Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 17 de maio de 2026

António Pargana: visão empresarial, diáspora e compromisso com Portugal

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua notável capacidade empreendedora, como o demonstram as trajetórias de inúmeros compatriotas que fundaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Entre os muitos exemplos de portugueses da diáspora que hoje são reconhecidos como ativos estratégicos na projeção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador de António Pargana, um dos mais destacados empresários luso-brasileiros da atualidade. Nascido no Porto, cidade onde o pai concluía o curso de Engenharia Civil, mas com raízes familiares em Silves, no Algarve, António Pargana mudou-se, aos quatro anos de idade, para o vale do Limpopo, em Moçambique, então província ultramarina portuguesa. O pai integrou as obras de irrigação destinadas à instalação de um colonato agrícola promovido pelo Estado português, numa experiência que marcou os primeiros anos de vida da família.
António Pargana - ©Fundação António Pargana Cinco anos depois, novos desafios profissionais levaram a família Pargana a regressar a Portugal. António concluiu o ensino secundário no Liceu Camões e ingressou posteriormente no Instituto Superior Técnico. Contudo, cedo percebeu que a engenharia não correspondia plenamente à sua vocação. Também a passagem pela área da gestão empresarial foi breve, optando, no início da década de 1970, por seguir novamente os passos africanos do pai, desta vez em Luanda, onde se matriculou na Faculdade de Engenharia. Foi precisamente nesse período, ainda enquanto estudante, que surgiu a sua primeira experiência empresarial, através da comercialização da Grande Enciclopédia Luso-Brasileira. Entretanto, o contexto da Guerra do Ultramar, iniciada uma década antes em Angola, conduziu à sua mobilização militar para Nova Lisboa, atual Huambo, circunstância que acabou por impedir, uma vez mais, a conclusão do curso superior. Em 1973, com apenas 23 anos, casou-se com Maria das Dores, sua companheira de vida, então estudante da Faculdade de Medicina de Luanda. Após a Revolução de Abril e a consequente desmobilização militar, António Pargana iniciou uma nova etapa profissional como diretor comercial do aviário Avicuca, empresa responsável pelo abastecimento de produtos avícolas à capital angolana. Todavia, a escalada de violência decorrente da disputa pelo poder entre os movimentos de libertação conduziu o casal ao regresso a Portugal, em 1975. Ainda nesse ano, perante a instabilidade política e a escassez de perspetivas profissionais, António Pargana decidiu partir para o Brasil, país que acolhe a maior comunidade portuguesa e lusodescendente da América Latina. Em 1976, o casal estabeleceu-se definitivamente em São Paulo. Iniciava-se então uma etapa decisiva da sua vida. Com extraordinária capacidade de trabalho, determinação e espírito de superação, Maria das Dores especializou-se em Pediatria, exercendo funções em vários hospitais paulistas. Já António Pargana, com apenas 26 anos e cerca de 500 dólares no bolso, lançou-se no setor do comércio internacional, construindo, a partir da maior metrópole da América Latina, um percurso empresarial verdadeiramente notável. Foi também em São Paulo que nasceram os seus filhos, Mariana e Francisco. Com participações e investimentos em empresas ligadas aos setores energético e portuário, António Pargana fundou, em 1994, a Cisa Trading S.A., que se viria a afirmar como uma das maiores empresas de comércio internacional do Brasil. A empresa alcançou volumes de negócios de 8,7 mil milhões de reais em 2012, 8,01 mil milhões em 2013 e cerca de 9,6 mil milhões em 2015, envolvendo centenas de milhares de operações de importação e exportação. Paralelamente, assumiu funções em diversas organizações empresariais, entre as quais a Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil — São Paulo, histórica associação dedicada à promoção das relações económicas entre Portugal e o Brasil, que presidiu entre 2005 e 2009. Apesar da sólida implantação empresarial no Brasil, António Pargana nunca perdeu a ligação a Portugal. Pelo contrário, os laços ao país intensificaram-se ao longo das últimas décadas, através de investimentos estratégicos e de um compromisso permanente com a valorização da presença portuguesa no mundo. Um dos exemplos mais relevantes ocorreu em 2015, quando, através da Global Roads, investiu, com dois parceiros, cerca de 770 milhões de euros na Brisa, assegurando um terço do capital da principal operadora de infraestruturas rodoviárias portuguesa. Essa ligação profunda ao país e à diáspora portuguesa motivou igualmente a criação, em 2023, da Fundação António Pargana, sediada em Lisboa. A instituição nasceu com o propósito de promover o conhecimento da história, da cultura e da capacidade científica e tecnológica de Portugal, reforçando simultaneamente a ligação entre a diáspora, os seus descendentes e o país de origem. A Fundação procura, em particular, aproximar as novas gerações lusodescendentes da realidade contemporânea portuguesa, contribuindo para consolidar uma consciência identitária mais forte e informada. Ao longo do seu percurso, António Pargana recebeu diversas distinções e reconhecimentos públicos. Entre eles destaca-se o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído em 2015 pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, bem como o prémio “Empresário da Diáspora”, recebido recentemente na Gala do Fórum Portugal Nação Global, das mãos de Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. O percurso singular de António Pargana constitui um exemplo maior da capacidade transformadora da diáspora portuguesa e da sua relevância estratégica para a afirmação de Portugal no mundo. A sua trajetória demonstra como visão empresarial, resiliência e sentido de pertença podem convergir numa ação concreta de aproximação entre países, economias e comunidades. Num tempo em que Portugal procura reforçar a sua presença global, figuras como António Pargana revelam a importância de uma diáspora dinâmica, influente e profundamente comprometida com as suas raízes, capaz de projetar o nome de Portugal muito para além das suas fronteiras.

