Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma consciência crítica contra uma visão de sociedade enfeudada em artificialismos. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente, nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor e historiador Daniel Bastos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Conselhos Municipais da Juventude: um instrumento ao serviço dos jovens e das associações juvenis

Numa democracia participada e pluralista, como é o caso da portuguesa, a intervenção dos jovens na actividade cívica é elementar, nesse sentido os Conselhos Municipais de Juventude constituem-se como órgãos consultivos dos municípios, passando a assegurar a representação jovem nos concelhos, através de representantes das associações RNAJ (Registo Nacional de Associações Juvenis), juventudes partidárias, ou instituições que desenvolvam a título principal actividades relacionadas com a juventude, embora estas últimas sem direito de voto na tomada de decisões do C.M.J.


 Os Conselhos Municipais de Juventude, além de serem um novo incentivo às actividades associativas jovens dos concelhos mediante a (re) definição das políticas municipais de juventude, representam igualmente um grau acrescido de disponibilidade, exigência, participação e responsabilidade para os jovens, assim como para os municípios, as associações e instituições.
A filosofia subjacente aos Conselhos Municipais de Juventude demanda que as associações e instituições que desenvolvam a título principal actividades relacionadas com a juventude se inscrevam no RNAJ – Registo Nacional do Associativismo Jovem, realidade que, por exemplo, abrange ainda um número reduzido de associações / instituições locais, e que devido a esta situação não beneficiam dos direitos e da apresentação de candidaturas aos programas de apoio financeiros nacionais.

O espírito crítico de Nietszhe

Nascido no seio de uma família alemã protestante luterana no findar do 2.º quartel do séc. XIX, Nietzsche aprimorou o seu espírito crítico na rejeição das tradições familiares e do Cristianismo, que para o filósofo tinha tomado “partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz” (O Anticristo), vindicando que o ““Evangelho” morreu na cruz” e assentando o seu pensamento na argamassa da cultura clássica grega.

Frederico Nietzsche (1844-1900)

Assim despontou, em Nietzsche, a crítica feroz à cultural ocidental, à moral tradicional, censurada pelo filósofo alemão por não estar “em contacto com a realidade” e ser “o melhor meio para conduzir a humanidade pelo nariz”. Para Nietzsche o martelo de Zaratustra derrubaria essa “receita da décadence, da própria imbecilidade”, e ao mesmo tempo reedificaria através do paradigma da tragédia grega, “os grandes espíritos” que seriam alimentados pela “força e liberdade, nascidas do vigor”.
 Celebrando a osmose entre a “forma” apolínea e o “irracional” dionisíaco, Nietzsche, pretendia assomar um Ubermensch, um novo homem, “uma espécie de super – homem” que fosse “superior à humanidade em força, em grandeza de alma, – e em desprezo”.
Nietzsche foi autor de uma obra profícua, perpassada pelo seu próprio drama de solidão, desilusão, loucura e enfermidade, que no início do séc. XX, o conduziria à presença perante Hades, mas que não impediu que ocupasse o seu lugar no Olimpo do pensamento e cultura contemporânea.
No plano filosófico o legado nietzschiano centra-se na necessidade imperiosa do Homem ultrapassar a ambiguidade da verdade – mentira, assumindo a sua essência criadora, não através de algum tipo de “superioridade” mas no fomento da cultura enquanto fonte de valores.

Juventude da Cruz Vermelha de Fafe: uma geração jovem solidária

Numa época marcada pelo discurso e estatísticas sobre o alheamento dos jovens face à sociedade em que estão inseridos, e cujo comportamento parece revelar uma atitude imobilista e de costas voltadas para os problemas e desafios da comunidade, a Juventude da Cruz Vermelha de Fafe assume-se no contexto local, distrital e nacional como um paradigma de excelência ao nível da participação dos jovens em grupos cívicos e sociais que contraria o discurso instituído.
A Juventude Cruz Vermelha de Fafe, elo jovem do movimento da Cruz Vermelha Portuguesa, composto por crianças e jovens entre os 8 e os 35 anos, prossegue um ideário assente no respeito pelo ser humano, pelo entendimento mútuo, pela amizade, pela cooperação e solidariedade. 

