Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2023
Natal é época de solidariedade nas comunidades portuguesas
domingo, 10 de dezembro de 2023
Jack Oliveira: empreendedor e benemérito da comunidade portuguesa em Toronto
domingo, 3 de dezembro de 2023
Maria Manuela Aguiar: uma vida dedicada à emigração
domingo, 5 de novembro de 2023
Historiador Daniel Bastos participa em colóquio sobre os 70 anos da comunidade portuguesa em Montreal (Canadá)
Os 50 anos do programa de estudos portugueses na Universidade de São José na Califórnia
domingo, 29 de outubro de 2023
Joel Filipe: um sindicalista e benemérito da comunidade portuguesa em Toronto
sábado, 21 de outubro de 2023
In memoriam Comendador António Fernandes Barros
sábado, 14 de outubro de 2023
A (re)valorização da emigração na literatura portuguesa
sábado, 7 de outubro de 2023
A filantropia da diáspora em prol dos Bombeiros
sábado, 30 de setembro de 2023
Magellan Community Centre: o futuro da(s) comunidade(s)
domingo, 24 de setembro de 2023
John Guedes: um emigrante benemérito que não esquece as suas raízes
domingo, 17 de setembro de 2023
Deolinda Adão: uma fautora da cultura e língua portuguesa na Califórnia
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
História das emigrações italiana e portuguesa no Luxemburgo
domingo, 10 de setembro de 2023
Festival de Setembro evidenciou odisseia da emigração em Ourém
domingo, 3 de setembro de 2023
John Medeiros: a arte luso-americana da joalharia
domingo, 27 de agosto de 2023
Eduardo Eusébio: um paladino da língua portuguesa na Califórnia
domingo, 20 de agosto de 2023
Monumentos ao Emigrante na Diáspora
sábado, 12 de agosto de 2023
José Saldanha: lutador pela liberdade, emigrante e empreendedor
Entre
1933 e 1974 vigorou em Portugal um regime autoritário e conservador, designado
de Estado Novo, sustentado na força repressiva da polícia política (PIDE), nas
amarras da censura e na ausência de liberdade. Um regime idealizado pelo seu
principal mentor, Oliveira Salazar, ditador de um país eminentemente rural,
pobre, atrasado e analfabeto.
Apesar
da repressão e violência foram vários os que se opuseram às ideias do Estado
Novo, e instaram na luta política de oposição ao regime em defesa dos ideais da
liberdade e da democracia. Entre esses vários lutadores pela liberdade e
democracia, muitos deles protagonistas anónimos da história portuguesa,
destaca-se o percurso inspirador e singular de José Saldanha, um emigrante
empreendedor de sucesso no Brasil.
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José Saldanha |
Natural
de Fafe, concelho localizado na região do Baixo Minho, José Saldanha nasceu em
1929, no ocaso da Primeira República, no seio de uma família comprometida com
os ideais democráticos republicanos. Filho do comerciante e político António
Saldanha (1904-1978), afamado oposicionista estadonovista no distrito de Braga,
inúmeras vezes preso pela PIDE e proprietário do Café Avenida, em Fafe, base
dos resistentes antifascistas na Sala de Visitas do Minho, e em várias
ocasiões, antecâmara da viagem “a salto” para quem procurava melhores condições
de vida, José Saldanha cedo seguiu as pisadas do pai na luta pelos ideais da
liberdade e democracia.
Com
um percurso educativo que computou a frequência do vetusto Colégio Araújo Lima,
na cidade do Porto, José Saldanha foi um elemento ativo do Movimento de
Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil) na região nortenha. Na
esteira da figura paterna, foi um entusiasta da candidatura oposicionista do
general Norton de Matos à Presidência da República em 1949,
assim como da candidatura oposicionista de Humberto Delgado, o “General Sem
Medo”, em 1958, que acabaria assassinado em 1965 por agentes da PIDE, após ter
sido atraído para uma cilada em Badajoz (Espanha).
Em 1961, após no final
da década antecedente ter acumulado experiência profissional na área
petrolífera em Angola, antiga colónia portuguesa em África, José Saldanha
alertado pela ameaça de prisão da PIDE, com o auxílio do pai atravessa
clandestinamente o rio Minho, para a Galiza, adquirindo em Vigo o bilhete da
passagem de barco para o Brasil.
No
vasto país sul-americano, onde continua a residir a maior comunidade lusa da
América Latina, o oposicionista e emigrante por motivos políticos conheceu em
1962, no Rio de Janeiro, a brasileira Nilza Saldanha, grande suporte e companheira de vida.