domingo, 10 de maio de 2026

José Ávila: a imprensa ao serviço da portugalidade na Califórnia

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indiscutivelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Essa realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, edificaram empresas de sucesso e assumiram papéis de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo, contribuindo simultaneamente para o prestígio de Portugal e para o desenvolvimento das sociedades de acolhimento. Entre os múltiplos exemplos de líderes comunitários e promotores da cultura portuguesa na diáspora, hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico da projeção internacional de Portugal, destaca-se, ao longo das últimas décadas, o percurso exemplar e abnegado de José Ávila em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, na Califórnia, estado que alberga a maior comunidade de origem portuguesa dos Estados Unidos da América. Nascido em 1945, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, e filho de pais naturais da ilha Graciosa, José Ávila viveu a infância em Santa Cruz da Graciosa, regressando posteriormente a Angra do Heroísmo para concluir o ensino secundário. Cumpriu serviço militar por duas vezes no Exército português e frequentou o curso de Engenharia Eletrotécnica na Universidade de Aveiro. Já no ocaso do Estado Novo, foi novamente mobilizado para o curso de capitães, em Mafra, onde permaneceu até depois da Revolução dos Cravos, em 1974. Na década de 1960, casou, em Angra do Heroísmo, com a sua companheira de vida, Ilda Vale, consolidando na família, entretanto enriquecida com três filhos e oito netos, um dos pilares centrais do seu percurso humano e profissional. No plano laboral, José Ávila esteve durante vários anos ligado aos CTT, Correios e Telecomunicações de Portugal, onde desempenhou funções de gestão nas ilhas de São Jorge e Terceira. Em 1983, emigrou com a família para Milpitas, no estado da Califórnia, iniciando uma carreira de sucesso na Hewlett-Packard, uma das mais emblemáticas empresas tecnológicas norte-americanas, onde assumiu responsabilidades em diversas operações de relocalização. Após a reforma, em 2003, José e Ilda Ávila fixaram-se em Modesto, no condado de Stanislaus, adquirindo o jornal Tribuna Portuguesa (The Portuguese Tribune), publicação histórica e de referência da comunidade luso-americana de San José, cidade que constitui a maior concentração urbana portuguesa da Califórnia. Com essa decisão, procuraram reforçar os laços com as comunidades portuguesas do Vale de San Joaquin, uma das regiões mais emblemáticas da presença açoriana nos Estados Unidos, e continuar a servir a vasta comunidade de língua portuguesa da costa oeste norte-americana. Duas décadas depois, em 2023, o casal regressou a San José, devolvendo a Tribuna Portuguesa ao seu berço de origem e reafirmando a missão fundamental do jornal: informar, fortalecer os laços comunitários e valorizar a identidade das comunidades luso-californianas. Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais e pela escassez de apoios institucionais, os jornais da diáspora sobrevivem, muitas vezes, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Ao longo das últimas décadas, inúmeros títulos históricos desapareceram perante crises económicas, transformações tecnológicas e limitações financeiras. Neste panorama particularmente exigente, a Tribuna Portuguesa assume um significado ainda mais relevante. Jornal bilingue, publicado em português e inglês, a Tribuna Portuguesa é, há mais de duas décadas, o único jornal português em circulação regular na Costa Oeste dos Estados Unidos e o derradeiro bastião da imprensa escrita em língua portuguesa na Costa do Pacífico. Mais do que um simples órgão de comunicação social, representa um verdadeiro património cultural da diáspora portuguesa, funcionando como espaço de memória, identidade e ligação entre gerações.
José Ávila durante a cerimónia de homenagem da Portuguese Fraternal Society of America (PFSA), onde foi distinguido, em 2025, com o Prémio de Serviço à Comunidade Portuguesa. © Tribuna Portuguesa Numa época em que vários meios de comunicação da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive na América do Norte, o quinzenário dirigido por José Ávila constitui um notável exemplo de resistência cultural, dedicação cívica e serviço público comunitário. Através de uma informação de proximidade, o jornal constrói pontes entre comunidades dispersas, combate a distância e a saudade, fortalece a identidade cultural luso-americana e projeta Portugal, particularmente os Açores, na sociedade norte-americana. O papel da comunidade portuguesa na Califórnia é profundamente relevante. Com mais de 300 mil pessoas de ascendência portuguesa, maioritariamente açoriana, esta comunidade tem dado um contributo significativo nos planos económico, agrícola, empresarial, político e cultural, preservando ao longo de gerações as suas tradições, festividades, língua e herança cultural. Neste contexto, a Tribuna Portuguesa tem sido, ao longo de quase meio século, um espaço incontornável da portugalidade e da açorianidade na Califórnia, registando as histórias, os desafios e as conquistas de sucessivas gerações de emigrantes portugueses na América. O trabalho desenvolvido por José Ávila e pela Tribuna Portuguesa levou o Município de Angra do Heroísmo a distinguir o jornal, em 2021, com a Medalha de Mérito Municipal, Classe Cultural. Mais recentemente, em 2025, José Ávila foi homenageado pela Portuguese Fraternal Society of America (PFSA) com o Prémio de Serviço à Comunidade Portuguesa, pelo seu contributo na preservação e promoção da língua e cultura portuguesas na Califórnia. Num tempo marcado pela globalização e pela fragmentação dos laços comunitários, figuras como José Ávila e instituições como a Tribuna Portuguesa demonstram que a diáspora portuguesa continua a ser uma extraordinária força cultural, humana e civilizacional, projetando diariamente o futuro da portugalidade no mundo.

domingo, 3 de maio de 2026

Elisabete da Cunha: uma astrofísica portuguesa na vanguarda da ciência global

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e científico. Neste último domínio, e numa época em que o mundo se encontra cada vez mais interligado e dependente do conhecimento tecnológico, a diáspora científica portuguesa — constituída, em larga medida, por profissionais altamente qualificados — é hoje amplamente reconhecida como uma mais-valia para o desenvolvimento dos países de acolhimento. Simultaneamente, afirma-se como um ativo estratégico na transferência de conhecimento, na promoção internacional de Portugal e na afirmação de uma ciência sem fronteiras. É neste contexto que se destaca o percurso paradigmático e inspirador de Elisabete da Cunha, investigadora da Universidade da Austrália Ocidental e uma referência internacional na área da astrofísica. Ao longo da sua carreira, tem trabalhado com alguns dos mais avançados instrumentos de observação do Universo, incluindo o James Webb Space Telescope, posicionando-se na linha da frente da investigação contemporânea. Filha de emigrantes portugueses, Elisabete da Cunha nasceu em Paris, mas foi no Alto Minho, na vila de Barroselas (Viana do Castelo), que cresceu, após o regresso da família a Portugal quando tinha sete anos, juntamente com o seu irmão gémeo. Foi a partir deste contexto que construiu um percurso académico sólido, alicerçado numa licenciatura em Física/Matemática Aplicada (Astronomia), pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (2005), e num doutoramento pela Universidade de Paris VI (Pierre et Marie Curie), concluído em 2008. Seguiram-se vários períodos de investigação pós-doutoral na Grécia, Alemanha e Austrália, país onde se fixou em 2014. Após passagens por Melbourne e Camberra, estabeleceu-se em Perth, onde, desde 2019, exerce funções como investigadora sénior e professora associada no Centro Internacional de Investigação em Radioastronomia da Universidade da Austrália Ocidental.
Elisabete da Cunha, professora na Universidade da Austrália Ocidental e investigadora em Astrofísica – © University of Western Australia (UWA) O seu percurso científico, marcado por uma notável consistência e projeção internacional, inclui participação em projetos científicos de grande escala associados a infraestruturas de referência, como o ALMA e o James Webb Space Telescope. A sua investigação combina observações profundas do cosmos com modelos teóricos sofisticados, permitindo compreender de que forma galáxias como a Via Láctea se formaram e evoluíram ao longo de milhares de milhões de anos. Entre os seus contributos mais relevantes destaca-se o desenvolvimento do MAGPHYS, uma ferramenta amplamente utilizada pela comunidade científica internacional, que permite inferir propriedades físicas das galáxias a partir de dados observacionais em diferentes comprimentos de onda. O impacto do seu trabalho traduziu-se no reconhecimento como “Investigadora Altamente Citada” pela Clarivate em 2023 e 2025, bem como na atribuição de diversos prémios, entre os quais o de “Cidadã Portuguesa do Ano da Austrália Ocidental” (2023) e distinções académicas de relevo no contexto da investigação científica australiana. Apesar de uma carreira consolidada além-fronteiras, Elisabete da Cunha mantém uma ligação estreita a Portugal. Em 2019, copresidiu, em Viana do Castelo, um simpósio da União Astronómica Internacional dedicado à evolução precoce das galáxias na era do ALMA e do James Webb Space Telescope, reunindo mais de 170 especialistas de todo o mundo. Mais recentemente, publicou a obra O que se Passa Acima das Nossas Cabeças, dirigida ao público português, com o propósito de aproximar a sociedade dos grandes desafios e descobertas da ciência contemporânea. O seu percurso evidencia, de forma clara, o papel inovador da diáspora científica portuguesa na produção de conhecimento de ponta e na construção de pontes entre Portugal e o mundo. Elisabete da Cunha personifica uma geração de investigadores que, sem perderem o vínculo às suas origens, projetam o nome do país no panorama científico internacional, contribuindo para a valorização do capital humano português e para a afirmação de Portugal como um ator relevante na ciência global.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Daniel Bastos destaca o papel das comunidades portuguesas junto da comunidade escolar de Braga

