Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Os notáveis exemplos de solidariedade das comunidades portuguesas em tempos de pandemia

 

Nestes tempos difíceis que atravessamos, devido aos efeitos da pandemia de coronavírus que ao longo do último ano gerou uma crise socioeconómica mundial sem precedentes, as comunidades portuguesas têm sido palcos constantes de muitos e bons exemplos de solidariedade.

Uma generosidade que perpassa a geografia universal dos portugueses no estrangeiro, e que se tem revelado essencial para mitigar o espectro de desemprego, as perdas de rendimento e as grandes dificuldades de vida que bateram à porta de muitos compatriotas.

Os exemplos deste sentimento de responsabilidade, partilha e auxílio no seio da diáspora lusa têm sido muitos, verdadeiramente inspiradores, a todos os títulos notáveis, e não devem deixar de ser enaltecidos e prosseguidos no nosso quotidiano.

É o caso, por exemplo, da incomensurável onda de generosidade que tem sido dinamizada em França, onde vive a maior comunidade portuguesa de emigrantes, mais de um milhão, e que através do coletivo “Todos Juntos” reuniu, no decurso do ano transato, várias toneladas de alimentos para ajudar famílias carenciadas de emigrantes lusos que vivem na região parisiense.

Na mesma esteira solidária, e durante o mesmo período, a comunidade portuguesa e de luso-descendentes na África do Sul, que se estima que atualmente ronde o meio milhão de pessoas, na sua maioria com raízes madeirenses, através do Fórum Português da África do Sul, entregou cerca de 400 toneladas de alimentos ao Governo sul-africano para ajudar no combate à fome na província de Gauteng, a mais afetada pela pandemia da covid-19.

Por esta altura em Toronto, a maior cidade do Canadá, onde reside uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas da América do Norte, uma das mais relevantes plataformas de comunicação social lusa, a MDC Media Group, presidida pelo comendador Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários luso-canadianos, que incorpora órgãos de informação como o jornal Milénio Stadium, as revistas Amar e Luso Life, e a Camões Rádio e TV, persevera na recolha de alimentos para entregar no Food Banks Canada.

 

Ainda na maior cidade do Canadá, e com o apoio constante dos diversos órgãos de informação da MDC Media Group, ao longo dos últimos tempos a equipa de voluntários liderada por José Dias, Luís Miguel de Castro e Carlos Lopes têm dinamizado a “Food for Thought”. Através da generosidade de vários estabelecimentos e figuras gradas da comunidade luso-canadiana, o grupo de voluntários têm conseguido distribuir “alimento para a alma” de vários agregados de concidadãos que por estes dias vivem com mais dificuldades.

 

Estes notáveis exemplos de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas, dão sentido à incitação universal e intemporal de Nelson Mandela, um dos símbolos dos direitos humanos mais reconhecidos do século XX: Um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, é reinstalar na consciência do nosso povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, e por causa e por meio dos outros”.

 

 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Daniel Bastos distinguido pelo trabalho literário em prol da Emigração Portuguesa

O historiador Daniel Bastos, colaborador de diversos meios de comunicação dirigidos para as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo, assim como órgãos de informação nacionais, regionais e locais. E autor de vários livros sobre História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as Comunidades Portuguesas, foi distinguido no decurso do presente mês pela Junta de Freguesia de Fafe com a Medalha de Mérito na área da Literatura, em reconhecimento do trabalho que ao longo dos últimos anos tem dedicado à Diáspora Portuguesa.  


O historiador Daniel Bastos (ao centro), acompanhado do executivo da Junta de Freguesia de Fafe, no momento de entrega da Medalha de Mérito na área da Literatura

Natural do concelho minhoto, e com uma formação eclética que perpassa as áreas da História, Teologia, Ética e Filosofia Politica, e vários prémios e participações em conferências nacionais e internacionais, o percurso pessoal e literário do professor, escritor e historiador, autor entre outros dos livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”, concebidos a partir do espólio do consagrado fotógrafo que imortalizou a Emigração Portuguesa, Gérald Bloncourt, tem sido alicerçado no seio da Diáspora e da Lusofonia.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Açorianos em São Domingos

 

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um dos exemplos mais recentes que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração nacional, encontra-se vertido no livro “Açorianos em São Domingos” da autoria do antropólogo e historiador luso-brasileiro, Luiz Nilton Corrêa.

A obra, lançada no ocaso do ano passado com a chancela da Letras Lavadas e o apoio da Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, e que é resultado da dissertação de mestrado realizada pelo investigador luso-brasileiro entre 2006 e 2008 na Universidade dos Açores, com orientação do saudoso professor Carlos Cordeiro, conhecido pelo seu trabalho de investigação sobre a identidade açoriana, aborda a saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940.

Embrenhando-se num fenómeno marcante na vida de milhares de açorianos, estima-se presentemente que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, o trabalho de Luiz Nilton Corrêa tem o condão de deslindar uma dos movimentos da emigração açoriana que não é tão conhecido como o dos seus cinco grandes destinos nos séculos XIX e XX (Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá).