Encetando uma carreira fulgurante e bem-sucedida no ramo comercial e
empresarial, através da representação de firmas de tecidos que eram exportados
para Angola, assim como de representante da Philips e Volkswagen
Brasil, orientado a exportação de material elétrico e automóveis para
territórios africanos de expressão portuguesa. O emigrante fafense, manteve-se
concomitantemente um oposicionista estadonovista ativo no Movimento Nacional
Independente (MNI), uma organização criada por Humberto Delgado que visava
manter unidas as forças da oposição no combate à ditadura após as fraudulentas
eleições de 1958 que elegeram como Presidente da República, Américo Tomás, e
impeliram em 1959, Humberto Delgado para o exílio no Brasil.
Nas memórias vivas de
José Saldanha, ainda hoje o mesmo revive diversos episódios da sua ligação,
enquanto 2.º Secretário do MNI, na luta contra o Estado Novo a partir do
Brasil. Mormente, o facto de ter
custeado as despesas das cerimónias fúnebres no Brasil de Arajaryr
Campos, cidadã brasileira e Secretária do General Humberto Delgado,
assassinada conjuntamente com o herói da liberdade português pela PIDE em 1965.
Ou, ter sido, com o seu passaporte que Hermínio da Palma Inácio (1922–2009),
conhecido revolucionário que participou em diversas ações subversivas, partiu
do Brasil em direção a Portugal, concretizando em 17 de maio de 1967, o
histórico assalto da dependência do banco de Portugal da Figueira da Foz, procurando
assim financiar as operações antifascistas no exterior.
Neste sentido, o
percurso inspirador e singular do nonagenário lutador pela liberdade, emigrante e empreendedor de sucesso no Brasil, profundamente
dedicado e estimado pela extensa prole, e que periodicamente regressa ao seu
torrão natal para passar as férias e matar saudades, inspira-nos a
máxima do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre: “Quando,
alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana, os deuses deixam de poder
seja o que for contra esse homem”.
terça-feira, 8 de agosto de 2023
João Pires: um exemplo de empreendedorismo e humildade na comunidade portuguesa da Califórnia
A
comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no
território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel
do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão
de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores,
destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e
relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.
No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos
americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e
luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que
alcançaram o sonho americano ("the American dream”).
Entre
as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a
capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o
percurso inspirador e de sucesso do comendador João Pires, dirigente
associativo, criador de gado e produtor de leite no Vale de São Joaquim, um dos
centros da emigração portuguesa na Califórnia.
Natural da Ladeira Grande, freguesia da
Ribeirinha, Ilha Terceira, emigrou dos Açores na década de 1970, época em que casou com
o grande suporte e companheira de vida Cecília Correia, para o sul da
Califórnia na esteira transatlântica de milhares de compatriotas em busca de
uma vida melhor.
Desde
sempre ligado à indústria do leite, e detentor de uma personalidade abnegada,
modesta e resiliente, e profundamente comprometida com a família e o trabalho,
estabeleceu-se nos anos 80 em Hilmar. E na década seguinte, em Gustine, lançando
assim as bases para a criação de uma das
maiores e mais modernas leitarias da Califórnia, hoje com mais de
dez mil cabeças de gado, contexto que contribui decisivamente para que
seja unanimemente reconhecido como um dos mais destacados produtores leiteiros
no Condado de Merced.
A trajetória singular de João Pires, que
constantemente faz das fraquezas forças,
e encontra nas adversidades oportunidades, lemas de vida essenciais para
singrar ao longo dos anos num sector que não é imune a crises e dificuldades,
foram enaltecidas no ano passado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo
de Sousa. No âmbito de uma visita de cinco
dias aos principais centros da emigração portuguesa na Califórnia, o chefe de Estado atribuiu, no salão português de
Gustine, ao emigrante açoriano a comenda da Ordem do Mérito, destinada a
galardoar atos ou serviços meritórios no exercício de quaisquer funções,
públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da coletividade.
No decurso da cerimónia, o mais alto
magistrado da Nação, explicou a atribuição do galardão com termos devidamente
elucidativos: «havia muitas pessoas que mereciam ser condecoradas», nesta
região, mas "quis encontrar alguém que é muito humilde, fala pouco, faz
muito mas fala pouco, está sempre presente. Ele é um grande empresário,
produtor aqui, mas sobretudo tem ajudado muito, muito as associações aqui».
De facto, o
sucesso que o emigrante terceirense alcançou
ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de um
apoio constante à comunidade luso-americana. Por exemplo, o comendador João
Pires é um dos grandes beneméritos das Festas do Espírito Santo na Califórnia,
sendo desde os anos 90, tesoureiro da Festa do Espírito Santo de Gustine.
Esta ligação marcante à Festa do Espírito Santo, uma
das características indeléveis da cultura açoriana, concorrem para que o mesmo
não olvide as suas raízes e seja igualmente um conhecido benemérito e padroeiro
na sua terra natal. Ainda em 2017, no seguimento das comemorações do Divino Espírito Santo
na Ladeira Grande, o casal Cecília e João Pires ofereceu à freguesia três touradas à corda.
