Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Natal é época de solidariedade nas comunidades portuguesas

O Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que todos desejamos que a breve trecho passe pelo desfecho da Guerra na Ucrânia, pelo fim do conflito Israel-Hamas, assim como pelo incremento do crescimento da economia mundial e a sequente diminuição da inflação global. É neste contexto socioeconómico desafiante, que o espírito solidário cintilante no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo ganha especial relevância. Nos tempos intrincados que vivemos, a diáspora lusa tem demonstrado um enorme espírito de solidariedade, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal, apoiando quer os nossos compatriotas no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional. Um dos exemplos mais paradigmáticos de solidariedade dinamizada no seio das comunidades portuguesas é o que está a ocorrer na América do Norte, mais concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Mormente, a construção do Magellan Community Centre, isto é, a edificação a breve prazo da “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana. Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes portugueses na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, presidida pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto, que através da colaboração do poder político e da solidariedade luso-canadiana, está a edificar um lar culturalmente específico e inclusivo para a comunidade. Nesta esteira altruísta, mas na comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, a Santa Casa da Misericórdia de Paris, instituição de referência na dinamização da solidariedade no seio da diáspora na capital francesa, lançou no decurso do mês de dezembro uma Campanha de Natal para recolher produtos alimentares e de higiene. Assente no lema “Fraternidade: Combater a indiferença”, a iniciativa solidária na linha dos anos anteriores, permitirá apoiar famílias portugueses carenciadas, na região parisiense, com cabazes de Natal. Outro exemplo paradigmático de espírito solidário da diáspora na quadra natalícia, acontece há vários anos na comunidade portuguesa do Reino Unido, a segunda maior da Europa, formada por cerca de 400 mil pessoas. Desde 2013, ano em que foi criada em Londres, a associação Abraço Solidário, que a coletividade benemérita liderada pela madeirense Zita da Silva, se tem empenhado no apoio a causas sociais, quer junto da comunidade portuguesa no Reino Unido, como também em Portugal. No início deste mês, no âmbito do tradicional jantar de Natal solidário, no centro de Londres, a emigrante madeirense e dirigente associativa do Abraço Solidário, destacou que as verbas solidárias arrecadas pela coletividade serão encaminhadas para oito instituições e também uma família madeirense que foi severamente afetada pelos incêndios que ocorreram em outubro passado na pérola do Atlântico. Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio da diáspora, robustecem que mesmo em tempos desafiantes e intrincados, o Natal é época de solidariedade nas comunidades portuguesas. Que a solidariedade que emana das comunidades portugueses nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, e nos inspire uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo. Como encorajava Madre Teresa de Calcutá, exemplo cimeiro de esperança e perseverança: “É Natal sempre que deixes Deus amar os outros através de ti…sim, é Natal sempre que sorrires ao teu irmão e lhe ofereceres a mão”.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Jack Oliveira: empreendedor e benemérito da comunidade portuguesa em Toronto

