Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
domingo, 17 de maio de 2026
António Pargana: visão empresarial, diáspora e compromisso com Portugal
Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua notável capacidade empreendedora, como o demonstram as trajetórias de inúmeros compatriotas que fundaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político.
Entre os muitos exemplos de portugueses da diáspora que hoje são reconhecidos como ativos estratégicos na projeção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador de António Pargana, um dos mais destacados empresários luso-brasileiros da atualidade.
Nascido no Porto, cidade onde o pai concluía o curso de Engenharia Civil, mas com raízes familiares em Silves, no Algarve, António Pargana mudou-se, aos quatro anos de idade, para o vale do Limpopo, em Moçambique, então província ultramarina portuguesa. O pai integrou as obras de irrigação destinadas à instalação de um colonato agrícola promovido pelo Estado português, numa experiência que marcou os primeiros anos de vida da família.
António Pargana - ©Fundação António Pargana
Cinco anos depois, novos desafios profissionais levaram a família Pargana a regressar a Portugal. António concluiu o ensino secundário no Liceu Camões e ingressou posteriormente no Instituto Superior Técnico. Contudo, cedo percebeu que a engenharia não correspondia plenamente à sua vocação. Também a passagem pela área da gestão empresarial foi breve, optando, no início da década de 1970, por seguir novamente os passos africanos do pai, desta vez em Luanda, onde se matriculou na Faculdade de Engenharia.
Foi precisamente nesse período, ainda enquanto estudante, que surgiu a sua primeira experiência empresarial, através da comercialização da Grande Enciclopédia Luso-Brasileira. Entretanto, o contexto da Guerra do Ultramar, iniciada uma década antes em Angola, conduziu à sua mobilização militar para Nova Lisboa, atual Huambo, circunstância que acabou por impedir, uma vez mais, a conclusão do curso superior.
Em 1973, com apenas 23 anos, casou-se com Maria das Dores, sua companheira de vida, então estudante da Faculdade de Medicina de Luanda. Após a Revolução de Abril e a consequente desmobilização militar, António Pargana iniciou uma nova etapa profissional como diretor comercial do aviário Avicuca, empresa responsável pelo abastecimento de produtos avícolas à capital angolana.
Todavia, a escalada de violência decorrente da disputa pelo poder entre os movimentos de libertação conduziu o casal ao regresso a Portugal, em 1975. Ainda nesse ano, perante a instabilidade política e a escassez de perspetivas profissionais, António Pargana decidiu partir para o Brasil, país que acolhe a maior comunidade portuguesa e lusodescendente da América Latina. Em 1976, o casal estabeleceu-se definitivamente em São Paulo.
Iniciava-se então uma etapa decisiva da sua vida. Com extraordinária capacidade de trabalho, determinação e espírito de superação, Maria das Dores especializou-se em Pediatria, exercendo funções em vários hospitais paulistas. Já António Pargana, com apenas 26 anos e cerca de 500 dólares no bolso, lançou-se no setor do comércio internacional, construindo, a partir da maior metrópole da América Latina, um percurso empresarial verdadeiramente notável. Foi também em São Paulo que nasceram os seus filhos, Mariana e Francisco.
Com participações e investimentos em empresas ligadas aos setores energético e portuário, António Pargana fundou, em 1994, a Cisa Trading S.A., que se viria a afirmar como uma das maiores empresas de comércio internacional do Brasil. A empresa alcançou volumes de negócios de 8,7 mil milhões de reais em 2012, 8,01 mil milhões em 2013 e cerca de 9,6 mil milhões em 2015, envolvendo centenas de milhares de operações de importação e exportação.
Paralelamente, assumiu funções em diversas organizações empresariais, entre as quais a Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil — São Paulo, histórica associação dedicada à promoção das relações económicas entre Portugal e o Brasil, que presidiu entre 2005 e 2009.
Apesar da sólida implantação empresarial no Brasil, António Pargana nunca perdeu a ligação a Portugal. Pelo contrário, os laços ao país intensificaram-se ao longo das últimas décadas, através de investimentos estratégicos e de um compromisso permanente com a valorização da presença portuguesa no mundo. Um dos exemplos mais relevantes ocorreu em 2015, quando, através da Global Roads, investiu, com dois parceiros, cerca de 770 milhões de euros na Brisa, assegurando um terço do capital da principal operadora de infraestruturas rodoviárias portuguesa.
Essa ligação profunda ao país e à diáspora portuguesa motivou igualmente a criação, em 2023, da Fundação António Pargana, sediada em Lisboa. A instituição nasceu com o propósito de promover o conhecimento da história, da cultura e da capacidade científica e tecnológica de Portugal, reforçando simultaneamente a ligação entre a diáspora, os seus descendentes e o país de origem. A Fundação procura, em particular, aproximar as novas gerações lusodescendentes da realidade contemporânea portuguesa, contribuindo para consolidar uma consciência identitária mais forte e informada.
Ao longo do seu percurso, António Pargana recebeu diversas distinções e reconhecimentos públicos. Entre eles destaca-se o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído em 2015 pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, bem como o prémio “Empresário da Diáspora”, recebido recentemente na Gala do Fórum Portugal Nação Global, das mãos de Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
O percurso singular de António Pargana constitui um exemplo maior da capacidade transformadora da diáspora portuguesa e da sua relevância estratégica para a afirmação de Portugal no mundo. A sua trajetória demonstra como visão empresarial, resiliência e sentido de pertença podem convergir numa ação concreta de aproximação entre países, economias e comunidades. Num tempo em que Portugal procura reforçar a sua presença global, figuras como António Pargana revelam a importância de uma diáspora dinâmica, influente e profundamente comprometida com as suas raízes, capaz de projetar o nome de Portugal muito para além das suas fronteiras.
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