Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Manuel Eduardo Vieira e a Ordem do Infante D. Henrique: um rosto maior da diáspora portuguesa na América

A comunidade portuguesa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença se consolidou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, maioritariamente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores — distingue-se hoje pela sua plena integração, pelo seu inegável espírito empreendedor e pelo relevante papel económico, social e até político que desempenha na principal potência mundial. No seio desta numerosa comunidade lusa, que segundo os dados mais recentes dos censos norte-americanos integra mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, sobressaem múltiplos percursos de vida que corporizam o chamado American dream. Histórias de homens e mulheres que, partindo muitas vezes do nada, ascenderam social e profissionalmente graças ao trabalho árduo, ao mérito e a uma notável resiliência. Entre essas trajetórias exemplares destaca-se, de forma particularmente inspiradora, o percurso do comendador Manuel Eduardo Vieira, hoje reconhecido como o maior produtor mundial de batata-doce biológica e uma das figuras mais marcantes da comunidade portuguesa na Califórnia. Natural da Silveira, pequena localidade da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira emigrou aos 17 anos, em 1962, num contexto marcado pelo início da Guerra do Ultramar. Antes de se fixar nos Estados Unidos, partiu para o Rio de Janeiro, ao encontro de um tio que o acolheu a pedido da mãe e lhe proporcionou a possibilidade de prosseguir estudos para além da 4.ª classe, concluída na terra natal, no seio de uma família humilde. A permanência no Brasil, durante cerca de uma década, foi determinante: permitiu-lhe formação nas áreas da Contabilidade e da Gestão, experiência profissional em diversas empresas, o encontro com a futura esposa, Laurinda — também emigrante, natural de Chaves — e foi ainda o berço de nascimento dos seus três filhos. A ida para os Estados Unidos ocorreria no início da década de 1970, quando os pais e o irmão Artur já se encontravam emigrados na Califórnia, trabalhando no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás. Foi nesse contexto que Manuel Eduardo Vieira teve o primeiro contacto direto com a atividade agrícola em solo norte-americano. O esforço persistente e a recusa em desistir perante as adversidades — bem patentes no facto de estudar inglês à noite e trabalhar no campo durante o dia — moldaram um homem que construiu, a pulso, o seu percurso de sucesso. Um momento decisivo ocorreu em 1977, quando o tio lhe propôs a aquisição da empresa A.V. Thomas Produce, então dedicada à produção de batata-doce em cerca de 20 hectares, com uma única linha de tratamento e embalagem instalada num simples barracão, na cidade de Livingston. Com engenho, visão estratégica e capacidade de inovação, o duplo emigrante açoriano relançou a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo práticas pioneiras, como a certificação de produção biológica em 1988, ou, mais recentemente, a batata-doce em embalagem individual, pronta a ir ao micro-ondas. Paralelamente, expandiu a exploração agrícola, que hoje ultrapassa os 1200 hectares. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, esta realidade transformou a empresa na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios superior a 50 milhões de euros e cerca de mil trabalhadores nas épocas de colheita. Não é por acaso que, na década de 1990, a cadeia de supermercados Safeway lhe atribuiu uma placa de matrícula personalizada com a designação “King Yam” — o “Rei da Batata-Doce”. Empresário de mérito reconhecido, Manuel Eduardo Vieira viu o seu percurso distinguido em 2013, ao vencer a primeira edição dos Best Leader Awards (BLA) EUA, na categoria Lifetime Achievement. Dois anos antes, o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, já lhe havia atribuído a Comenda da Ordem do Mérito. Apesar do sucesso alcançado, mantém uma ligação profunda e afetiva à sua terra natal. Em 2017, foi inaugurada, na praceta do Centro Social da Silveira, no concelho das Lajes do Pico, uma estátua em sua homenagem, sendo ele o principal benemérito da construção do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo. A obra simboliza a generosidade que tem estendido a inúmeras associações da ilha do Pico. O seu nome permanece gravado no coração dos conterrâneos, tanto na pátria de origem como na de acolhimento. O seu percurso de vida e a sua constante filantropia valeram-lhe já cerca de duas dezenas de distinções internacionais, nacionais, regionais e locais, entre as quais se destaca a 18.ª Chave de Ouro do Município das Lajes do Pico, atribuída ao longo de mais de 500 anos de história da vila apenas a personalidades de mérito extraordinário. É neste quadro de mérito amplamente reconhecido que, no passado dia 6 de janeiro, Manuel Eduardo Vieira foi condecorado em Lisboa pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem do Infante D. Henrique, distinção destinada a reconhecer serviços relevantes prestados a Portugal, no país e no estrangeiro, bem como contributos para a projeção da cultura, da História e dos valores portugueses. Na cerimónia realizada no Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, o Chefe de Estado enalteceu o percurso profissional do condecorado e a sua ação filantrópica junto da comunidade luso-americana e de Portugal, destacando-o como uma figura maior da comunidade portuguesa na Califórnia e um símbolo inequívoco do dinamismo, da capacidade de liderança e da força afirmativa da diáspora portuguesa, que continua a projetar e a dignificar Portugal além-fronteiras através do exemplo, do trabalho e da generosidade.

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