No passado dia 30 de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos dinamizou, em Braga, uma sessão dirigida à comunidade escolar dedicada ao papel e à importância das comunidades portuguesas no mundo. A iniciativa integrou a Semana da Leitura, este ano subordinada ao tema da “Diversidade”, promovida pelo Colégio João Paulo II, instituição de referência no ensino privado na capital minhota, e contou igualmente com a participação da escritora Maria João Lopo de Carvalho e do escritor Francisco Moita Flores.
No decurso da sua intervenção, Daniel Bastos apresentou aos alunos um conjunto de obras que tem vindo a conceber e a desenvolver no âmbito da história da emigração portuguesa. Entre estas, destacam-se Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, realizado em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido; Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência, baseado nas memórias ilustradas do antigo oposicionista, militar e emigrante Fernando Mariano Cardeira; bem como O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores e Terras de Monte Longo, concebidos, respetivamente, com os consagrados fotógrafos Gérald Bloncourt e José de Andrade.
Segundo o historiador, escritor e professor, que leciona há uma década no Colégio João Paulo II, falar às gerações mais jovens, em particular no contexto escolar, sobre as comunidades portuguesas revela-se essencial para a preservação da memória coletiva, o reforço da identidade cultural e a promoção de uma compreensão mais ampla do percurso histórico de Portugal no mundo. Daniel Bastos sublinha ainda que as comunidades emigrantes constituem não apenas um testemunho vivo da história nacional, mas também um ativo estratégico no presente, através da sua relevante contribuição económica, cultural e social nos países de acolhimento. Nesse sentido, valorizar este legado junto dos alunos representa um investimento numa cidadania mais consciente, informada e aberta ao mundo, capaz de reconhecer na diáspora portuguesa um prolongamento dinâmico da própria nação, bem como de fomentar uma leitura crítica e esclarecida das dinâmicas migratórias contemporâneas.

domingo, 26 de abril de 2026

Daniel Bastos assinalou o 25 de Abril junto da comunidade portuguesa em Andorra

No passado dia 25 de Abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos proferiu, em Andorra, país situado nos Pirenéus, entre Espanha e França, onde residem cerca de 10 mil portugueses — que constituem a segunda maior comunidade estrangeira residente —, uma conferência subordinada ao tema “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”. Promovida pelo Consulado-Geral de Portugal em Andorra e pelo Grupo Casa de Portugal, com o apoio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e da Comú d’Andorra la Vella, a iniciativa integrou o programa comemorativo do 25 de Abril e contou com a presença de numerosas forças vivas da comunidade portuguesa em Andorra, entre dirigentes associativos, docentes, representantes institucionais, órgãos de comunicação social, emigrantes e cidadãos andorranos, num expressivo testemunho da vitalidade da diáspora portuguesa e da sua permanente ligação a Portugal. Tendo como pano de fundo as memórias ilustradas do antigo oposicionista ao Estado Novo, militar, emigrante e exilado político Fernando Mariano Cardeira, a partir das quais Daniel Bastos concebeu uma obra historiográfica com o apoio institucional da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, o conferencista abordou o quotidiano de pobreza e privação vivido durante a ditadura, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar e os percursos da emigração “a salto”, seguidos por milhares de portugueses nas décadas de 1960 e 1970, em busca de melhores condições de vida e como forma de escapar à Guerra Colonial.
O historiador da diáspora Daniel Bastos (à esq.), com o Cônsul-Geral de Portugal em Andorra, Duarte Pinto da Rocha, no decurso da conferência “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”, que proferiu no passado dia 25 de Abril junto da comunidade portuguesa em Andorra. No decurso da iniciativa, que teve lugar na sala de atos do Centro Cultural La Llacuna, Daniel Bastos apresentou ainda à comunidade luso-andorrana algumas das suas mais recentes obras dedicadas à história da emigração, da ditadura e da democracia portuguesa. Entre essas publicações destacou-se o livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. A obra resulta de um levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental, bem como nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores. Foram igualmente apresentados os livros Dias de Liberdade em Portugal e Terras de Monte Longo, concebidos em colaboração com consagrados fotógrafos. No primeiro caso, com Gérald Bloncourt, observador privilegiado da explosão de liberdade que marcou o país após a Revolução dos Cravos; no segundo, com José de Andrade, que registou, em meios rurais entre o Minho e Trás-os-Montes, as vivências do interior profundo na transição da ditadura para a democracia. Autor de várias obras dedicadas às memórias da ditadura, à construção da democracia e à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo contacto regular com comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, através de conferências, apresentações públicas e colaboração em órgãos de comunicação social de língua portuguesa no espaço internacional.

domingo, 19 de abril de 2026

Monumentos ao Emigrante – Memória da Emigração Portuguesa nos Estados Unidos

Espalhados por todo o território nacional, do Minho às ilhas atlânticas, os monumentos dedicados aos emigrantes constituem marcas físicas de um dos fenómenos mais estruturantes da história contemporânea de Portugal: a emigração. Ao longo de décadas, milhões de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida, deixando para trás famílias, terras e afetos. Esta realidade encontrou expressão simbólica em monumentos que hoje funcionam como marcos de identidade, memória e reconhecimento coletivo. O livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa apresenta um levantamento destas estruturas, assumindo-se como uma homenagem à diáspora. Mais do que um inventário, oferece uma leitura interpretativa da linguagem simbólica que traduz a experiência migratória nas suas múltiplas dimensões. Entre os elementos mais recorrentes destacam-se a mala de cartão, símbolo maior da emigração do século XX; a esfera armilar e o globo terrestre, evocando a dimensão global da diáspora; e as figuras humanas, frequentemente em contexto familiar, sugerindo separação e esperança. As inscrições — com palavras como “saudade” ou “partida” — reforçam essa dimensão emocional, transformando muitos destes monumentos em autênticos espaços de memória. Entre os vários destinos da diáspora portuguesa, os Estados Unidos assumem um lugar de destaque, com particular incidência no arquipélago dos Açores, onde a intensidade dos fluxos migratórios para a América do Norte deixou marcas profundas na memória coletiva. Embora também presente noutras regiões, é sobretudo no contexto açoriano que essa ligação se manifesta de forma mais expressiva. No plano simbólico, os Estados Unidos surgem associados à mobilidade social e ascensão económica, sendo evocados através de elementos como rotas migratórias ou referências a cidades como New Bedford, Fall River, Newark ou San José, que remetem para o imaginário do “sonho americano”. Num primeiro ciclo migratório (finais do século XVIII a primeiras décadas do século XX), a presença portuguesa nos Estados Unidos desenvolveu-se sobretudo a partir dos Açores, ligada à baleação e, posteriormente, à agricultura e indústria, originando comunidades duradouras em estados como Massachusetts, Rhode Island e Califórnia. É neste contexto que se insere João Inácio de Sousa. Natural de Santo Amaro (São Jorge), ativo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, construiu fortuna em Bakersfield, Califórnia, destacando-se como empresário e filantropo. O monumento que perpetua a sua memória ilustra esta primeira vaga, marcada pela ascensão social e pelo retorno simbólico às origens. Num segundo ciclo (décadas de 1950 a 1970), a emigração intensificou-se devido à pobreza, à falta de oportunidades e à Guerra Colonial. A erupção dos Capelinhos, em 1957, desencadeou uma vaga significativa de emigração açoriana para os EUA. Este período encontra expressão nos monumentos através da “mala de cartão”, símbolo de rutura e recomeço. Num terceiro ciclo, já tardio (finais do século XX e início do século XXI), verifica-se um abrandamento — e em muitos casos declínio — da emigração para os Estados Unidos, em resultado de políticas migratórias mais restritivas e da reorientação dos fluxos para a Europa após 1986. Em paralelo, as comunidades luso-americanas entram numa fase de consolidação e mobilidade social. É neste enquadramento que ganham visibilidade figuras da diáspora, cuja memória é perpetuada em monumentos de natureza biográfica, como a estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e o busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia. Os seus percursos, no setor agrícola e no tecido empresarial e associativo, refletem uma fase mais madura da emigração, marcada pelo sucesso económico e pela ação filantrópica.
Estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, na Silveira (Pico), e busto do comendador Batista Vieira, em Velas (São Jorge), ambos ligados à Califórnia - © Livro “Monumentos ao Emigrante”. Estes monumentos introduzem uma dimensão individualizada na memória da emigração, valorizando trajetórias concretas e o contributo dos emigrantes para as sociedades de acolhimento e de origem. A Califórnia assume, neste contexto, um papel central, sendo um dos principais polos de fixação de lusodescendentes. Regiões como o Vale de São Joaquim ou cidades como San José tornaram-se referências dessa presença. As comunidades portuguesas nos Estados Unidos consolidaram-se ao longo do tempo, desenvolvendo uma vasta rede associativa e cultural. Este património imaterial encontra-se simbolicamente refletido nos monumentos, através de elementos que evocam continuidade e pertença. Hoje, a comunidade luso-americana constitui uma das mais antigas e influentes da diáspora portuguesa, contribuindo para o reforço das relações entre Portugal e os Estados Unidos. Os monumentos ao emigrante traduzem, assim, uma ideia essencial: Portugal prolonga-se na diáspora. O livro Monumentos ao Emigrante constitui, ele próprio, um instrumento fundamental dessa memória, ao preservar histórias individuais e coletivas. Em síntese, estes monumentos são testemunhos duradouros de uma história feita de partidas, sacrifícios e conquistas. No caso dos Estados Unidos, essa ligação assume especial relevância, refletindo uma das mais antigas e dinâmicas comunidades da diáspora portuguesa — uma memória viva, inscrita na pedra e na identidade coletiva de um povo que sempre soube partir sem deixar de pertencer.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Louis Pinto: um marco histórico da diáspora portuguesa no Luxemburgo