Uma
das figuras mais consideradas e respeitadas da comunidade
luso-americana da Califórnia, o exemplo de empreendedorismo e humildade do comendador João Pires, inspira-nos a máxima do escritor indiano Rabindranath Tagore: “Quanto
maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza”.
terça-feira, 25 de julho de 2023
Mapril Batista: um emigrante empreendedor de referência na comunidade portuguesa em França
Uma
das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos
quatro cantos do mundo é indubitavelmente a sua dimensão empreendedora, como
corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de
sucesso e desempenham funções de relevo a
nível cultural, social, económico e político.
Nos
vários exemplos de empresários lusos da diáspora, cada
vez mais percecionados como um ativo estratégico na
promoção e reconhecimento internacional do país, destaca-se o percurso
inspirador e de sucesso do comendador Mapril Batista.
Natural
do Bombarral, distrito de Leiria, Mapril Batista partiu para França
em 1963, com seis anos de idade, na companhia da mãe e do irmão mais velho, ao
encontro da figura paterna que emigrara a “salto” em demanda de melhores
condições de vida para uma família humilde, na esteira da larga maioria da
população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza.
Revelando
desde muito cedo um espírito empreendedor, assim como uma personalidade
abnegada e profundamente comprometida com o trabalho, o jovem bombarralense
iniciou na década de 70 um trajeto socioprofissional que o catapultou para um
dos empresários de referência da comunidade portuguesa em França.
Em 1976, após ter andado
na escola até aos 16 anos, e tendo trabalhado numa companhia a montar telefones
e noutra firma como chefe de equipa de pedreiros, Mapril Batista entrou numa empresa como motorista de
ambulâncias. Nesse mesmo ano, casou com Maria de Lurdes Carruço, grande suporte
e companheira de vida, e rapidamente redimensionou o modo de funcionamento da
empresa, experiência que o impulsionou no final dessa década a lançar-se por
conta própria nos serviços de transporte de doentes.
A sua notável capacidade
empreendedora contribuiu para que nos anos 90 chegasse a
ter 17 firmas, três centenas de funcionários e mais de 300 ambulâncias a
circular nas estradas gaulesas, consolidando-se nesse período como um
profissional de referência nos transportes sanitários em França.
Empresário
multifacetado, com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas
que estão na base do prémio COTEC Portugal, que recebeu em
2013 das
mãos do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Assim como, das insígnias
da Ordem de Mérito, grau de Comendador, que lhe foram atribuídas pelas
autoridades portuguesas em 2018, Mapril
Batista fundou no alvorecer do séc. XXI a “Les Dauphins”.
Uma empresa de fabrico e venda de ambulâncias
adaptadas, que transaciona atualmente mais de mil veículos por ano e colocou já
nas estradas gaulesas mais de 10 mil viaturas, com a particularidade, das viaturas serem todas
fabricadas em Portugal. Contexto que concorre indelevelmente para que Mapril Batista seja conhecido como o “rei das ambulâncias”.
O sucesso que o
emigrante bombarralense alcançou ao
longo das últimas décadas, tem sido acompanhado de um apoio constante à
comunidade luso-francesa. Destacando-se, entre outros, o seu relevante trabalho
em campanhas solidárias dinamizadas no Lions Club de Montfermeil Coubron, e na
Academia do Bacalhau de Paris. O seu papel cívico e político enquanto vereador
e conselheiro na Câmara Municipal de Pomponne, comuna francesa localizada na região
administrativa da Île-de-France, no departamento Sena e Marne. E a liderança,
nos anos mais recentes, do Lusitanos de Saint-Maur, uma equipa de futebol dos
arredores de Paris, representativa da comunidade portuguesa em França.
Entre
os aspetos mais proeminentes do comendador Mapril Batista, um homem sempre ligado à família, sobressai ainda
na sua dimensão benemérita, o profundo apego às suas raízes. Ainda no ocaso do
ano de 2021, a delegação da Lourinhã da Cruz Vermelha Portuguesa foi contemplada, pelo
empresário da “Les Dauphins”, com um VDTD - Veículo Destinado ao Transporte de
Doentes não-urgentes. Não por acaso, Mapril Batista foi já distinguido pelos Municípios da Lourinhã e da
Figueira da Foz, com as respetivas Medalhas
da Cidade, como forma de reconhecimento pelo altruísmo e constante generosidade em prol destas
populações.
Uma das figuras mais conhecidas da
comunidade portuguesa em França, a mais
numerosa das
comunidades lusas na Europa, o exemplo de vida do emigrante empreendedor e benemérito Mapril Batista, inspira-nos a máxima do filósofo Albert
Schweitzer: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros – é
a única”.