Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Museu Histórico de São José: um espaço de valorização da herança cultural portuguesa na Califórnia

 

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária.

A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hodiernamente na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, esteve na base da inauguração a 7 de junho de 1997, na antecâmara do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, do Museu Histórico de São José.

Erigido pela Sociedade da Herança Portuguesa da Califórnia, o museu, que ocupa um espaço de 650 metros quadrados, possuiu uma forte componente dedicada à emigração portuguesa para a Califórnia, às suas tradições, em especial religiosas. De tal modo, que o edifício constitui uma réplica do primeiro Império (Capela do Espírito Santo), à volta da qual se desenvolvem as festas do Espírito Santo, um culto secular enrizado na matriz cultural e religiosa açoriana, potenciador de vivências e valores genuinamente humanistas e solidários.

O Museu Histórico de São José alberga um conjunto diverso de exposições que perpassam a história da emigração portuguesa para a Califórnia, o papel da comunidade lusodescendente num dos mais prósperos estados norte-americanos, o pioneirismo de Portugal na Era dos Descobrimentos e a presença lusófona nos quatro cantos do mundo. O seu espaço exterior merece também amplo destaque, designadamente a sua sublime praça onde se encontra uma recriação, em azulejos portugueses, da Rosa-dos-Ventos que ornamenta o terreiro de acesso ao Padrão dos Descobrimentos em Lisboa.

Uma das dimensões diferenciadoras e inovadoras do Museu Histórico de São José, é a sua aposta decisiva nas novas formas de comunicação, com especial incidência no digital. De facto, através do site oficial do museu – www.portuguesemuseum.org- é possível aceder a todo o acervo museológico. Assim como, a um conjunto expressivo de documentos/fontes de valor incalculável para o conhecimento da emigração portuguesa para a Califórnia, que constituem uma indubitável mais-valia para o trabalho de investigadores que se debruçam sobre a temática migratória e a presença portuguesa na América.

A singularidade do Museu Histórico de São José, concorrerá seguramente para que o mesmo integre a futura rede museológica digital dedicada à emigração lusa. Um projeto de rede museológica estruturado pelo Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, ainda em fase embrionária, e cuja principal ambição passa por ligar a história da diáspora portuguesa e suas vias de acesso, via digital e num itinerário real, fisicamente implantado, apto a reconhecer os diferentes fluxos migratórios e capaz de atrair o interesse pelo país e suas gentes.

Esta plataforma, que pretende ligar os espólios que em Portugal contam a história da emigração, pode e deve aglutinar ainda espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro. Como é o caso paradigmático do Museu do Museu Histórico de São José, alicerçado na força do querer e notável dinamismo da comunidade luso-americana da Califórnia.

O papel e relevância da comunidade portuguesa contribuíram decisivamente para que há quatro anos fosse oficialmente inscrita na legislatura estadual da Califórnia, após aprovação unânime no Senado, uma resolução a declarar junho de 2019 como "Mês da Herança Nacional Portuguesa".

Enquanto espaço singular de homenagem, eternização e valorização da herança cultural lusa nos Estados Unidos da América, em particular na Califórnia, o Museu Histórico de São José, constitui-se como um exemplo inspirador para as comunidades portuguesas no mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

 

 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Parcídio Peixoto: um obreiro da memória da emigração portuguesa para França

 

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é indubitavelmente a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico, político e associativo.

Nestes vários exemplos, por exemplo, de dirigentes associativos da diáspora, cada vez mais percecionados como um ativo estratégico na promoção e reconhecimento do país, tem-se destacado, ao longo dos últimos anos, o percurso altruísta e dinâmico de Parcídio Peixoto.

Originário de Fafe, concelho localizado na região do Baixo Minho, Parcídio Peixoto, nasceu em 1948 no seio de uma família modesta de agricultores. Contexto que concorreu para que em 1965, tenha partida a “salto”, expressão muito utilizada na época para descrever a emigração clandestina, em direção à França, na esteira de milhares de compatriotas, que nos anos 60, impelidos pela miséria rural, e a fuga ao serviço militar e à Guerra Colonial, demandaram melhores condições de vida na pátria gaulesa.

