Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma consciência crítica contra uma visão de sociedade enfeudada em artificialismos. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente, nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor e historiador Daniel Bastos.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Os trabalhadores forçados portugueses do III Reich



No passado mês de novembro foi inaugurada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a exposição Os Trabalhadores Forçados Portugueses no III Reich, que aborda o tema dos portugueses de todas as origens e condições que foram sujeitos a trabalhos forçados no âmbito do sistema concentracionário do III Reich, nomeadamente durante a II Guerra Mundial (1939-1945).

Resultado de um projeto de investigação do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, apoiado pela fundação alemã EVZ – Erinnerung, Verantwortung, Zukunft (Memória, Responsabilidade, Futuro), pelo Goethe-Institut e pela Associação CIVICA (França), a exposição evoca pelo menos 400 portugueses vítimas de trabalhos forçados na Alemanha nazi. Como sustenta o historiador Fernando Rosas, que dirige o projeto desta exposição composta por fotografias e objetos pessoais, “cerca de 400 portugueses, talvez um pouco mais, estiveram confinados durante a Segunda Guerra Mundial em campos de concentração, prisões ou ‘stalag’ [campos de prisioneiros de guerra], sujeitos a brutais condições de trabalho forçado”.

Tratando-se de uma dimensão pouco conhecida da História de Portugal, tanto que durante a II Guerra Mundial o país esteve sob o regime do Estado Novo, dirigido por Salazar, onde imperava a censura prévia e a falta de liberdade. E oficialmente, Portugal declarou em 1939 a neutralidade, a exposição tem o condão de resgatar do esquecimento a memória dos portugueses que foram vítimas da perseguição nazi, e dar a conhecer novos dados sobre a mobilidade lusa no centro da Europa antes da segunda metade do séc. XX.

É que no seio dos protagonistas anónimos portugueses que fizeram trabalho forçado no III Reich ou foram prisioneiros de guerra, avultam essencialmente trajetórias de emigrantes que nesse período estavam em França para onde tinham emigrado, apesar de existirem também casos políticos, e que foram apanhados no turbilhão do conflito e levados para a Alemanha. Segundo a historiadora Cláudia Ninhos, da equipa internacional ligada ao projeto de investigação da exposição, foram ainda apanhados pelo vórtice bélico vários portugueses que nessa época partiram para a Alemanha como voluntários à procura de melhores salários, melhores condições de vida e possibilidade de envio de parte do salário para as famílias.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Um retrato dos cientistas portugueses no estrangeiro



No passado dia 20 de novembro, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) promoveu no âmbito do Mês da Educação e da Ciência 2017, uma conferência subordinada ao tema “Ciência portuguesa pelo mundo”, que teve como principal missão dar resposta às questões “Quantos são e onde estão os cientistas Portugueses espalhados pelo mundo? Quem são e em que áreas de investigação trabalham?”.

No decurso do encontro que decorreu no Observatório Astronómico de Lisboa, foi realizada uma breve apresentação do mapa e dos números da diáspora científica portuguesa, a partir da rede GPS – Global Portuguese Scientists. Uma iniciativa da FFMS, concretizada através de uma colaboração com a Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica - Ciência Viva, a Universidade de Aveiro e a Altice Labs. 

Atualmente, a rede GPS que tem como parceiros várias associações de portugueses com qualificações superiores residentes no estrangeiro, como a Associação de Pós-Graduados Portugueses na Alemanha (ASPPA), a Association des Diplômés Portugais en France (AGRAFr), a Portuguese American Post-graduate Society (PAPS), a Portuguese Association of Researchers and Students in The UK (PARSUK) e a Native Scientists, agrega 3.315 membros e possui inscritos 1.748 cientistas portugueses que tiveram estadas no estrangeiro de mais de três meses, podendo estar presentemente em Portugal ou não.

Segundo os dados apresentados, os portugueses estão disseminados por 84 nações, sendo que a maioria encontra-se no Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, França, Holanda e Espanha. A informação agora divulgada esboça ainda um retrato do “cientista tipo” da diáspora lusa, que em média é uma mulher investigadora doutorada da área das Ciências Naturais, de 36 anos, que passa 38 meses no Reino Unido.

