Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Fundações e filantropia nas comunidades portuguesas

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é seguramente a sua dimensão solidária, uma genuína marca genética da diáspora lusa, constantemente expressa em gestos, campanhas e iniciativas fautoras de valores humanistas e altruístas. Dentro da centelha filantropa que brilha incessantemente no seio da dispersa geografia das comunidades portuguesas, destaca-se ao longo das últimas décadas, a criação e dinamização de fundações assentes nos princípios da filantropia, instituídas por iniciativa de emigrantes de sucesso com o propósito de dar expressão organizada ao dever moral de justiça, e de solidariedade nas pátrias de acolhimento e de origem. Uma das latitudes paradigmáticas da diáspora onde avultam os exemplos de fundações, instituídas por emigrantes portugueses, que desempenham um papel fundamental no cenário filantrópico, é indubitavelmente os Estados Unidos da América (EUA). A cultura filantropa, profundamente enraizada na nação mais influente do mundo, onde o impacto social do investimento benemérito feito por empresas e entidades é reconhecido na sociedade, tem ao longo das últimas décadas inspirado vários emigrantes luso-americanos a instituir fundações sem fins lucrativos, dedicadas à beneficência, à cultura, ao ensino e a outros fins de interesse público. No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destaca-se por exemplo, desde a primeira década do séc. XXI, o papel incontornável da Fundação António Amaral, em Palm Coast, cidade localizada no estado da Flórida, na promoção da cultura e língua portuguesa. Instituída em 2006, pelo empresário no sector da construção e imobiliário Tony Amaral, benemérito e fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast, e radicado há mais de meio século na América, a Fundação António Amaral tem como missão principal a atribuição de bolsas de estudo a jovens de origem portuguesa na Flórida. No decurso das últimas décadas, a Fundação António Amaral, através do espírito empreendedor e ação solidária do emigrante natural de Ovar, entrega bolsas de estudo a alunos lusodescendentes na Flórida, tendo até ao momento, distribuído 250 bolsas, num montante de quase meio milhão de dólares. Uma missão e valores que perpassam outras áreas em prol da comunidade luso-americana, porquanto a Fundação António Amaral tem apoiado ao longo dos anos, com milhares de dólares, diversas instituições na Flórida e em Portugal, assim como agregados carenciados que têm tido na generosidade da família Amaral uma bússola e um porto de abrigo. Um outro exemplo paradigmático, encontra-se plasmado na magnanimidade do emigrante luso-americano Manuel Carvalho, natural do concelho de Anadia. Em 2017, o conhecido empresário na área da restauração em Mineola, no estado de Nova Iorque, em conjunto com a sua esposa Jackie, criou a Fundação Família Carvalho. A notável filantropia do empresário luso-americano tem possibilitado, através da Fundação Família Carvalho, encontrar formas e meios para apetrechar ao longo dos anos, entre outros, os Bombeiros Voluntários de Anadia. Ainda no verão passado, a Fundação Família Carvalho, deu um importante contributo na promoção e preservação da língua, costumes e tradições portuguesas em Long Island, entregando dois donativos no montante total de 16 mil dólares, à Escola Portuguesa Júlio Dinis e ao Rancho Folclórico “Sonhos e Juventude de Portugal”. Na Califórnia, o estado com maior diáspora de origem portuguesa nos EUA, onde residem mais de 300 mil luso-americanos, na sua maioria oriundos dos Açores, este espírito filantropo encontra-se vertido na “Carlos Vieira Foundation”. Uma instituição oficialmente fundada em 2010 pelo empresário luso-americano e automobilista Carlos Vieira, sediada em Livingston, no condado de Merced, cuja missão e visão assentam em três áreas essenciais de atuação: autismo, abuso de drogas e estigma de saúde mental. Ao longo dos últimos anos, a Fundação Carlos Vieira, na esteira dos valores coligidos no seio do patriarca da família, o comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor mundial de batata-doce biológica e uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, apoia famílias em mais de duas dezenas de municípios no Vale Central da Califórnia, através por exemplo, de subsídios, assistência financeira ou apoio de necessidades médicas. Um outro relevante eixo de ação da Fundação Carlos Vieira está ligado à preservação da cultura e tradições da comunidade lusa na Califórnia, como evidencia a criação, em 2019, do Festival Português do Vale de São Joaquim, e que desde então, tem unido anualmente milhares de luso-americanos em torno da herança portuguesa, mormente a gastronomia, arte, comédia e música tradicional. Fora da geografia da diáspora lusa norte-americana, é possível também encontrar organizações filantrópicas criadas por emigrantes empreendedores de sucesso. Como por