Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

terça-feira, 19 de abril de 2022

John Dos Passos: um escritor americano orgulhoso das suas raízes madeirenses

 

Um dos mais importantes escritores modernistas norte-americanos, John Dos Passos (1896-1970), nunca escondeu ao longo da sua renomada carreira literária o carinho e orgulho pelas suas raízes familiares madeirenses.

As origens lusas do autor de Manhattan Transfer e U.S.A. Trilogy, livros marcantes da América da primeira metade do século XX, descendem de Manuel Joaquim dos Passos, avô paterno do afamado escritor, natural da vila madeirense de Ponta do Sol, onde nasceu em 1816.

Manuel Joaquim dos Passos emigrou aos 14 anos de idade para os Estados Unidos da América (EUA), tendo-se radicado em Filadélfia, cidade da Pensilvânia, onde contraiu matrimónio com a americana Ann Cattel. Dessa união nasceram vários filhos, entre eles, um prestigiado advogado, John Randolph dos Passos (1844-1917), pai do escritor americano de origem portuguesa que em 1936, no auge da fama, chegou a ser capa da revista Time.

Amigo de Ernest Hemingway e de outros grandes nomes da literatura mundial, Jonh Dos Passos, que acompanhou as tropas americanas durante a Primeira Guerra Mundial como condutor de ambulâncias, e trabalhou como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial, visitou a ilha da Madeira em três ocasiões.

A primeira, ainda em criança, no ano de 1905, acompanhado pelo seu pai, como o mesmo refere na introdução do seu livro The Portugal Story: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai, embora falasse apenas um pouco de francês, além do inglês, nunca se esqueceu de que era meio português. Tinha oito anos quando ele me levou ao Funchal. Lembro-me das visitas de um primo idoso que me dava, no jardim do velho Reid's Hotel, uma lição diária de latim”.

A segunda visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1921, onde em trânsito a caminho de Lisboa, passeou pelo Funchal relembrando as raízes humildes do seu avó paterno que fora sapateiro no torrão natal. Mais tarde, em 1960, voltou a visitar a pérola do Atlântico, desta feita, acompanhado pela mulher, Elizabeth Hamlin Dos Passos, e a filha Lucy dos Passos Coggin, onde foram recebidos pelos familiares e autoridades locais.

No então discurso que realizou em agradecimento à homenagem que recebeu na Ponta do Sol, no decurso dessa terceira e última visita à região arquipelágica, John dos Passos exporia: Desculpem eu não falar a língua dos meus avós. Como sabem o meu avô deixou a Ponta do Sol há muito mais de cem anos. É deveras enternecedor para mim ser recebido com tão grandeza gentileza e consideração. [...]. Mais tarde o meu pai tornou-se cada vez mais interessado a respeito da Madeira e das suas raízes portuguesas. Quando eu tinha oito anos trouxe-me, por algumas semanas ao Funchal. Assim quando aqui cheguei há dias reconheci os rochedos cor púrpura, o mar azul, os mergulhadores e as pequenas lagartixas que correm através dos jardins do Reid’s Hotel. Recordo amável hospitalidade de amigos e parentes da Madeira.

A ligação estreita de John Dos Passos com a terra do avô paterno é desde o alvorecer do séc. XXI, preservada e dinamizada pelo Centro Cultural John dos Passos, fundado em homenagem ao escritor americano com raízes lusas e localizado no centro da vila da Ponta do Sol.

Atualmente, a instituição que acolhe exposições temporárias, seminários e conferências, com destaque particular para o simpósio anual dedicado a John dos Passos, possui uma sala de exposição permanente dedicada ao escritor, dois espaços museológicos, uma biblioteca, que apresenta a extensa obra do autor, e um auditório onde se desenvolvem as mais variadas atividades culturais como a música, a dança e o teatro.

A ligação do escritor norte-americano à terra de origem dos seus antepassados está ainda simbolicamente inscrita desde 2016 no nome de um dos aviões da TAP, companhia área portuguesa que atravessa o Atlântico para os EUA. Época em que Secretaria Regional de Turismo e Cultura da Madeira assumiu a responsabilidade do Prémio John Dos Passos, instituído com a finalidade de
homenagear o escritor homónimo e difundir a sua obra, rememorar as suas ancestrais ligações à Região e, simultaneamente incentivar a produção literária e a investigação histórico-literária.

 

domingo, 10 de abril de 2022

MOVES - Migração e Modernidade: Desafios Históricos e Culturais

 

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico dedicado às migrações em Portugal tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto diversificado de documentos que ampliam o estudo e conhecimento sobre este fenómeno.

