Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 18 de agosto de 2024

A magnanimidade da diáspora em prol dos Bombeiros

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações. Exemplos de altruísmo e de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta crónica de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos das crises económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações. Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado na magnanimidade do emigrante luso-americano Manuel Carvalho, natural de Tamengos, concelho de Anadia. Ao longo das últimas décadas, o conhecido empresário na área da restauração em Mineola, vila que fica a 30 quilómetros da cidade de Nova Iorque, e em que 15% dos seus cerca de 21 mil habitantes são de origem portuguesa, tem dinamizado um conjunto significativo de iniciativas de apoio aos Bombeiros Voluntários de Anadia, uma entidade de utilidade pública e carácter humanitário que remonta a 1933. A notável filantropia do empresário luso-americano tem possibilitado, nos últimos anos, encontrar formas e meios para apetrechar os Bombeiros Voluntários do município inserido em pleno centro da Região da Bairrada. Entre as várias iniciativas, destaca-se por exemplo, a que dinamizou no verão de 2016, quando teve conhecimento das dificuldades financeiras dos bombeiros da sua terra natal, contexto que o motivou no alvorecer do ano seguinte a organizar um evento solidário em prol da coletividade anadiense. A iniciativa, que decorreu durante um jantar na Churrasqueira Bairrada, da qual é proprietário, mobilizou a comunidade luso-americana de Mineola e permitiu a angariação de uma quantia de cerca de 25 mil euros, que foram entregues à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia com o objetivo de auxiliar nas obras do quartel e na aquisição de uma viatura. A sua constante e desprendida generosidade com a corporação do seu torrão natal, é acompanhado de um constante apoio aos bombeiros do território de acolhimento e de origem da sua esposa Jackie Carvalho. Em razão disso, além de Bombeiro Honorário em Mineola, no ano transato recebeu a mais alta distinção honorária dos Bombeiros da República do Panamá. Ainda no final desse ano, o emigrante anadiense foi entronizado como “Embaixador dos Bombeiros Voluntários de Anadia em Mineola”, no âmbito do 90.º aniversário da corporação. No decurso da cerimónia foi justamente atribuído a Manuel Carvalho o título de “sócio benemérito n.º 1365” e um “Diploma de Reconhecimento” em nome da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia. Nos fundamentos do Diploma, é reconhecido e enaltecido «o relevante e imprescindível apoio concedido a esta Associação pelo anadiense Manuel Carvalho, a partir dos Estados Unidos da América, pais onde reside», salientando-se que o mesmo está «sempre atento às necessidades desta Associação e por se mostrar disponível para colaborar na importante missão dos Bombeiros de Anadia». A singular magnanimidade de Manuel Carvalho em prol dos Bombeiros Voluntários de Anadia, que em 2021 tinham já distinguido o emigrante luso-americano com uma "Medalha de Mérito da Associação" pelo papel de essencial importância na angariação de fundos para a aquisição de uma ambulância para a corporação, alenta a máxima da poeta e escritora Iara Schmegel: “Bombeiros, aqueles que acendem a chama da esperança”.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