Na região parisiense, onde constituiu família e desenvolveu a atividade profissional em diversas áreas, embrenhou-se ativamente no movimento associativo da comunidade lusa, onde se tornou uma figura grada, assim como das autoridades locais e portuguesas.

Antigo tesoureiro da Federação das Associação Portuguesas em França, e do Conselho das Comunidades Portuguesas, a Parcídio Peixoto se deve um contributo importante na aproximação do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt (1926-2018), fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa para França, à comunidade portuguesa. Que desse modo, redescobriu no alvorecer do séc. XXI o seu valioso trabalho e espólio, fundamentais para uma melhor compreensão e representação do nosso passado recente.

Foi na sequência do seu ativismo sociocultural dinamizado na Amicale Culturelle Franco-Portugaise Intercommunale de Viroflay, nos arredores de Paris, que foi desencadeada a doação, em 2009, de mais de uma centena de fotografias originais de Gérald Bloncourt, com quem mantinha uma relação de amizade bastante estreita, ao Museu das Migrações e das Comunidades, sediado na sua terra natal, e que se assume como um centro de encontro e preservação de memória da emigração portuguesa.

O seu trabalho persistente de resgate da memória da emigração portuguesa para França, levou-o a fundar há uma década a Associação Memória das Migrações, estabelecida no território gaulês, e que tem desde então realizado um trabalho articulado, com o Museu das Migrações e das Comunidades, na recolha de documentos e testemunhos dos portugueses que saíram de Portugal nos anos de 1960-70 e ainda continuam a deixar Portugal. Em Maio de 2013, foram assinados protocolos com o Consulado Geral de Portugal em Paris, o Museu das Migrações e das Comunidades e a Associação Memória das Migrações, no sentido da recolha de documentos, objetos e histórias de vida ligados às migrações dos portugueses para França.

Esta profunda ligação à preservação da memória da emigração portuguesa para França, mas também às suas raízes, concorreu para que em 2018 tenha estado patente, no verão de 2018, na Sala de Visitas do Minho, uma exposição fotográfica e documental “Racines – Les Amours suspendus”, enquadrada nas comemorações do Centenário da Batalha de La Lys (9 de abril de 1918) e do termo da I Guerra Mundial (1914-1918).

A sua estreita ligação a Gérald Bloncourt, concorreu para que no ocaso de 2019, tenha sido um dos principais dinamizadores da homenagem póstuma, promovida pela comunidade portuguesa, ao fotógrafo franco-haitiano no Museu Nacional da História da Imigração de paris.

Figura grada da comunidade portuguesa em França, a dedicação laboriosa do emigrante e dirigente associativo Parcídio Peixoto, inspira-nos a máxima de José Saramago, o único Nobel da Literatura em língua portuguesa: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas: a alma da comunidade luso-americana em São José

 

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos nacionais, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária.

A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hoje na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, encontra-se espargida na Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, em São José, que constituiu um genuíno pilar de fé, de assistência espiritual e pastoral na maior concentração urbana portuguesa na Califórnia.

A génese da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas remonta à década de 1910, mais concretamente ao ocaso do ano de 1913, época em que foi adquirido o terreno para contruir o templo e foi apresentada uma petição ao arcebispo Patrick William Riordan, de São Francisco, visando instituir a Paróquia Nacional Portuguesa de Five Wounds.

A construção iniciada em 1914 contou com o apoio fundamental e fervoroso de monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, um insigne açoriano nascido na segunda metade do séc. XIX, em Cedros, Ilha do Faial. Ordenado no término da centúria oitocentista, tornou-se vigário na freguesia de São Mateus, Ilha Terceira, tornando-se mais tarde vigário paroquial da Matriz de Santa Cruz, na Ilha das Flores. 

Em 1912 emigrou para os Estados Unidos da América onde recebeu o título de Monsenhor, um   título honorífico concedido pelo papa a certos eclesiásticos por serviços prestados à Igreja. Designado primeiramente para a região agrícola do Vale de São Joaquim, um dos centros da emigração portuguesa na Califórnia, monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, chegou a São José em 1914, tornando-se o grande obreiro e impulsionador da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas.