Mormente, o processo de emigração e repatriamento de um grupo de micaelenses que seguiu em 1940 para a República Dominicana, país que divide o território da ilha Hespaniola com a República do Haiti, atualmente conhecido como um dos principais destinos turísticos mundiais, e cuja capital e maior cidade é São Domingos.

Em plena II Guerra Mundial, como desvenda Luiz Nilton Corrêa, o segundo maior e mais diverso país caribenho, através de um pretenso atrativo pacote de apoios fomentou uma política de atração de milhares de refugiados do conflito bélico, assim como de imigrantes, de modo a incrementar o seu desenvolvimento populacional e económico.

Foi neste entrecho, que em 1940 um grupo de centena e meia de emigrantes naturais de São Miguel, marcados pelo espectro da pobreza e na demanda de melhores condições de vida, encetaram uma trajetória efémera em direção à República Dominicana. O almejado eldorado caribenho revelou-se uma experiência traumatizante, que acentuou ainda mais o sofrimento e a pobreza vivenciada na pátria de origem, e que terminou tragicamente com a morte de dois emigrantes micaelenses e o repatriamento do grosso dos mesmos através de diligências do governo ditatorial do Estado Novo, após pressão das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América e nas Bermudas.

Na esteira das palavras da investigadora Susana Serpa Silva, tendo em conta a “importância de que se reveste a temática da emigração – intimamente ligada à História, à memória e à identidade arquipelágicas”, o recente livro dedicado à saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940 constitui mais um importante contributo para a compreensão da história da emigração açoriana, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Livrarias embaixadoras da língua e cultura lusófona

 Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal ao encerramento de um conjunto significativo de livrarias, muitas delas antigos espaços culturais de eleição, de encontro, de convívio e de cidadania. O fecho ainda há poucos anos de portas, em Lisboa, da Aillaud & Lellos, da Book House, da Bulhosa Livreiros e da Pó dos Livros, ou no Porto, da Leitura, são apenas alguns destes tristes exemplos que têm pautado o panorama cultural nacional.

A evolução e a crise do mercado, a concorrência de grandes cadeias, a forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, a falta de apoios ou a alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel, e a recente crise provocada pela pandemia de coronavírus, são alguns dos motivos que estão na base do encerramento destes estabelecimentos culturais ameaçados de extinção.


O historiador Daniel Bastos (centro), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das comunidades portuguesas, em 2019 na sessão de apresentação do livro “Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”, na livraria portuguesa em Bruxelas La Petite Portugaise, ladeado de Elisabete Soares, representante da livraria luso-belga, e de Paulo Pisco, deputado eleito pelo círculo da emigração na Europa

Este fenómeno de empobrecimento da vida cultural não é um exclusivo do país, tendo-se igualmente acentuado nos últimos anos no seio das comunidades portuguesas. Longe vão os tempos em que a Livraria Lusófona, do editor João Heitor, foi durante mais de duas décadas um espaço singular na difusão da língua e cultura portuguesa a partir do Quartier Latin em Paris.

Uma triste sina de desaparecimento que atingiu também nos tempos mais recentes a antiga livraria Orfeu, sediada em Bruxelas, propriedade do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva, cujo desiderato visava promover as culturas portuguesas e galega no coração da Europa. Assim como, a Livraria Camões, em Genebra, do emigrante e livreiro natural do Porto, António Pinheiro, uma genuína embaixada literária de Portugal em terras helvéticas, e a Luso Livro que assumia como principais objetivos divulgar a língua e cultura portuguesas em Zurique.

Com mais ou menos dificuldades, subsistem ainda algumas livrarias disseminadas pelas Comunidades Portuguesas, que como no território nacional, vão resistindo aos ventos da extinção, teimando em funcionar como polos agregadores e difusores da cultura e língua lusa. É o caso da Livraria - die portugiesische & brasilianische Buchhandlung em Berlim, um espaço de referência da literatura lusófona na capital da Alemanha; a TFM, uma livraria emblemática da cultura lusófona na cidade germânica de Frankfurt; a Livraria Portuguesa de Macau, detida pelo Instituto Português do Oriente  (IPOR), que constitui um espaço incontornável da portugalidade no Oriente; e da La petite portugaise, uma livraria portuguesa em Bruxelas que pretende divulgar a cultura lusófona no coração da Europa.

A prossecução cultural destes espaços no seio das comunidades portuguesas demanda neste sentido o apoio resoluto das instâncias competentes do Estado Português ao nível da política cultural externa do país, que não podem olvidar a missão destas livrarias, verdadeiras embaixadoras da língua, cultura e expressão lusófona. Como o autor e jornalista brasileiro Airton Ortiz, acredito que “somos o resultado das viagens que fazemos, dos livros que lemos e das pessoas que amamos”.