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora e benemérita como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso, e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político. Nos vários exemplos de empreendedores portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Jack Oliveira, o mais conhecido e emblemático dirigente sindical da comunidade portuguesa em Toronto. Natural da Murtosa, vila do distrito de Aveiro, Jack Oliveira emigrou para o Canadá em 1972, com 12 anos de idade, ao encontro dos pais e do irmão, que tinham encetado no ocaso dos anos 60 uma trajetória migratória transatlântica em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, na esteira de milhares de compatriotas que procuravam também que os seus descendentes não passassem pelo tirocínio do serviço militar obrigatório na Guerra Colonial. A chegada a Toronto, a maior cidade do Canadá, numa fase de crescimento da emigração lusa para o território da América do Norte, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro “self-made man”. O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, forjaram uma ética de carácter e de trabalho que impeliram ainda na adolescência o jovem murtosense a trabalhar numa fábrica de ferro, e pouco tempo depois a abrir uma empresa de transportes por conta própria. A experiência profissional acumulada durante a adolescência que não permitiu a prossecução dos estudos, funcionou como antecâmara para o dealbar de uma carreira profissional fulgurante na área da construção. Primeiro como trabalhador da Armbro Construction onde consolidou as suas competências e conhecimentos, contexto que o levou na década de 80 a registar-se como membro da Liuna Local 183, e no termo dos anos 90 a ser contratado como Organizador da Local 183, e ainda nessa época, a ser designado Representante de Negócios para o Setor de Construção Pesada. O relevante trabalho e ação desenvolvido por Jack Oliveira na Liuna Local 183, o mais forte sindicato da construção civil da América do Norte, impulsionaram a sua eleição em 2007 como Membro do Executivo da Local 183, e desde 2011, até aos dias de hoje, a liderança da estrutura no cargo de Business Manager. Uma liderança carismática, sucessivamente renovada através de uma dedicação inexcedível e do apoio dos cerca de 70 mil membros da estrutura sindical, milhares deles de origem portuguesa, a quem é reconhecido publicamente que a Liuna Local 183 tem proporcionado melhores condições de trabalho, em segurança e com boas condições remuneratórias. O cunho diligente de Jack Oliveira ao longo dos últimos anos no movimento sindical e no mundo do trabalho, na defesa dos direitos dos trabalhadores portugueses no Canadá, concorreram decisivamente para que em 2017 o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com o cunho da UGT, agraciasse o emigrante murtosense com a Comenda da Ordem de Mérito Empresarial. Uma ordem honorifica portuguesa justamente merecida, destinada a distinguir quem haja prestado, como empresário ou trabalhador, serviços relevantes no fomento ou na valorização de um setor económico. Têm sido várias as distinções que o empreendedor luso-canadiano tem alcançado ao longo do seu profícuo percurso socioprofissional e sindical. Entre elas, destacam-se também, por exemplo, em 2016 a homenagem pública na Gala Community Spirit Award promovida pelo Centro Cultural Português de Mississauga (PCCM), uma representativa agremiação lusa na província do Ontário. E a mais recente, no dia 13 de maio de 2023, no âmbito das celebrações oficiais dos 70 anos de emigração portuguesa para o Canadá, através do reconhecimento público do Portuguese Canadian Walk of Fame. Nas diversas distinções obtidas, destacam-se nos seus fundamentos os predicados da liderança de Jack Oliveira à frente dos destinos da Liuna Local 183, mormente o importante trabalho que a estrutura sindical tem realizado no apoio a organizações de cariz social ou de promoção da diversidade multicultural. Como é o caso, da ajuda essencial que a Liuna Local 183 tem dedicado à construção do Magellan Community Centre, ou seja, à construção a breve prazo da “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana. Um projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes portugueses em Toronto, dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães), presidida pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto. No hercúleo esforço que a Magellen Community Charities tem desenvolvido em prol da angariação de fundos no seio da comunidade luso-canadiana, o apoio e altruísmo da Liuna Local 183 têm sido fundamentais. Ainda no limiar do presente mês, a Magellan Community Foundation recebeu mais uma doação da Liuna Local 183, no valor de 250 mil dólares. Uma entrega que cumpre o plano estabelecido pela estrutura sindical liderada por Jack Oliveira, e que representa o segundo cheque de quatro do mesmo valor, atingindo um total de 1 milhão de dólares em quatro anos. Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, o exemplo de vida do empreendedor, sindicalista e comendador benemérito Jack Oliveira, incita-nos o repto humanista e marcante de Nelson Mandela: “Um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, é reinstalar na consciência do nosso povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, e por causa e por meio dos outros”.

