Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 18 de julho de 2026

Viana do Castelo acolheu apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia

No passado sábado, 18 de julho, foi apresentado, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, o livro Portugal: da Ditadura à Democracia, da autoria do historiador da diáspora Daniel Bastos, concebido a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos mais relevantes nomes do fotojornalismo português. A obra reúne um valioso conjunto de imagens captadas por Marques Valentim, fotógrafo que acompanhou alguns dos momentos mais marcantes da história contemporânea portuguesa, documentando, com singular sensibilidade e rigor, o processo de transição da ditadura para a democracia e a consolidação do regime democrático. A sessão, promovida pelo Centro de Estudos Regionais (CER), instituição dedicada ao estudo, à investigação, à preservação e à divulgação dos valores históricos, artísticos, antropológicos, culturais, socioeconómicos, científicos e paisagísticos do Minho, reuniu antigos combatentes e emigrantes, dirigentes associativos, académicos, representantes da comunicação social regional e personalidades da comunidade local. A apresentação esteve a cargo de Licínio Rego, Diretor do Serviço de Cirurgia Geral da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, que destacou o valor histórico, documental e pedagógico da obra, salientando o seu papel na valorização do conhecimento sobre o processo de transição democrática portuguesa. Sublinhou, igualmente, que as imagens de Marques Valentim convidam à reflexão sobre os caminhos percorridos pela sociedade portuguesa na construção da democracia e sobre os desafios que se colocam às gerações presentes e futuras na salvaguarda desse legado.
Mesa de honra da sessão de apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia, realizada na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Da esquerda para a direita: o historiador da diáspora Daniel Bastos, o Presidente do Centro de Estudos Regionais (CER), Armando Borlido, e o Diretor do Serviço de Cirurgia Geral da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, Licínio Rego. Editado em versão bilingue (português e inglês), com tradução de Paulo Teixeira e o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, o livro dá a conhecer um espólio fotográfico de inegável valor histórico. Ao longo de mais de duas centenas de fotografias emblemáticas, entre imagens pouco divulgadas e registos inéditos, Marques Valentim retrata alguns dos acontecimentos e protagonistas mais marcantes da sociedade portuguesa da segunda metade do século XX. A partir destas memórias visuais, a obra percorre episódios determinantes da história contemporânea nacional. Das vivências da Guerra Colonial em Moçambique ao processo de integração dos chamados “retornados” após a Revolução de 25 de Abril de 1974, passando pelos principais acontecimentos do período revolucionário, como o 11 de Março, o Verão Quente e o 25 de Novembro, o livro constitui um testemunho visual de excecional valor histórico. As fotografias documentam ainda as profundas transformações da sociedade portuguesa, revelando figuras da vida política e do processo de integração europeia, bem como o quotidiano de trabalhadores, famílias, comunidades do Portugal profundo e emigrantes que partiram em busca de melhores condições de vida, preservando a dimensão humana da construção da democracia. A apresentação em Viana do Castelo integrou o roteiro nacional e internacional de divulgação de Portugal: da Ditadura à Democracia. Desde o seu lançamento, no passado mês de junho, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa, a obra tem sido apresentada em várias cidades portuguesas e junto de comunidades da diáspora, nomeadamente em Toronto, no Canadá, afirmando-se como um relevante testemunho para a compreensão da memória histórica, a valorização do património democrático português e o reforço dos laços culturais entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Abade Correia da Serra: pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos

No passado dia 4 de julho assinalou-se o Dia da Independência dos Estados Unidos da América (EUA), o mais emblemático feriado nacional norte-americano, que evoca a adoção da Declaração de Independência, em 1776, quando as Treze Colónias proclamaram formalmente a sua separação do Império Britânico. No ano em que os Estados Unidos celebram o 250.º aniversário da sua fundação, a efeméride constitui um oportuno pretexto para revisitar alguns dos momentos fundadores das relações entre Portugal e a América. Um vínculo histórico particularmente relevante para os portugueses, cuja comunidade nos EUA se distingue, desde há gerações, pelo espírito empreendedor, pelo dinamismo associativo e pelo forte sentido de solidariedade, contribuindo de forma exemplar para prestigiar Portugal além-fronteiras. Importa recordar que Portugal foi o terceiro país a reconhecer formalmente a independência dos Estados Unidos, em 1783, circunstância que explica por que razão as relações diplomáticas entre os dois países figuram entre as mais antigas e duradouras da história norte-americana. Nas primeiras páginas desta relação bicentenária destaca-se a figura singular do Abade Correia da Serra, uma das personalidades mais notáveis da ciência, da cultura e da diplomacia portuguesas e o primeiro representante diplomático de Portugal junto dos Estados Unidos. Natural de Serpa, José Francisco Correia da Serra (1751-1823) partiu ainda criança para Itália com a família, de origem cristã-nova, procurando escapar à perseguição da Inquisição. Entre Nápoles e Roma recebeu uma sólida formação intelectual, estudando com o economista António Genovesi e contactando com Luís António Verney, um dos maiores expoentes do Iluminismo português, que despertou nele o interesse pelas ciências naturais.
Abade Correia da Serra (1751–1823) Licenciado em Direito Canónico, abraçou a vida religiosa e estabeleceu amizade com D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões. Regressado a Portugal em 1778, fundou, no ano seguinte, com o Duque de Lafões, a Real Academia das Ciências de Lisboa, instituição decisiva para o desenvolvimento científico e cultural do país. As suas convicções iluministas, a proximidade à Maçonaria e a simpatia pelas Revoluções Americana e Francesa tornaram-no alvo de crescente hostilidade política. Em finais do século XVIII fixou-se em Londres, onde exerceu funções na legação portuguesa e consolidou o seu prestígio internacional como botânico, publicando estudos científicos nas mais prestigiadas sociedades científicas britânicas. Em 1802 transferiu-se para Paris, onde conviveu com algumas das maiores figuras da ciência europeia, entre as quais Antoine Laurent de Jussieu, Alexander von Humboldt e Georges Cuvier. Nove anos mais tarde, recusando colaborar com a política napoleónica durante as invasões francesas de Portugal, partiu para os Estados Unidos. Na América encontrou o ambiente ideal para desenvolver a sua atividade científica e intelectual. O prestígio internacional de que já gozava, aliado às cartas de recomendação dirigidas ao Presidente James Madison e a Thomas Jefferson por personalidades como o Marquês de Lafayette, abriu-lhe as portas da elite política e académica norte-americana. Tornou-se membro da American Philosophical Society, colaborou com a Universidade da Pensilvânia e cultivou uma estreita amizade com vários estadistas americanos. A ligação a Thomas Jefferson foi particularmente significativa. Com o terceiro Presidente dos Estados Unidos trocou mais de uma centena de cartas e foi presença frequente em Monticello, na Virgínia. Ainda hoje é possível visitar naquela residência histórica o quarto reservado ao seu hóspede português — "The Abbé's Room" — testemunho da estima que unia os dois homens. Em 1816, Correia da Serra foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Washington, tornando-se o primeiro representante diplomático permanente português junto dos Estados Unidos. O conhecimento profundo que possuía da realidade americana e a proximidade às principais figuras da jovem República permitiram-lhe desempenhar um papel relevante na consolidação das relações bilaterais durante um período decisivo da política externa norte-americana. Regressado a Portugal na sequência da Revolução Liberal de 1820, foi eleito deputado às Cortes Constituintes pelo círculo de Beja, colocando a sua vasta experiência internacional ao serviço da construção do Portugal liberal. Viria a falecer nas Caldas da Rainha, em 1823, deixando uma obra científica, diplomática e intelectual que ultrapassou largamente as fronteiras nacionais e projetou o nome de Portugal nos mais prestigiados meios académicos e políticos do seu tempo. Mais de dois séculos depois, o Abade Correia da Serra permanece como uma das figuras mais notáveis da história contemporânea portuguesa. Cientista de renome internacional, diplomata, intelectual cosmopolita e homem de diálogo entre povos e culturas, foi igualmente um pioneiro da presença portuguesa nos Estados Unidos, muito antes das grandes vagas migratórias que marcaram a emigração portuguesa dos séculos XIX e XX. O seu percurso evidencia que os laços entre Portugal e a América nasceram também do intercâmbio de conhecimento, da diplomacia e da circulação de ideias, encontrando nele um dos seus mais lúcidos promotores. Evocar a sua memória é reconhecer uma personalidade ímpar, precursora da afirmação portuguesa nos Estados Unidos e uma das figuras que contribuíram para consolidar as históricas relações de amizade, cooperação e entendimento entre Portugal e a nação norte-americana.