Os dados contidos nesta plataforma dinâmica e em constante atualização, não deixando de acentuar a problemática da emigração qualificada portuguesa, que não encontrando oportunidades de trabalho e de estabilidade no país opta pelo estrangeiro para auferir melhores condições de vida pessoal e laboral, revelam simultaneamente as enormes potencialidades de colaborações científicas e interações socioeconómicas que se abrem a Portugal por via destes importantes ativos espalhados pelos quatro cantos do mundo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Terras de Monte Longo, novo livro do historiador Daniel Bastos



No dia 16 de dezembro (sábado), o historiador Daniel Bastos lança em Portugal, no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, às 21h00, o seu novo livro, intitulado “Terras de Monte Longo”. A sessão de apresentação, que estará a cargo da professora catedrática Maria Beatriz Rocha – Trindade, reputada socióloga das migrações, será antecedida por um prelúdio musical executado pelo compositor e intérprete Nelson de Quinhones. 
 
Daniel Bastos
A obra, uma edição trilingue (português, francês e inglês) assinada pelo tradutor Paulo Teixeira, foi concebida a partir do espólio de um dos mais aclamados fotógrafos portugueses da sua geração, José de Andrade (1927-2008), fotógrafo de renome internacional, premiado e exposto em vários cantos do mundo, e conta com prefácio do conhecido fotógrafo franco-haitiano que imortalizou a história da emigração portuguesa, Gérald Bloncourt. 
 
Capa
Neste novo livro, realizado com o apoio da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e do Centro Português de Fotografia, instituição pública que assegura a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico nacional, Daniel Bastos esboça um retrato histórico conciso e ilustrado do interior norte de Portugal em meados dos anos 70. 
 
Contra-capa
Através de imagens até aqui inéditas, que José de Andrade captou nessa época em povoados rurais de Fafe, um território entre o Minho e Trás-os-Montes, situado no distrito de Braga, o historiador e autor de livros sobre a emigração, aborda as memórias do passado, não muito distante, do Portugal profundo e rural na transição da ditadura para a democracia.
 
Convite
Nesses “lugares de memória”, agora resgatados, abundam essencialmente rostos, expressões, sentimentos e experiências quotidianas, por que passaram as povoações rurais do Portugal fechado sobre si próprio. O livro constitui uma cápsula do tempo local, regional e nacional, que depois de aberta, nos transporta para um período fundamental da história contemporânea portuguesa, marcado por décadas de carências, isolamento, condições de vida duras e incontáveis episódios de emigração “a salto”. 

Segundo Gérald Bloncourt, neste livro ilustrado pela objetiva humanista de José de Andrade, fotógrafo natural de Santo Tirso que encontrou nas Terras de Monte Longo um palco privilegiado para denunciar as agruras da vida quotidiana no interior norte nas vésperas da revolução democrática de 1974, são-nos reveladas “fotografias sentidas de Portugal, do seu povo, da sua história”, repletas de “sentimentos de dignidade evidenciados por uma forma de estar serena e humana”.
 
Apoios à Edição
Refira-se que a edição da obra “Terras de Monte Longo” deveu-se em grande parte ao mecenato de empresas que partilham uma visão de responsabilidade social e um papel de apoio à cultura, com particular destaque para o grupo empresarial do comendador luso-canadiano Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A valorização do fenómeno da emigração em Melgaço



Ao longo dos últimos anos, a vila raiana de Melgaço, sede do concelho mais a norte de Portugal, situada no distrito de Viana do Castelo, tem sabido preservar e valorizar o fenómeno da emigração, cujas marcas estão muito presentes na realidade e identidade desta região fortemente influenciada pela proximidade de Espanha e pelo rio Minho. 

Um dos aspetos singulares da preservação e valorização do fenómeno da emigração portuguesa em Melgaço é a sua ligação estratégica ao desenvolvimento da economia e do turismo no território mais setentrional do país. O fenómeno emigratório, a par da gastronomia, das paisagens e das tradições, tem contribuído decisivamente para o crescimento sustentado do concelho.

