Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 21 de agosto de 2022

Empreendedorismo luso na Austrália: o casal José e Maria Pereira

 

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é indubitavelmente a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político.

Nos vários exemplos de empresários lusos da diáspora, cada vez mais percecionados como um ativo estratégico na promoção e reconhecimento internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do casal luso-australiano José e Maria Pereira.

Originários do arquipélago da Madeira, José e Maria Pereira emigraram no final da década de 1980 para a Austrália, um país continental cercado pelos oceanos Índico e Pacífico, onde vivem atualmente cerca de 55 mil portugueses disseminados por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney.

O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no torrão natal, impulsionaram José Pereira, mais conhecido como Joe Pereira, um ano após a chegada ao continente-ilha, a comprar ao seu antigo patrão um pequeno talho chamado Sunshine Meats em Redfern, um subúrbio no centro da cidade de Sydney, apenas com três meses de experiência profissional no ramo e 500 dólares no bolso,

De modo a não sucumbir à concorrência das cadeias de supermercados, e a ultrapassar as dificuldades de um mercado extremamente competitivo e muito suscetível aos impactos das crises económicas, o casal optou por uma aposta estratégica na qualidade e diferenciação da gama de produtos. Fazendo uso da experiência de Maria Pereira em charcutaria desde os 16 anos, o casal oriundo da pérola do Atlântico, passou a oferecer uma panóplia de produtos como massas, pães frescos, óleos e queijos, para complementar a base de carne fresca.

O conceito diferenciador estabelecido pelo casal luso-australiano passou ainda pela criação de produtos fumados e assados ​​no forno, inspirados nos sabores gastronómicos da Madeira. Produtos premium assentes na herança portuguesa, como peito de frango defumado à portuguesa”, ou as tradicionais morcelas, farinheiras e enchidos gourmet, levaram José e Maria Pereira no alvorecer do séc. XXI a mudarem-se para uma fábrica em Marrickville, um subúrbio no Inner West de Sydney, e em 2011 a erigirem uma fábrica, com uma pastelaria-café, em Milperra, um subúrbio da cidade de Canterbury-Bankstown, na região sudoeste de Sydney.

A notável capacidade empreendedora do casal luso tem sido ao longo dos últimos anos alvo de várias distinções em terras australianas, como em 2014, quando os produtos Sunshine Meats e The Charcuterie Room @ Sunshine Meats foram premiados pela Australian Pork Corporation como o melhor presunto artesanal da Austrália. E em 2018, quando um dos seus produtos de eleição, o “peito de pato defumado” foi o produto mais inovador no Food and Beverage Industry Awards, durante o Sydney Royal Fine Food Show. 

O casal José e Maria Pereira - Sunshine Meats


 

O sucesso que o casal madeirense alcançou nas últimas décadas no mundo dos negócios, e que leva a que os seus produtos diferenciados e de qualidade possam ser encontrados em supermercados e lojas especializadas em Sydney, Melbourne, Brisbane e Perth, tem sido acompanhado de um importante apoio à comunidade luso-australiana. Destacando-se, por exemplo, a ligação de Maria Pereira, e da filha Celina Pereira, também ela envolvida na gestão da empresa familiar, ao Portuguese Australian Women's Association NSW, uma associação que se assume como um fórum para a participação ativa e de empoderamento das mulheres luso-australianas.

Ainda no decurso deste Verão, no seguimento da visita de José e Maria Pereira à Quinta da Vigia, a convite do Presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, o governante madeirense destacou de modo elucidativo o percurso de vida do casal luso-australiano: “Este madeirense, que emigrou para a Austrália no final dos anos 80, comprou um pequeno talho um ano após lá ter chegado e, com a sua visão, resiliência e inovação, criando produtos inspirados nos sabores e cheiros da sua terra natal, expandiu-se, sendo hoje um grande e reputado empresário no país que o acolheu. Dono de uma empresa de sucesso, a Sunshine Meats, que gere com a sua mulher e filha, este emigrante, que nos deixa tão orgulhosos, é mais um exemplo da perseverança e da capacidade de luta madeirenses. São, além de tudo o mais, um casal simpático e afável”.

 

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Representações da emigração portuguesa na obra do pintor Orlando Pompeu

 

Um dos mais consagrados artistas plásticos portugueses da atualidade, Orlando Pompeu nasceu a 24 de maio de 1956, na freguesia de Cepães, no concelho minhoto de Fafe. Estudou desenho, pintura e escultura em Barcelona, Porto e Paris, e nos anos 90 progrediu no seu percurso artístico ao ir trabalhar para os Estados Unidos da América, onde expôs na Galeria Eight Four, em Nova Iorque, e depois, Japão, tendo exposto na TIAS – Tokio International Art Show e na Galeria Garou Monogatari em Tóquio.

 Detentor de uma carreira de quase quarenta anos, bem como um currículo nacional e internacional ímpar, a sua obra consta de variadas coleções particulares e oficiais em Portugal, Espanha, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha, Croácia, Austrália, Brasil, México, Dubai, Canadá, Itália, EUA e Japão.

O pintor Orlando Pompeu no seu atelier em Cepães (Fafe)

 

 

Dentro do estilo pictórico singular, heterogéneo, criativo e contemporâneo que perpassam as diversas fases e dimensões temáticas da obra do artista plástico, encontram-se várias representações alusivas à emigração portuguesa.

Em 1989, o artista concebeu uma obra hiper-realista, acrílico sobre tela 130 x100, atualmente na posse de um colecionador particular, intitulada “Portugueses, Emigrantes e Heróis”, que constitui uma grandiosa alegoria da emigração lusa para França nas décadas de 1960-70. Nesse quadro de grandes dimensões, Orlando Pompeu, pinta numa estação de comboios, uma família carregada de malas e de sonhos na demanda de melhores condições de vida, impulso maior que levou mais de um milhão de portugueses a emigrar “a salto” para o território gaulês nesse período.

Em 2018, no âmbito do programa das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no Canadá, nação que alberga uma das mais dinâmicas comunidades lusas na América do Norte, a Peach Gallery, uma das mais vibrantes galerias de arte em Toronto, deu a conhecer à numerosa comunidade luso-canadiana uma exposição composta por 40 aguarelas sobre papel do reputado pintor.

Uma exposição cujas aguarelas foram pintadas com várias representações de símbolos identitários da cultura portuguesa, como a bandeira nacional e a guitarra, que muito contribuem para a construção e reforço da portugalidade. Assim como, com diversos elementos canadianos, como por exemplo, a CN Tower, um símbolo de Toronto, capital da província do Ontário e maior cidade do Canadá, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes neste território da América do Norte.

No decurso do presente mês, no âmbito da Festa do Emigrante promovida pelo Município de Fafe, uma iniciativa que congregou um conjunto diversificado de acontecimentos de cariz cultural, social e identitário que pretendeu homenagear os emigrantes locais num período em que visitam a Sala de Visitas do Minho, o artista plástico inaugurou uma exposição composta pelos desenhos concebidos propositadamente para a ilustração do livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia”.

Os desenhos, que arrebataram no Salão Nobre do Teatro Cinema de Fafe, antigos e atuais emigrantes no Brasil, Canadá, França, Inglaterra e Suíça, na esteira da missão primordial do livro, procuram dignificar, reconhecer e valorizar as sucessivas gerações de compatriotas que saíram de Portugal.