O seu papel basilar, escorado na generosidade constante da comunidade portuguesa, entre 1910-20 calcula-se que tenham entrado no território americano cerca de 150 mil açorianos, ficou plasmado na negociação que encetou em 1916 com o governo português para a compra da madeira do então desmantelado Pavilhão de Portugal da Exposição Panamá – Pacífico, em São Francisco, erigido no ano anterior no âmbito da Exposição Universal que decorreu nos EUA.

Inaugurada solenemente, a 13 de julho de 1919, pelo arcebispo Edward Joseph Hanna, de São Francisco, a centenária Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, encerra historicamente a particularidade de ter sido inspirada na traça arquitetónica da Igreja de Santa Cruz, uma das mais expressivas manifestações do período barroco na cidade de Braga, no norte de Portugal.

Adornada nas décadas de 1930-40, fase marcada pelo falecimento do monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, com mais de três de dezenas de sublimes vitrais, e em constante dinâmica espiritual e pastoral enriquecida pela Irmandade do Espírito Santo. Assim como pela Escola Primária Five Wounds construída e inaugurada em 1960, época em que a emigração portuguesa para a América voltou a aumentar no decurso da erupção do Vulcão dos Capelinhos.

Assumindo-se desde o passado à atualidade como a alma da comunidade luso-americana em São José, a Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas tem almejado alcançar ao longo das décadas padres de língua portuguesa na liderança da paróquia, como é o caso hodierno do padre António Silveira, e apoios beneméritos de figuras gradas da comunidade, vivificando-se como casa e escola de comunhão dos fiéis luso-americanos.

 Numa época de grandes desafios para as comunidades portuguesas nos Estados Unidos, motivada pela conjugação do envelhecimento com a entrada de cada vez menos emigrantes lusos no território, a centenária Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas revela, concomitantemente, a ação pioneira da Igreja Católica no apoio aos emigrantes, e o pilar que a fé e a prática religiosa representam para uma parte significativa dos luso-americanos.

Como explanava o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no ano passado aquando da visita às comunidades luso-americanas da Califórnia, que computou a ida à missa na Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, no âmbito do programa privado do mais alto magistrado da Nação, embora Portugal esteja fisicamente distante de São José, na Califórnia, “tem um território espiritual que cobre todo o mundo. Onde esteja um português, está Portugal, e por isso o nosso território espiritual é muitíssimo maior, é muitíssimo mais vasto do que o território físico, formado pelas ilhas dos Açores, pelas ilhas da Madeira e pelo continente português”.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Daniel Bastos apresentou livro dedicado às comunidades portuguesas em Bruxelas

 

Na passada sexta-feira (23 de junho), foi apresentado em Bruxelas, o livro Comunidades, Emigração e Lusofonia”.

A obra, prefaciada pelo advogado e comentador Luís Marques Mendes, e que reúne as crónicas que o historiador Daniel Bastos tem escrito nos últimos anos na imprensa de língua portuguesa no mundo, foi apresentada na livraria “La petite portugaise”, um espaço cultural de referência da comunidade lusa na capital da Europa.

O historiador Daniel Bastos (esq.), acompanhado do escritor Joaquim Tenreira Martins, no decurso da sessão de apresentação do livro “Comunidades, Emigração e Lusofonia” na capital da Europa 


A sessão de apresentação, que levou à livraria portuguesa em Bruxelas, vários emigrantes e dirigentes associativos, esteve a cargo do escritor Joaquim Tenreira Martins, que salientou “que neste livro, Daniel Bastos tem como objetivo informar, divulgar, sugerir, chamar a atenção, refletir, dar opinião” sobre o papel das comunidades portuguesas no mundo.

Refira-se que neste último livro, que tem sido apresentado em diversos espaços da diáspora, o escritor revela o empreendedorismo, as contrariedades, a resiliência e a solidariedade das comunidades portuguesas, a riqueza do seu movimento associativo, e as enormes potencialidades culturais, económicas e políticas que as mesmas representam. Como é caso da comunidade lusa na Bélgica, constituída por cerca de 70 mil pessoas, e que nos últimos anos se tem tornado um dos destinos mais procurados pelos emigrantes portugueses.