exemplo, em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas. Desde 2019, ano em que o empresário português João Pina, radicado na região de Paris e presentemente administrador do Grupo Pina Jean, que se tem destacado em atividades em áreas como a construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, constituiu a Fundação Nova Era Jean Pina. Tem sido dinamizado um intenso conjunto de atividades e projetos de solidariedade luso-franceses para com pessoas desfavorecidas e vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. A benemerência do emigrante natural do concelho da Guarda, expressa através da ação perseverante da Fundação Nova Era Jean Pina, tem carrilado inúmeros géneros alimentares, brinquedos e roupa, entre outros bens, para agregados familiares e instituições no território nacional. Como seja o caso da região da Guarda, onde têm sido várias as ceias de Natal organizadas pela Fundação Nova Era Jean Pina, para as quais convida crianças institucionalizadas e idosos isolados. Ou, mesmo noutras latitudes da diáspora portuguesa, como em 2021, quando através da assinatura de um protocolo de colaboração entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a Fundação Nova Era Jean Pina e a Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, foram oferecidos 200 cabazes de Natal a agregados familiares, carenciados, de nacionalidade portuguesa ou luso descendentes, residentes na Venezuela. A missão, visão e valores destas fundações filantrópicas, e outras que se encontram ou possam vir a ser instituídas no seio da diáspora, são uma indubitável mais-valia no apoio às comunidades lusas no estrangeiro, na preservação e dinamização da cultura, das tradições e língua portuguesa no mundo. Inspirando-nos a máxima do poeta e filósofo Friedrich Schiller: “Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos”.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Manuel Jacinto Clementino: empresário e benemérito da comunidade luso-canadiana

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político. Nos vários exemplos de empresários portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Manuel Jacinto Clementino, um dos mais ativos e beneméritos empresários da comunidade luso-canadiana. Natural da Lomba da Maia, freguesia do município da Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel, Manuel Jacinto Clementino emigrou para o Canadá em 1969, com 19 anos de idade, na companhia dos pais e irmãos, na esteira de milhares de compatriotas que nesse período marcado pela ditadura estadonovista, demandavam no segundo maior país do mundo em extensão territorial, melhores condições de vida. A chegada a Ontário, a província central e mais populosa do Canadá, alavancou o percurso de vida de um verdadeiro “self-made man, que começou a trabalhar em várias indústrias e concomitantemente estudava à noite a língua inglesa. Depois de trabalhar na Hallmark Housekeeping Services, tornou-se sócio e, mais tarde, comprou a totalidade da empresa que hoje emprega mais de cinco mil pessoas em três províncias (Ontário, Alberta e Columbia Britânica). Atualmente a viver em Brampton, na região metropolitana de Toronto, o emigrante micaelense, que tem procurado passar mais tempo com a família, continua ligado à empresa que através dos valores diários do trabalho, esforço e dedicação, catapultou para uma das companhias de referência no setor de limpezas no Canadá. O sucesso que Manuel Jacinto Clementino alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido constantemente acompanhado de um notável espírito solidário em prol da comunidade luso-canadiana. Entre os vários e distintos marcos paradigmáticos de filantropia do reconhecido Presidente e CEO da Hallmark Housekeeping Services, destaca-se, entre outros, o programa anual de bolsas de 25 mil dólares que são distribuídas a dez dos seus funcionários ou respetivos filhos, que necessitam de assistência financeira para alcançar o ensino superior. E, o papel ativo, que teve na génese da SCRF (Supporting Cancer Research Foundation), em 2011, cuja investigação na área do cancro, tem sido alvo de diversos apoios de Manuel Jacinto Clementino. Assim como também, por exemplo, a doação de meio milhão de dólares que entregou, em 2021, ao Magellan Community Centre. Uma organização sem fins lucrativos, que assente essencialmente na solidariedade luso-canadiana, está a edificar um lar culturalmente específico e inclusivo para a comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Fundamentando o emigrante e empresário de origens açorianas, o relevante apoio de forma singular: “Sozinhos, podemos fazer tão pouco, mas juntos podemos fazer tanto. É com grande honra que me junto a outros para dar á nossa comunidade”. O apoio a projetos de cariz sociocultural e solidário luso-canadianos, contribuíram decisivamente para que o empresário benemérito tivesse, em 2003, recebido a Medalha do Jubileu da Rainha Isabel II, atribuída no Canadá a quem fez uma contribuição significativa em prol dos seus concidadãos, da comunidade ou nação, ao longo do último meio século. E, em 2016, passa-se a figurar no Portuguese Canadian Walk of Fame, que anualmente laureia portugueses que se têm destacado no território canadiano. A dimensão generosa de Manny Clementino, como é conhecido no Canadá, que nunca olvida as suas raízes, estende-se igualmente ao torrão natal onde tem sido alvo de várias distinções. Em 2017, a Câmara Municipal da Ribeira Grande, no âmbito da homenagem que prestou a emigrantes que se têm destacado na diáspora, atribuiu a Medalha Municipal de Mérito ao ilustre filho da terra, no decurso da sessão solene comemorativa do 36.