Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
domingo, 24 de maio de 2026
John Negreiro Guedes e a benemerência ao serviço dos Bombeiros Voluntários de Vidago
Uma das marcas distintivas das comunidades portuguesas na diáspora reside no seu forte espírito empreendedor, bem patente nas trajetórias de numerosos compatriotas que alcançaram sucesso empresarial e relevância cívica além-fronteiras. Entre esses exemplos de mérito e dedicação, destaca-se o percurso inspirador de John Negreiro Guedes, empreendedor e benemérito de referência da comunidade luso-americana.
Natural da aldeia de Vilas Boas, no concelho de Chaves, João Negreiro Guedes emigrou para os Estados Unidos da América no início da década de 1960, com apenas dez anos de idade, num contexto marcado pelas dificuldades socioeconómicas que então afetavam o interior transmontano durante o Estado Novo. Já nos Estados Unidos, licenciou-se em Arquitetura no Norwalk State College, no Connecticut, vindo posteriormente a fundar, no final da década de 1970, a Primrose Companies, empresa de arquitetura e construção sediada em Bridgeport, especializada em projetos comerciais, habitacionais multifamiliares e unidades médicas no Connecticut e em Nova Iorque, e que atualmente movimenta um volume de negócios de vários milhões de dólares.
Com mais de quatro décadas de atividade profissional, o arquiteto luso-americano assinou numerosos projetos de referência, entre os quais se destacam o The Birmingham Apartments, em Shelton, o Federal Arms Apartments, em Bridgeport, o Twin Brooks Village Homes, em Trumbull, o Post Road Professional Center, em Westport, ou o Easton Community Center, em Easton.
O empreendedor e benemérito luso-americano John Negreiro Guedes (à direita), durante a cerimónia de homenagem promovida pelos Bombeiros Voluntários de Vidago, realizada no passado dia 24 de maio.
Todavia, o sucesso alcançado nos Estados Unidos nunca afastou John Negreiro Guedes das suas raízes transmontanas. Pelo contrário, tem mantido uma profunda ligação à sua terra natal, manifestada através de um consistente e notável espírito benemérito. Em Vilas Boas, aldeia à qual regressa regularmente, apoiou diversas iniciativas de caráter desportivo, cultural e recreativo, destacando-se, entre outras ações, a aquisição do terreno para o campo de futebol e a construção da sede da associação cultural local.
Este compromisso solidário estende-se igualmente a várias instituições do concelho de Chaves, assumindo particular expressão no apoio prestado à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago, que tem encontrado em John Negreiro Guedes um dos seus mais importantes benfeitores ao longo das últimas décadas.
Entre os inúmeros contributos em prol desta corporação humanitária — cuja área de intervenção abrange sete freguesias a sul do concelho de Chaves, no distrito de Vila Real — destaca-se a oferta, em 2007, de um monitor de sinais vitais. No ano seguinte, o benemérito luso-americano doou uma Ambulância de Socorro totalmente equipada, avaliada em cerca de 60 mil euros. Em 2017, concedeu um significativo donativo que permitiu equipar todo o corpo ativo com a farda n.º 2 e, já no início de 2023, possibilitou a aquisição de uma viatura de comando e de duas viaturas destinadas ao transporte de doentes não urgentes.
Mais recentemente, na última quadra natalícia, John Negreiro Guedes voltou a assumir um papel determinante ao contribuir de forma substancial para a aquisição de uma nova Ambulância de Socorro (ABSC) para os Bombeiros Voluntários de Vidago. Trata-se de um meio essencial para o reforço da capacidade operacional da corporação numa área de atuação com cerca de 100,27 km² e aproximadamente 5.300 habitantes, caracterizada por uma forte predominância florestal, mas também por uma crescente presença de estruturas comerciais e industriais, bem como por uma densa rede viária.
Em reconhecimento do valioso contributo prestado à causa dos bombeiros portugueses, a Liga dos Bombeiros Portugueses distinguiu John Negreiro Guedes com o Crachá de Ouro, uma das mais elevadas distinções honoríficas da instituição, reservada a personalidades que tenham desenvolvido ações e serviços de inequívoca relevância para a dignificação da causa bombeira. Por sua vez, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago atribuiu-lhe igualmente a Medalha de Prata da corporação e erigiu, em 2022, um busto em sua homenagem no quartel dos “Soldados da Paz”.