Professor e autor de várias obras que retratam a história da emigração portuguesaDaniel Bastos é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.

 

 









sábado, 17 de junho de 2023

Saltar Fronteiras

 

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um desses exemplos que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração portuguesa, encontra-se vertido no livro Saltar Fronteiras, da autoria de João Machado. Natural da cidade berço de Portugal, e antigo emigrante em França durante cerca de quarenta anos, pátria de acolhimento para onde emigrou no alvorecer dos anos 70 na esteira de milhares de jovens lusos que partiram “a salto” para o centro da Europa para fugir ao recrutamento militar e à guerra em África, João Machado verteu nas páginas da sua recente obra, memórias autobiográficas da epopeia da emigração portuguesa para França.

Ao longo das suas mais de 400 páginas, o antigo dirigente da Federação das Associações Portuguesas em França, retrata a história de quatro jovens vimaranenses, no ocaso dos anos 60, quando dois desertores e dois refratários do exército colonial decidiram debandar para França.

Descrevendo a ambiência do torrão natal nessa época, os sonhos irrealizáveis da juventude, o medo da PIDE e a recusa da Guerra Colonial, como motivos basilares para a viagem “a salto” para França, João Machado, um dos quatro jovens desertores, revive uma das dimensões da emigração portuguesa que começa a atrair o olhar dos cientistas sociais, mormente, os desertores da Guerra Colonial, uma temática que até há bem pouco tempo era quase tabu.



Um desses cientistas sociais que nos últimos anos tem dedicado particular atenção à extensão, natureza e impacto do fenómeno da deserção no quadro da Guerra do Ultramar, interligado com o fenómeno da emigração portuguesa, é o investigador do Centro de Estudos Sociais, Miguel Cardina.

Como o mesmo acentua, e João Machado revive como eixo estruturante e relevante contributo da sua obra, entre 1961 e 1974, no quadro da Guerra Colonial, estima-se que mais de 200 mil jovens portugueses tenham faltado à chamada para a incorporação militar. Para além dos faltosos e refratários, mais de 8 mil jovens recusaram conscientemente combater os movimentos de libertação africanos em Angola, Moçambique e na Guiné, desgastando seriamente os pilares do estado autoritário português.

Segundo Miguel Cardina, quase meio século volvido da Revolução de Abril, “a sociedade portuguesa ainda não absolveu os desertores que continuam sujeitos ao julgamento moral”. Sendo que, “se a tudo isto juntarmos o binómio coragem/cobardia, que surge frequentemente quando se discute esta questão, percebemos que as questões políticas e as questões morais acabam por ter, ainda hoje, um peso importante e tornar este tema incómodo.”

 


domingo, 4 de junho de 2023

Daniel Bastos apresenta livro sobre as comunidades portuguesas em Bruxelas

 No dia 23 de junho (sexta-feira), o escritor e historiador Daniel Bastos apresenta em Bruxelas, o seu mais recente livro “Crónicas - Comunidades, Emigração e Lusofonia”.



A obra, que reúne as crónicas que o historiador tem escrito nos últimos anos na imprensa de língua portuguesa no mundo, é apresentada às 18h00, na livraria “La petite portugaise”, um espaço cultural de referência da comunidade lusa na capital da Europa.

A apresentação do livro, que é prefaciado pelo advogado e comentador Luís Marques Mendes, e conta com posfácios de Maria Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, e de Isabelle Oliveira, Presidente do Instituto do Mundo Lusófono, estará a cargo do escritor Joaquim Tenreira Martins.

Nesta última obra, que tem sido apresentada em diversos espaços da diáspora, o escritor revela o empreendedorismo, as contrariedades, a resiliência e a solidariedade das comunidades portuguesas, a riqueza do seu movimento associativo, e as enormes potencialidades culturais, económicas e políticas que as mesmas representam. Como é caso da comunidade lusa na Bélgica, constituída por cerca de 70 mil pessoas, e que nos últimos anos se tem tornado um dos destinos mais procurados pelos emigrantes portugueses.

