Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador, professor e político minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 29 de setembro de 2018

O Festival Kunchi e os laços ancestrais entre Portugal e o Japão


Uma vez mais, no âmbito de uma ancestral tradição japonesa, realiza-se nos próximos dias 7, 8 e 9 de outubro o Festival Kunchi, uma das festas populares mais conhecidas na cidade de Nagasaki, uma histórica metrópole da “Terra do Sol Nascente” fundada pelos portugueses na segunda metade do séc. XVI.

Portugal encerra a particularidade de o ser país europeu com a mais longa história de intercâmbio com o Japão, fruto de ter sido a primeira nação do “Velho Continente” a chegar e a estabelecer contactos com as gentes das “Terra do Sol Nascente”. Foi durante a expansão marítima quinhentista que se estabeleceram o início das trocas comerciais entre o Japão e os portugueses, à época chamados pelos japoneses “Nanban-jin”, isto é, “bárbaros do sul”, expressão que era nessa altura usada para identificar os povos ibéricos.

O intercâmbio comercial de há mais de quatrocentos anos, acarretava que os portugueses levassem para o território insular da Ásia Oriental, espingardas, pólvora, seda crua da China, entre outras mercadorias, e o Japão enviasse para a zona ocidental da Península Ibérica, prata, ouro e sabre japoneses, entre outros produtos. As vetustas relações comerciais entre as duas nações, estão na base de um conjunto expressivo de vocábulos de origem portuguesa que entraram na língua japonesa, como por exemplo, “pan” (pão), “koppu” (copo), “botan” (botão), “tabako” (tabaco) ou “shabon” (sabão).

A presença lusa no isolado Japão quinhentista e seiscentista teve igualmente uma conhecida dimensão missionária e evangelizadora, que redundou em ferozes perseguições movidas pelos xoguns aos missionários portugueses, receosos de uma eventual invasão por parte dos “bárbaros do sul” e temerosos da influência dos jesuítas nos nipónicos.

Ainda hoje uma das principais atrações do Festival Kunchi, celebrado todos os outonos desde o séc. XVI, e que depois também se tornou uma denúncia dos chamados cristãos-escondidos, é a “Nau Portuguesa”, apenas apresentada cada sete anos, e que constitui uma evocação histórica da expansão portuguesa até ao Japão. Assim como, um sinal perene que a história e cultura portuguesa são importantes e estratégicas para a afirmação do nosso país num mundo marcado pelos desafios da globalização, diversidade cultural e desenvolvimento.

domingo, 23 de setembro de 2018

A Herdade Vale da Rosa e o recrutamento de luso-venezuelanos


A grave crise política, económica e social que tem assolado a Venezuela nos últimos anos, tem impelido o retorno de milhares de luso-venezuelanos ao território nacional, sobretudo à Madeira, região autónoma de onde é oriunda a maioria do quase meio milhão de emigrantes portugueses que vivem neste país da América do Sul.

Estima-se que no ano passado, tenham chegado à “pérola do Atlântico" quase quatro mil lusodescendentes vindos do país liderado por Nicolas Maduro, e que se encontrem inscritos mil lusodescendentes no Instituto de Emprego da Madeira.

Com mais ou menos dificuldades, são públicos e notórios os esforços que as autoridades, e os serviços públicos regionais e nacionais, têm encetado na tentativa de procurar apoiar os cidadãos portugueses que regressaram ao país vindos da Venezuela, designadamente nas áreas da educação, da saúde, da segurança social e da inserção profissional.

Estes esforços não se esgotam nas esferas públicas regionais e nacionais, antes pelo contrário, têm colhido também apoio e recetividade na sociedade civil, mormente nos meios associativos e empresariais, que têm procurado dentro das suas possibilidades contribuir para a integração dos compatriotas que regressam da Venezuela em contexto de precariedade.