John da Silva: um exemplo de dedicação à comunidade portuguesa na Austrália

A comunidade portuguesa na Austrália, cujas raízes remontam à segunda metade do séc. XX com a chegada de um grupo pioneiro de emigrantes madeirenses à cidade portuária de Freemantle, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração no continente-ilha, situado no hemisfério sul, na Oceânia. Conquanto, os dados oficiais apontem para que vivam hoje pouco mais de 55 mil portugueses na Austrália, a comunidade lusa encontra-se disseminada por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sidney, onde é possível encontrar centros culturais e recreativos, restaurantes e bairros onde se pode falar exclusivamente a língua de Camões. Neste esforço de preservação e dinamização da herança cultural portuguesa no território australiano, tem-se destacado ao longo dos últimos anos o papel dedicado do emigrante empreendedor madeirense John da Silva. Natural de São Pedro no Funchal, freguesia onde nasceu em 1956, sendo a mãe da Madalena do Mar e o pai da Calheta, João (“John”) da Silva, emigrou para a Austrália em 1969 onde encetou nas últimas décadas um notável percurso no mundo empresarial. Primeiramente no comércio grossista de produtos alimentares, que passou pelo fornecimento de navios, venda a retalho, agricultura, essencialmente morangos, e bebidas alcoólicas para o Médio Oriente, Ásia e Austrália. A trajetória de sucesso do emigrante da “pérola do Atlântico” engrandeceu-se enquanto Diretor-Geral de empresas como a Allstates Fruit & Veg Merchants e Allstates Agricultural Products Pty Ltd, experiência profissional que o catapultou para uma figura proeminente no panorama empresarial da Austrália Ocidental. Uma outra dimensão notável de John da Silva, é a profunda ligação que mantém às suas raízes em simbiose com uma dedicação abnegada em prol da herança cultural portuguesa na Austrália. Desde logo, na qualidade de cônsul honorário em Perth, capital da Austrália Ocidental, funções que tem exercido nos últimos 7 anos, de forma não remunerada, na defesa dos interesses de cerca de 4 mil cidadãos lusos registados na região, assim como dos não registados que devem ascender a cerca de 15 mil pessoas. Maioritariamente, portugueses originários da ilha da Madeira, como seja o caso das freguesias da Madalena do Mar ou do Paul do Mar, que recorrem ao Consulado Honorário de Portugal em Perth para obter e renovar passaportes, realizar procurações e todo o tipo de certificados. Durante o seu consulado, John da Silva foi o mentor da gala “Western Austrália Portuguese Citizen of the Year”, que homenageia anualmente emigrantes portugueses em diversas áreas pelo seu trabalho e dedicação em prol da comunidade portuguesa na Austrália. Uma iniciativa, que ao reconhecer a excelência e potencial da comunidade luso-australiana, simultaneamente, divulga e promove a cultura, a identidade, a tradição e a língua portuguesa no país continental cercado pelos oceanos Índico e Pacífico. Uma outra relevante iniciativa que tem o cunho do cônsul honorário de Portugal em Perth, é indubitavelmente a Escola Portuguesa em Fremantle, na região metropolitana de Perth. Um estabelecimento de ensino que iniciou a sua missão com aulas de língua portuguesa para adultos e crianças, dos 6 aos 18 anos, mas que dado o seu crescimento apresenta também aulas de inglês e de guitarra portuguesa, assim como um projeto precursor relacionado com a língua de Camões para crianças em idade pré-escolar. A dedicação abnegada em prol da herança cultural lusa na Austrália, concorreu diretamente para desde o ocaso de 2023, o emigrante empreendedor madeirense seja membro do Conselho da Diáspora Portuguesa. Uma associação constituída com o Alto Patrocínio do Presidente da República que tem como propósito estreitar as relações entre Portugal e a sua diáspora, portugueses e luso-descendentes, para que estes através do seu mérito e influência contribuam para a afirmação universal dos valores e cultura portuguesa, bem como para a elevação e reforço permanente da reputação do país. Uma das figuras mais conhecidas da comunidade luso-australiana, o exemplo de vida de John da Silva, inspira-nos a máxima do filósofo e ensaísta espanhol José Ortega y Gasset: "É na medida em que dedicamos a vida a algo que a faremos plenamente."

sábado, 10 de agosto de 2024

Memórias da ditadura revisitadas na Festa do Emigrante em Fafe

Na passada sexta-feira (9 de agosto), foi apresentado em Fafe o livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”. A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, foi apresentada no Salão Nobre do Teatro-Cinema de Fafe, no âmbito da Festa do Emigrante que se celebra anualmente na “Sala de Visitas do Minho”, de forma a assinalar a chegada dos milhares de emigrantes dos quatro cantos do mundo que todos os anos regressam ao concelho. A sessão, que encheu o espaço cultural de referência em Fafe com atuais e antigos emigrantes, oriundos de França, Brasil, Suíça, Luxemburgo e Canadá, computou a presença do Presidente do Município de Fafe, Antero Barbosa, e da Vereadora da Cultura, Paula Nogueira.
Sessão de apresentação do livro “Memórias da Ditadura: Sociedade, Emigração e Resistência” no Salão Nobre do Teatro-Cinema de Fafe (da dir. para a esq.: o historiador Daniel Bastos, a vereadora da Cultura do Município de Fafe, Paula Nogueira, o fotógrafo Fernando Mariano Cardeira, o Presidente do Município de Fafe, Antero Barbosa, e o tradutor Paulo Teixeira) Nesta nova obra, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nos anos 60 e 70. Nomeadamente, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70. No decurso da sessão, foi inaugurada uma exposição fotográfica alusiva ao espólio fotográfico de Fernando Mariano Cardeira, protocolarmente doado pelo antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político ao Museu das Migrações e das Comunidades. Um espaço museológico sediado em Fafe, precursor no seu género em Portugal, cuja missão e objetivos assentam no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa.
Créditos fotográficos: Luís Carvalhido