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico e político. Entre os muitos exemplos de portugueses e lusodescendentes da diáspora, hoje amplamente reconhecidos como um ativo estratégico na projeção internacional de Portugal, destaca-se o percurso inspirador de Louis Pinto, o primeiro burgomestre (presidente da câmara municipal) de origem portuguesa no Luxemburgo, uma nação europeia onde os portugueses representam cerca de 15% da população total, constituindo, desde os anos 80, o mais importante grupo estrangeiro no país. Tradicionalmente ligados às atividades da construção civil, comércio, hotelaria, restauração e serviços, os cerca de 100 mil portugueses residentes no Grão-Ducado assumem uma relevância ímpar. Essa importância foi, aliás, sublinhada em 2023 pelo então primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, no Parlamento Europeu: “A comunidade portuguesa ajudou a construir o meu país. O Luxemburgo não seria o que é hoje sem a comunidade portuguesa.” A trajetória de vida de Louis Pinto corrobora, de forma exemplar, esse papel determinante dos portugueses no desenvolvimento de um dos países mais prósperos do mundo. Natural do concelho de Santo Tirso, distrito do Porto, onde nasceu em 1960, no seio de uma família numerosa, humilde e marcada por dificuldades económicas, César Luís da Costa Oliveira Pinto seguiu, ainda jovem, o caminho da emigração. Na esteira dos pais e dos seus nove irmãos, partiu no final da década de 1960 para o Luxemburgo, em busca de melhores condições de vida. Após uma primeira estadia num albergue, Louis Pinto, nome que adotou nos anos 80 aquando da aquisição da nacionalidade luxemburguesa, numa época em que não era possível a dupla nacionalidade, fixou-se com a família em Heisdorf, na comuna de Steinsel. Em 1984, após o casamento com Annette Wiltgen, natural de Lintgen, passou a residir nessa localidade situada no cantão de Mersch, nas margens do rio Alzette. No Grão-Ducado, encetou formação profissional, especializando-se na área da encadernação mecânica e de luxo. Paralelamente, integrou a equipa de futebol do clube de Steinsel e destacou-se como sindicalista, assumindo funções de secretário na Federação dos Trabalhadores da Indústria Gráfica, uma das mais antigas do país. Mais tarde, ingressou na OGBL, o maior sindicato independente do Luxemburgo, onde integrou o comité, mantendo-se ainda hoje como membro, já na condição de pensionista. Foi precisamente essa intensa atividade sindical que abriu caminho à sua participação política. Em 2005, integrou pela primeira vez listas para as eleições comunais em Lintgen. Não tendo sido eleito nessa ocasião, voltou a candidatar-se em 2011, numa fase de crescente envolvimento na vida associativa, desportiva e cultural local, vindo então a ser eleito conselheiro comunal. Posteriormente, exerceu funções como vereador e, em 2023, alcançou um feito histórico ao ser eleito burgomestre de Lintgen, com 1.167 votos. O seu grupo político, Engagéiert Bierger Lëntgen, “Cidadãos Envolvidos”, venceu com 43% dos votos, formando maioria em coligação com o DP. Desde então, assume a liderança da comuna, sendo responsável pela administração local e pela representação institucional do município.
Louis Pinto, burgomestre de Lintgen – © Commune de Lintgen A eleição de Louis Pinto como burgomestre de Lintgen, uma comuna com mais de dois mil habitantes, constitui um marco histórico de elevado significado político e simbólico. Ao tornar-se o primeiro burgomestre de origem portuguesa no Luxemburgo, o autarca, que nunca esconde o orgulho nas suas raízes, corporiza uma conquista coletiva da comunidade portuguesa. Mais do que um sucesso individual, a sua eleição traduz o reconhecimento público de décadas de trabalho, resiliência e integração exemplar de milhares de portugueses que ajudaram a edificar o Luxemburgo contemporâneo. Este feito representa uma mais-valia inequívoca para a comunidade portuguesa no Luxemburgo, reforçando o seu prestígio, visibilidade e capacidade de influência nas esferas de decisão. Simultaneamente, constitui um motivo de orgulho para Portugal, ao evidenciar a qualidade dos seus cidadãos além-fronteiras e o papel estruturante da diáspora na afirmação global do país. Num tempo em que a mobilidade internacional é uma constante, casos como o de Louis Pinto demonstram que a diáspora portuguesa não é apenas memória de partida, mas sobretudo uma força viva de construção, participação cívica e liderança, contribuindo ativamente para sociedades mais inclusivas, dinâmicas e plurais.

domingo, 12 de abril de 2026

Daniel Bastos leva a Andorra a memória da ditadura e da emigração portuguesa nas comemorações do 25 de Abril

