Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Manuel Eduardo Vieira: o “rei da batata-doce” na América

 

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor mundial de batata-doce biológica.

Natural de São João, freguesia do concelho de Lajes do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar no território norte-americano, emigrou com 17 anos em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. Ao encontro de um tio, que o acolheu a pedido da mãe, e lhe permitiu estudar para além da 4.ª classe concluída no torrão natal, no seio de uma família humilde, com carências e enleada nas lides agrícolas.

A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, proporcionou ao picoense a formação na área de Contabilidade e Gestão, a experiência de trabalho de escritório em diversas empresas, o encontro com a futura esposa Laurinda, também emigrante, natural de Chaves, e foi ainda berço de nascimento dos seus três filhos.

A ida de Manuel Eduardo Vieira para os EUA ocorreria no começo dos anos 70, período em que os pais e o irmão Artur, já tinham emigrado para a Califórnia e onde trabalhavam no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás, que serviu de palco à sua primeira experiência profissional na área.

O esforço e o nunca desistir perante as dificuldades, patentes no facto de ter começado a estudar inglês à noite e a trabalhar no campo, durante o dia, forjaram um homem que conquistou a pulso o sonho americano. E que teve o impulso decisivo quando em 1977 o tio lhe fez a proposta de vender-lhe a A.V. Thomas Produce que produzia então batata-doce em cerca de 20 hectares de terreno, e tinha uma única linha de tratamento e de embalagem instalada num barracão na cidade de Livingston.

O duplo emigrante açoriano teve o engenho e arte de relançar a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo técnicas pioneiras e inovadoras à produção da batata-doce, como a certificação de produção biológica em 1988, ou recentemente a batata-doce em embalagem individual e pronta a ir ao micro-ondas, e expandindo a propriedade que presentemente tem mais de 1200 hectares. Contexto que a transforma, segundo o departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios que ultrapassa os 50 milhões de euros, e onde nas épocas da apanha, trabalham cerca de 900 trabalhadores, e que levou inclusive na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que levaram a que em 2013 vencesse a primeira edição do “Best Leader Awards (BLA) EUA” na categoria de “Lifetime Achievement”, e que dois anos antes, impeliu o então Presidente da República, Cavaco Silva, a atribuir-lhe a comenda da Ordem de Mérito, Manuel Eduardo Vieira mantém uma ligação umbilical à sua terra natal.

Ainda em 2017, foi inaugurada na praceta do Centro Social da Silveira, Lajes do Pico, onde foi o principal benemérito da obra do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo, uma estátua em sua homenagem e que eterniza igualmente a generosidade que tem repartido por diversas associações da ilha do Pico.

Radicado há cerca de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana, onde foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Filarmónica Lira Açoriana de Livingston, da Casa dos Açores de Hilmar e da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em Turlock.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, encontra-se vertido numa das suas principais máximas de vida: “As coisas boas não aparecem facilmente, é preciso trabalhar duro para consegui-las. Se temos uma meta a atingir, não podemos desistir, porque com trabalho, organização e muita disciplina, tudo é possível”.

 

domingo, 18 de julho de 2021

Envelhecer nas Comunidades Portuguesas

 

Dentro dos desafios e problemáticas que as sociedades enfrentam na atualidade, o envelhecimento populacional assume uma cada vez maior premência, dadas as suas implicações coletivas e multidimensionais, como é o caso, do mercado laboral, da proteção social, das estruturas familiares ou dos laços intergeracionais.

Como apontam as Nações Unidas, o número de idosos, com 60 anos ou mais, deve duplicar até 2050 e mais do que triplicar até 2100, passando de 962 milhões em 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100. Se o envelhecimento populacional é um fenómeno mundial, na Europa assume maiores proporções, até porque, hoje em dia, o velho continente tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%).

No quadro do inverno demográfico mundial e europeu, a sociedade portuguesa é uma das mais afetadas, apontando mesmo o Instituto Nacional de Estatística (INE) que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro de meio século. Este cenário de envelhecimento da população que reside no território nacional, também é visível no seio das comunidades lusas, em particular, nos países com maior e mais antiga tradição de emigração portuguesa.