Ainda no passado dia 24 de maio, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago celebrou, como é tradição, o Dia do Bombeiro, numa cerimónia que reuniu bombeiros, dirigentes, autarcas, convidados e comunidade local. O programa incluiu uma sessão solene no quartel-sede da corporação, a condecoração de elementos da instituição e a bênção de novas viaturas. Durante a cerimónia, o presidente da direção da associação, Marco Terrão, destacou publicamente o contributo decisivo que, ao longo dos anos, John Negreiro Guedes tem proporcionado ao apetrechamento e reforço da capacidade operacional desta nobre corporação humanitária, distinguindo-o com a oferta de uma pintura alusiva “Ao nosso Benemérito John Negreiro Guedes”.
O percurso de John Negreiro Guedes constitui um exemplo paradigmático do papel absolutamente decisivo que a diáspora portuguesa, e em particular a comunidade luso-americana, continua a desempenhar no desenvolvimento e na valorização de Portugal, contribuindo de forma ativa para a coesão territorial, para o fortalecimento das comunidades locais e para a projeção e afirmação internacional do país.
domingo, 17 de maio de 2026
António Pargana: visão empresarial, diáspora e compromisso com Portugal
Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua notável capacidade empreendedora, como o demonstram as trajetórias de inúmeros compatriotas que fundaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político.
Entre os muitos exemplos de portugueses da diáspora que hoje são reconhecidos como ativos estratégicos na projeção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador de António Pargana, um dos mais destacados empresários luso-brasileiros da atualidade.
Nascido no Porto, cidade onde o pai concluía o curso de Engenharia Civil, mas com raízes familiares em Silves, no Algarve, António Pargana mudou-se, aos quatro anos de idade, para o vale do Limpopo, em Moçambique, então província ultramarina portuguesa. O pai integrou as obras de irrigação destinadas à instalação de um colonato agrícola promovido pelo Estado português, numa experiência que marcou os primeiros anos de vida da família.
António Pargana - ©Fundação António Pargana
Cinco anos depois, novos desafios profissionais levaram a família Pargana a regressar a Portugal. António concluiu o ensino secundário no Liceu Camões e ingressou posteriormente no Instituto Superior Técnico. Contudo, cedo percebeu que a engenharia não correspondia plenamente à sua vocação. Também a passagem pela área da gestão empresarial foi breve, optando, no início da década de 1970, por seguir novamente os passos africanos do pai, desta vez em Luanda, onde se matriculou na Faculdade de Engenharia.
Foi precisamente nesse período, ainda enquanto estudante, que surgiu a sua primeira experiência empresarial, através da comercialização da Grande Enciclopédia Luso-Brasileira. Entretanto, o contexto da Guerra do Ultramar, iniciada uma década antes em Angola, conduziu à sua mobilização militar para Nova Lisboa, atual Huambo, circunstância que acabou por impedir, uma vez mais, a conclusão do curso superior.
Em 1973, com apenas 23 anos, casou-se com Maria das Dores, sua companheira de vida, então estudante da Faculdade de Medicina de Luanda. Após a Revolução de Abril e a consequente desmobilização militar, António Pargana iniciou uma nova etapa profissional como diretor comercial do aviário Avicuca, empresa responsável pelo abastecimento de produtos avícolas à capital angolana.
Todavia, a escalada de violência decorrente da disputa pelo poder entre os movimentos de libertação conduziu o casal ao regresso a Portugal, em 1975. Ainda nesse ano, perante a instabilidade política e a escassez de perspetivas profissionais, António Pargana decidiu partir para o Brasil, país que acolhe a maior comunidade portuguesa e lusodescendente da América Latina. Em 1976, o casal estabeleceu-se definitivamente em São Paulo.
Iniciava-se então uma etapa decisiva da sua vida. Com extraordinária capacidade de trabalho, determinação e espírito de superação, Maria das Dores especializou-se em Pediatria, exercendo funções em vários hospitais paulistas. Já António Pargana, com apenas 26 anos e cerca de 500 dólares no bolso, lançou-se no setor do comércio internacional, construindo, a partir da maior metrópole da América Latina, um percurso empresarial verdadeiramente notável. Foi também em São Paulo que nasceram os seus filhos, Mariana e Francisco.