Actividades diversas da JCV-Fafe

Trata-se de uma verdadeira escola de cidadania e valores, de uma geração dinâmica e empreendedora, que envolvendo crianças e jovens locais, tem de forma altruísta dinamizado inúmeras actividades que vão ao encontro das necessidades reais da juventude, assumindo-se como um complemento importante na educação não formal, uma ocupação útil, saudável e solidária dos jovens
Saliente-se, por exemplo, porque são inúmeras as campanhas, acções de sensibilização e projectos promovidos por este grupo, o projecto “Colorir o Sábado”, um projecto de acção comunitária proactiva dinamizado no Bairro da Cumieira, que promove a inclusão social de crianças de agregados familiares com baixo rendimento económico, mediante o desenvolvimento de competências com a ocupação de tempos livres.

Uma abordagem ao “Dicionário dos Fafenses”

O nosso concelho desde há algum tempo que possui um conjunto de homens devotados ao estudo da história de Fafe, que entre uma desprendida dedicação têm estudado e valorizado o nosso passado, o nosso património, a nossa memória, elos essenciais para a compreensão da nossa herança colectiva.
No campo da investigação da história de Fafe impõe-se pela pesquisa e trabalho publicado um grupo primário de personalidades como Américo Lopes Oliveira, Miquelina Summavielle, e o cónego Leite de Araújo, já falecidos. E presentemente um conjunto de investigadores composto por Aureliano Barata (séc. XIX-XX), Artur Leite (Ensino), Luís Gonzaga (Retratos Biográficos), Daniel Bastos (séc. XX) José Emídio Lopes (essencialmente centrado na freguesia de Cepães), o saudoso Miguel Monteiro (Emigração Brasileira) e Artur Coimbra, estes dois últimos, referências estruturantes no campo da história local.

                             Miguel Monteiro                           Artur Coimbra

No conjunto de investigadores locais, o percurso do historiador Artur Coimbra evidencia-se por possuir uma obra dispersa em várias áreas, sobretudo pela poesia, jornalismo e história local. Com mais de uma vintena de livros publicados, Artur Coimbra ao nível da história local tem feito diversas incursões no campo das monografias, e das biografias, género histórico em que se enquadra a 2.ª edição da obra “Dicionário dos Fafenses”.
Editado pela primeira vez em 2001, com a chancela do Núcleo de Artes e Letras de Fafe (NALF), do qual o autor é membro fundador, e desde longa data o principal dinamizador e rosto, a obra recentemente reeditada, novamente com o timbre do NALF, é composta por 280 entradas que percorrem vários períodos da história local, e que dão a conhecer a vida e a obra de personalidades, que em diferentes áreas, segundo o autor «merecem constar da “tribuna” dos fafenses ilustres, pelo seu trabalho, pela sua projecção, pelo enriquecimento que representam do nome e dos valores desta terra».
A obra “Dicionário dos Fafenses” enquadra-se assim em dois géneros historiográficos, por um lado, penetra no campo da história local, assumindo-se como uma ferramenta de trabalho indispensável para o estudo e análise da história de Fafe. Como salienta, o historiador Francisco Ribeiro da Silva, o estudo e trabalho da história local não é fácil: “porque exige muito tempo – o trabalho de pesquisa documental é lento (…); porque exige muita paciência e perseverança; porque exige coragem, sobretudo quando verificamos que os nossos dados não coincidem ou até contradizem verdades estabelecidas; porque exige discernimento, lucidez e espírito crítico para escolher os melhores materiais em vista dos objectivos previamente fixados; porque exige grande rigor e honestidade intelectual. O cultor da história local não pode contentar-se com o “é mais ou menos assim””.