Neste conjunto de trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se livros, capítulos de livros, artigos em revistas científicas, artigos em atas de congressos, conferências e outros tipos de encontros científicos, relatórios, assim como dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento. 

No âmbito dos cursos de 3.º ciclo (doutoramento) que se têm debruçado sobre esta importante temática, destaca-se desde 2019 o Programa Doutoral MOVES - Migração e Modernidade: Desafios Históricos e Culturais. Um projeto conjunto da Universidade do Porto e de mais quatro universidades europeias (Universidade Carolina de Praga, Universidade Paul Valéry de Montpellier, Universidade Livre de Berlim e Universidade de Kent).

Dotado pela Comissão Europeia com um financiamento de 3,9 milhões de euros, o programa MOVES propõe-se a promover uma análise histórica dos movimentos populacionais do passado para contextualizar a atual crise de migração, através da realização de estudos comparativos. O objetivo principal é envolver especialistas das Humanidades e das Ciências Sociais  na definição e disseminação de soluções inovadoras que apoiem a resposta dada pelos países nas questões prementes relacionadas com a gestão da migração.

Uma das particularidades do projeto é que para além das cinco universidades envolvidas, o MOVES conta com 18 parceiros não-académicos, incluindo organizações não-governamentais, associações de solidariedade e indústrias criativas. Como é o caso, do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, um espaço museológico percursor no seu género em Portugal, que assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa.

Na esteira, do acordo firmado entre o Museu das Migrações e das Comunidades, e o programa MOVES, a cidade minhota foi palco no início deste mês da apresentação de dois trabalhos académicos sob a coordenação de Rui Carvalho Homem (do Departamento de Estudos Anglo-Americanos da FLUP), e que estiveram a cargo da doutoranda Naiara Rodriguez-Pena (Universidade de Kent e Universidade Paul Valéry de Montpellier), que investiga “A influência de ideias e memórias do passado nas aspirações migratórias”. E da doutoranda Viktoryia Vaitovich (Universidade Paul Valéry de Montpellier / Universidade do Porto) que aborda as distintas vagas da emigração portuguesa, perspetivadas a partir da "teoria do sistema-mundo" de Immanuel Wallerstein, sob o título “De emigrantes para imigrantes: mudança na emigração em Portugal como consequência das relações centro-periferia”.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que as novas realidades geopolíticas, tecnológicas e humanitárias colocam vários desafios às sociedades e consequentemente às instituições, este exemplo de estreita cooperação do estudo académico com a sociedade civil, mostra como é possível colocar o conhecimento ao serviço das populações. E desenvolver, em conjunto, competências específicas na área do conhecimento sobre as migrações a quem pretende seguir uma carreira académica, ao nível do ensino ou da investigação. 

sábado, 9 de abril de 2022

Daniel Bastos lança livro de crónicas sobre Comunidades, Emigração e Lusofonia

 No próximo dia 22 de abril (sexta-feira), o escritor e historiador Daniel Bastos apresenta em Lisboa, o seu mais recente livro intitulado Comunidades, Emigração e Lusofonia”.

Autor - Daniel Bastos

 

A obra, que reúne as crónicas que o historiador tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, é apresentada às 17h30, na Sociedade de Geografia de Lisboa, no decurso de uma cerimónia pública de homenagem a Gérald Bloncourt. Fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa e os primeiros dias da Revolução de Abril, e com quem Daniel Bastos realizou os livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”.

Capa do Livro

 

A apresentação da obra, que é prefaciada por Luís Marques Mendes, e conta com posfácios de Maria Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, e de Isabelle Oliveira, Presidente do Instituto do Mundo Lusófono, estará a cargo do conhecido advogado e comentador.

Neste novo livro, composto por cerca de centena e meia de crónicas e realizado com o apoio da Sociedade de Geografia de Lisboa - Comissão de Migrações, uma das mais relevantes instituições culturais do país, Daniel Bastos pretende dignificar, reconhecer e valorizar as sucessivas gerações de compatriotas que, por razões muito diversas, saíram de Portugal. 

Convite

 

Através de uma assumida visão de compromisso com os emigrantes, o historiador revela o empreendedorismo, as contrariedades, a resiliência e a solidariedade das comunidades portuguesas, a riqueza do seu movimento associativo, e as enormes potencialidades culturais, económicas e políticas que as mesmas representam nas pátrias de acolhimento e de origem. Uma visão que para o autor “emanando do legado histórico português, antevê os emigrantes como argonautas indispensáveis ao desígnio nacional de desbravar os mares desconhecidos do futuro, e antepara a Lusofonia como um espaço indispensável para a afirmação de Portugal no concerto das Nações”.