Desde logo, através do Espaço Memória e Fronteira, um núcleo museológico inserido no antigo edifício do matadouro municipal, remodelado e ampliado em 2007, que no cumprimento da sua missão preserva a história recente do concelho, relacionada com o contrabando e a emigração. Um espaço museológico, onde funciona o Gabinete de Apoio ao Emigrante, que conduz o visitante pelos diversos momentos relacionados com a emigração, como as causas, a preparação da viagem e a viagem, a chegada e vivência no país de acolhimento, sem esquecer os reflexos da emigração no território.

A valorização da temática migratória está igualmente presente nestes últimos anos no município através da realização do Filmes do Homem - Festival Internacional de Documentário de Melgaço. A iniciativa, que este ano se realiza entre 1 e 6 de agosto, organizada pela Câmara Municipal de Melgaço e pela Associação Ao Norte, tem como principal objetivo promover e divulgar o cinema etnográfico e social, refletir com os filmes sobre a identidade, memória e fronteira, e contribuir para um arquivo audiovisual sobre a região.

Um dos eixos principais do festival é a programação a partir de uma mostra competitiva de documentários candidatos ao prémio Jean Loup Passek. Historiador, crítico e cinéfilo francês, Jean Loup Passek (1936-2016), filmou nos anos 70 em Paris um documentário sobre a emigração portuguesa onde conheceu vários habitantes de Melgaço, começando aí uma relação que culminou em 2005 na criação do Museu de Cinema de Melgaço, e que tem por base o espólio colecionado ao longo da vida pelo antigo responsável do departamento cinematográfico do Centro Georges Pompidou.

domingo, 26 de novembro de 2017

José Vieira, o cineasta da emigração portuguesa



A 11.ª edição do Lisbon & Sintra film Festival, um Festival Internacional de Cinema que se realizou entre 17 e 26 de novembro, e que se afirma como um dos maiores eventos culturais em Portugal, incluiu este ano na sua programação uma retrospetiva do realizador José Vieira, aclamado cineasta da emigração portuguesa. 

Natural de Oliveira de Frades, uma vila da Beira Alta situada no distrito de Viseu, José Vieira partiu para França em 1965, com sete anos de idade. A sua experiência pessoal como emigrante e as muitas histórias compartilhadas com outros emigrantes em terras gaulesas, inspiraram assertivamente o percurso profissional do realizador que vive e trabalha entre Portugal e França.

Licenciado em Sociologia, José Vieira fez do documentário “uma forma de militância”, porquanto se apercebeu de que a maioria das pessoas “não conheciam a história da emigração portuguesa”, como afirmou no ano passado em entrevista à agência Lusa.

Desde a década de 1980, o cineasta lusodescendente realizou uma trintena de documentários, nomeadamente para a France 2, France 3, La Cinquième e Arte, onde tem abordado sobretudo a problemática da emigração portuguesa para França. Em particular a viagem “a salto”, ou seja, o trajeto clandestino para deixar Portugal rumo a França nos anos 60 e 70, e as condições de vida miseráveis de muitos compatriotas que nessa época habitaram nos "bidonvilles (bairros de lata) em Paris.

Na retrospetiva que lhe foi dedicada no LEFFEST2017, festival que procura reunir o que de melhor se faz no mundo da 7ª arte, estiveram em destaque oito películas suas realizadas entre 2002 e 2016. Como por exemplo, “A fotografia rasgada” (2002), onde José Vieira retrata o código da fotografia rasgada do “passador”, que guardava metade da fotografia de quem emigrava e a outra levava-a o emigrante que, uma vez chegado ao destino, a remetia à família, em sinal de que chegara bem e que poderia ser concluído o pagamento pela sua “passagem”.

Os documentários “O país aonde nunca se regressa” (2005), “Le bateau en carton” (2010) e “A ilha dos ausentes” (2016), que de certo modo descrevem a sua própria experiência de emigrante, estiveram igualmente em foco no festival, e são parte integrante do valioso trabalho cinematográfico de José Vieira sobre os protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram além-fronteiras por uma vida melhor.