Capa da obra "Dicionário dos Fafenses"

Por outro lado, o “Dicionário dos Fafenses”, (re)visitando o(s) outro(s) possui uma evidente dimensão biográfica, um género histórico que tem tido enorme visibilidade. Como salienta o historiador António Manuel Hespanha «a biografia ficou de moda em Portugal», sendo notório nas estantes e montras das livrarias, e inclusivamente nos palcos mediáticos da televisão e cinema, uma profícua profusão de obras biográficas.
No entanto, as dificuldades na construção de uma obra desta natureza são evidentes, e reconhecidas pelo autor: “O caminho seguido foi o da selecção, necessariamente subjectiva, dos homens e das mulheres que fizeram ou estão a construir Fafe, em variados domínios. Os homens e as mulheres que deram e vão dando o rosto inconfundível e singular a esta terra de todo o nosso coração”.
Reconhecendo, desde logo, que englobar todos aqueles que de algum modo se tenham destacado no panorama local “resultaria numa ciclópica, irrealista e fastidiosa tarefa”, o “Dicionário dos Fafenses”, obra sempre inacabada, e que não está balizado por barreiras cronológicas e delimitada por critérios historiográficos formais, englobando possíveis imprecisões, omissões e referências biográficas imberbes, assume-se essencialmente como um porto de abertura e partida no campo da história de Fafe, revivendo as memórias disseminadas pelo espaço e sociedade local.

Globalização, Política e Dignidade Humana

A essência da contemporaneidade, que encontra a sua génese na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos da América, e foi perfumada pela filosofia iluminista, assenta num valor fundamental para o modus vivendi et operandi democrático: a dignidade humana. A velha estrutura social de Antigo Regime, firmada numa pirâmide social estática e amorfa, fortemente marcada pela desigualdade em que a “honra” de classe abalizava os “privilegiados” e os “não – privilegiados”, jaz à muito nos escombros da História, embora em diversas sociedades hodiernas o paralelismo histórico possa ser ainda facilmente estabelecido e evidenciado, como por exemplo, na Índia ou Nepal, onde o sistema de castas pauta ainda a vida dos grupos sociais.


O paradigma sociopolítico das sociedades democráticas, em que nos contextualizamos, herdeiro dos valores do Iluminismo e marcado actualmente pelo Multiculturalismo, isto é, a existência de diversas culturas na (s) sociedade (s) e consequente emergência e apologia das minorias adopta como exigência para a vida em sociedade o respeito e a promoção da dignidade humana não enquanto mera consideração ou simples gesto caritativo para com o (s) outro (s), mas como refere Charles Taylor enquanto “necessidade humana vital” para o reconhecimento do (s) outro (s) como pessoa. 


Como promover então o exercício da dignidade humana perante a revolução científica, a evolução galopante da técnica, e o derrube das fronteiras a velocidade internáutica?
A dignidade humana no Homem argonauta do milénio, será tanto mais efectiva e exercida, como refere Charles Taylor, consoante acentuarmos a “ênfase moral”, da Autenticidade “ser quem eu sou”, aceitando as minhas diferenças e semelhanças com o outro (s). De facto, para não regredirmos nas conquistas da História, a dignidade e autenticidade humana não se coadunam com o actual exacerbamento dos papéis sociais, fruto de um individualismo monológico, ou seja, fechado em si (nós) próprio (s) sedento de “auto realização e auto – satisfação”.
Nesse sentido, o apelo primordial intrínseco e político, deve valorizar (nos) enquanto “pessoa”, o que exige (- nos) um “ideal dialógico na vida”, isto é, partilha, cedência, respeito, responsabilidade e amor pelo outro (s), como assinala o filósofo francês, Emmanuel Lévinas, em Ética e Infinito: “as possibilidades do outro como as minhas próprias possibilidades, de poder sair do fechamento da minha identidade e do que me foi concedido para algo que não me foi concedido e que apesar de tudo, é meu”.
Assim, a dignidade humana exige (-nos) uma reestruturação profunda da “praxis” e discurso político, que tem que assentar numa cultura de paz, numa cultura de diálogo “multicultural”, numa cultura ambiental e de solidariedade, pilares sólidos da Igualdade, Liberdade, e Fraternidade do séc. XXI. Como aponta o médico humanista Enrique Rojas “A Europa, o velho continente, tem de voltar a redefinir a sua identidade”.

