Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Paul Pereira: um dedicado “mayor” luso-americano em Nova Iorque

 

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças à capacidade de trabalho e de mérito, destaca-se o percurso inspirador e dedicado de Paul Pereira, professor de História e atual “mayor”, presidente do município de Mineola, no estado de Nova Iorque.

Natural da localidade de Veiros, concelho de Estarreja, Paulo Pereira emigrou no final da década de 1970 para a América, com 6 anos de idade, na companhia dos pais e irmãos, na esteira de milhares de patriotas em demanda de melhores condições de vida.

O sentido de esforço, trabalho e dedicação, valores coligidos no seio familiar, impulsionaram durante a adolescência o jovem estarrejense a encetar em Mineola, no estado de Nova Iorque, uma sustentada formação académica no campo da História na Adelphi University e no Queens College. Assim como uma devotada carreira no ensino da História, mormente na Mineola High School, enobrecida com uma abnegada dedicação ao associativismo luso-americano.

 Premissas que lhe franquearam as portas do mundo da política autárquica na pátria de acolhimento, e que culminou no decurso do ano transato com a sua eleição como presidente da vila de Mineola, uma área suburbana nova-iorquina que alberga uma população de 20 mil habitantes, entre eles, cerca de 20% portugueses e lusodescendentes.

Radicado há mais de quarenta anos nos EUA, o percurso profissional, cívico e político do primeiro luso-americano “mayor” em Nova Iorque, é reconhecido pela comunidade a quem devota um profundo sentido de serviço público, por manifestar constantemente um espírito abnegado de dedicação, entreajuda e proximidade.

Casado e pai de três filhos, o sucesso que o professor, dirigente associativo e político luso-americano alcançou ao longo dos últimos anos, tem sido acompanhado de uma notória sensibilidade com a preservação do passado, os desafios do presente e a futura matriz cultural e identitária da comunidade portuguesa em Mineola. Concomitantemente, não esquece também as suas raízes, regressando amiudadamente a Veiros, para onde retornaram os pais já há vários anos, transmitindo com reiterado orgulho os costumes e tradições das gentes do torrão natal aos seus descendentes.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de Paul Pereira, recorda-nos a interpelação de Nelson Mandela, símbolo cimeiro dos direitos humanos no século XX: “Será que alguém pensa genuinamente que se não conseguiu algo foi por não ter tido o talento, a força, a resistência e a determinação nesse sentido?”.

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Práticas e Políticas – Inspiradoras e Inovadoras com Imigrantes

 

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o conhecimento sobre a história da emigração lusa. E da imigração em Portugal, ou não se tivesse tornado, nas últimas décadas, o nosso país num destino de eleição para milhares de estrangeiros.

Um dos exemplos mais recentes que asseveram a importância destas obras na análise e retrato de um Portugal migrante encontra-se vertido no livro “Práticas e Políticas Inspiradoras e Inovadoras com Imigrantes”. 


A obra, lançada no ocaso do ano transato no âmbito da conferência internacional “Ir Além - A inclusão de imigrantes NPT”, promovida pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Portalegre, é coordenada pelas investigadoras da instituição pública de Ensino Superior da sub-região do Alto Alentejo. Prefaciada pelo antigo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, o livro conta com doze capítulos assinados por vários cientistas sociais, nomeadamente: Ana Couteiro, Ana Maria Vieira, António Augusto Montenegro, Catarina Brandão, Catarina Reis Oliveira, Daniel Bastos, Elisete Diogo, F. Javier Garcia Castaño, Gloria Calabresi, Hélia Bracons, Isabel Ferreira, Joana Guimarães, José Carlos Marques, Karl Hedman, Luisa Desmet, Luiza Mira, Marina Montenegro, Mário Ribeiro, Marta Zornoza Madrid, Paula Sousa, Pedro Góis, Raquel Melo, Ricardo Vieira, Sónia P. Gonçalves e Valdemiro Duarte.

Embrenhando-se na relação entre a inclusão social de imigrantes nacionais de países terceiros (NPT) e o desenvolvimento de territórios de baixa densidade, com vista a contribuir para a prática e para a política pública. A obra, que acaba de dar à estampa com a chancela das Edições Esgotadas, nas palavras das suas organizadoras, “concorre para o objetivo central do projeto Ir Além, aprofundar o conhecimento científico e tecer recomendações, para os decisores políticos e para a prática dos profissionais, condutoras das respostas aos fluxos migratórios no respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos”.