Com participações e investimentos em empresas ligadas aos setores energético e portuário, António Pargana fundou, em 1994, a Cisa Trading S.A., que se viria a afirmar como uma das maiores empresas de comércio internacional do Brasil. A empresa alcançou volumes de negócios de 8,7 mil milhões de reais em 2012, 8,01 mil milhões em 2013 e cerca de 9,6 mil milhões em 2015, envolvendo centenas de milhares de operações de importação e exportação.
Paralelamente, assumiu funções em diversas organizações empresariais, entre as quais a Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil — São Paulo, histórica associação dedicada à promoção das relações económicas entre Portugal e o Brasil, que presidiu entre 2005 e 2009.
Apesar da sólida implantação empresarial no Brasil, António Pargana nunca perdeu a ligação a Portugal. Pelo contrário, os laços ao país intensificaram-se ao longo das últimas décadas, através de investimentos estratégicos e de um compromisso permanente com a valorização da presença portuguesa no mundo. Um dos exemplos mais relevantes ocorreu em 2015, quando, através da Global Roads, investiu, com dois parceiros, cerca de 770 milhões de euros na Brisa, assegurando um terço do capital da principal operadora de infraestruturas rodoviárias portuguesa.
Essa ligação profunda ao país e à diáspora portuguesa motivou igualmente a criação, em 2023, da Fundação António Pargana, sediada em Lisboa. A instituição nasceu com o propósito de promover o conhecimento da história, da cultura e da capacidade científica e tecnológica de Portugal, reforçando simultaneamente a ligação entre a diáspora, os seus descendentes e o país de origem. A Fundação procura, em particular, aproximar as novas gerações lusodescendentes da realidade contemporânea portuguesa, contribuindo para consolidar uma consciência identitária mais forte e informada.
Ao longo do seu percurso, António Pargana recebeu diversas distinções e reconhecimentos públicos. Entre eles destaca-se o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído em 2015 pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, bem como o prémio “Empresário da Diáspora”, recebido recentemente na Gala do Fórum Portugal Nação Global, das mãos de Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
O percurso singular de António Pargana constitui um exemplo maior da capacidade transformadora da diáspora portuguesa e da sua relevância estratégica para a afirmação de Portugal no mundo. A sua trajetória demonstra como visão empresarial, resiliência e sentido de pertença podem convergir numa ação concreta de aproximação entre países, economias e comunidades. Num tempo em que Portugal procura reforçar a sua presença global, figuras como António Pargana revelam a importância de uma diáspora dinâmica, influente e profundamente comprometida com as suas raízes, capaz de projetar o nome de Portugal muito para além das suas fronteiras.
domingo, 10 de maio de 2026
José Ávila: a imprensa ao serviço da portugalidade na Califórnia
Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indiscutivelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Essa realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, edificaram empresas de sucesso e assumiram papéis de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo, contribuindo simultaneamente para o prestígio de Portugal e para o desenvolvimento das sociedades de acolhimento.
Entre os múltiplos exemplos de líderes comunitários e promotores da cultura portuguesa na diáspora, hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico da projeção internacional de Portugal, destaca-se, ao longo das últimas décadas, o percurso exemplar e abnegado de José Ávila em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, na Califórnia, estado que alberga a maior comunidade de origem portuguesa dos Estados Unidos da América.
Nascido em 1945, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, e filho de pais naturais da ilha Graciosa, José Ávila viveu a infância em Santa Cruz da Graciosa, regressando posteriormente a Angra do Heroísmo para concluir o ensino secundário. Cumpriu serviço militar por duas vezes no Exército português e frequentou o curso de Engenharia Eletrotécnica na Universidade de Aveiro. Já no ocaso do Estado Novo, foi novamente mobilizado para o curso de capitães, em Mafra, onde permaneceu até depois da Revolução dos Cravos, em 1974.
Na década de 1960, casou, em Angra do Heroísmo, com a sua companheira de vida, Ilda Vale, consolidando na família, entretanto enriquecida com três filhos e oito netos, um dos pilares centrais do seu percurso humano e profissional. No plano laboral, José Ávila esteve durante vários anos ligado aos CTT, Correios e Telecomunicações de Portugal, onde desempenhou funções de gestão nas ilhas de São Jorge e Terceira.
Em 1983, emigrou com a família para Milpitas, no estado da Califórnia, iniciando uma carreira de sucesso na Hewlett-Packard, uma das mais emblemáticas empresas tecnológicas norte-americanas, onde assumiu responsabilidades em diversas operações de relocalização. Após a reforma, em 2003, José e Ilda Ávila fixaram-se em Modesto, no condado de Stanislaus, adquirindo o jornal Tribuna Portuguesa (The Portuguese Tribune), publicação histórica e de referência da comunidade luso-americana de San José, cidade que constitui a maior concentração urbana portuguesa da Califórnia.