Um dos melhores exemplos desse apoio foi recentemente expresso pela Herdade Vale de Rosa, uma empresa agrícola do Baixo Alentejo que produz e comercializa uva de mesa, particularmente uva sem grainha, que através de um protocolo assinado com o Governo Regional da Madeira permite a emigrantes luso-venezuelanos terem acesso a oportunidades de emprego. Esta parceria imbuída de uma meritória responsabilidade social da Herdade Vale de Rosa, que já tem a trabalhar na sua estrutura cerca de 30 luso-venezuelanos, permite desde logo ao maior produtor nacional de uva de mesa suprir falta de mão-de-obra que não encontra na região onde se encontra implantada.

A necessidade de recrutamento da empresa, que prevê poder empregar cerca de 100 luso-venezuelanos, constitui um importante sinal de apoio à inserção socioprofissional de compatriotas regressados da Venezuela, assim como um sinal de esperança num futuro e uma vida melhor.

sábado, 15 de setembro de 2018

Os empresários da diáspora e a valorização do património nacional


No início do mês de setembro, foi conhecido que um grupo de emigrantes madeirenses, que até à data não pretendem ser identificados, adquiriu o Forte de São José, também conhecido como Forte do Ilhéu, Forte da Pontinha ou Bateria da Pontinha, uma histórica fortificação madeirense localizada na freguesia da Sé, na cidade e concelho do Funchal.

Construído em meados do século XVIII, o Forte de São José é o local da primeira fortificação madeirense, na época do seu descobrimento. Espaço primevo de abrigo aos descobridores da ilha, o antigo baluarte foi com o decurso do tempo pouco valorizado enquanto património histórico, arquitetónico e cultural regional e nacional, tendo no final do séc. XX o mesmo sido adquirido por um particular, e recentemente por um grupo empresarial de emigrantes que tem em vista a recuperação e valorização desta original estrutura patrimonial, cultural e histórica.

A ação benemérita e empreendedora deste grupo de emigrantes, cuja intenção visa a breve trecho abrir o Forte de São José ao público, com um núcleo museológico e com um bar de apoio, é reveladora das potencialidades da diáspora portuguesa, e em particular dos emigrantes-empresários na recuperação e valorização de património imobiliário público nacional.

Conquanto o conhecimento, estudo, proteção, valorização e divulgação do património cultural, constituam um dever do Estado, que assim assegura a transmissão de uma herança nacional, cuja continuidade e enriquecimento visa unir as gerações num percurso civilizacional singular, a escassez de recursos aliada à inadiável necessidade de salvaguardar património público que se encontra devoluto, impeliu o Governo a criar nesta área de atuação o programa Revive.

Lançado em 2016 pelos ministérios das Finanças, Cultura e Economia, o programa Revive permite concessionar a investidores privados património público que se encontra devoluto tornando-o apto para afetação a uma atividade económica com finalidade turística, e assim gerar riqueza e postos de trabalho. Trata-se de um projeto importante para a salvaguarda da identidade histórica, cultural e social do país, e um elemento potenciador do turismo e riqueza das regiões, que pode seguramente alcançar uma maior atratividade e dinâmica se for bem divulgado junto dos empresários portugueses espalhados pelo mundo.

sábado, 8 de setembro de 2018

Agosto, Emigrantes e Economia


Os dados mais recentes do desempenho da economia portuguesa, que tem mantido nos últimos anos uma trajetória de incremento, sustentam que no passado mês de agosto assistiu-se a uma forte dinâmica de crescimento alavancada no costumado regresso dos emigrantes à terra natal durante o período estival.

A dinâmica económica resultante do regresso a casa nas férias de Verão de milhares de compatriotas que vivem e trabalham no estrangeiro, teve um impacto considerável ao nível da restauração e hotelaria, assim como ao nível do comércio. Segundo a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), a maior confederação empresarial do país, no segmento alimentar há inclusivamente lojas que registaram vendas em agosto superiores às habitualmente obtidas na quadra natalícia, época em que os estabelecimentos anseiam pelo potencial aumento de consumo.