No próximo dia 25 de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos profere, em Andorra, país situado nos Pirenéus, entre Espanha e França, onde os portugueses constituem a segunda maior comunidade estrangeira residente, uma conferência subordinada ao tema “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência”.
Promovida pelo Consulado-Geral de Portugal em Andorra e pelo Grupo Casa de Portugal, uma das mais dinâmicas e ativas associações do Principado, e contando com o apoio do Instituto Camões e da Comú d’Andorra la Vella, a iniciativa integra o ciclo de comemorações do 25 de Abril. A conferência tem como pano de fundo as memórias ilustradas do antigo oposicionista, militar, emigrante e exilado político Fernando Mariano Cardeira, a partir das quais Daniel Bastos concebeu uma obra historiográfica, com o apoio institucional da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril. A obra aborda o quotidiano marcado pela pobreza e pela miséria, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar e os percursos da emigração “a salto”, estratégia seguida por milhares de portugueses na procura de melhores condições de vida e como forma de escapar à Guerra Colonial, nas décadas de 1960 e 1970. No decurso da iniciativa, que terá lugar às 17h00, na sala de atos do Centro Cultural La Llacuna, o historiador da diáspora apresentará à comunidade andorrana, onde residem cerca de 10 mil portugueses, a sua mais recente obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa. O livro, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, resulta de um levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, constituindo um verdadeiro itinerário pela memória da emigração portuguesa. Assim como as obras Dias de Liberdade em Portugal e Terras de Monte Longo, também desenvolvidas nos últimos anos no âmbito da história contemporânea de Portugal, e que o autor concebeu em colaboração com consagrados fotógrafos. Respetivamente, Gérald Bloncourt, observador privilegiado da explosão de liberdade que marcou o país após a Revolução dos Cravos, e José de Andrade, que registou, em meios rurais entre o Minho e Trás-os-Montes, as vivências do interior profundo na transição da ditadura para a democracia. Autor de várias obras dedicadas às memórias da ditadura, à construção da democracia e à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.

Daniel Bastos mobiliza comunidade portuguesa na Califórnia em torno da obra Monumentos ao Emigrante

No início de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realizou um ciclo de apresentações na Califórnia, estado que acolhe a maior comunidade de origem portuguesa nos Estados Unidos, com o objetivo de dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa. Em português e inglês, com tradução de Paulo Teixeira, o livro resulta de uma colaboração com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseia-se num levantamento dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental, bem como nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. A obra afirma-se como um percurso pela memória da emigração portuguesa, valorizando o património material e simbólico que testemunha a experiência migratória. O ciclo decorreu em alguns dos mais relevantes polos da presença portuguesa na Califórnia, refletindo a vitalidade e o enraizamento desta comunidade. A sessão inaugural teve lugar na Casa dos Açores de Hilmar, no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como um dos principais centros da açorianidade no estado. Seguiram-se apresentações no Consulado-Geral de Portugal em São Francisco e no Portuguese Historical Museum, em San José instituições com papel determinante na preservação e promoção da herança cultural luso-americana.
No dia 6 de abril, a obra foi apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço de referência para a memória histórica da comunidade local. O ciclo encerrou a 8 de abril, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), em San José, instituição que celebra este ano o seu 50.º aniversário e que desempenha um papel central no apoio social à comunidade luso-americana. As diferentes sessões ficaram marcadas por uma expressiva adesão e mobilização das forças vivas da comunidade luso-californiana, incluindo emigrantes, empresários, dirigentes associativos e órgãos de comunicação social da diáspora. A forte participação conferiu particular relevância a esta iniciativa, que se afirmou não apenas como um momento de apresentação da obra, mas também como uma celebração da identidade e da memória coletiva. Com uma comunidade estimada em mais de 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, a presença portuguesa na Califórnia assume um papel de destaque no contexto da diáspora, tanto pelo contributo para o desenvolvimento das regiões de acolhimento como pela ligação contínua às terras de origem. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra foi apresentada na sequência de convites dirigidos ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos de mérito se encontram assinalados, respetivamente, nas ilhas do Pico e de São Jorge. Associaram-se igualmente à iniciativa o Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco, Filipe Ramalheira, o conselheiro das comunidades portuguesas, comendador Manuel Bettencourt, o cônsul honorário de Portugal em San Diego, Idalmiro da Rosa, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro tem vindo a ser apresentado, desde o seu lançamento no ano transato, em várias geografias da diáspora e do território nacional. Ao reunir mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo e os processos de construção da memória coletiva. Este ciclo de apresentações reforça a importância da valorização da história da emigração portuguesa e sublinha o papel determinante das comunidades no estrangeiro na preservação e projeção da identidade nacional.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Artur Brás: um empreendedor que prova a força da diáspora portuguesa

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua vocação empreendedora. Esta realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que criaram empresas de sucesso e assumem funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Entre os múltiplos exemplos de empresários lusos da diáspora — hoje cada vez mais reconhecidos como um ativo estratégico na projeção internacional de Portugal — destaca-se o percurso inspirador de Artur Brás. Natural da freguesia de Rossas, no concelho minhoto de Vieira do Minho, onde nasceu em 1948, no seio de uma família de lavradores, Artur Brás teve oportunidade de estudar em Braga até à adolescência, concluindo o 5.º ano na Escola Industrial Carlos Amarante. Em 1965, partiu para França, seguindo o caminho de milhares de jovens portugueses que, no contexto da ditadura salazarista, procuravam escapar ao serviço militar obrigatório na Guerra Colonial. Munido de um passaporte de estudante e com alguns conhecimentos de francês, não percorreu — ao contrário de muitos compatriotas — os trilhos da emigração clandestina. Ainda assim, a chegada a França ficou marcada por dificuldades iniciais, tendo sido acolhido durante três dias no “bidonville” de Saint-Denis, um vasto bairro de lata que, na década de 1960, acolheu milhares de portugueses em condições extremamente precárias. Dotado de uma personalidade resiliente e de uma ética de trabalho profundamente enraizada nos valores familiares, iniciou o seu percurso profissional como ajudante na construção civil. A sua determinação permitiu-lhe ascender rapidamente, tornando-se diretor de uma empresa francesa aos 26 anos, na região de Seine-et-Marne. Um ano depois, regressou a Vieira do Minho, movido pela saudade da terra natal, onde realizou alguns investimentos e deu início à sua atividade empresarial na construção civil. Contudo, um acidente de trabalho levou-o a regressar a França. Foi aí que, em 1977, fundou uma empresa especializada na construção de vivendas de luxo e conheceu, em Paris, Maximina da Silva, também natural de Vieira do Minho, que viria a tornar-se sua companheira de vida e um pilar fundamental no seu percurso. A empresa “Arthur Brás Construções” afirmou-se, na região de Chantilly, a norte de Paris, como uma referência de qualidade, rigor e credibilidade. Paralelamente, expandiu a sua atividade para o setor da promoção imobiliária, consolidando o “Grupo Arthur Brás”, hoje composto por mais de uma dezena de empresas ligadas à construção, património e investimento imobiliário.
O reconhecimento do seu percurso empreendedor materializou-se, em 2018, com a inauguração, no dia do seu 70.º aniversário, do Hyatt Regency Chantilly, um hotel de quatro estrelas que simboliza o culminar de décadas de trabalho, visão estratégica e capacidade de execução. Apesar do sucesso alcançado em França, Artur Brás nunca quebrou a ligação a Portugal. Discreto, fiel aos valores da família e da amizade, mantém uma relação próxima com o país de origem, sendo hoje um exemplo paradigmático do potencial estratégico da diáspora portuguesa. Num momento em que Portugal enfrenta um dos maiores desafios da sua contemporaneidade — a crise habitacional —, o empresário luso-francês tem vindo a afirmar-se como um agente ativo na resposta a este problema. Em Braga, desenvolve projetos junto à Universidade do Minho e ao Hospital de Braga, com forte procura por parte de docentes e profissionais de saúde. Para além deste investimento num dos concelhos mais dinâmicos do país, onde o crescimento demográfico tem sido particularmente expressivo na última década, Artur Brás impulsionou também a construção de cerca de meia centena de apartamentos em Amares. Simultaneamente, encontra-se a estudar novos projetos em Vieira do Minho, terra que, em 2021, o homenageou no âmbito do 507.º aniversário da sua elevação a concelho. Ao expandir a sua atividade em território nacional, o empresário não só reforça o crescimento do “Grupo Arthur Brás”, como contribui diretamente para o desenvolvimento económico regional, criando emprego, dinamizando o setor da construção e ajudando a fixar população. Mais do que um caso de sucesso individual, o percurso de Artur Brás — marcado também por diversas iniciativas de apoio à comunidade luso-francesa, designadamente na área do futebol e em ações de solidariedade em prol de crianças carenciadas — evidencia, de forma inequívoca, o papel estruturante da diáspora portuguesa no desenvolvimento do país. As comunidades portuguesas no estrangeiro não são apenas depositárias de memória e identidade: afirmam-se, cada vez mais, como agentes económicos e sociais de relevo, capazes de gerar investimento, promover a transferência de conhecimento e construir pontes duradouras entre Portugal e o mundo. Num tempo em que se impõe repensar estratégias de crescimento e coesão territorial, a valorização deste capital humano e empresarial da diáspora revela-se não apenas desejável, mas indispensável. O exemplo de Artur Brás demonstra que o empreendedorismo emigrante não é apenas uma história de superação individual — é, sobretudo, uma alavanca concreta para o futuro coletivo de Portugal.