Sobre Daniel Bastos, escreve no prefácio Marques Mendes: “Uma das facetas mais marcantes da sua personalidade tem a ver com a colaboração estreita que mantém nos últimos anos com a imprensa local, regional e da diáspora. Aí o autor evidencia a sua especial sensibilidade – a paixão que nutre pelas comunidades portuguesas dispersas pelo mundo, o empenho que dispensa ao ideal da lusofonia, o sentido estratégico que retira da nossa diáspora, a mais-valia estruturante que vê, e bem, nos vários Portugais que compõem Portugal”.

Para o conhecido advogado e comentador, este livro é “o espelho da homenagem que Daniel Bastos quer prestar aos milhões de portugueses que, fora do nosso país, honram, servem e prestigiam Portugal. E fá-lo como deve ser: com simplicidade e com verdade, com entusiasmo e com realismo, com autenticidade e com pragmatismo, com respeito pelo passado mas sem descurar a ambição do futuro”.

Refira-se que a edição da obra, cuja capa é assinada pelo mestre-pintor Orlando Pompeu, um dos mais consagrados artistas plásticos nacionais da atualidade, deveu-se em grande parte ao mecenato de empresas e instituições da Diáspora que partilham uma visão de responsabilidade social e um papel de apoio à cultura, e que ao longo do ano estão previstas várias sessões de apresentação do livro junto das comunidades portuguesas.

Apoios

 

Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos, é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

domingo, 3 de abril de 2022

Brasileiros em Portugal – de volta às raízes lusitanas

 Numa época em que o número de imigrantes brasileiros em Portugal bate recordes, dados divulgados no início deste ano pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) apontam para um aumento de 13,6% em relação a 2020, ou seja, neste momento a comunidade brasileira em terras lusitanas é composta por mais de 200 mil pessoas, números que a elevam a maior comunidade imigrante em Portugal, a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) analisou há pouco tempo este fenómeno no livro Brasileiros em Portugal – de volta às raízes lusitanas.

Escrito pelos investigadores Alanni Barbosa e Álvaro Lima, a obra com a chancela da FUNAG, um dos principais centros brasileiros de estudos e divulgação de documentos e notícias sobre relações internacionais, divulga dados importantes sobre o fenómeno migratório entre o Brasil e Portugal.

O livro analisa a relação interdependente entre as nações irmãs, permeada pela migração dos seus povos ao longo do decurso histórico. No caso concreto do fluxo migratório do Brasil para Portugal, a partir de 2010, a publicação destaca a “emigração brasileira em grande escala”, impulsionada por aspetos de atração de Portugal e de fatores de repulsão do Brasil, que vivencia “severos problemas econômicos e
sociais”.

Segundo os autores, a “população migrante brasileira, diferentemente de outros grupos, não é expulsa de sua terra natal por tragédias climáticas, conflitos humanitários, pobreza absoluta ou guerras”, os emigrantes brasileiros “buscam, em grande maioria, melhores condições de vida para si e para seus familiares”.

Malgrado as causas da imigração brasileira, Portugal, tradicionalmente país de emigração, encontra por via da dinâmica migratória brasileira das últimas décadas, uma oportunidade singular de desenvolvimento, de inversão do paradigma da balança migratória e do processo acentuado de envelhecimento da população.

Um desses melhores exemplos de oportunidades e potencialidades encontra-se plasmado na cidade de Braga, no norte de Portugal, que em contraciclo com a tendência nacional, tem vindo a crescer em termos populacionais. Atualmente com mais de 193 mil habitantes, segundo dados preliminares dos Censos 2021, a também conhecida como “cidade dos arcebispos”, assistiu na última década a um crescimento de 137% da população brasileira, passando a comunidade brasileira local de 2596 para 6168 pessoas.

Conhecida como o "novo eldorado dos brasileiros", a capital do Baixo Minho, fruto do fluxo migratório canarinho, não obstante o mesmo ter contribuído para uma crescente inflação da procura de imóveis e do preço das rendas, tem assistido ao incremento de vários negócios de brasileiros e a um reforço da mão obra que escasseia no mercado.

Como sustenta, Ana Sofia Santos Quintino, na tese Efeitos demográficos e económicos das migrações em Portugal: o caso da Segurança Social, os efeitos da dinâmica migratória no território nacional, como é o caso do fenómeno brasileiro em Braga, são do ponto de vista demográficos “positivos, contribuindo para atenuar os efeitos do envelhecimento e do declínio populacional. Em relação à evolução futura do subsistema de pensões de velhice conclui-se que os saldos financeiros em percentagem do Valor Acrescentado Bruto da economia são menos negativos quando se considera o contributo das migrações do que na ausência da dinâmica migratória”.