º aniversário da elevação da Ribeira Grande a cidade, no Teatro Ribeiragrandense. A iniciativa, que procurou simultaneamente promover e divulgar a Ribeira Grande, as suas gentes e culturas no continente americano, não deixou de destacar a importância de Manuel Jacinto Clementino no apoio a vários conterrâneos em Brampton. Metrópole que computa a presença de uma numerosa comunidade portuguesa, particularmente micaelense, e que tem impulsionado a edilidade açoriana a procurar estabelecer uma geminação com a cidade conhecida como a “mais portuguesa do Canadá”. Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-canadiana, o exemplo de vida do empresário e filantropo Manuel Jacinto Clementino, distinguido em 2021 na XVI Gala Audiência, com o Troféu Portugalidade 2020, inspira-nos a máxima do ensaísta e filósofo Khalil Gibran: “A generosidade não está em dar aquilo que tenho a mais, mas em dar aquilo de que vós precisais mais do que eu”.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

João Inácio de Sousa: um memorável filantropo de origem açoriana na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária. É neste ciclo emigratório oitocentista, que se enquadra o percurso de vida do insigne filantropo luso-americano de origem açoriana, João Inácio de Sousa (1849-1925), cujo monumento em sua homenagem, testemunho de gratidão da Santa Casa da Misericórdia de Velas, pontifica desde a primeira metade do séc. XX, na praça principal desta vila situada na ilha de São Jorge. Natural da freguesia de Santo Amaro, município de Velas, John Enas como era conhecido nos Estados Unidos, almejou fortuna na área agrícola, petrolífera e bancária em Bakersfield, no condado de Kern. Foi nesta cidade do interior da Califórnia, onde veio a falecer e se encontra sepultado, que legou grande parte da sua fortuna à Santa Casa da Misericórdia de Velas e ao Asilo de Mendicidade de São Jorge, hoje denominado Casa de Repouso João Inácio de Sousa. Segundo o obituário do jornal centenário The Bakersfield Californian, cujas datas de nascimento e falecimento do benemérito luso-americano de origem açoriana diferem das que se encontram na Estátua de João Inácio de Sousa, em Velas (o diário californiano, aponta que o mesmo nasceu em 1852, e que faleceu em 1924, com 71 anos de idade). John Enas chegou aos Estados Unidos em 1861, mormente ao condado de Stanislaus, onde trabalhou na tosquia de ovelhas. Em 1873, estabeleceu-se em Delano, no condado de Kern, onde adquiriu rebanhos e dedicou-se à criação de ovelhas. Já em 1881, fixou-se em Bakersfield, onde comprou grandes propriedades agrícolas, várias delas terras petrolíferas no campo do rio Kern, onde chegaram a ser explorados mais de uma dezena de poços de petróleo. No início do séc. XX, o luso-americano associou-se à atividade bancária, tendo sido eleito vice-presidente e diretor do Banco Luso-Americano de São Francisco; administrador do Bank of Bakersfield; e ocupou um cargo no conselho de administração da empresa Security Trust até ao momento da sua morte. Na esteira das informações constantes do obituário do jornal centenário The Bakersfield Californian, o proeminente banqueiro, militante do Partido Republicano e proprietário de Bakersfield de origem açoriana, deixou ao conselho de administração do fundo do Abrigo para Crianças do condado de Kern, 2.500 dólares. Ao bispo da diocese de Los Angeles e Monterey, o membro do capítulo de Bakersfield dos Cavaleiros de Colombo, a maior organização de católicos do mundo, testou 10 mil dólares. Na linha do diário californiano, para o seu torrão natal, foi legado ao Hospital da Misericórdia das Velas, 100 mil dólares. E ao Asilo de Mendicidade de São Jorge, hoje denominado Casa de Repouso João Inácio de Sousa, mais de 100 mil dólares. O mesmo meio de comunicação, apontava ainda que a maior parte do património do capitalista luso-americano, avaliado em cerca de 700 mil dólares, seria para a sua única irmã, Ana Josefa, natural de Santo Amaro, na ilha açoriana de São Jorge. E que o mesmo nomeara como seu executor testamentário, JA Silveira, presidente do Banco Luso-Americano e da empresa Security Trust. Uma das figuras luso-americanas mais proeminentes do primeiro quartel do séc. XX, o exemplo e percurso de vida de João Inácio de Sousa, é indubitavelmente uma centelha inspiradora do passado, presente e futuro das comunidades luso-americanas da Califórnia, o estado com maior diáspora de origem portuguesa nos Estados Unidos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