domingo, 22 de março de 2026

Fundação Nova Era Jean Pina transforma sonhos em realidade para seniores portugueses em Paris

Ao longo das últimas décadas, a diáspora portuguesa tem afirmado, de forma consistente, um notável espírito de solidariedade — um dos mais elevados valores que enobrecem a condição humana e conferem sentido à vida em comunidade. Este desígnio manifesta-se tanto no apoio aos compatriotas radicados no estrangeiro como na permanente ligação solidária a Portugal, numa demonstração inequívoca de coesão e responsabilidade coletiva. Entre os múltiplos exemplos que ilustram esta vocação solidária, destaca-se, de forma particularmente expressiva, a ação desenvolvida pela Fundação Nova Era Jean Pina. Constituída em 2019 pelo empresário português João Pina, radicado na região de Paris, esta instituição tem vindo a afirmar-se como um dos mais relevantes agentes de intervenção social no seio da comunidade luso-francesa — a mais numerosa comunidade portuguesa na Europa. Natural de Trinta, no concelho da Guarda, João Pina emigrou para França na década de 1980, então com apenas 19 anos, acompanhando o fluxo de milhares de portugueses que procuravam melhores condições de vida na pátria gaulesa. Apesar das dificuldades iniciais inerentes ao processo migratório, construiu um percurso empresarial sólido e bem-sucedido na área da construção civil. Hoje, enquanto administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, lidera um conjunto diversificado de empresas com atividade nos setores da construção, limpeza e reciclagem de resíduos. Todavia, o seu percurso não se esgota no sucesso empresarial. Reconhecido em França como Jean Pina, tem desenvolvido, de forma contínua e empenhada, uma intervenção solidária de grande alcance, colocando os recursos e a capacidade organizativa ao serviço dos mais vulneráveis. É precisamente nesta dimensão que se destaca o papel estruturante da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão assenta no lema “Solidariedade em Movimento”. Sob a liderança direta do seu presidente, a instituição tem promovido uma relevante cooperação entre França e Portugal, através da conceção, financiamento integral e concretização de projetos dirigidos a públicos particularmente fragilizados, como idosos, crianças institucionalizadas e pessoas em situação de desemprego. Neste enquadramento, assume especial relevo o projeto “Sonhos sem Idade”, lançado no ano passado pela Fundação. Trata-se de uma iniciativa pioneira, de elevado alcance humano e simbólico, que visa concretizar o sonho de cidadãos seniores portugueses, com baixos rendimentos e beneficiários de apoio social, de viajarem de avião pela primeira vez e visitarem Paris — uma das cidades mais emblemáticas do mundo. Em 2026, a Fundação deu continuidade a este projeto através da sua segunda edição, integralmente suportada do ponto de vista financeiro pela própria instituição, reafirmando o seu compromisso inequívoco com a solidariedade ativa. Entre os dias 19 e 22 de março, quatro seniores beneficiários de apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe deslocaram-se à capital francesa, numa experiência transformadora e profundamente marcante. Esta instituição, de reconhecida relevância na sub-região do Douro, distrito de Viseu, tem desempenhado, desde a segunda metade do século XX, um papel essencial nas áreas da saúde e do apoio social, num território particularmente afetado pelo envelhecimento demográfico. Acompanhados pelo provedor Romeu Santos, pela diretora técnica Andreia Fonseca e pela enfermeira Maria Rodrigues, os participantes tiveram oportunidade de visitar alguns dos mais icónicos locais de Paris, como a Torre Eiffel, a Basílica do Sacré-Cœur, o bairro de Montmartre e o Palácio de Versalhes, culminando com um cruzeiro no rio Sena. Ao longo desta jornada, estiveram permanentemente acompanhados pelo presidente da Fundação e pela vice-presidente, Marie Morgado, num gesto que evidencia proximidade, compromisso e uma liderança ativa e humanizada.
A iniciativa contou ainda com a participação de diversos membros da comunidade luso-francesa, destacando-se o envolvimento de voluntários da associação Soleils de Paris, presidida pela lusodescendente Eleonor Patrício, que tem desenvolvido um meritório trabalho junto de populações vulneráveis na capital francesa. Este encontro intergeracional constituiu um momento de elevado valor simbólico, evidenciando o papel fundamental dos lusodescendentes na preservação e transmissão de valores culturais, onde os mais idosos assumem um papel insubstituível. A experiência vivida por estes quatro seniores representa, assim, muito mais do que uma viagem: constitui a materialização de um compromisso ético e social que dignifica a diáspora portuguesa. Ao promover o envelhecimento ativo e saudável — um imperativo crescente nas sociedades contemporâneas —, a Fundação Nova Era Jean Pina afirma-se como um exemplo paradigmático da capacidade transformadora das comunidades portuguesas no mundo. Num tempo marcado por desafios sociais complexos, iniciativas desta natureza demonstram que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também ação, responsabilidade e solidariedade concreta. E, neste domínio, o trabalho desenvolvido pela Fundação Nova Era Jean Pina, sob a liderança do seu presidente, constitui um testemunho maior do que de melhor Portugal projeta além-fronteiras.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Bastos apresenta na Califórnia obra de homenagem à emigração portuguesa