Com essa decisão, procuraram reforçar os laços com as comunidades portuguesas do Vale de San Joaquin, uma das regiões mais emblemáticas da presença açoriana nos Estados Unidos, e continuar a servir a vasta comunidade de língua portuguesa da costa oeste norte-americana. Duas décadas depois, em 2023, o casal regressou a San José, devolvendo a Tribuna Portuguesa ao seu berço de origem e reafirmando a missão fundamental do jornal: informar, fortalecer os laços comunitários e valorizar a identidade das comunidades luso-californianas.
Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais e pela escassez de apoios institucionais, os jornais da diáspora sobrevivem, muitas vezes, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Ao longo das últimas décadas, inúmeros títulos históricos desapareceram perante crises económicas, transformações tecnológicas e limitações financeiras. Neste panorama particularmente exigente, a Tribuna Portuguesa assume um significado ainda mais relevante.
Jornal bilingue, publicado em português e inglês, a Tribuna Portuguesa é, há mais de duas décadas, o único jornal português em circulação regular na Costa Oeste dos Estados Unidos e o derradeiro bastião da imprensa escrita em língua portuguesa na Costa do Pacífico. Mais do que um simples órgão de comunicação social, representa um verdadeiro património cultural da diáspora portuguesa, funcionando como espaço de memória, identidade e ligação entre gerações.
José Ávila durante a cerimónia de homenagem da Portuguese Fraternal Society of America (PFSA), onde foi distinguido, em 2025, com o Prémio de Serviço à Comunidade Portuguesa. © Tribuna Portuguesa
Numa época em que vários meios de comunicação da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive na América do Norte, o quinzenário dirigido por José Ávila constitui um notável exemplo de resistência cultural, dedicação cívica e serviço público comunitário. Através de uma informação de proximidade, o jornal constrói pontes entre comunidades dispersas, combate a distância e a saudade, fortalece a identidade cultural luso-americana e projeta Portugal, particularmente os Açores, na sociedade norte-americana.
O papel da comunidade portuguesa na Califórnia é profundamente relevante. Com mais de 300 mil pessoas de ascendência portuguesa, maioritariamente açoriana, esta comunidade tem dado um contributo significativo nos planos económico, agrícola, empresarial, político e cultural, preservando ao longo de gerações as suas tradições, festividades, língua e herança cultural. Neste contexto, a Tribuna Portuguesa tem sido, ao longo de quase meio século, um espaço incontornável da portugalidade e da açorianidade na Califórnia, registando as histórias, os desafios e as conquistas de sucessivas gerações de emigrantes portugueses na América.
O trabalho desenvolvido por José Ávila e pela Tribuna Portuguesa levou o Município de Angra do Heroísmo a distinguir o jornal, em 2021, com a Medalha de Mérito Municipal, Classe Cultural. Mais recentemente, em 2025, José Ávila foi homenageado pela Portuguese Fraternal Society of America (PFSA) com o Prémio de Serviço à Comunidade Portuguesa, pelo seu contributo na preservação e promoção da língua e cultura portuguesas na Califórnia.
Num tempo marcado pela globalização e pela fragmentação dos laços comunitários, figuras como José Ávila e instituições como a Tribuna Portuguesa demonstram que a diáspora portuguesa continua a ser uma extraordinária força cultural, humana e civilizacional, projetando diariamente o futuro da portugalidade no mundo.
domingo, 3 de maio de 2026
Elisabete da Cunha: uma astrofísica portuguesa na vanguarda da ciência global
Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e científico.
Neste último domínio, e numa época em que o mundo se encontra cada vez mais interligado e dependente do conhecimento tecnológico, a diáspora científica portuguesa — constituída, em larga medida, por profissionais altamente qualificados — é hoje amplamente reconhecida como uma mais-valia para o desenvolvimento dos países de acolhimento. Simultaneamente, afirma-se como um ativo estratégico na transferência de conhecimento, na promoção internacional de Portugal e na afirmação de uma ciência sem fronteiras.
