Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 15 de janeiro de 2022

O Museu de Herança Madeirense nos Estados Unidos da América

 

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia.

No caso da comunidade madeirense, que representa entre 3 a 5% do total de portugueses residentes nos Estados Unidos, a mesma tem ainda hoje uma presença significativa, por exemplo, em New Bedford. Uma cidade costeira localizada no estado de Massachusetts, onde desde 1915 se realizam as Festas do Santíssimo Sacramento Madeirense, que se assumem anualmente como uma das maiores festas portuguesas nos EUA e umas das maiores celebrações lusas fora do território nacional, e que com a exceção dos dois últimos anos, devido aos constrangimentos pandémicos, juntam milhares de pessoas.

As festividades, interrompidas nos tempos mais recentes pela pandemia de coronavírus, decorrem há vários anos no Campo Madeira, um recinto onde durante vários dias é possível assistir a concertos de música, espetáculos, parada, dança e corridas, assim como degustar a gastronomia madeirense ou conhecer uma réplica de uma casa típica de Santana.

As comemorações estendem-se ainda ao “Museum of Madeirian Heritage” (Museu de Herança Madeirense), um espaço museológico, situado também na cidade de New Bedford, que foi fundado pelo saudoso José de Sousa e oficialmente inaugurado em 1998, pelo antigo presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim.

Propriedade da Fundação do Santíssimo Sacramento, o Museu de Herança Madeirense, que acolhe vários documentos recolhidos entre os emigrantes naturais do arquipélago, assim como uma vasta coleção de fotografias e objetos alusivos à pérola do Atlântico, tem como missão preservar e valorizar o legado histórico da emigração madeirense nos Estados Unidos da América.

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança madeirense nos EUA, o Museu de Herança Madeirense, constitui-se como um exemplo inspirador para as comunidades portuguesas no mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

 

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Fafe – uma construção contemporânea dos “brasileiros de torna-viagem”

 

 

Na senda das vagas contemporâneas de emigrantes portugueses para vários países do mundo, evidencia-se o ciclo transatlântico que se prolongou de meados do século XIX até ao primeiro quartel do século XX, e que teve como principal destino o Brasil.

Pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, mais de um milhão de portugueses entre 1855 e 1914 atravessaram o oceano Atlântico, essencialmente seduzidos pelo crescimento económico da antiga colónia portuguesa. Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, o fluxo migratório foi particularmente incisivo no Minho, um dos principais torrões de origem da emigração portuguesa para o Brasil.

Enobrecidos pelo trabalho, maioritariamente centrado na atividade comercial, e após uma vintena de anos geradores de um processo de interação social que os colocou em contacto com novas realidades, hábitos, costumes e posses, o regresso de “brasileiros de torna-viagem” a Portugal, trouxe consigo um espírito burguês empreendedor e filantrópico marcado pela fortuna, pelo gosto de viajar, e pelo fascínio cosmopolita da cultura e língua francesa.

Ainda que sintomática das debilidades estruturais do país, a emigração portuguesa para o Brasil entre o séc. XIX e XX, facultou através do retorno dos “brasileiros de torna-viagem”, os meios e recursos necessários para a transformação contemporânea do território nacional, com particular incidência no Norte de Portugal.

Como é o caso paradigmático de Fafe, uma cidade situada no distrito de Braga, no coração do Minho, cujo desenvolvimento contemporâneo teve um forte cunho de emigrantes locais enriquecidos no Brasil na transição do séc. XIX para o séc. XX. O retorno dos “brasileiros de torna-viagem” a Fafe alavancou, desde logo, nas décadas de 1870-80, a criação da Fábrica têxtil do Bugio, e da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe (Fábrica do Ferro), símbolos incontornáveis da indústria têxtil no Vale do Ave.

Paralelamente à dinâmica empreendedora, as iniciativas de natureza filantrópica dos emigrantes “brasileiros” de Fafe, abarcaram ainda no último quartel do séc. XIX, o lançamento da Igreja Nova de São José, a edificação do Asilo da Infância Desvalida, a construção do Jardim Público, símbolo do romantismo, o surgimento da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, a instituição da Santa Casa da Misericórdia de Fafe, e já no alvorecer do séc. XX, o Asilo de Inválidos de Santo António.