As palavras de João Vieira Lopes, presidente da CCP, são inequívocas sobre o impacto económico do regresso dos emigrantes no Verão ao território nacional, com particular incidência no Centro e Norte, e sobretudo nas áreas do segmento alimentar:” Há lojas que conseguem faturar mais em agosto, com a vinda dos emigrantes, do que em dezembro, com o Natal”.

O dirigente da CCP salienta em especial, as vendas de vinho do Porto que os emigrantes “compram muito para levar e oferecer aos patrões e amigos”, assim como vestuário e calçado, “com preços mais atrativos em Portugal”, e eletrodomésticos e mobiliário.

A dinâmica que se verificou em agosto foi transversal a outras áreas da economia nacional, como por exemplo, no imobiliário, setor onde muitos emigrantes próximos da reforma e do regresso definitivo a Portugal continuam a aplicar as suas remessas, que continuam a aumentar não obstante o número de portugueses a saírem para o estrageiro estarem a recuar. Neste último campo, os dados continuam a indicar a França como a principal fonte das remessas dos emigrantes portugueses, embora o Reino Unido seja agora o principal destino dos novos emigrantes.

Pelos contributos atuais e vindouros, mas também pelas dinâmicas do passado, malgrado as causas e consequências negativas da emigração, o país contínua a ter nos emigrantes importantes catalisadores do seu desenvolvimento, e justos merecedores da nossa profunda admiração e respeito pelas suas trajetórias de vida.

sábado, 1 de setembro de 2018

A imigração dourada em Portugal


Comumente conhecido como uma nação de emigrantes, e com uma necessidade imperiosa de resolução do saldo migratório negativo que entrava o futuro coletivo, Portugal tem assistido nos últimos anos a um fluxo de “imigração dourada” que tem tornado o país um destino de refúgio de celebridades. 

Atraídas pela segurança, tranquilidade, gastronomia, cultura, natureza e praias, assim como pela fiscalidade, existência de boas escolas internacionais e hospitais, são várias as personalidades além-fronteiras que têm decidido na última década viver em Portugal.

A mais conhecida por estes tempos é a cantora pop Madona, que se mudou para Lisboa em agosto do ano passado, quiçá a mais famosa habitante da capital portuguesa, e que tem partilhado assiduamente fotografias e vídeos por onde passa no território nacional nas redes sociais.

Numa dessas várias publicações nas redes sociais a sexagenária cantora norte-americana comentou assim a sua mudança para a ponta ocidental do continente europeu: “A energia de Portugal é tão inspiradora. Sinto-me muito criativa e viva aqui, onde espero trabalhar no meu filme ‘Loved’ e em fazer música nova. Este vai ser o próximo capítulo do meu livro. É altura de conquistar o mundo de um ponto vantajoso diferente”.

Na lista de celebridades internacionais a viverem atualmente em Portugal encontramos ainda, entre outras, nomes como o do ator irlandês Michael Fassbender, o designer francês de sapatos Christian Louboutin, o antigo futebolista gaulês Éric Cantona, ou a atriz italiana Monica Bellucci que se mudou para Lisboa em 2016 e que durante o passado mês de agosto foi a convidada do Museu de Arte Antiga, onde traçou um roteiro através de 12 peças que escolheu.

A capacidade de atração que Portugal tem conseguido exercer sobre várias celebridades que se estão a mudar para o território nacional, tem naturalmente um impacto positivo na atividade económica, em particular no mercado imobiliário, e na promoção internacional do país. 

No entanto, para que esta atração perdure geradora de um impacto positivo na sociedade portuguesa, é indispensável regrar a especulação imobiliária advinda desse fluxo, e procurar aliar a essa dinâmica uma promoção transversal das potencialidades do território nacional que vão para além do eixo Lisboa, Sintra, Cascais e Comporta.