Europa desenhada pelo cartógrafo
Abraham Ortelius (séc. XVI)

O Cristianismo perante os desafios do Multiculturalismo

Na obra “Quebrar o Feitiço”, o filósofo ateu americano Daniel Dennett, ao abordar a questão se “É a religião que dá sentido à vida das pessoas?” observa que as sondagens confluem mundialmente no sentido da importância que as pessoas atribuem à religião na sua vida, nas palavras do autor, “muitas destas pessoas diriam que, sem a religião, as suas vidas não teriam sentido”.
Tal situação, à primeira vista parece claramente contraditória com a realidade das sociedades actuais em que estamos inseridos. Com a revolução científica, a evolução galopante da técnica, e a Globalização, que resposta dá a sociedade (?), à questão formulada pelo cientista judeu Gerald Schroeder: a “Ciência terá substituído a Bíblia?”.
No mundo ocidental, cuja cultura, tradição e história está intrinsecamente ligada ao Cristianismo, onde obviamente se insere o nosso país diametralmente marcado pela religião católica, a situação sociopolítica e cultural actual, como aponta o teólogo espanhol Juan Martin Velasco, robustece a crise do cristianismo. O cientista social José Maria Mardones, no artigo “Religião e Religiões: Donde vimos, onde estamos, para onde vamos?”, amplia ainda mais o ângulo de visão da crise do Cristianismo, ligando-a “a uma crise ou desencantamento mais amplo do mundo e da cultura actual, inclusive a uma crise da condição humana”, indo ao encontro do retrato escurecido do “homem light” matizado pelo médico humanista Enrique Rojas, que afirma no livro “O Homem Light – Uma Vida sem Valores que o homem actual “é frio, não crê quase em nada, suas opiniões mudam rapidamente e vive afastado dos valores transcendentes”.
A “Criação de Adão”, Miguel Ângelo
(Capela Sistina, séc. XVI)
 
Os desafios que se apresentam ao Cristianismo são indubitavelmente complexos, ambíguos e jogam-se à escala global, como sejam os direitos humanos, a pobreza, as migrações, num conceito amplo a dignidade humana, e são ainda mais prementes com o Multiculturalismo, isto é, a existência de diversas culturas na (s) sociedade (s) e consequente emergência e apologia das minorias, como sejam as correntes feministas e os sexualmente excluídos.
Uma breve análise, a alguns destes desafios, designadamente a temática das “Mulheres e o Cristianismo”, e o “Cristianismo e a Homossexualidade”, permite-nos apreender que as estruturas religiosas subjacentes ao Cristianismo, como a Igreja Católica, estão perante desafios prementes ao nível da sua heterodoxia / ortodoxia e da sua praxis religiosa. Podemos afirmar, que se tratam de desafios que se jogam ao nível da essência religiosa, e para os quais necessariamente têm que encontrar respostas assertivas, conciliadoras e que não entrem em contra – ciclo com a sociedade, e com a história, porque senão o fosso entre a sociedade em que vivemos e a religião tenderá irremediavelmente a aumentar.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O papel da imprensa local e regional numa cultura de informação de proximidade