Segundo o estudo sociológico, A emigração portuguesa no século XXI, a percentagem dos idosos entre os emigrantes lusos aumentou, por exemplo, no Canadá “11 pontos percentuais, passando de 17% para 28%, entre 2001 e 2011, e nos EUA aumentou sete pontos percentuais, de 16% para 23%. Crescimento elevado da percentagem dos idosos é ainda observável entre os emigrantes portugueses em França, destino europeu mais antigo. Essa percentagem duplicou, passando de 8% para 16% entre 2002 e 2011”.

É neste contexto de populações nacionais emigradas mais envelhecidas, que ganha especial relevância a iniciativa que está a ser por estes dias dinamizada no seio da comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Designadamente, o projeto de construção a breve prazo de um centro, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de 200 idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Numa época de galopante envelhecimento da população, e em que os efeitos da pandemia de COVID-19 têm acarretado graves consequências socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, demonstra que o espírito de solidariedade e entreajuda ainda é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Museu da Família Teixeira: um tributo ao legado migratório luso-venezuelano

 

O arquipélago da Madeira, cais singular de chegadas e partidas no oceano Atlântico, tem sido, ao longo da história portuguesa, um dos territórios nacionais mais fortemente marcado pelo fenómeno da emigração.

Um dos principais destinos da emigração madeirense na segunda metade do séc. XX, foi indubitavelmente a Venezuela, país da América do Sul, onde se estima que vivam atualmente cerca de 400 mil emigrantes portugueses, conquanto os lusodescendentes possam ser 1,3 milhões, essencialmente radicados na capital, Caracas, e sobretudo ligados aos sectores da hotelaria, construção civil e alimentação.

O relevante legado histórico da emigração lusa para a pátria de Simón Bolívar, maioritariamente oriunda da Madeira, está desde o início da segunda década do séc. XXI plasmado na missão e visão do Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, freguesia do Faial, no concelho de Santana.

Um espaço museológico concebido pelo empresário Anaclet Teixeira de Freitas, e que tem como principal desígnio homenagear e perpetuar a memória dos seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais de Fajã da Murta, e que nos anos 50, tal como milhares de conterrâneos, encetaram uma trajetória migratória familiar para a Venezuela à procura de melhores condições de vida.

Nos anos 60, com apenas sete anos de idade, Anaclet Teixeira, foi ao encontro dos pais em Caracas onde viria no alvorecer da década de 80 a especializar-se em gastronomia judaica-ortodoxa. Área alimentar, que aliada a uma incansável capacidade de trabalho, ao culto do mérito e a uma constante dedicação à família, permitiram-lhe construir um verdeiro império comercial, atualmente refletido nas conhecidas cadeias de lojas “Rey David” na capital venezuelana.

Detentor de vários investimentos na América Latina, assim como na sua terra natal, onde tem investido em hotéis e imobiliário, contexto que confluiu para que no passado dia 1 de julho, Dia da Região Autónoma da Madeira e das Comunidades Madeirenses, tenha sido agraciado pelo Governo Regional com a insígnia autonómica de bons serviços, Anaclet Teixeira erigiu em Fajã da Murta um espaço museológico que alberga as memórias, objetos, cartas e fotografias da família.

Um núcleo museológico, aberto ao público e com entrada gratuita, aformoseado por um jardim com vinte palmeiras trazidas do Egipto, uma capela, um coreto e uma adega, que ao preservar a história de vida da Família Teixeira, dinamiza e perpetua a memória histórica do fenómeno da emigração no Arquipélago da Madeira, em particular do legado migratório luso-venezuelano.

Como destaca a socióloga das migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, o Museu da Família Teixeira “constitui um espaço museológico revelador de muitos factos que se encontram intimamente ligados à vida pessoal de um migrante, que partiu para a Venezuela pelo chamamento do seu pai e que a partir daí construiu habilmente e de forma particularmente inteligente o sucesso obtido”.