domingo, 3 de dezembro de 2023

Maria Manuela Aguiar: uma vida dedicada à emigração

No conjunto de personalidades que ao longo dos últimos anos têm contribuído decisivamente para a valorização e dignificação da emigração portuguesa, destaca-se, sobremaneira, o papel ativo de Maria Manuela Aguiar, antiga Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas e deputada pela Emigração. Natural de Gondomar, onde nasceu em 1942, Maria Manuela Aguiar é licenciada em Direito, área em que deu os primeiros passos da sua vida profissional através do desempenho da docência na faculdade da Universidade Católica de Lisboa, na Universidade de Coimbra, e inclusive, como Secretária de Estado do Trabalho no governo de Mota Pinto. Entre 1980 e 1987, tornou-se a primeira mulher a assumir o cargo de Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, sendo que o seu percurso sociopolítico computou ainda a eleição como deputada pelos círculos da Europa (1985), Porto (1987), Aveiro (1991) e pelo círculo Fora da Europa, em 1995, 1999 e 2002. Enquanto decisora política, ou desde o início dos anos 90, como fundadora da Associação Mulher Migrante (AMM), instituição onde tem desempenhado um relevante ativismo cultural em prol do combate às desigualdades e à discriminação contra as mulheres, especialmente as migrantes, Maria Manuela Aguiar é unanimemente reconhecida como uma incansável defensora dos direitos dos portugueses no mundo. Autora de uma profícua bibliografia sobre matérias relacionadas com a emigração lusa, recentemente publicou o livro O Conselho das Comunidades Portuguesas - Espaço de Utopia e Experimentação. Uma obra dedicada à génese do órgão consultivo do Governo para as políticas relativas às comunidades portuguesas no estrangeiro, no qual a pioneira dos direitos dos emigrantes portugueses, teve um papel estruturante. Uma obra reflexiva, assente na noção do dever de memória, porquanto contribui amplamente para um conhecimento mais aprofundado sobre a criação, as etapas, os momentos e os contributos de um órgão que nas palavras abalizadas da autora tem como «vocação originária: ser uma "assembleia" verdadeiramente representativa e influente, o grande fórum da Diáspora e da emigração portuguesas». Um livro que é igualmente um testemunho de compromisso incondicional com os emigrantes portugueses, os mais genuínos embaixadores da pátria de Camões, e concomitantemente de respeito pelo passado, de crença no presente e de esperança no futuro das comunidades portuguesas, a mais autêntica e consistente manifestação lusa além-fonteiras. Quando ainda há poucos dias cerca de 1,5 milhões de compatriotas residentes no estrangeiro escolheram os 90 membros do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). O livro recentemente publicado por Maria Manuela Aguiar, na esteira do seu percurso de vida, assume-se, não só como um instrumento incontornável para a compreensão do CCP, mas também como um valioso contributo para o estudo e entendimento da emigração portuguesa. Comungando do pensamento do escritor argentino Jorge Luís Borges, “o livro é a grande memória dos séculos... se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem”, podemos crer que a memória e a história do CCP e da emigração portuguesa ficam assim prodigamente enriquecidas e salvaguardas.

domingo, 5 de novembro de 2023

Historiador Daniel Bastos participa em colóquio sobre os 70 anos da comunidade portuguesa em Montreal (Canadá)

Nos dias 18 e 19 de novembro, o escritor e historiador fafense Daniel Bastos, autor de vários livros que retratam a história da emigração portuguesa, participa em Montreal, a maior cidade da província de Quebeque, no Canadá, onde vivem mais de 75 mil portugueses e lusodescendentes, no colóquio “70 Anos da Comunidade”. No decurso da iniciativa, promovida pela LusoPresse e LusaQTV, dois relevantes órgãos de informação da comunidade portuguesa em Montreal, e que decorrerá na Casa dos Açores do Quebeque, Daniel Bastos apresentará uma comunicação intitulada “O Empreendedorismo e Solidariedade das Comunidades Portuguesas”. Procurando assim, no espírito do colóquio refletir sobre o passado, presente e futuro das comunidades luso-canadianas, que se destacam atualmente na América do Norte pela sua dinâmica associativa, económica e sociopolítica, e cujas raízes remontam a um grupo pioneiro de emigrantes portugueses que desembarcaram a 13 de maio de 1953, em Halifax, na Nova Escócia. Refira-se que no ano passado, no âmbito dos Prémios Corte-Real 2022, criados em 2016 pelo jornal LusoPresse de forma premiar o mérito comunitário de elementos distintivos de entre toda a comunidade portuguesa do Quebeque, o historiador natural de Fafe foi distinguido com o Prémio Corte-Real Reconhecimento. Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos, colaborador do BOMDIA, é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