Concomitantemente, “visa sensibilizar e promover capacidades culturais em profissionais cuja intervenção envolve cidadãos NPT no sentido da melhoria da qualidade dos serviços”, através dos olhares de vários cientistas sociais que estudam e refletem sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração.

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Ano Novo: tempo de novas dinâmicas nas Comunidades Portuguesas

 

A caminharmos a passos largos para o final do ano de 2022, período simbólico e propício à renovação e esperança num futuro melhor, que todos desejamos que passe em 2023 pelo desfecho da Guerra na Ucrânia, e pela regularização do surto inflacionista, da subida das taxas de juro e da carência de matérias-primas.

É também uma etapa oportuna para perspetivar as novas dinâmicas de atividades que vão perpassar as Comunidades Portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo ao longo do próximo ano.

Desde logo, destacam-se duas pelo seu simbolismo e peso institucional. Mormente, o 70.º aniversário da emigração portuguesa para o Canadá, que se assinala a 13 de maio, e o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que em 2023 terá a África do Sul como palco principal das comemorações.

Uma das mais relevantes comunidades lusas na América do Norte, que se destaca pela dinâmica da sua atividade associativa, económica e sociopolítica, a comunidade portuguesa no Canadá assinala a 13 de maio de 2023, o septuagésimo aniversário da chegada a Halifax, província de Nova Escócia, dos primeiros emigrantes portugueses.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que atualmente vivam no segundo maior país do mundo em área total, mais de meio milhão de luso-canadianos, sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

É a partir deste legado histórico, que um pouco por todas as comunidades portuguesas disseminadas pelo imenso território canadiano, será seguramente celebrado para o próximo ano, com profundo simbolismo e sentimento de pertença, exposto em inúmeras atividades e eventos, o 70.º aniversário da emigração portuguesa para o Canadá.

Um aniversário que fortalecerá, concomitantemente, os laços dos emigrantes luso-canadianos à língua e cultura materna, mas também à pátria de acolhimento. Algo, que seguramente acontecerá no próximo dia 10 de junho no seio da comunidade portuguesa na África do Sul.

Estima-se que atualmente a comunidade portuguesa e de luso-descendentes na África do Sul, ronde o meio milhão de pessoas, na sua maioria com raízes madeirenses e estabelecida em Joanesburgo, a maior cidade sul-africana.

O primeiro grande momento da emigração lusa, particularmente madeirense, para a África do Sul iniciou-se durante a década de 1940, durante a II Guerra Mundial, devido ao acentuar de privações geradas pelo conflito militar.

Foi neste contexto, que os pioneiros madeirenses se instalaram no alvorecer da segunda metade do séc. XX na África do Sul, passando a dedicarem-se à agricultura, em grandes quintas, e ao comércio, abrindo, mais tarde, lojas para venda dos produtos cultivados e supermercados. Sendo que, o segundo grande momento de emigração lusa para a África do Sul, ocorreu no início do quarto quartel do séc. XX, com a independência das antigas colónias portuguesas de Angola e Moçambique, período em que a África do Sul se tornou o principal destino dos portugueses em África.

As comemorações oficiais do Dia de Portugal em 2023 na África do Sul, serão assim certamente um momento simbólico de valorização da língua e cultura lusa no continente africano, elos antigos, atuais e vindouros da ligação umbilical portuguesa a África.

Que as novas dinâmicas que se aproximam a passos largos das comunidades portuguesas no Canadá e na África do Sul, assim como na dispersa geografia da diáspora lusa, nos influa a todos um Próspero Ano Novo.

 

 

 

 

 

domingo, 18 de dezembro de 2022

A solidariedade é a estrela que mais brilha no natal das comunidades portuguesas

 

O Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que todos desejamos que a breve trecho passe pelo desfecho da Guerra na Ucrânia, e pela regularização do surto inflacionista, da subida das taxas de juro e da carência de matérias-primas.

É neste contexto socioeconómico adverso, marcado pela perda de rendimentos das famílias a nível global, que o espírito solidário intrínseco à genética das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, ganha ainda maior relevância.