É por todos (re) conhecido o papel importante que a imprensa local e regional ocupa na divulgação da cultura, da economia, da política, enfim do pulsar da vida das sociedades em que está inserida. Com incontáveis dificuldades, várias vezes sem o devido reconhecimento do poder político, e na maior parte dos casos sobrevivendo graças ao espírito de carolice dos seus directores e colaboradores, com mais ou menos dificuldades expostas pelas crises económicas, a tudo isto a imprensa local e regional vai resistindo dando ao país e às regiões, um exemplo, genuíno de abnegação, trabalho e sacrifico em prol de uma informação de proximidade.
Fafe é exemplo paradigmático desta cultura de imprensa e informação de proximidade, como comprovam os vários jornais que ao longo dos anos, e com orgulho pudemos dizer séculos, tem enriquecido o espólio cultural fafense. São ou foram vários mananciais de informação e cultura, mas todos com um ponto comum no passado e presente: extravasaram horizontes geográficos e temporais, perpetuando o nome da nossa terra e das nossas gentes.
É indubitável o papel que esta imprensa ocupa na divulgação e desenvolvimento da Lusofonia. Se por um lado diluem a saudade e distância dos nossos emigrantes espalhados pelos quatro cantos do mundo, também não é menos verdade que é na imprensa local e regional que se estreitam e fortalecem as identidades culturais em que estão inseridos os nossos patrícios.
            Saliente-se as inúmeras gerações que à sombra destas instituições de cidadania e escolas de valores têm (in) formado as populações. Desde a poesia ao conto, da dissertação filosófica mais aprofundada ao sentimento religioso mais acrisolado, ou à querela política mais apaixonada, acabando na notícia da aldeia mais remota do nosso concelho, é graças a esta informação genuína e depreendida que o espírito de solidariedade e filiação a Fafe persiste.

Soldados de Fafe que morreram na I Guerra Mundial

No dia 9 de Abril o concelho de Fafe foi distinguido pelo Núcleo Regional de Braga da Liga dos Combatentes como palco oficial das cerimónias do “Dia Nacional do Combatente” “Aniversário da Batalha de La Lys”., dada a particularidade da cidade de Fafe possuir desde a década de 30 no coração urbano um monumento de homenagem aos Mortos da Grande Guerra.

Monumento aos Mortos da Grande Guerra Em Fafe
Postal antigo da vila de Fafe

Tratando-se de cerimónias imbuídas de profundo simbolismo histórico dada a importância que teve a participação portuguesa na I Guerra Mundial, despoletando profundas consequências a nível social, económico e político em Portugal, tive o privilégio de colaborar nestas cerimónias através de um trabalho que publiquei à uns anos sobre a participação de soldados de Fafe no conflito, e que levou à colocação e descerramento de uma placa oficial evocativa deste período no monumento, e de uma pequena intervenção que proferi nesse dia.

Daniel Bastos
 Cerimónia do Dia Nacional do Combatente em Fafe

Durante a minha intervenção, tive oportunidade de referir que a participação portuguesa na I Guerra Mundial levou à mobilização de vários soldados de Fafe para o conflito. Os combates desenrolaram-se essencialmente no palco europeu, no entanto como as antigas colónias portugueses (Angola e Moçambique) confrontavam geograficamente com possessões germânicas, e como Portugal entrou no conflito em 1917 ao lado da velha aliada inglesa, os confrontos entre portugueses e alemães alastraram-se ainda ao continente africano.
Embora não se tratando de dados oficiais, o jornal local “ O Desforço” apontaria na década de 20, que quinze soldados naturais do concelho de Fafe, morreram em combate nos palcos militares europeu e africano durante a Grande Guerra – “Bravos Soldados de Fafe que deram a sua vida pela Pátria, pelo Direito, pela Liberdade, cooperando na Grande Guerra” (O Desforço, 1921):

Mortos em combate em França:
·        Paulino de Carvalho – natural da freguesia de Serafão, era filho de António Luiz de Carvalho;
·        João da Cunha – natural da freguesia de Quinchães, era filho de Bernardino da Cunha;
·        João Moreira – natural da freguesia de Serafão, era casado com Júlia Fernandes;
·        Fernando d’Oliveira Freitas – natural do lugar de S. Ovídio – freguesia de Fafe, era filho de Júlia Freitas;
·        Francisco Bastos – natural da freguesia de Moreira de Rei, era filho de Manuel de Bastos e de Rosa Mendes Salgado;
·        Zacarias Correia – natural da freguesia de Arões S. Romão, era filho de Manuel Correia e de Emília da Silva Peixoto;
·        Bernardino Ribeiro – natural da freguesia de S. Vicente de Passos, era filho de António Ribeiro d’Oliveira e de Tereza Fernandes
·        Rodrigo Gonçalves – natural da freguesia de S. Gens, era casado com Rosa Alves Ferreira,