Os 50 anos do programa de estudos portugueses na Universidade de São José na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades políticas. No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais, e sociedades de beneficência e religiosas. Este espírito genuíno de portugalidade encontra-se paradigmaticamente plasmado na comunidade portuguesa de São José, onde se econtra a maior concentração urbana portuguesa na Califórnia. Ainda no ano transato, aquando da visita do mais alto magistrado da Nação às comunidades luso-americanas da Califórnia, cujo programa computou a ida à missa na Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, em São José, Marcelo Rebelo de Sousa constatou in loco a dinâmica notável deste importante centro da emigração portuguesa na Califórnia. Na saída da missa, o Presidente da República, perante os jornalistas, mostrou-se então impressionado e emocionado com “este encontro de portugueses, em língua portuguesa, com os cânticos portugueses, pessoas de todas as gerações, num número tão elevado”, com esta “comunidade tão forte” em São José. Na linha de pensamento do Chefe de Estado, uma das características mais salientes da comunidade luso-americana em São José, é indubitavelmente os esforços que a mesma, ao longo dos anos, tem levado a cabo na promoção do ensino do português. Uma mais-valia incalculável para a manutenção da vitalidade e dos vínculos da comunidade à pátria de origem, assim como para a magistratura de influência de Portugal na principal potência mundial. Esforços na promoção do ensino do português, que ganham ainda maior relevância num período de nítido envelhecimento da comunidade portuguesa em São José, na esteira das demais comunidades luso-americanas, dada a acentuada redução do fluxo emigratório para os Estados Unidos. Esforços que se encontram vertidos ao longo das últimas décadas no programa de estudos portugueses na Universidade de São José (SJSU), uma das mais antigas e relevantes instituições públicas de ensino superior da costa oeste da América, que no ocaso do mês passado celebrou 50 anos de existência. A efeméride, que congregou várias forças vivas da comunidade luso-americana de São José, constituiu um momento propício para projetar o passado, o presente e o futuro deste programa estruturante na promoção do ensino do português no meio académico californiano. Desde logo, proporcionou reviver a ação fundadora de três importantes líderes comunitários, os dentistas Décio Oliveira e Manuel Bettencourt, e o advogado Joe Mattos, que conseguiram firmar o programa junto da SJSU, com a condição sine qua non da comunidade portuguesa financiar as despesas inerentes ao mesmo e assegurar o número suficiente de alunos ao seu profícuo funcionamento. Simultaneamente, o quinquagésimo aniversário do programa de estudos portugueses na Universidade de São José na Califórnia, possibilitou enaltecer o trabalho fundamental dos docentes da língua portuguesa na instituição. Mormente, o labor pioneiro da Irmã Maria Amélia, dos professores Heraldo da Silva e Virgínia da Luz Tarver, e mais recentemente, da professora Deolinda Adão e do hodierno diretor do programa, professor Duarte Pinheiro, responsável por um projeto que conta atualmente com cerca de meia centena de discentes.
O comendador Manuel Bettencourt, no decurso dos 50 anos do programa de estudos portugueses na Universidade de São José na Califórnia, doou meio milhão de dólares para a prossecução deste relevante projeto linguístico e cultural da comunidade luso-americana Honrando o passado, mas norteado no presente e na construção do futuro, o comendador Manuel Bettencourt, figura basilar das comemorações da efeméride. E uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa na Califórnia, conhecido profissional de medicina dentária, natural da ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, que emigrou para a América no final dos anos 60 em demanda de melhores condições de vida, e cuja graduação foi obtida na SJSU, anunciou a doação de meio milhão de dólares para a prossecução do programa de estudos portugueses na Universidade de São José na Califórnia. No passado, como no presente, mas sobretudo já com os olhos colocados no futuro, o destacado líder comunitário e dentista atualmente reformado, que sempre trabalhou de perto com os seus compatriotas, e demonstrou ao longo da sua vida uma faceta de apoio aos mais necessitados, continua assim a contribuir decisivamente para a manutenção do programa de estudos portugueses. E quiçá a inspirar outros luso-americanos a investir generosamente no ensino da língua portuguesa na Universidade de São José, um caminho fundamental para a união, coesão e porvir da comunidade portuguesa na Califórnia. Recorde-se que no alvorecer do séc. XXI, a Universidade de São José na Califórnia, instituição que conta no presente com mais de 30 mil alunos matriculados em mais de 100 programas de bacharelato e mestrado, e se distingue por possuir a população estudantil etnicamente mais diversa nos Estados Unidos, firmou uma parceria com a Universidade dos Açores, estabelecimento público de ensino superior de referência no território arquipelágico de origem da maioria dos membros da comunidade portuguesa em São José. Nesse sentido, o exemplo de vida e o recente gesto de incomensurável generosidade do comendador Manuel Bettencourt, em prol da comunidade luso-americana, eleva o alto sentimento patriótico adensado no pensamento de uma das figuras centrais da língua portuguesa, Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”.