sábado, 3 de agosto de 2024

Comendador Manuel Eduardo Vieira: a emigração como força civilizadora

O verão em Portugal é sinónimo de regresso a casa para milhares de emigrantes, que vindos de vários pontos do mundo, retornam à terra-mãe para gozar um merecido período de férias, e simultaneamente matar saudades da família e dos amigos. As aldeias de Portugal continental e insular enchem-se por esta altura de vida, de dinâmica no comércio, de ânimo nas festividades, de abraços reconfortantes e de casas que se abrem, quando ao longo de quase todo o ano se encontram fechadas, a aguardar a visita de muitos dos seus donos que demandam no estrangeiro melhores condições de vida. Um cenário de bem-estar que nesta época estival olvida momentaneamente o acentuado despovoamento e envelhecimento dos territórios de baixa densidade. De facto, muitos dos emigrantes, os mais genuínos embaixadores de Portugal nos quatro cantos do mundo, mantém um profundo apego aos seus torrões de origem, e nos verões, mas também ao longo de todos os anos, têm dado um contributo fundamental para a subsistência da cultura, da economia e das dinâmicas sociais das suas povoações. Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado na figura empreendedora e filantropa do comendador Manuel Eduardo Vieira. Natural da Silveira, povoado da ilha do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar na América, emigrou em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, serviu de trampolim para um percurso de self-made man que encetou no começo dos anos 70 no estado norte-americano da Califórnia. Com uma trajetória de notável mérito e trabalho hercúleo, tornou-se, a partir do Vale de São Joaquim, através da sua empresa A.V. Thomas Produce no maior produtor de batata-doce biológica do mundo. Contexto que, levou inclusive, na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”. O emigrante picoense tem mantido um constate apego ao seu torrão natal através de um extraordinário sentimento filantropo. Na sua terra natal, onde tem passados nos últimos anos cada vez mais tempo, entre outros exemplos notáveis de empreendedorismo e filantropia, alavancou a construção do supermercado LajesShopping, hoje Âncora, com o lema “por amor ao Pico”. Assim como, generosos apoios à Igreja Paroquial de São Bartolomeu da Silveira; Igreja Paroquial de São João; Sociedade Filarmónica Liberdade Lajense; Sociedade Filarmónica União e Progresso Madalense; Sociedade Filarmónica União Artista de São Roque; Sociedade Recreio União Prainhense; Clube Boa Vista de São Mateus; Grupo de Chamarritas e Bailes de Roda da Casa do Povo das Ribeiras. A dimensão benemérita do comendador Manuel Eduardo Vieira na sua terra-mãe encontra-se ainda singularmente patente no Centro Social da Silveira, onde foi o principal benemérito da obra, inaugurada em 2003, do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo. Uma estrutura polivalente, com capacidade para 700 pessoas e parque de estacionamento, que ao longo das últimas décadas tem desempenhado uma missão fundamental na promoção da música de instrumentos de corda, no apoio aos seniores, à juventude e às irmandades estabelecidas no território arquipelágico. Por isso, não é de admirar que em 2017 tenha sido inaugurada pela Câmara Municipal das Lajes do Pico, uma estátua do comendador Manuel Eduardo Vieira, concebida pelo artista natural do Pico, Rui Goulart, e colocada na praceta do Centro Social da Silveira. No decurso da cerimónia de inauguração, encorpada pelas forças vivas da comunidade, do poder local e regional, todos foram unânimes em reconhecer a distinta generosidade que o ilustre filho da terra tem distribuído pelas instituições da ilha do Pico, extensíveis a várias coletividades da comunidade luso-americana. Uma das figuras mais gradas da imensa comunidade portuguesa na Califórnia, latitude da diáspora onde se encontra radicado há meio século, o percurso de vida e a devoção do comendador Manuel Eduardo Vieira à sua terra-mãe, concorre para que o entendimento oitocentista de Eça de Queirós, “a emigração como força civilizadora”, se mantenha atual no âmago das comunidades portuguesas.

domingo, 28 de julho de 2024

O apego dos emigrantes à terra de origem: o exemplo do luso-americano John Guedes