O exemplo de vida Anaclet Teixeira, empreendedor de sucesso que apesar de várias vicissitudes da vida nunca olvida as suas raízes e família, como espelha a construção do museu dedicado a homenagear e perpetuar a memória dos seus pais, inspira-nos a máxima do ensaísta francês Joseph Joubert: “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

sábado, 10 de julho de 2021

Orlando Pompeu inaugurou exposição “Pré-textos Pompeuanos” em Braga

 

No passado sábado (10 de julho) o mestre-pintor Orlando Pompeu inaugurou no Palácio do Raio, um dos mais notáveis edifícios de arquitetura civil da cidade de Braga, em estilo barroco joanino, a exposição “Pré-textos Pompeuanos”.


 

A inauguração da exposição, promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Braga, e que seguiu as regras e condicionantes  inerentes ao momento de pandemia, contou com a presença de amigos, admiradores e colecionadores do pintor de referência nacional e internacional.

Nesta nova exposição, composta por obras conceptuais, acrílico sobre tela e aguarelas, Orlando Pompeu, um dos mais conceituados artistas plásticos portugueses da atualidade, detentor de uma obra que está representada em variadas coleções particulares e oficiais em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Dubai e Japão, exibe um conjunto significativo de trabalhos inéditos marcados pela criatividade, originalidade e contemporaneidade.

Refira-se que a exposição, que computou um prelúdio musical abrilhantado pelo cantor Hugo Torres e a violonista Catarina Pereira, estará patente ao público durante todo o verão num dos principais locais a visitar da cidade de Braga.

domingo, 4 de julho de 2021

Pobreza, pandemia e solidariedade na comunidade portuguesa em França

 

O impacto da pandemia que assola o mundo tem agravado e desvendado várias situações de emigrantes portugueses envoltos nas dificuldades do isolamento, das malhas da pobreza, do flagelo do desemprego e da precariedade.

Nos últimos tempos, têm sido conhecidos, por exemplo, no seio da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, vários casos de emigrantes que viram a pandemia reduzir os seus salários ou ficarem mesmo sem trabalho, não conseguindo por via disso pagar a renda da casa e consequentemente soçobrar perante o espectro da pobreza.

Ainda no final do mês de junho, o Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Paris, Manuel Antunes da Cunha, revelou no decurso das XI Jornadas Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Paris, que seis portugueses, entre os 38 e 82 anos, encontram-se entre as 535 pessoas que morreram nas ruas de França em 2020. Segundo o dirigente da instituição de assistência social lusa em Paris, região onde pereceram cinco mendigos portugueses no ano passado, muitas das vezes olvidamos os compatriotas “cujos percursos de vida não foram os desejáveis para eles e, portanto, em situações de pandemia, aqueles que estão no limiar da pobreza ou têm uma vida remediada rapidamente se encontram em situações de precariedade”. No entendimento do mesmo, a “pandemia põe à vista as dificuldades de uma população que está na fronteira do limiar da pobreza. Há um conjunto de pessoas da nova migração para França que vieram em condições difíceis e não têm retaguarda familiar”.

Este cenário de intrincadas dificuldades decorrentes do cenário pandémico tem sido essencialmente mitigado no seio da comunidade portuguesa em França através de um enorme espírito entreajuda e solidariedade, que tem inclusivamente contribuído decisivamente para a prossecução da missão da instituição de assistência social lusa em Paris. Ainda no ocaso do mês de junho, o coletivo “Todos Juntos”, voltou a mobilizar-se para ajudar a Santa Casa da Misericórdia de Paris numa campanha de recolha de géneros alimentícios, produtos de higiene e outros bens essenciais destinados a apoiar famílias portuguesas carenciadas

 

Este espírito de entreajuda e solidariedade tem sido igualmente profusamente dinamizado ao longo dos últimos anos pela ação benemérita do empresário luso-francês João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”, e que tem sido responsável pela promoção de projetos de cariz sociocultural em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. Ainda recentemente, a Fundação Nova Era, assinou um contrato de aluguer de um apartamento que albergou um lusodescendente, residente em França, que se encontrava há vários meses a residir num espaço sem as condições mínimas de habitabilidade.

Estes exemplos inspiradores de entreajuda e solidariedade, e muitos outros que estão a ser dinamizados no seio da comunidade portuguesa em França, assim como um pouco toda a diáspora lusa, têm sido fundamentais para mitigar os efeitos adversos da pandemia, e dão sentido à citação do afamado advogado Clarence Darrow: “O homem que luta por outro é melhor do que aquele que luta por si próprio”.