No arranque de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realiza um ciclo de apresentações na Califórnia, estado norte-americano com a maior concentração de população de origem portuguesa, para dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa.
O livro, bilingue em português e inglês, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseado num levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, será apresentado em importantes centros da diáspora portuguesa na Califórnia. O ciclo de apresentações percorrerá, no arranque de abril, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como berço e coração da açorianidade na Califórnia, o Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos, e o Museu Histórico de São José, instituição dedicada à preservação e valorização da herança cultural luso-californiana. A 6 de abril, a obra será ainda apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço incontornável da memória histórica e identitária da comunidade luso-americana na segunda maior cidade do estado da Califórnia. O ciclo de apresentações culmina a 8 de abril, às 19h00, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José, que assinala este ano o seu 50.º aniversário. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra é apresentada na sequência de um convite endereçado ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana da Califórnia, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos empreendedores e beneméritos se encontram reconhecidos, respetivamente, com uma estátua e um busto nas ilhas açorianas do Pico e de São Jorge. Associam-se igualmente à iniciativa o comendador Manuel Bettencourt, conselheiro das comunidades portuguesas, Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro constitui um itinerário pela memória da emigração portuguesa. Ao percorrer mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante e distribuídos por todo o território nacional, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo nas comunidades e as dinâmicas da memória coletiva. Particular destaque é conferido à emigração para os Estados Unidos da América, país onde residem atualmente mais de um milhão de luso-americanos, reconhecidos pelo seu nível de integração, espírito empreendedor e contributo económico e sociopolítico. Neste contexto, a numerosa comunidade portuguesa da Califórnia, superior a 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, assume especial relevância pelo papel que tem desempenhado no desenvolvimento tanto das terras de acolhimento como das regiões de origem. Autor de várias obras dedicadas à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e de intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de março de 2026

POSSO: meio século ao serviço da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, maioritariamente oriundos dos arquipélagos nacionais, em particular dos Açores — destaca-se atualmente pela sua plena integração, pelo reconhecido espírito empreendedor e pelo relevante papel económico e sociopolítico que desempenha na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos mais recentes censos norte-americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, concentrados sobretudo nos estados de Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É precisamente neste último estado que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas. A presença portuguesa na Califórnia remonta à centúria oitocentista, associada à corrida ao ouro, à dinamização das atividades ligadas à pesca da baleia e do atum e, posteriormente, ao desenvolvimento da agropecuária. Essa presença secular manifesta-se hoje numa densa rede de associações, clubes, paróquias, organizações cívicas e núcleos museológicos que preservam a memória e dinamizam a vida comunitária. No plano do associativismo social, destaca-se de forma particular a Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), uma instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José.
Fundada em 1976, em San José — cidade que concentra uma relevante comunidade portuguesa da Califórnia e uma das mais expressivas dos Estados Unidos —, a Organização Portuguesa para Serviços e Oportunidades Sociais nasceu com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades das populações de língua portuguesa. Prestes a assinalar meio século de atividade, celebrando o seu 50.º aniversário no próximo dia 28 de março, esta prestigiada instituição sem fins lucrativos consolidou-se como uma verdadeira ponte de solidariedade no seio da comunidade luso-californiana. Ao longo das últimas décadas, tem desenvolvido um conjunto diversificado de iniciativas de caráter social, cultural, recreativo e educativo, que reforçam os laços comunitários e promovem a inclusão social. Entre essas iniciativas assumem particular importância, numa época em que se verifica um progressivo envelhecimento da comunidade portuguesa na América — acentuado pela diminuição dos fluxos migratórios provenientes de Portugal —, os programas dirigidos aos seniores luso-americanos. Muitos deles vivem hoje confrontados com problemas de saúde, solidão, ausência de retaguarda familiar ou dificuldades linguísticas. Neste contexto, a POSSO desenvolve um conjunto relevante de programas de acompanhamento e apoio domiciliário, que incluem serviços de agendamento de consultas, transporte, tradução e interpretação, bem como apoio em matérias administrativas e fiscais. Paralelamente, promove diversas iniciativas orientadas para o bem-estar, a nutrição e a vida ativa dos idosos, como a distribuição de alimentos, a confeção de refeições, a medição da pressão arterial, a realização de rastreios médicos e a organização de oficinas de saúde. Como assinala o estudo sociológico A Emigração Portuguesa no Século XXI, entre 2001 e 2011 a percentagem de idosos entre os emigrantes portugueses residentes nos EUA aumentou sete pontos percentuais, passando de 16% para 23%. O alcance e a eficácia deste trabalho resultam, em grande medida, da generosidade e do espírito de voluntariado que continuam a caracterizar a comunidade portuguesa em San José. Um espírito solidário que constitui, simultaneamente, um sinal de respeito pelo legado das gerações pioneiras, de confiança no presente e de esperança no futuro da comunidade luso-californiana. Graças a esse empenho coletivo, a missão, visão e valores da POSSO estendem-se também a outras comunidades que integram o mosaico multicultural da Califórnia. Importa ainda sublinhar que a ação da POSSO não se limita à dimensão social. A instituição tem igualmente desempenhado um papel relevante na valorização da cultura e da língua portuguesas, nomeadamente através da promoção do ensino do português e do apoio a iniciativas culturais que reforçam a ligação identitária das novas gerações às suas raízes. Ao celebrar cinquenta anos de existência, a POSSO afirma-se, assim, como um exemplo paradigmático do dinamismo associativo da diáspora portuguesa e da sua capacidade de mobilização em torno de valores de solidariedade, cidadania e participação cívica. Mais do que uma instituição de apoio social, a POSSO tornou-se um espaço privilegiado de organização comunitária e de afirmação cultural, onde os membros da comunidade não são meros beneficiários de serviços, mas protagonistas ativos na defesa dos seus direitos e na construção de melhores condições de vida. Num mundo cada vez mais interligado, o percurso da POSSO recorda-nos igualmente o papel estratégico da diáspora na projeção internacional de Portugal. Ao longo de meio século, esta instituição tem contribuído para fortalecer os laços entre Portugal e a Califórnia, afirmando a presença portuguesa como uma realidade dinâmica, empreendedora e solidária no espaço norte-americano. Celebrar os 50 anos da POSSO é, portanto, celebrar também a história, o trabalho e a resiliência de gerações de emigrantes portugueses que, longe da sua terra natal, souberam construir comunidades coesas, afirmar a sua identidade cultural e projetar o nome de Portugal no mundo.