O verão em Portugal é sinónimo de regresso a casa para milhares de emigrantes, que vindos de vários pontos do mundo, retornam à terra-mãe para gozar um merecido período de férias, e simultaneamente matar saudades da família e dos amigos. As aldeias do interior enchem-se por esta altura de vida, de dinâmica no comércio, de ânimo nas festividades, de abraços reconfortantes e de casas que se abrem, quando ao longo de quase todo o ano se encontram fechadas, a aguardar a visita de muitos dos seus donos que demandam no estrangeiro melhores condições de vida. Um cenário de bem-estar que nesta época estival olvida momentaneamente o acentuado despovoamento e envelhecimento do interior do país. De facto, muitos dos emigrantes, os mais genuínos embaixadores de Portugal nos quatro cantos do mundo, mantém um profundo apego aos seus torrões de origem, e nos verões, mas também ao longo de todos os anos, têm dado um contributo fundamental para a subsistência da cultura, tradições e dinâmicas das suas povoações. Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado na figura empreendedora e benemérita do emigrante luso-americano John Guedes. Natural de Vilas Boas, uma freguesia do concelho de Chaves, atualmente com pouco mais de 150 habitantes, o transmontano emigrou para a América no alvorecer da década de 1960, com 10 anos de idade. Numa época em que o fardo da pobreza, da interioridade e a estreiteza de horizontes na região trasmontana durante a ditadura compeliu uma forte vaga migratória para o centro da Europa e para a América. Detentor de um percurso que computou nos anos 70 a formação académica em arquitetura no Norwalk State College, no estado americano do Connecticut, John Guedes fundou no ocaso dessa década a Primrose Companies. Uma empresa de arquitetura e construção, sediada em Bridgeport, a cidade mais populosa do Connecticut, especializada em projetos de construção de escritórios comerciais, multiresidenciais e médicos no Connecticut e em Nova Iorque. O arquiteto luso-americano tem mantido um constate apego ao seu torrão natal através de um extraordinário sentimento benemérito. Na sua aldeia natal, onde regressa amiúde, entre outros exemplos notáveis de filantropia, pagou o terreno onde está o campo de futebol, financiou a abertura de um caminho e a construção de um parque de lazer, patrocina jornadas culturais e a festa anual da aldeia, como a deste ano, e doou cem mil euros para a construção da sede da associação cultural local. O espírito generoso de John Guedes tem-se estendido também, ao longo dos últimos anos, ao Patronato de São José, em Vilar de Nantes, uma instituição flaviense de solidariedade que acolhe crianças do sexo feminino. E à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago, a quem já doou um monitor de sinais vitais e uma Ambulância de Socorro devidamente equipada, no valor de 60 mil euros. Assim como um donativo para equipar todo o Corpo de Bombeiros com farda número 2, a aquisição de uma viatura de comando e duas destinadas a transporte de doentes não urgentes. Ainda no ano passado, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que trouxe o Papa Francisco a Portugal, um acontecimento religioso e cultural que reuniu centenas de milhares de jovens de todo o mundo, durante cerca de uma semana, o emigrante benemérito luso-americano custeou toda a logística inerente à participação de mais de três dezenas de jovens transmontanos. Naturais das povoações de Vidago, Boticas, Vilela do Tâmega, Loivos, Vilarinho das Paranheiras e Adães, territórios onde são notórias as marcas do despovoamento e envelhecimento do interior do país, os jovens transmontanos usufruíram de uma experiência singular que lhes possibilitou conhecer outros jovens de diferentes continentes, graças ao espírito generoso e solidário do ilustre concidadão. O apego do emigrante luso-americano John Guedes à sua terra-mãe, dá um genuíno sentido à conceção historiográfica de Francisco Ribeiro da Silva: “o amor à terra pode constituir uma boa razão para a História Local, porque o amor é mais perfeito e mais forte quando se apoia no conhecimento. Quem conhece a História da sua terra pode amá-la com mais consistência”.