domingo, 29 de outubro de 2023

Joel Filipe: um sindicalista e benemérito da comunidade portuguesa em Toronto

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível associativo, cultural, económico e político. Nos vários exemplos de portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Joel Filipe, um dos mais conhecidos dirigentes sindicais da comunidade portuguesa em Toronto. Natural de Atouguia da Baleia, freguesia do município de Peniche, Joel Filipe emigrou para o Canadá ainda adolescente na companhia da figura paterna, na esteira de milhares de compatriotas, em demanda de melhores condições de vida no decurso da vigência do regime salazarista em Portugal. A chegada a Toronto, capital da província de Ontário, assinalou o início de um percurso de vida indelevelmente ligado ao setor da construção civil. Primeiro como trabalhador da construção, experiência profissional marcante que em 2006 o catapultou para a direção do CCWU (Canadian Construction Workers Union), e em 2010 o impeliu a assumir a presidência desta relevante estrutura sindical de trabalhadores da construção no território canadiano. Uma estrutura sindical, que em 2012 passou a integrar a Liuna Local 183, o mais forte sindicato da construção civil da América do Norte, atualmente presidido por outro incontornável dirigente sindical com raízes portugueses, Jack Oliveira. Um dos aspetos mais salientes do percurso de vida do emigrante e dirigente sindical natural de Atouguia da Baleia, encontra-se nos seus vínculos ao movimento associativo português em Toronto. Como corrobora o papel importante que teve na fundação em 1981 do Peniche Community Club of Toronto, uma agremiação que tendo mantido desde a sua origem uma forte ligação à prática do futebol, tem nos últimos anos desempenhado uma significativa componente social e recreativa, em particular, junto dos emigrantes seniores naturais do litoral da região oeste. O papel marcante que Joel Filipe teve na criação nos anos 80 do Peniche Community Club of Toronto, esteve na base das homenagens que o mesmo foi alvo, quer no 35.º aniversário da associação luso-canadiana, assim como do “Merit Award”, que recebeu em 2019 na Gala da ACAPO-Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas de Ontário. A sua estreita ligação ao torrão natal, levou inclusive a que em 2020 fosse distinguido pela Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia pelo “seu envolvimento pessoal nas questões sociais e culturais da Freguesia, e também pelo seu amor à sua terra natal”. O reiterado orgulho que nutre pelas suas raízes, e que o levam todos os anos ao torrão natal, assim como o constante apoio que confere a várias instituições de solidariedade social da sua freguesia e município, concorreram para que a edilidade penichense lhe tenha já atribuído a medalha de mérito municipal. Um galardão, atribuído a indivíduos ou entidades que pelos seus feitos ou ações no âmbito da assistência, da solidariedade social ou do altruísmo, contribuam para a promoção social da comunidade penichense. Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, o exemplo de vida do dirigente associativo, sindicalista e benemérito social Joel Filipe, inspira-nos a máxima de uma das personagens mais significativas do século XX, Winston Churchill: “Vivemos com o que recebemos, mas marcamos a vida com o que damos”.