Mortos em combate em África:

·        Manuel da Silva – natural da freguesia de Serafão, era filho de Joaquim da Costa;
·        Joaquim Domingues Teixeira – natural da freguesia de Várzea Cova, era casado com Silvina Rodrigues;
·        Joaquim Nogueira – natural da freguesia de Fafe, era casado com Emília Ferreira;
·        João Martins – natural da freguesia de Serafão, era filho de Casimiro Martins e de Maria Joaquina Fernandes,
·        Francisco Ribeiro – natural da freguesia de S. Gens, era filho de Joaquim Ribeiro e de Emília Gonçalves;
·        Bernardino de Jesus Exposto – não foi possível apurar a freguesia de origem;

Morto durante o cativeiro como prisioneiro de guerra na Alemanha:
·        José Gonçalves – natural da freguesia Armil, era filho de Paulino Exposto e Emília Gonçalves,


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cultura castreja no concelho de Fafe

Castro de S. Ovídio

          Entre os numerosos vestígios arqueológicos existentes no território concelhio destacam-se os povoados da primeira metade do I milénio a.C., comummente conhecidos por "Castros." Estes povoados formados por casas de pedra com cobertura de colmo eram por razões de natureza defensiva construídos em locais altos
As características geográficas do Norte de Portugal, onde o relevo sempre desempenhou um papel estruturante, proporcionaram o estabelecimento nesta região de inúmeros núcleos populacionais pré-romanos. O actual concelho de Fafe foi assim palco de implantação populacional pré-romana ou castreja, porquanto oferecia garantias de defesa em locais altos, permitia a prática de actividades agro-pecuárias e possibilitava o aproveitamento dos recursos fluviais.
 Este período histórico é designado pelos historiadores de Proto-História, ou seja, é o período de transição entre a Pré-História e a História, etapa civilizacional em que o homem se torna gradualmente sedentário, passando a dedicar-se à agricultura, pastorícia e ao artesanato. É nesta fase histórica que surge o elemento que estabelece a distinção ente a Pré-Historia e a História – a escrita.
Actualmente no concelho de Fafe são conhecidos vários povoados castrejos disseminados pelas freguesias, como por exemplo: S. Gens (Castro da Subidade ou Castro de Paredes), Cepães (Castro da Retortinha), Serafão (Castro de Vilarelho), S. Cristina de Arões (Castro de Santo Antonino), S. Vicente de Passos (Lugar de Lustoso), Revelhe (Outeiro Mau), Ribeiros (Castro da Portela) –, sendo que o Castro de Santo Ovídio, espaço arqueológico onde no séc. XIX foi descoberta uma estátua de um guerreiro galaico, e que se encontra na Associação Martins Sarmento em Guimarães, constitui o mais afamado destes elos remotos da história da Fafe.

O estudo da História Local

Clio – Pintura da musa da História
Pierre Mignard (1689)

Num período marcado pelo processo irreversível e vertiginoso da Globalização, cuja interligação entre pessoas, países e culturas gera uma dinâmica de mundividência global, falar de História Local parece à partida um contra-senso.
Como nos aspectos políticos, económicos e culturais, cuja escala de expansão e desenvolvimento é sempre calculada em função do denominador “europeu” ou “mundial”, a História expande-se nessas ópticas de análise e escala: “História Mundial”, “História Europeia”-, a consolidação de uma cultura e integração europeia, e a necessidade de uma consistente ética mundial estão obviamente aqui reflectidas.
            No entanto, é também neste tempo globalizante que o estudo da História Local tem despertado um crescente interesse, dada a busca de raízes e identidades fundamentais para a cimentação do mosaico regional, nacional, europeu e global.
Nesse sentido, a História Local não se assume como um contra-senso na actualidade, assumindo-se como um contraponto à massificação e uniformização cultural. O estudo e valorização do nosso passado, do nosso património, da nossa memória são essenciais para a compreensão da nossa herança colectiva.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Florêncio Monteiro Vieira de Castro (1853 – 1925): uma das mais importantes personagens políticas fafenses no inicio do séc. XX