domingo, 21 de julho de 2024

A homenagem na terra-mãe ao comendador Batista Sequeira Vieira

No início do presente mês, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, uma instituição de solidariedade social vocacionada para a prestação de apoio aos idosos da comunidade de Velas, na ilha açoriana de São Jorge, promoveu uma singela homenagem ao comendador Batista Sequeira Vieira, um dos mais ilustres filhos deste torrão arquipelágico, e uma das figuras mais gradas da numerosa comunidade portuguesa na Califórnia. Natural dos Rosais, freguesia do Município de Velas, Batista Sequeira Vieira emigrou nos anos 50 para São José, uma das mais populosas cidades do estado americano da Califórnia. Tendo encetado, a partir de então, um percurso de genuíno “self-made man”, que à base de trabalho hercúleo, esforço infatigável e mérito resiliente, transformou o emigrante açoriano num empresário de sucesso no ramo da construção e imobiliário. O sucesso que alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido constantemente acompanhado de um generoso apoio a projetos emblemáticos da comunidade luso-americana da Califórnia, a quem devota um forte sentido público de empenho cultural e identitário. Assim como, à terra que o viu nascer, que visita amiudadamente, e onde apoia prodigamente agremiações, mormente, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, que ao longo dos anos tem recebido do empresário e filantropo doações a nível monetário e de equipamentos. Contexto, que já em 2018, impeliu uma deliberação unânime da Assembleia Geral do estabelecimento de solidariedade social jorgense, de nomear por acalmação o emigrante açoriano, “Sócio Honorário, pelo seu já longo, cuidado com esta Instituição e perseverante contribuição”. Foi no mesmo sentido de reconhecimento, que no decurso da sua recente estadia nos Rosais, onde não deixou de participar nas festas de São João Batista, e uma vez mais apadrinhar um jantar de amigos da comunidade e uma tourada à corda. Os responsáveis da Casa de Repouso João Inácio de Sousa, durante a visita do insigne benfeitor à instituição, homenagearam singelamente Batista Sequeira Vieira pela sua generosidade constante na melhoria da qualidade de vida dos utentes, no apetrechamento do lar e na valorização dos seus profissionais. Com o nome gravado no coração dos seus conterrâneos, e associado a ruas e instituições no torrão natal que há três anos lhe descerrou um busto, bem como portador justíssimo da Insígnia Autonómica e da Ordem de Mérito, o percurso de vida e a constante generosidade do comendador Batista Sequeira Vieira, inspira-nos a máxima do poeta Friedrich Schiller: “Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos”.

domingo, 14 de julho de 2024

In memoriam D. Arquimínio Rodrigues da Costa

No passado dia 8 de julho, assinalou-se o centenário do nascimento do último bispo português de Macau, D. Arquimínio Rodrigues da Costa (1924 – 2016), uma figura incontornável da Igreja Católica e da diáspora portuguesa. Natural da freguesia de São Mateus, no concelho de Madalena, na Ilha do Pico, o insigne açoriano partiu para Macau, antiga colónia portuguesa desde 1557 até 1999, no sudeste da China, no ocaso da década de 1930. Época em que ingressou no Seminário de São José, no âmbito do padroado português do Oriente, tendo em outubro de 1949 recebido a ordenação presbiteral. Entre as décadas de 1950-60 concluiu o curso de direito canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e exerceu as funções de professor e reitor do Seminário de São José, sendo que no ocaso dos anos 60 ensinou as disciplinas de filosofia e latim no Seminário de Aberdeen, em Hong Kong. Em 1976, o Papa Paulo VI nomeou-o Bispo de Macau, sucedendo ao também açoriano D. Paulo José Tavares, tendo ao longo do seu múnus pastoral, que durou até 1988, revelado uma constante humildade e simplicidade, e sido capaz, entre outros, de solucionar problemas financeiros e administrativos da diocese; fundar cinco novos centros pastorais; estabelecer o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social (CDMCS); e organizar a Associação das Escolas Católicas de Macau e a Associação das Religiosas de Macau. A celebração do centenário do nascimento D. Arquimínio Rodrigues da Costa, impulsionou uma singela homenagem na freguesia onde nasceu, São Mateus, no concelho da Madalena. Torrão natal arquipelágico que visitara em 1953 e 1983, e no qual a partir de janeiro de 1989, já como bispo-emérito de Macau, fixou novamente residência e viria a falecer aos 92 anos de idade. A efeméride, que computou uma cerimónia de descerramento de uma placa evocativa na casa onde nasceu, assim como uma missa, presidida pelo bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, no Santuário do Senhor Bom Jesus Milagroso, e uma conferência de Manuel Goulart Serpa sobre a vida e obra do homenageado, impele-nos igualmente três importantes dimensões de análise no seio das comunidades lusas. Desde logo, a importância e papel da diáspora açoriana, mais de 1,5 milhões de emigrantes e seus descendentes espalhados pelos quatro cantos do mundo. Uma indelével argamassa das comunidades portuguesas, que no caso de Macau, encerra a particularidade, como recordou o bispo de Angra, de «D. Arquimínio da Costa, com D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, D. João Paulino de Azevedo e Castro, D. José da Costa Nunes e D. Paulo José Tavares, faz parte de um grupo de açorianos missionários do Oriente e que foram todos eles, Bispos de Macau». Por outro lado, a efeméride ao revelar que no passado, mas também no presente e seguramente no futuro, a Igreja Católica desempenha um elo importante de identidade cultural e religiosa na diáspora lusa. Evidencia, nos mesmos moldes, que a comunidade portuguesa em Macau, é fundamental para o intercâmbio entre as culturas chinesa e portuguesa, assim como para a dinamização da cultura lusófona no Oriente.