sábado, 21 de outubro de 2023

In memoriam Comendador António Fernandes Barros

No passado dia 19 de outubro, assinalou-se o 98.º aniversário natalício do saudoso Comendador António Fernandes Barros (1925-2015), uma das figuras mais reconhecidas do associativismo de matriz minhota na comunidade portuguesa em São Paulo. Natural da freguesia de Antime, município de Fafe, na região do Baixo Minho, onde concluiu a instrução primária, e trabalhou durante a adolescência na Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, antiga fábrica têxtil que chegou a ser uma das maiores do Norte com mais de 2000 operários, António Fernandes Barros emigrou para o Brasil em 1957. Tendo-se estabelecido em São Paulo, a maior cidade do Brasil, onde iniciou um percurso empresarial de sucesso na área das transações comerciais, foi, no entanto, no campo associativo, cultural e na promoção da língua portuguesa, sempre em interligação com o seu torrão natal, que o emigrante fafense se tornou uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa na capital paulista. No seu profícuo currículo associativo e cultural luso-brasileiro, destaca-se, entre outros, a ligação ao Centro de Estudos Históricos Pedro Álvares Cabral, ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisas Hospitalares, ao Centro de Estudos Fernando Pessoa, à Casa de Portugal de São Paulo, à Associação Portuguesa de Desportos e ao Elos Clube de São Paulo. A sua impagável experiência associativa e cultural luso-brasileira, em consonância com um profundo apego à terra que o viu nascer, foi de enorme importância para a fundação nos anos 90, da Casa da Cultura Portuguesa de Porto Seguro, que contou então com apoio do Município de Fafe. Edificada no objetivo principal de proporcionar um espaço privilegiado para pesquisas, projetos culturais e de aprofundamento das relações entre Portugal e o Brasil, a Casa da Cultura Portuguesa de Porto Seguro é constituída por um anfiteatro, biblioteca, museu e o Panteão de Cabral, o primeiro navegador a chegar a terras brasileiras, mormente a Porto Seguro em 22 de abril de 1500. O seu comprometimento e a constante dinamização das relações culturais luso-brasileiras estão na base, nesse período, da atribuição pelo então Presidente da República, Mário Soares, da Ordem de Mérito no Grau de Comendador, destinada a galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da coletividade. Assim como do título de Cidadão Honorário de Porto Seguro – Estado da Baía, e da Medalha de Prata de Mérito Concelhio da Câmara Municipal de Fafe. De facto, uma das suas características marcantes era a forte ligação que mantinha com as suas raízes, expressa em várias viagens à Sala de Visitas do Minho, e que concorreram para que tenha oferecido uma bola autografada de Pelé, um dos maiores jogadores da história do futebol, ao Operário Futebol Clube (OFC) de Antime, coletividade da qual foi sócio fundador, juntamente com camisolas do Santos Clube Futebol, um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Bem como, tenha doado ainda em vida, o distintivo da Ordem de Mérito ao Museu das Migrações e das Comunidades. Um espaço museológico, sediado em Fafe, cuja missão assenta no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa, detendo-se particularmente na emigração para o Brasil do século XIX e primeiras décadas do XX, e na emigração para os países europeus da segunda metade do século XX. Uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em São Paulo, o percurso de vida e o inestimável contributo do saudoso Comendador António Fernandes Barros para o aprofundamento das relações culturais Brasil – Portugal, rememora a ligação umbilical entre os dois povos irmãos, singularmente anotada por Eça de Queirós: “O Brasileiro é o Português – dilatado pelo calor”.