Uma das mais importantes personagens políticas fafenses na transição do séc. XIX para o séc. XX, senão a mais importante do período monárquico, Florêncio Monteiro Vieira de Castro, filho do “brasileiro de torna – viagem” Miguel António Monteiro de Campos e de Miquelina Rosa Vieira de Castro, recebeu em 1906 e 1907 o rei D. Carlos I em sua casa, na actual Rua António Saldanha).

Casa onde foi recebido o rei D. Carlos I em 1906-7,
na actual rua António Saldanha

O pai de Florêncio Monteiro Vieira de Castro, que almejou fortuna no Rio de Janeiro, estabeleceu-se em Fafe durante a segunda metade do séc. XIX, como importante negociante e proprietário do município, tendo como descendentes, além de Florêncio, António, Ana Joaquina, Emília, Maria Castro Martins, José Maria, Álvaro, João Bernardino (Monsenhor), Albino e Júlia.
No ramo varonil, o monsenhor João Monteiro Vieira de Castro, como o seu irmão Florêncio foi um dos principais dinamizadores da construção do Hospital de Fafe, ocupando um papel de destaque na política local da época. Administrador do município nos últimos anos do séc. XIX, e por diversas ocasiões Presidente da Câmara, chegou inclusive a desempenhar em Lisboa alguns mandatos como deputado.

João Monteiro Vieira de Castro 
 
Florêncio Monteiro Vieira de Castro, não seguiu o sacerdócio do irmão João, formou-se em direito, tornando-se num dos mais importantes advogados do concelho de Fafe. Casou-se com Gracinda de Sousa Carneiro, sobrinha e uma das herdeiras de Fortunato José de Oliveira, rico ”brasileiro de torna -viagem”. Parte da herança da esposa de Florêncio Monteiro Vieira de Castro, incluiu a casa onde foi recebido o rei D. Calos I, moradia que tinha sido mandada construir pelo tio da sua esposa.
Rei D. Carlos I
  
A família Monteiro Vieira de Castro ocupou e desempenhou papéis sociopolíticos preponderantes em Fafe. No alvorecer do séc. XX, os irmãos Florêncio e João Monteiro Vieira de Castro impulsionavam e integravam o “Club Fafense da Villa de Fafe”, que visava “desenvolver e cimentar relações de benevolência e boa sociedade entre os associados, proporcionando-lhes passatempo honesto e civilizador, por meio de conferencias litterarias, reuniões de famílias, conversação, dança, jogos, lícitos e outros quaesquer divertimentos de boa sociedade”.
A chegada do comboio a Fafe no domingo de 21 de Julho de 1907, teve também o cunho de Florêncio Monteiro Vieira de Castro. Membro integrante da comissão de festejos, foi proponente do telegrama que foi expedido por ocasião da inauguração da linha – férrea ao rei D. Carlos I, onde era assinalada a importância desta no desenvolvimento da região.
A actividade política de Florêncio Monteiro Vieira de Castro, enquanto presidente do Partido Progressista em Fafe, levou a que fosse durante o regime monárquico vereador e administrador do concelho.
A implantação da República em 5 de Outubro de 1910 alterou radicalmente a dimensão sociopolítica deste monárquico convicto, que foi profundamente afectado pelo ao seu posicionamento político – partidário. A sua convicção e lealdade monárquica limitaram a sua acção e poder político, contexto que terá concorrido para inexistência de imagens suas.
Na década de 20, os papéis sociais desempenhados pelo antigo conselheiro régio restringiam-se a presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Fafe e da Assembleia-geral do Orfeão de Fafe.