As marcas da benemerência brasileira local estão ainda consubstanciadas na construção do Hospital de São José, administrado pela Santa Casa da Misericórdia de Fafe, e que foi alavancado por um conjunto de influentes fafenses no Rio de Janeiro, que angariaram os fundos necessários para a edificação da unidade de saúde, com a incumbência do mesmo seguir a planta arquitetónica do Hospital da Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro.

Estas marcas identitárias do ciclo do retorno dos "brasileiros de torna-viagem", singularmente presentes na arquitetura e urbanismo da cidade de Fafe, onde ainda hoje se destacam casas apalaçadas de grandes dimensões, aformoseadas com azulejos multicolores, varandas estreitas com guardas de ferro forjado ou fundido, diversos beirais de faiança pintados e claraboias, impulsionaram a edilidade a instituir no início do séc. XXI o Museu das Migrações e das Comunidades.

Percursor no seu género em Portugal, o espaço museológico, que tem o reconhecimento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e integra a AEMI (Association of European Migration Institutions), assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa. Detendo-se particularmente na emigração para o Brasil do século XIX e primeiras décadas do XX, que em Fafe, na esteira da opinião de Eça de Queiroz sobre a emigração, constituiu uma “força civilizadora”.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Uma vida luso-francesa

 

Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada.

Um desses contributos literários, intitulado Uma vida luso-francesa, deu à estampa no final do ano passado e tem o cunho de Margarida Poças Serrano, educadora especial que trabalhou em França com refugiados e jovens com deficiência.

Natural de Reguengo do Fetal, Batalha, Margarida Poças Serrano emigrou para França, nomeadamente para Saint-Maur des Fossés, uma comuna a sudeste de Paris, em 1966, ainda criança, na companhia da mãe e de outras duas irmãs, ao encontro do pai e da irmã mais velha que tinham partido para o território gaulês três anos antes.

Formada em educação especial, uma educação organizada para atender específica e exclusivamente alunos com determinadas necessidades especiais, já depois de casada e do nascimento dos três filhos, a autora batalhense assina nesta obra, que tem a chancela da Chiado Books, um romance social inspirado livre­mente na trajetória de filha de emigrantes que partiram nos anos 60 em demanda de melhores condições de vida, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza.

O livro aborda também, e sobretudo, a luta de uma menina para escapar ao destino que o seu pai lhe tinha traçado, mormente de mulher submissa ao chefe de família, e aos homens em geral. Rompendo assim com o ideal feminino preconizado na ditadura de Salazar, que advogava que a mulher existia para ser mãe, esposa e dona-de-casa, e desde cedo era educada para ser submissa ao poder patriarcal do pai, do irmão e, mais tarde, do marido.

A obra é igualmente é um testemunho pessoal da importância dos livros enquanto instrumento insubstituíveis para a formação, como foi o caso paradigmático de Margarida Poças Serrano, cuja trajetória e trabalho literário relembra a máxima de Gabriel García Márquez: “A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda”.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Passado, presente e futuro do movimento associativo das comunidades portuguesas

 

O movimento associativo das comunidades portuguesas constitui um dos mais importantes elos de ligação dos milhões de compatriotas disseminados pelo estrageiro à língua, cultura, história e memória da pátria de origem, e simultaneamente uma das marcas mais expressivas da sua inserção nas pátrias de acolhimento.

Espaços privilegiados de cultura e participação cívica, as associações das comunidades portuguesas são a argamassa identitária que une a diáspora, e por isso mesmo, as mais genuínas embaixadoras de Portugal no mundo.

Nestes últimos dois anos marcados pela pandemia, contexto que mudou radicalmente o quotidiano das sociedades, o movimento associativo das comunidades lusas enfrenta grandes desafios. Este cenário foi recentemente abordado por um dos mais destacados dirigentes associativos da comunidade portuguesa na América, Jack Costa, o mais jovem presidente na história do Sport Club Português (SCP), em Newark, Nova Jérsia, coletividade que neste ano que agora finda comemorou o seu centenário, e foi condecorada com a Ordem do Mérito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Em declarações à imprensa luso-americana, o atual vice-presidente da mesa da Assembleia Geral do SCP, fez uma radiografia completa sobre o passado, presente e futuro do meio associativo em Newark, e que é extensível, às demais associações espalhadas pelas comunidades portuguesas. Desde logo, reconheceu a dificuldade em “comemorar o centenário em pandemia”, cenário que um pouco por toda a geografia da diáspora, tem entravado a realização de eventos e iniciativas, que em muitos casos garantem a obtenção de receitas que permitem custear o normal funcionamento das associações, como seja o pagamento da água, luz, rendas dos espaços ou a sua manutenção.