domingo, 8 de março de 2026

Norberto Aguiar: um rosto incontornável do jornalismo português em Montreal

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Tal realidade é amplamente confirmada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, criaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo. Entre os muitos exemplos de dirigentes associativos e promotores da cultura portuguesa na diáspora — hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal — tem-se destacado, ao longo das últimas décadas, o percurso altruísta de Norberto Aguiar em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, no Canadá. Natural da Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores, onde nasceu em 1954, Norberto Aguiar emigrou para o Canadá em 1975, deixando para trás uma promissora carreira futebolística no Clube Operário Desportivo. Partiu não apenas motivado pela presença dos pais no Quebeque, mas também pelo facto de aquela que viria a ser a sua companheira de vida — a também lagoense Anália, mãe das suas três filhas — ter entretanto emigrado para o país norte-americano.
O jovem casal estabeleceu-se em Montreal, a segunda maior cidade do Canadá, onde a comunidade portuguesa e lusodescendente deverá ultrapassar as 60 mil pessoas. Foi aí que Norberto Aguiar iniciou o seu percurso de emigrante, trabalhando numa fábrica têxtil, enquanto concluía os estudos secundários e aprofundava o conhecimento da língua francesa. No ocaso de 1982, regressou aos Açores, já com três filhas, motivado pelo sonho de retomar a carreira futebolística — que lhe valera a alcunha de “Loirinho do Operário” — e de gerir simultaneamente um projeto empresarial na área da restauração. Contudo, o regresso ao torrão arquipelágico revelou-se breve. Cerca de meio ano depois, o casal decidiu regressar ao Canadá, onde, no ano seguinte, fixaria definitivamente o seu projeto de vida. De volta a Montreal, Norberto Aguiar prosseguiu a sua formação e percurso profissional, aprofundando ao mesmo tempo a ligação à comunidade luso-canadiana. Através da dinamização de uma liga de clubes de futebol no Quebeque, reforçou a sua presença no movimento associativo, experiência que viria a conduzi-lo, nessa mesma época, ao mundo do jornalismo, assumindo funções na redação do jornal A Voz de Portugal. A partir de então, tornou-se uma voz inconfundível no panorama da imprensa de língua portuguesa em Montreal. Essa experiência e dedicação levariam a que, cerca de uma década mais tarde, assumisse o papel de editor e proprietário do jornal LusoPresse, publicação que, ao longo das últimas três décadas, se afirmou como um dos mais relevantes órgãos de comunicação social da comunidade portuguesa em Montreal. Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais — muitas vezes sem o devido reconhecimento das autoridades políticas dos países de origem ou de acolhimento — os jornais da diáspora sobrevivem, em grande medida, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Não raras vezes confrontados com crises económicas e desafios financeiros, vários títulos desapareceram ao longo dos anos. Apesar dessas adversidades, o LusoPresse tem resistido e renovado o seu compromisso com a comunidade. Numa época em que vários jornais da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive no Canadá, o periódico liderado por Norberto Aguiar constitui um exemplo genuíno de dedicação e serviço público. Através de uma informação de proximidade, constrói pontes entre a comunidade luso-canadiana, atenua a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural e contribui para projetar Portugal — e, de modo muito particular, os Açores — na sociedade canadiana. Essa projeção tem sido amplificada na última década pelo trabalho de uma equipa dedicada, onde se destacam nomes como o diretor do LusoPresse, Carlos de Jesus, ou o professor Joaquim Eusébio, que fazem da missão jornalística uma verdadeira vocação ao serviço da comunidade. Para além da imprensa escrita, Norberto Aguiar tem igualmente desenvolvido um relevante trabalho no campo audiovisual, enquanto produtor, realizador e proprietário do programa televisivo semanal LusaQ TV, que tem levado a atualidade lusófona às casas de milhares de famílias em Montreal. Colaborador de diversos órgãos de comunicação social em Portugal e no Canadá, o jornalista lagoense tem sido também um incansável promotor do associativismo luso-canadiano e de múltiplas iniciativas ligadas à identidade e à memória da comunidade portuguesa. Entre elas, destacam-se projetos de promoção da açorianidade, como a implementação do Parque dos Açores, em Montreal, ou a geminação entre os municípios da Lagoa e de Sainte-Thérèse. Não por acaso, o seu percurso de vida, marcado pelo altruísmo e pela dedicação à comunidade, tem sido amplamente reconhecido. Norberto Aguiar foi já distinguido com a Medalha da Assembleia Nacional do Quebeque, com a Medalha da Câmara Municipal da Lagoa e com diversas homenagens no seio da comunidade portuguesa. Mais recentemente, no passado mês de fevereiro, foi agraciado com o “Prémio Portugalidade”, atribuído na XXI Gala do Jornal Audiência, em Vila Nova de Gaia, distinção que reconhece “a dedicação, a persistência e o facto de levar além-fronteiras a voz da diáspora portuguesa”. Um reconhecimento inteiramente justo para quem tem feito do jornalismo uma missão cívica ao serviço da comunidade, dando assim pleno sentido à célebre e intemporal visão de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso.”

domingo, 1 de março de 2026

Casa dos Açores de Hilmar: um pilar da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se intensificou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, essencialmente oriundos dos arquipélagos dos Açores e da Madeira — destaca-se hoje pela sua plena integração, inegável espírito empreendedor e relevante papel socioeconómico e cultural na principal potência mundial. Segundo os dados mais recentes dos censos norte-americanos, residem atualmente nos EUA mais de um milhão de luso-americanos. Só no estado mais populoso do país, a Califórnia, vivem mais de 300 mil, na sua maioria de origem açoriana. Muitos trabalham por conta de outrem, designadamente na indústria, embora sejam também numerosos os que exercem atividade no setor dos serviços ou se distinguem nas áreas científica e académica, nas artes, nas profissões liberais e na vida política. No seio das numerosas comunidades luso-americanas da Califórnia — o estado com maior concentração de diáspora portuguesa nos EUA — proliferam dezenas de associações recreativas e culturais, órgãos de comunicação social, clubes desportivos e sociais, fundações educativas, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais, sociedades de beneficência e instituições religiosas. Existem igualmente espaços museológicos que preservam e divulgam a herança cultural portuguesa, como o History San José e o Portuguese Historical Center. Entre as associações recreativas e culturais que mais têm contribuído, nas últimas décadas, para a dinamização da açorianidade e da portugalidade na Califórnia, destaca-se, de forma inequívoca, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, um dos mais tradicionais e relevantes polos da emigração portuguesa naquele estado. Fundada em 1977, a instituição assumiu, desde a sua génese, como objetivos centrais o fortalecimento da identidade e da memória cultural açoriana, em particular, e portuguesa, em geral, através da música, do desporto, da literatura e da recriação de tradições religiosas, como as celebrações do Espírito Santo. Recentemente, a Casa dos Açores de Hilmar — membro do Conselho Mundial das Casas dos Açores — deu um passo decisivo para honrar o passado, valorizar o presente e projetar o futuro, com o lançamento da primeira pedra da sua nova sede. Trata-se de um espaço orçado em vários milhões de dólares, cuja empreitada foi oficialmente autorizada no final do mês de fevereiro e cuja conclusão está prevista para o final do próximo ano. O novo edifício funcionará como um moderno centro cultural multifuncional, apto a acolher festividades e uma vasta gama de iniciativas, como exposições, concertos, eventos literários, colóquios, programas intergeracionais, encontros sociais e celebrações comunitárias. Este passo constitui simultaneamente um sinal de confiança no presente e no futuro do associativismo luso-californiano, que enfrenta hoje desafios complexos, designadamente o envelhecimento dos seus quadros dirigentes. Com efeito, nas últimas décadas, a América do Norte — Estados Unidos e Canadá — deixou de ser destino prioritário da emigração portuguesa, o que tem repercussões naturais na renovação geracional das estruturas associativas. O futuro do associativismo luso-californiano, à semelhança do que sucede no restante espaço norte-americano, passará inevitavelmente pela diversificação das atividades de animação sociocultural, conciliando a matriz tradicional que sustenta o movimento associativo com novas expressões contemporâneas — como o cinema, a literatura, o design, a dança, o teatro ou a moda — capazes de mobilizar as gerações mais jovens de lusodescendentes, autênticos garantes da continuidade da presença portuguesa. Nesse contexto, a Casa dos Açores de Hilmar afirma-se como um exemplo paradigmático do caminho a trilhar. Nas recentes festividades carnavalescas promovidas pela associação, atuaram e desfilaram dezenas de crianças e jovens lusodescendentes nas áreas da música, do teatro e da dança, perante centenas de convidados e associados, revelando uma vitalidade que constitui motivo de legítima esperança quanto à preservação e renovação das tradições ligadas à açorianidade e à portugalidade na Califórnia.
O passado, o presente e o futuro da Casa dos Açores de Hilmar encontram expressão simbólica na conjugação de experiência e renovação que marca a sua liderança. De um lado, o jovem lusodescendente George Costa Jr., presidente da instituição; do outro, o seu vice-presidente, o comendador Manuel Eduardo Vieira, figura destacada da comunidade portuguesa na Califórnia. A articulação entre a energia transformadora da juventude e a memória acumulada de quem construiu o percurso associativo ao longo de décadas revela-se decisiva: é nesse diálogo intergeracional — entre inovação e experiência, entre continuidade e visão estratégica — que reside a garantia de um futuro sólido para a presença portuguesa na Califórnia e, mais amplamente, na América do Norte.