É neste contexto que se destaca o percurso paradigmático e inspirador de Elisabete da Cunha, investigadora da Universidade da Austrália Ocidental e uma referência internacional na área da astrofísica. Ao longo da sua carreira, tem trabalhado com alguns dos mais avançados instrumentos de observação do Universo, incluindo o James Webb Space Telescope, posicionando-se na linha da frente da investigação contemporânea.
Filha de emigrantes portugueses, Elisabete da Cunha nasceu em Paris, mas foi no Alto Minho, na vila de Barroselas (Viana do Castelo), que cresceu, após o regresso da família a Portugal quando tinha sete anos, juntamente com o seu irmão gémeo. Foi a partir deste contexto que construiu um percurso académico sólido, alicerçado numa licenciatura em Física/Matemática Aplicada (Astronomia), pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (2005), e num doutoramento pela Universidade de Paris VI (Pierre et Marie Curie), concluído em 2008.
Seguiram-se vários períodos de investigação pós-doutoral na Grécia, Alemanha e Austrália, país onde se fixou em 2014. Após passagens por Melbourne e Camberra, estabeleceu-se em Perth, onde, desde 2019, exerce funções como investigadora sénior e professora associada no Centro Internacional de Investigação em Radioastronomia da Universidade da Austrália Ocidental.
Elisabete da Cunha, professora na Universidade da Austrália Ocidental e investigadora em Astrofísica – © University of Western Australia (UWA)
O seu percurso científico, marcado por uma notável consistência e projeção internacional, inclui participação em projetos científicos de grande escala associados a infraestruturas de referência, como o ALMA e o James Webb Space Telescope. A sua investigação combina observações profundas do cosmos com modelos teóricos sofisticados, permitindo compreender de que forma galáxias como a Via Láctea se formaram e evoluíram ao longo de milhares de milhões de anos.
Entre os seus contributos mais relevantes destaca-se o desenvolvimento do MAGPHYS, uma ferramenta amplamente utilizada pela comunidade científica internacional, que permite inferir propriedades físicas das galáxias a partir de dados observacionais em diferentes comprimentos de onda. O impacto do seu trabalho traduziu-se no reconhecimento como “Investigadora Altamente Citada” pela Clarivate em 2023 e 2025, bem como na atribuição de diversos prémios, entre os quais o de “Cidadã Portuguesa do Ano da Austrália Ocidental” (2023) e distinções académicas de relevo no contexto da investigação científica australiana.
Apesar de uma carreira consolidada além-fronteiras, Elisabete da Cunha mantém uma ligação estreita a Portugal. Em 2019, copresidiu, em Viana do Castelo, um simpósio da União Astronómica Internacional dedicado à evolução precoce das galáxias na era do ALMA e do James Webb Space Telescope, reunindo mais de 170 especialistas de todo o mundo. Mais recentemente, publicou a obra O que se Passa Acima das Nossas Cabeças, dirigida ao público português, com o propósito de aproximar a sociedade dos grandes desafios e descobertas da ciência contemporânea.
O seu percurso evidencia, de forma clara, o papel inovador da diáspora científica portuguesa na produção de conhecimento de ponta e na construção de pontes entre Portugal e o mundo. Elisabete da Cunha personifica uma geração de investigadores que, sem perderem o vínculo às suas origens, projetam o nome do país no panorama científico internacional, contribuindo para a valorização do capital humano português e para a afirmação de Portugal como um ator relevante na ciência global.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Daniel Bastos destaca o papel das comunidades portuguesas junto da comunidade escolar de Braga
No passado dia 30 de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos dinamizou, em Braga, uma sessão dirigida à comunidade escolar dedicada ao papel e à importância das comunidades portuguesas no mundo.
A iniciativa integrou a Semana da Leitura, este ano subordinada ao tema da “Diversidade”, promovida pelo Colégio João Paulo II, instituição de referência no ensino privado na capital minhota, e contou igualmente com a participação da escritora Maria João Lopo de Carvalho e do escritor Francisco Moita Flores.
No decurso da sua intervenção, Daniel Bastos apresentou aos alunos um conjunto de obras que tem vindo a conceber e a desenvolver no âmbito da história da emigração portuguesa. Entre estas, destacam-se Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, realizado em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido; Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência, baseado nas memórias ilustradas do antigo oposicionista, militar e emigrante Fernando Mariano Cardeira; bem como O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores e Terras de Monte Longo, concebidos, respetivamente, com os consagrados fotógrafos Gérald Bloncourt e José de Andrade.