As origens do republicanismo no concelho de Fafe

Postal antigo da vila de Fafe

As origens do republicanismo no concelho de Fafe remontam à figura multifacetada do João Crisóstomo (1864-1895). Jornalista com dotes poéticos, fundador dos Bombeiros Voluntários de Fafe e influente político monárquico local, João Crisóstomo, desiludido com o curso sociopolítico da região e da Nação, transitou em 1893 para o campo político republicano convertendo o jornal “O Desforço” num importante e primário veículo de divulgação da propaganda, dos ideais, dos “heróis” e “mártires” da causa republicana.
      Vítima de enfermidade fulminante, o jornalista e político faleceria aos 31 anos, tendo o seu amigo e correlegionário, Artur Pinto Bastos, “herói” da revolução de “31 de Janeiro de 1890”, prosseguido a partir de 1895 a demanda republicana através da direcção do jornal “O Desforço” e agregando-lhe o “Almanaque Ilustrado de Fafe”.
Vincadamente rural e com um profundo índice de analfabetismo, o concelho de Fafe encetava então na transição do séc. XIX para o séx. XX, um crescimento demográfico e urbano. Impulsionado pelos capitais dos emigrantes “brasileiros de torna-viagem”, o concelho manifestava através das casas apalaçadas, indústrias, asilos, escolas, misericórdia, jardim público e hospital, uma nova fisionomia socioeconómica que foi engrandecida no Verão de 1907 com a chegada do comboio.
A consciência deste “self mad man”, que se aprimorou em viagens pela Europa capitalista e culta, ao cruzar o Atlântico passou a participar na vida pública, mostrando disponibilidade e possibilitando aos seus descendentes meios para abraçar a “ideia de república”, que se disseminava no prelo do “Desforço” e do “Almanaque Ilustrado de Fafe”, mananciais profícuos dos trajectos sociais, económicos e políticos dos patrícios brasileiros.
O processo de retorno dos “brasileiros” de Fafe, marcados pela experiência politica republicana do Brasil que abolira o regime monárquico no final do séc. XIX, possibilitou a formação de uma base de apoio e influência robustecida por descendências e uniões matrimoniais, e promoveu um grupo pequeno mas coeso, ilustrado e financeiramente desafogado que abraçou o ideário de progresso e desenvolvimento republicano.
Este grupo republicano local corporalizou-se no início do séc. XX através da constituição de uma Comissão Municipal Republicana, que formada pelo médico Álvaro Vieira de Campos de Carvalho, o advogado José Summavielle Soares, o proprietário José Gabriel Peixoto de Magalhães e Menezes, o advogado Gervásio Domingues d’Andrade e o militar Miguel Alves Ferreira, assumiu a partir de 9 de Outubro de 1910 as rédeas do poder autárquico em Fafe após a implantação da República em Portugal.

A origem do nome "Fafe"

Postal antigo da vila de Fafe

Comecemos pelo nome. A diversidade da alma e da terra indubitavelmente incorpora-se aí. Disseminada em diversas direcções, a raiz toponímica deslinda e infunde aspectos essenciais da história região.
Território de transição entre o Minho e Trás-os-Montes, embalado pelo ambiente de montanha, palmilhado por rios e ribeiros, recortado por vales, a Natureza marca a paisagem. É abundante a profusão de nomes de freguesias ligados à diversidade paisagística: Felgueiras, Monte, Pedraído, Ribeiros, Vinhós e Fafe, este último, porventura nome de um pássaro que existiria na região, um pisco-chilreiro de nome “Dom-fafe”.
A origem do nome não se afigura fácil e não reúne consensos. Mas não é assim que se analisa o passado, vive-se o presente e constrói-se o futuro? A evidência de ser uma povoação bastante recente, acrescido da designação árabe que aparece na forma medieval “Halafafe”, parece também querer explicar a origem do nome Fafe.
No entanto para Leite de Vasconcelos a proveniência do étimo “Fafe”, é de origem germana, representando “Fafe” o genitivo “Fafi” do nome “Fafo”, sendo que numa linha de análise tradicional o topónimo “Fafe” parece derivar de D. Godinho Fafes, senhor da terra e filho de D. Fafes Luz, rico-homem e alferes-mor do Conde D. Henrique.