Nestes tempos complexos, inesperados e desafiantes que vivemos, a diáspora lusa no mundo tem demonstrado um enorme espírito de solidariedade, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal, apoiando quer os nossos compatriotas no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional.

Um dos exemplos mais paradigmáticos de solidariedade dinamizada no seio das comunidades portuguesas, é o que está a ocorrer na América do Norte, mais concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Mormente, a construção a médio prazo de um centro, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de duas centenas de idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Estando, nesta fase, em processo de angariação de fundos, desdobrando-se os seus vários diretores em contactos e apelos para que a comunidade luso-canadiana, cada um dentro das suas possibilidades, possa contribuir para que o projeto se torne uma realidade em 2025. Como realçou, aquando da apresentação pública do mesmo, o empresário benemérito e diretor da Magellan Community Charities, Manuel DaCosta, é “importante estarmos todos envolvidos, se não vamos perder uma oportunidade que não termos num futuro próximo. Estamos empenhados para que tenha sucesso e para que toda a comunidade se envolva”.

Na esteira do pensamento do comendador Manuel DaCosta, e numa época de galopante envelhecimento da população e de adversidades socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, testemunha admiravelmente que a solidariedade é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

Que a solidariedade que emana das comunidades portugueses nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, e nos inspire uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo.

 

domingo, 4 de dezembro de 2022

A paixão pelo vinho português na Diáspora

 

O vinho português, um elemento indissociável da tradição, história e cultura nacional, continua ano após ano a projetar a imagem do país no mundo, a gerar riqueza, aliando gastronomia e turismo, e a dinamizar a economia com maior intensidade exportadora. Como salientou recentemente a ViniPortugal, entidade gestora da marca Wines of Portugal, através da qual é feita a promoção internacional do vinho português, as exportações de vinhos lusos ultrapassaram 212 M€ no primeiro trimestre de 2022.

Países como a França, Estados Unidos da América, Canadá, Brasil ou Reino Unido, nações que albergam algumas das mais relevantes comunidades da diáspora lusa, são simultaneamente dos maiores consumidores de vinhos portugueses, e alforge de espaços inaugurados por emigrantes ou lusodescendentes dedicados à descoberta e degustação do vinho nacional além-fronteiras.

Ainda no decurso deste ano, o escanção franco-português Micael Morais, antigo escanção no restaurante Tomy & Co, do chef Tomy Gousset, distinguido em 2019 com uma estrela Michelin, abriu no bairro parisiense de Batignolles, um dos mais afamados da capital francesa, a CasAlegria. Um espaço, que o lusodescendente, que serviu, por exemplo, o antigo presidente francês Nicolas Sarkozy, e esteve perto de conquistar o título “Master of Port”, um concurso em França especializado no vinho do Porto, transformou numa embaixada dos vinhos portugueses em Paris.

No caso do vinho do Porto, um dos mais conhecidos e tradicionais vinhos portugueses, desde 2015 que a capital francesa tem no Portologia, primeiro bar totalmente dedicado ao vinho do Porto em Paris, um espaço incontornável para saborear um dos mais famosos símbolos da portugalidade no mundo. Fundado pelo empresário lusodescendente Julien dos Santos, com raízes e vinhas na Região Demarcada do Douro, o Portologia é um espaço icónico na capital francesa de degustação e garrafeira, com cerca de mil referências de vinhos do Porto e do Douro.

A devoção ao vinho do Porto foi também o leitmotiv que impeliu há duas décadas o emigrante português na Suíça, Jorge Correia, a abrir no cantão de Valais, o maior cantão vinícola helvético, a loja Torga’s. Reconhecido como um embaixador do vinho do Porto na Suíça, o emigrante natural de Sernancelhe, distrito de Viseu, possui na cave do espaço inspirado em Miguel Torga, um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa do século XX, mais de duas mil garrafas do vinho originário da região vinícola do Douro.

Estes espaços vinícolas, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio da diáspora lusa, evidenciam a razão do vinho português ser considerado um dos melhores do mundo, e um genuíno e inconfundível símbolo da portugalidade. Como enaltecia o poeta francês Charles Baudelaire, considerado o pai do simbolismo, o “vinho é parecido com o homem”.