Segundo o historiador, escritor e professor, que leciona há uma década no Colégio João Paulo II, falar às gerações mais jovens, em particular no contexto escolar, sobre as comunidades portuguesas revela-se essencial para a preservação da memória coletiva, o reforço da identidade cultural e a promoção de uma compreensão mais ampla do percurso histórico de Portugal no mundo.
Daniel Bastos sublinha ainda que as comunidades emigrantes constituem não apenas um testemunho vivo da história nacional, mas também um ativo estratégico no presente, através da sua relevante contribuição económica, cultural e social nos países de acolhimento. Nesse sentido, valorizar este legado junto dos alunos representa um investimento numa cidadania mais consciente, informada e aberta ao mundo, capaz de reconhecer na diáspora portuguesa um prolongamento dinâmico da própria nação, bem como de fomentar uma leitura crítica e esclarecida das dinâmicas migratórias contemporâneas.
domingo, 26 de abril de 2026
Daniel Bastos assinalou o 25 de Abril junto da comunidade portuguesa em Andorra
No passado dia 25 de Abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos proferiu, em Andorra, país situado nos Pirenéus, entre Espanha e França, onde residem cerca de 10 mil portugueses — que constituem a segunda maior comunidade estrangeira residente —, uma conferência subordinada ao tema “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”.
Promovida pelo Consulado-Geral de Portugal em Andorra e pelo Grupo Casa de Portugal, com o apoio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e da Comú d’Andorra la Vella, a iniciativa integrou o programa comemorativo do 25 de Abril e contou com a presença de numerosas forças vivas da comunidade portuguesa em Andorra, entre dirigentes associativos, docentes, representantes institucionais, órgãos de comunicação social, emigrantes e cidadãos andorranos, num expressivo testemunho da vitalidade da diáspora portuguesa e da sua permanente ligação a Portugal.
Tendo como pano de fundo as memórias ilustradas do antigo oposicionista ao Estado Novo, militar, emigrante e exilado político Fernando Mariano Cardeira, a partir das quais Daniel Bastos concebeu uma obra historiográfica com o apoio institucional da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, o conferencista abordou o quotidiano de pobreza e privação vivido durante a ditadura, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar e os percursos da emigração “a salto”, seguidos por milhares de portugueses nas décadas de 1960 e 1970, em busca de melhores condições de vida e como forma de escapar à Guerra Colonial.
O historiador da diáspora Daniel Bastos (à esq.), com o Cônsul-Geral de Portugal em Andorra, Duarte Pinto da Rocha, no decurso da conferência “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”, que proferiu no passado dia 25 de Abril junto da comunidade portuguesa em Andorra.
No decurso da iniciativa, que teve lugar na sala de atos do Centro Cultural La Llacuna, Daniel Bastos apresentou ainda à comunidade luso-andorrana algumas das suas mais recentes obras dedicadas à história da emigração, da ditadura e da democracia portuguesa.
Entre essas publicações destacou-se o livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. A obra resulta de um levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental, bem como nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.
Foram igualmente apresentados os livros Dias de Liberdade em Portugal e Terras de Monte Longo, concebidos em colaboração com consagrados fotógrafos. No primeiro caso, com Gérald Bloncourt, observador privilegiado da explosão de liberdade que marcou o país após a Revolução dos Cravos; no segundo, com José de Andrade, que registou, em meios rurais entre o Minho e Trás-os-Montes, as vivências do interior profundo na transição da ditadura para a democracia.
Autor de várias obras dedicadas às memórias da ditadura, à construção da democracia e à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo contacto regular com comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, através de conferências, apresentações públicas e colaboração em órgãos de comunicação social de língua portuguesa no espaço internacional.
domingo, 19 de abril de 2026
Monumentos ao Emigrante – Memória da Emigração Portuguesa nos Estados Unidos
Espalhados por todo o território nacional, do Minho às ilhas atlânticas, os monumentos dedicados aos emigrantes constituem marcas físicas de um dos fenómenos mais estruturantes da história contemporânea de Portugal: a emigração. Ao longo de décadas, milhões de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida, deixando para trás famílias, terras e afetos. Esta realidade encontrou expressão simbólica em monumentos que hoje funcionam como marcos de identidade, memória e reconhecimento coletivo.
O livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa apresenta um levantamento destas estruturas, assumindo-se como uma homenagem à diáspora. Mais do que um inventário, oferece uma leitura interpretativa da linguagem simbólica que traduz a experiência migratória nas suas múltiplas dimensões.