Perspetivando o futuro do movimento associativo em Newark, Jack Costa, assumiu “olhar com um misto de preocupação e motivação. Preocupação por notar que cada vez é menor o número de pessoas que se dedicam às associações”. Uma problemática, que é inclusive anterior à pandemia, e que começa a alastrar no meio associativo das comunidades portuguesas, mormente, o envelhecimento dos seus quadros dirigentes, da maioria dos seus associados e da escassa participação dos lusodescendentes.

É nesse sentido, que o dirigente associativo luso-americano, defende que “vamos ter seriamente de parar para pensar no futuro das associações portuguesas”, sendo que os clubes devem “reinventarem-se para voltar a atrair as pessoas da minha geração e até mesmo as seguintes, porque quem sustenta o movimento associativo está a chegar à idade da reforma e é preciso sangue novo”.

Assim como, adotar um novo modelo de atuação e organização das associações, que em muitos casos, poderá passar por um paradigma de partilha de uma “casa comum”, capaz de reunir num só espaço com dignidade e dimensão a valiosa argamassa identitária das comunidades portuguesas. Nas palavras do mesmo “com bairrismos, não se vai lá. A única luz no fundo do túnel é a junção de muitas associações numa só onde todos tenham espaço. Só que muita gente não quer falar nisso, mas o tempo urge”.

Na esteira do olhar radiográfico de Jack Costa, e alargando o seu campo de visão a toda a geografia da diáspora, é condição “sine qua non” que o movimento associativo das comunidades portuguesas seja capaz de congregar sinergias e diluir divergências. De modo, a potenciar o coletivo, a união, e os cada vez mais parcos recursos humanos e financeiros que existem no movimento associativo em prol da cultura lusa.

Que esta união e solidariedade seja a incessante bandeira das comunidades portuguesas, em particular, do seu movimento associativo, e que esta seja a desígnio que nos oriente nestes tempos desafiantes no rumo da alegria, da saúde e de um próspero ano novo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Fundação Nova Era Jean Pina ofereceu Cabazes de Natal a estudantes da Escola Profissional de Fafe

 

A Fundação Nova Era Jean Pina, uma organização presidida pelo empresário benemérito luso-francês, João Pina, administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, que tem estreitado os laços de cooperação com várias instituições de concelho de Fafe, ofereceu na passada terça-feira (21 de dezembro), Cabazes de Natal aos estudantes em maior situação de vulnerabilidade da Escola Profissional de Fafe.

 

O historiador fafense Daniel Bastos, embaixador da Fundação Nova Era Jean Pina junto das comunidades portuguesas e do território nacional, e que tem intermediado a chegada de diversos bens a instituições do concelho, na Escola Profissional de Fafe, acompanhado de Hernâni Costa, presidente da Associação Empresarial de Fafe, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto, e das Diretoras Executiva e Pedagógica, Alice Soares e Natália Magalhães

 

A iniciativa, organizada em colaboração com a Associação Empresarial de Fafe, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto, entidade responsável pela instituição de educativa numa vertente profissional e que constitui uma mais-valia na oferta formativa de ensino secundário no concelho de Fafe, teve como principal desígnio oferecer mais alegria e alento ao lar das famílias destes estudantes durante a quadra natalícia.

Refira-se que a instituição luso-francesa ao longo dos últimos anos tem apoiado quer na Diáspora, como em Portugal, o desenvolvimento de projetos de solidariedade em prol de diversas associações de cariz social, e que os custos de transporte dos produtos que chegaram provenientes de França foram suportados pela Transnós, uma empresa fafense especializada no transporte, armazenagem, logística e distribuição de mercadorias.