Professor e autor de vários livros que retratam a história da emigração portuguesa, Daniel Bastos, que ainda no mês passado apresentou na América do Norte o seu último livro, no âmbito das celebrações dos 70 anos da emigração portuguesa no Canadá, é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.


sábado, 3 de junho de 2023

Manuel Pinto Lopes: um emigrante benemérito que não esquece as suas raízes

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é indubitavelmente a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político.

Nos vários exemplos de empresários lusos da diáspora, cada vez mais percecionados como um ativo estratégico na promoção e reconhecimento internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e benemérito do empresário Manuel Pinto Lopes.

Originário de Fafe, concelho localizado na região do Baixo Minho, Manuel Pinto Lopes, nasceu em 1956 no seio de uma família modesta. Contexto que concorreu para que apenas com 11 anos, com a restante família, tenha partido em direção à França, ao encontro da figura paterna que tinha emigrado dois anos antes, na esteira de milhares de compatriotas, que nos anos 60, impelidos pela miséria rural e a ausência de liberdade, demandaram melhores condições de vida na pátria gaulesa.

O trabalho, o esforço, a humildade e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, catapultaram o jovem minhoto para um percurso de empresário de sucesso, consubstanciado ao longo das últimas décadas na liderança da Almeca Services, uma empresa de referência ao nível de aluguer e montagem de andaimes em Paris. 

O sucesso que o emigrante fafense tem alcançado no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de um apoio constante à comunidade luso-francesa, destacando-se, a sua ligação umbilical ao meio associativo da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa.

Antigo dirigente da Associação Portugal Novo de Colombes, membro da Santa Casa da Misericórdia de Paris, da Associação Minhotos de Chichy, da Academia do Bacalhau de Paris, e recentemente empossado Presidente da Associação Portuguesa de Beneficência, em Le Raincy, nestas e noutras agremiações tem apoiado e dinamizado notáveis iniciativas solidárias em prol da numerosa comunidade luso-francesa.  Ainda no meio associativo franco-português, Manuel Pinto Lopes, nomeado um dos “Portugueses de Valor” em 2012 pela revista da diáspora Lusopress, um relevante meio de comunicação social da comunidade lusa em França, é um apresentador histórico do programa de rádio “Espaço Aberto”, na Rádio Alfa, a emissora mais popular dos portugueses em Paris.

Dinamizador e patrocinador de várias atividades, e projetos de cariz sociocultural e solidário, o empresário, dirigente associativo e benemérito da comunidade em França não esquece as suas raízes. Como como atesta o facto de direta ou indiretamente ter já oferecido à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fafe uma dezena de viaturas, mormente, veículos para combate a fogos florestais e urbanos, ambulâncias e autoescadas.

O insigne espírito bairrista e generoso foi singelamente distinguido no início do séc. XXI, com a atribuição de medalha de mérito pela Junta de Freguesia de Fafe, assim como pelo Município de Fafe, que lhe outorgou a medalha de prata de mérito concelhio em reconhecimento pelos inestimáveis serviços que tem prestado à sociedade local, no âmbito do apoio aos Bombeiros Voluntários de Fafe. Ainda neste entrecho e no mesmo período, a Liga dos Bombeiros Portugueses, que se constitui como a confederação das Associações e Corpos de Bombeiros voluntários ou profissionais no território nacional, atribui-lhe a Medalha de Serviços Distintos.

Uma condecoração justa e merecida, que se destina a galardoar elementos dos Corpos de Bombeiros, dirigentes dos órgãos sociais das entidades detentoras de Corpos de Bombeiros e das Federações Regionais ou Distritais de Bombeiros e Liga dos Bombeiros Portugueses bem como indivíduos e entidades da sociedade civil, pela prática de Serviços Distintos que contribuíram, com notável evidência para o engrandecimento e prestígio das instituições de Proteção e Socorro.

Uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em França, o exemplo de vida do empresário, dirigente associativo e emigrante benemérito Manuel Pinto Lopes, inspira-nos a máxima do escritor Franz Kafka: A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”.