Entre os elementos mais recorrentes destacam-se a mala de cartão, símbolo maior da emigração do século XX; a esfera armilar e o globo terrestre, evocando a dimensão global da diáspora; e as figuras humanas, frequentemente em contexto familiar, sugerindo separação e esperança. As inscrições — com palavras como “saudade” ou “partida” — reforçam essa dimensão emocional, transformando muitos destes monumentos em autênticos espaços de memória.
Entre os vários destinos da diáspora portuguesa, os Estados Unidos assumem um lugar de destaque, com particular incidência no arquipélago dos Açores, onde a intensidade dos fluxos migratórios para a América do Norte deixou marcas profundas na memória coletiva. Embora também presente noutras regiões, é sobretudo no contexto açoriano que essa ligação se manifesta de forma mais expressiva.
No plano simbólico, os Estados Unidos surgem associados à mobilidade social e ascensão económica, sendo evocados através de elementos como rotas migratórias ou referências a cidades como New Bedford, Fall River, Newark ou San José, que remetem para o imaginário do “sonho americano”.
Num primeiro ciclo migratório (finais do século XVIII a primeiras décadas do século XX), a presença portuguesa nos Estados Unidos desenvolveu-se sobretudo a partir dos Açores, ligada à baleação e, posteriormente, à agricultura e indústria, originando comunidades duradouras em estados como Massachusetts, Rhode Island e Califórnia.
É neste contexto que se insere João Inácio de Sousa. Natural de Santo Amaro (São Jorge), ativo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, construiu fortuna em Bakersfield, Califórnia, destacando-se como empresário e filantropo. O monumento que perpetua a sua memória ilustra esta primeira vaga, marcada pela ascensão social e pelo retorno simbólico às origens.
Num segundo ciclo (décadas de 1950 a 1970), a emigração intensificou-se devido à pobreza, à falta de oportunidades e à Guerra Colonial. A erupção dos Capelinhos, em 1957, desencadeou uma vaga significativa de emigração açoriana para os EUA. Este período encontra expressão nos monumentos através da “mala de cartão”, símbolo de rutura e recomeço.
Num terceiro ciclo, já tardio (finais do século XX e início do século XXI), verifica-se um abrandamento — e em muitos casos declínio — da emigração para os Estados Unidos, em resultado de políticas migratórias mais restritivas e da reorientação dos fluxos para a Europa após 1986. Em paralelo, as comunidades luso-americanas entram numa fase de consolidação e mobilidade social.
É neste enquadramento que ganham visibilidade figuras da diáspora, cuja memória é perpetuada em monumentos de natureza biográfica, como a estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e o busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia. Os seus percursos, no setor agrícola e no tecido empresarial e associativo, refletem uma fase mais madura da emigração, marcada pelo sucesso económico e pela ação filantrópica.
Estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia - © Livro “Monumentos ao Emigrante”.
Estes monumentos introduzem uma dimensão individualizada na memória da emigração, valorizando trajetórias concretas e o contributo dos emigrantes para as sociedades de acolhimento e de origem.
A Califórnia assume, neste contexto, um papel central, sendo um dos principais polos de fixação de lusodescendentes. Regiões como o Vale de São Joaquim ou cidades como San José tornaram-se referências dessa presença.
As comunidades portuguesas nos Estados Unidos consolidaram-se ao longo do tempo, desenvolvendo uma vasta rede associativa e cultural. Este património imaterial encontra-se simbolicamente refletido nos monumentos, através de elementos que evocam continuidade e pertença.
Hoje, a comunidade luso-americana constitui uma das mais antigas e influentes da diáspora portuguesa, contribuindo para o reforço das relações entre Portugal e os Estados Unidos.
Os monumentos ao emigrante traduzem, assim, uma ideia essencial: Portugal prolonga-se na diáspora. O livro Monumentos ao Emigrante constitui, ele próprio, um instrumento fundamental dessa memória, ao preservar histórias individuais e coletivas.
Em síntese, estes monumentos são testemunhos duradouros de uma história feita de partidas, sacrifícios e conquistas. No caso dos Estados Unidos, essa ligação assume especial relevância, refletindo uma das mais antigas e dinâmicas comunidades da diáspora portuguesa — uma memória viva, inscrita na pedra e na identidade coletiva de um povo que sempre soube partir sem deixar de pertencer.
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