro no rio Sena. Ao longo desta jornada, estiveram permanentemente acompanhados pelo presidente da Fundação e pela vice-presidente, Marie Morgado, num gesto que evidencia proximidade, compromisso e uma liderança ativa e humanizada.
A iniciativa contou ainda com a participação de diversos membros da comunidade luso-francesa, destacando-se o envolvimento de voluntários da associação Soleils de Paris, presidida pela lusodescendente Eleonor Patrício, que tem desenvolvido um meritório trabalho junto de populações vulneráveis na capital francesa. Este encontro intergeracional constituiu um momento de elevado valor simbólico, evidenciando o papel fundamental dos lusodescendentes na preservação e transmissão de valores culturais, onde os mais idosos assumem um papel insubstituível. A experiência vivida por estes quatro seniores representa, assim, muito mais do que uma viagem: constitui a materialização de um compromisso ético e social que dignifica a diáspora portuguesa. Ao promover o envelhecimento ativo e saudável — um imperativo crescente nas sociedades contemporâneas —, a Fundação Nova Era Jean Pina afirma-se como um exemplo paradigmático da capacidade transformadora das comunidades portuguesas no mundo. Num tempo marcado por desafios sociais complexos, iniciativas desta natureza demonstram que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também ação, responsabilidade e solidariedade concreta. E, neste domínio, o trabalho desenvolvido pela Fundação Nova Era Jean Pina, sob a liderança do seu presidente, constitui um testemunho maior do que de melhor Portugal projeta além-fronteiras.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Bastos apresenta na Califórnia obra de homenagem à emigração portuguesa

No arranque de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realiza um ciclo de apresentações na Califórnia, estado norte-americano com a maior concentração de população de origem portuguesa, para dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa.
O livro, bilingue em português e inglês, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseado num levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, será apresentado em importantes centros da diáspora portuguesa na Califórnia. O ciclo de apresentações percorrerá, no arranque de abril, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como berço e coração da açorianidade na Califórnia, o Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos, e o Museu Histórico de São José, instituição dedicada à preservação e valorização da herança cultural luso-californiana. A 6 de abril, a obra será ainda apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço incontornável da memória histórica e identitária da comunidade luso-americana na segunda maior cidade do estado da Califórnia. O ciclo de apresentações culmina a 8 de abril, às 19h00, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José, que assinala este ano o seu 50.º aniversário. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra é apresentada na sequência de um convite endereçado ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana da Califórnia, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos empreendedores e beneméritos se encontram reconhecidos, respetivamente, com uma estátua e um busto nas ilhas açorianas do Pico e de São Jorge. Associam-se igualmente à iniciativa o comendador Manuel Bettencourt, conselheiro das comunidades portuguesas, Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro constitui um itinerário pela memória da emigração portuguesa. Ao percorrer mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante e distribuídos por todo o território nacional, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo nas comunidades e as dinâmicas da memória coletiva. Particular destaque é conferido à emigração para os Estados Unidos da América, país onde residem atualmente mais de um milhão de luso-americanos, reconhecidos pelo seu nível de integração, espírito empreendedor e contributo económico e sociopolítico. Neste contexto, a numerosa comunidade portuguesa da Califórnia, superior a 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, assume especial relevância pelo papel que tem desempenhado no desenvolvimento tanto das terras de acolhimento como das regiões de origem. Autor de várias obras dedicadas à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e de intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.