2025: Ano Novo de dinâmicas e reflexões nas comunidades portuguesas

A caminharmos a passos largos para o final do ano de 2024, período simbólico e propício à renovação e esperança num futuro melhor, que todos desejamos que passe em 2025 pelo desfecho da Guerra na Ucrânia e no Médio Oriente. E pelo dissipar das incertezas que pairam na economia mundial e o necessário incremento do crescimento global. É também uma etapa oportuna para perspetivar novas dinâmicas para as comunidades portuguesas, as mais genuínas embaixadas da pátria de Camões, espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Desde logo, no próximo ano decorrem as eleições autárquicas portuguesas, nas quais estarão em disputa a eleição de 308 presidentes de câmaras municipais, os seus vereadores e assembleias municipais. Assim como, as 3 091 assembleias de freguesia, das quais sairão os próximos executivos das juntas de freguesia. Nesse confronto de ideias e propostas que os partidos políticos, coligações de partidos políticos ou grupos de cidadãos eleitores que se candidatam às próximas eleições autárquicas, impõe-se, desde logo, um amplo debate sobre o efeito da emigração na perda populacional que entrava o país. No topo das suas opções, prioridades e propostas eleitorais, os agentes locais têm de promover agendas políticas capazes de gerarem em articulação com o poder central e regional, bem como com os meios associativos e demais atores da participação cívica, soluções que contribuíam decisivamente para estancar a perda de população. Assim como, o envelhecimento demográfico nacional associado ao fenómeno migratório, que nos últimos anos tem sido compensado pela entrada no país de imigrantes. No cenário político nacional, torna-se imperioso a assunção da (re)valorização da participação das comunidades portuguesas, através do aumento do número de deputados eleitos pelos círculos da emigração. Dado que os quatros mandatos dos dois círculos da emigração, o círculo da Europa e o círculo de Fora da Europa, constituem uma flagrante sub-representação dos mais de cinco milhões de portugueses espalhados pelo mundo, e que correspondem praticamente a metade da população residente no território nacional. Este esforço de revalorização e respeito pela presença de emigrantes e lusodescendentes em todo o mundo, agora, mais do que nunca, percecionados como um valioso ativo e fator identitário para Portugal, deveria ser acompanhado pela criação de um Ministério das Comunidades Portuguesas. Esta reestruturação no modelo organizacional da política para os portugueses residentes no estrangeiro, além de permitir alcançar uma maior autonomia, dignidade e escala na execução das políticas dirigidas à diáspora, possibilitaria aos emigrantes e lusodescendentes um papel central na sociedade, na política, no desenvolvimento, no crescimento e no aprofundamento da democracia em Portugal. Mais do que uma mera mudança na designação, a criação de um Ministério das Comunidades Portuguesas justifica-se pelo peso no passado, presente e futuro da diáspora na projeção de Portugal no mundo. Ainda nesta linha, a introdução definitiva da História da Emigração Portuguesa nos currículos escolares numa abordagem que vá para além das referências às remessas e aos fluxos de saídas para o estrangeiro, constituiu igualmente um elemento essencial para a dignificação desta constante estrutural da história portuguesa. A conceção de um Museu Nacional da História da Emigração, enquanto espaço de valorização do conhecimento da diáspora portuguesa, e simultaneamente fautor de potencialidades culturais e turísticas, é igualmente um projeto que os governantes deveriam concretizar, aproveitando inclusivamente os financiamentos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Este desígnio e imperativo de (re)valorização da diáspora deve potenciar e articular-se ainda com a rede museológica dedicada à emigração portuguesa, enriquecida por exemplo, pelos acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, ou do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. Um projeto nacional que não pode olvidar os espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro, Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, no Canadá; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália; o Museu Histórico Português em São José, na Califórnia; ou o Museu de Herança Madeirense, em New Bedford, nos Estados Unidos da América. Uma ligação que pode e deve também interligar-se com vários museus nacionais espalhados pela geografia da diáspora portuguesa, e cujos espólios acentuam o contributo marcante da imigração portuguesa no desenvolvimento dessas pátrias de acolhimento. Como, por exemplo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano, localizado em Halifax, na província da Nova Escócia; o Museu Nacional da História da Imigração em Paris; ou o Museu da Baleação de New Bedford. Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia no conhecimento, história e memória da emigração lusa. A todos os portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo, uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Um Natal inspirado nas comunidades portuguesas

O Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que todos desejamos que a breve trecho passe pelo desfecho da Guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, assim como pelo dissipar das incertezas que pairam na economia mundial e o necessário incremento do crescimento global. É neste contexto socioeconómico intrincado, que a solidariedade, a estrela que mais brilha no Natal das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, assume-se como uma verdadeira fonte de inspiração e matriz civilizacional. Nos tempos desafiantes que vivemos, a diáspora lusa mantém um incessante espírito de solidariedade, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal, continuando a apoiar quer os nossos compatriotas no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional. São muitos e variados os exemplos de solidariedade dinamizada nesta quadra natalícia no seio da dispersa geografia das comunidades portuguesas. Por exemplo, na comunidade lusa em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas. A Academia do Bacalhau de Paris (ABP), levou a cabo, uma vez mais, a iniciativa Roupa Sem Fronteiras, através de uma campanha de recolha de roupa, calçado, roupas de casa e brinquedos para lhes dar uma segunda vida, junto daqueles que mais necessitam. Coincidente com o falecimento de António Fernandes, presidente honorário da ABP e um dos principais impulsionadores desta iniciativa solidária. A campanha contou este ano com a participação de mais de 70 voluntários, que se uniram para organizar e enviar 28 paletes de donativos, cada uma contendo 16 caixas de roupas, calçado, brinquedos e artigos para o lar, que serão distribuídos por várias associações dos concelhos minhotos de Braga, Fafe e Cabeceiras de Basto. Outro exemplo paradigmático de espírito solidário da diáspora na quadra natalícia, acontece há vários anos na comunidade portuguesa do Reino Unido, a segunda maior da Europa, formada por cerca de 400 mil pessoas. Desde 2013, ano em que foi criada em Londres, a associação Abraço Solidário, que a coletividade benemérita liderada pela madeirense Zita da Silva, se tem empenhado no apoio a causas sociais, quer junto da comunidade portuguesa no Reino Unido, como também em Portugal. No limiar deste mês, no âmbito do tradicional jantar de Natal solidário, no centro de Londres, uma vez mais foram angariados donativos que vão apoiar instituições, famílias e jovens mais carenciados, quer no Reino Unido, como em Portugal continental e na ilha da Madeira. No seio da numerosa comunidade lusa nos Estados Unidos da Améria (EUA), segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, têm sido constantes, entre outras, ao longo deste ano as iniciativas dinamizadas em prol dos Bombeiros Portugueses. Figuras gradas da comunidade luso-americana, como por exemplo, o dirigente associativo Jack Costa, presidente da Assembleia Geral do Sport Club Português e dos Amigos do Vale USA; os empresários beneméritos José Luís Vale e David Oliveira; e o empresário de restauração Manuel Carvalho, revelaram-se, uma vez mais, decisivos na dinamização de iniciativas que permitiram a angariação de donativos em prol, respetivamente dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, Ourém e Anadia. A campanha mais recente da comunidade luso-americana a favor dos “soldados da paz”, foi realizada no alvorecer do presente mês, no Portuguese-American Center of Suffolk, em Farmingville. Emigrantes e dirigentes comunitários como Adelaide Catarina Ferreira, Eurico Tavares, Crystal Fernandes e Sandra Araújo, entre outros, dinamizaram a angariação de mais de 20 mil dólares em prol da aquisição de um novo veículo de combate a incêndios para os Bombeiros Voluntários de Tábua. Ainda na América do Norte, mais concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá, continua a bom ritmo as iniciativas solidárias em proveito da construção do Magellan Community Centre, isto é, a edificação a breve prazo da “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana. Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes portugueses na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, presidida pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto, que através da colaboração do poder político e da solidariedade luso-canadiana, está a edificar um lar culturalmente específico e inclusivo para a comunidade. Orçado em 120 milhões de dólares, ainda recentemente, através da união de todos os órgãos de comunicação comunitários luso-canadianos na Grande Área de Toronto, foi possível dinamizar uma profícua iniciativa de solidariedade que envolveu as forças vivas da comunidade portuguesa, como seja o caso dos comendadores Manuel DaCosta e Frank Alvarez. E assim alcançar donativos, no valor de mais de meio milhão de dólares, essenciais no apoio à construção desta vindoura casa portuguesa. Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio da diáspora, fortalecem a ideia-chave que mesmo em tempos desafiantes, o Natal é uma época inspiradora de solidariedade nas comunidades portuguesas. Que a solidariedade que emana das comunidades portugueses nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, e nos inspire uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo. Como exortava Madre Teresa de Calcutá, exemplo cimeiro de esperança: “É Natal sempre que deixes Deus amar os outros através de ti…sim, é Natal sempre que sorrires ao teu irmão e lhe ofereceres a mão”.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

A solidariedade da comunidade luso-americana em prol dos Bombeiros

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações. Ainda este ano, no mês de setembro, numa fase crítica em que Portugal enfrentou dezenas de incêndios, em particular no Norte e Centro do país, ficou patente a coragem e a importância dos Bombeiros. Sendo que inclusive quatro “soldados da paz” tombaram em serviço da defesa e proteção das populações, o herói João Manuel dos Santos Silva, de 60 anos, durante o combate às chamas na freguesia de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, vítima de um problema cardíaco. E os heróis Paulo Jorge Santos, Susana Cristina Carvalho e Sónia Cláudia Melo, quando o carro em que seguiam estes bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha, foi apanhado pelas chamas no combate ao incêndio que lavrou no concelho da Tábua. Exemplos de genuíno serviço de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos de debilidades económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade das comunidades portuguesas no estrangeiro, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos Bombeiros às populações. Um desses exemplos paradigmáticos mais recentes ocorreu no ocaso do passado mês de novembro, no seio da comunidade portuguesa de Farmingville, no condado de Suffolk, em Nova Iorque. Estado norte-americano onde o Censo 2020 nos EUA, indica que vivem e trabalham mais de 58 mil luso-americanos. Mais concretamente, nas instalações do Portuguese-American Center of Suffolk, uma coletividade luso-americana de referência em Farmingville, com cerca de 700 sócios, e que conta nas suas infraestruturas com a Escola “Antero de Figueiredo”, o Rancho Folclórico “Aldeias de Portugal”, uma secção de futebol e outra de motards. Foi nesta genuína montra de portugalidade nos Estados Unidos, que na noite de 23 de novembro (sábado), se realizou um Jantar de Angariação de Fundos em prol da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua, que há 89 anos apoiam a comunidade desta vila portuguesa do distrito de Coimbra. A iniciativa, muito participada, foi dinamizada por dois filhos da terra que não olvidam as suas raízes, mormente Adelaide Catarina Ferreira e Eurico Tavares, e congregou a presença de várias forças vivas da comunidade luso-americana em Nova Iorque, como Crystal Fernandes, Presidente da New York Portuguese American Leadership Council (NYPALC), e Sandra Araújo, Presidente do Portuguese-American Center of Suffolk (PACS). A que se juntaram, elementos da direção e do comando dos Bombeiros de Tábua, assim como do Presidente da Câmara Municipal de Tábua, Ricardo Cruz. No rescaldo do jantar-convívio, abrilhantado por dois conhecidos artistas de música popular portuguesa nos Estados Unidos, Jorge Ferreira e Arlindo Andrade, foram angariados mais de 20 mil dólares que serão aplicados na aquisição de um novo veículo de combate a incêndios para os Bombeiros Voluntários de Tábua. Um relevante apoio financeiro, provido pela comunidade portuguesa de Farmingville, que permitirá deste modo reforçar a capacidade de resposta, em situações de combate a incêndios, da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua. Neste sentido, as constantes iniciativas solidárias dinamizadas pelas numerosas comunidades luso-americanas, como foi o caso agora da comunidade portuguesa de Farmingville, engrandecem indelevelmente a mensagem do mais alto magistrado da Nação, proferida no âmbito do Dia Nacional do Bombeiro: «Mensageiros de esperança, os Bombeiros portugueses são o bastião que protege e socorre as nossas comunidades em situações de crise ou catástrofe e o garante de que, independentemente das circunstâncias, há sempre alguém, que com abnegação e altruísmo, se prontifica a ajudar o próximo. Que as múltiplas ações de reconhecimento público possam contribuir para o reforço das capacidades dos Bombeiros, permitindo-lhes desempenhar as suas funções com dignidade. O bem dos Bombeiros de Portugal é o bem de todos os Portugueses. Hoje e todos os dias, continuaremos a homenagear os nossos Bombeiros, verdadeiros guardiões da vida, da paz e da segurança».

domingo, 1 de dezembro de 2024

A (re)valorização da emigração na literatura portuguesa

Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa. Um dos exemplos mais recentes, que asseveram a importância destas obras no campo da mundividência da emigração, mas também da criação literária, até porque como destaca a Professora Catedrática da Faculdade de Letras do Porto, Ana Paula Coutinho, no trabalho O português migrante: uma leitura da revista Peregrinação, conquanto “seja já vasta a bibliografia produzida por nacionais e estrangeiros sobre a emigração portuguesa, a sua dimensão cultural e literária tem sido utilizada, quando muito, enquanto documento de leitura sociológica ou antropológica, mas pouco explorada, desde logo em termos criativos e, consequentemente a nível da crítica literária”. Encontra-se vertida na V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora. O livro dado agora à estampa, é um novo contributo da Oxalá Editora, uma editora na Alemanha, vocacionada para a publicação da obra de autores da diáspora, dirigida pelo jornalista, autor e editor Mário GM dos Santos. Coordenada pela escritora São Gonçalves, presentemente a residir no Luxemburgo, e com prefácio da escritora luso-canadiana Irene Marques, atualmente a residir em Toronto, e que em 2000 doi distinguida com o Prémio Literário Ferreira de Castro, a obra reúne três dezenas de poetas residentes na Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra, Luxemburgo, Suíça e Estados Unidos da América. Como salienta Irene Marques no prefácio da obra: “Nesta coletânea, e talvez, como não poderia deixar de ser, encontramos também poemas que abordam diretamente a emigração e a saudade: saímos de Portugal porque a vida assim nos pediu. Saímos para alargar horizontes (ontológicos, económicos, coisas que dentro de nós pediam e que ainda não tinham nome). Saímos para ver, constatar o que existia para além daquele nosso pequenino mundo à beira-mar plantado. Saímos e agora ponderamos como era esse mundo quando o deixámos, como será agora, como poderíamos ter sido se não tivéssemos dele saído. Sonha-se em voltar, mesmo que só através de uma viagem poética, num vai-e-vem de alma, que romantiza, que enaltece, transportando-nos a uma infância que nunca mais podemos recuperar. Porque a infância é uma outra vida que jamais poderemos reaver. A infância é a saudade”. Neste sentido, a V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora, encorpada por uma trintena de poetas residentes nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, muitos deles já com obra publicada aquém e além-fronteiras, não deixando de contribuir para o fomento da criação literária. Representa um relevante contributo para o conhecimento do fenómeno da emigração portuguesa. Um fenómeno complexo, que nas palavras abalizadas de Eduardo Loureço, um dos maiores pensadores da cultura portuguesa, nos “põe em causa, a diversos níveis, de maneira indirecta, a imagem de nós mesmos, mas por isso deve ser apreendida na sua verdade, de maneira adulta e não servir de pretexto como serve a muita gente, a fantasmas colectivos, uns positivos outros negativos, que têm pouco a ver com ela”. A recente edição da V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora, e tudo aquilo que ela representa, revivifica a máxima de Emily Dickinson, uma das figuras mais importantes da poesia americana: “Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”.