Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Artur Brás: um empreendedor que prova a força da diáspora portuguesa

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua vocação empreendedora. Esta realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que criaram empresas de sucesso e assumem funções de relevo nos domínios cultural, social, económico e político. Entre os múltiplos exemplos de empresários lusos da diáspora — hoje cada vez mais reconhecidos como um ativo estratégico na projeção internacional de Portugal — destaca-se o percurso inspirador de Artur Brás. Natural da freguesia de Rossas, no concelho minhoto de Vieira do Minho, onde nasceu em 1948, no seio de uma família de lavradores, Artur Brás teve oportunidade de estudar em Braga até à adolescência, concluindo o 5.º ano na Escola Industrial Carlos Amarante. Em 1965, partiu para França, seguindo o caminho de milhares de jovens portugueses que, no contexto da ditadura salazarista, procuravam escapar ao serviço militar obrigatório na Guerra Colonial. Munido de um passaporte de estudante e com alguns conhecimentos de francês, não percorreu — ao contrário de muitos compatriotas — os trilhos da emigração clandestina. Ainda assim, a chegada a França ficou marcada por dificuldades iniciais, tendo sido acolhido durante três dias no “bidonville” de Saint-Denis, um vasto bairro de lata que, na década de 1960, acolheu milhares de portugueses em condições extremamente precárias. Dotado de uma personalidade resiliente e de uma ética de trabalho profundamente enraizada nos valores familiares, iniciou o seu percurso profissional como ajudante na construção civil. A sua determinação permitiu-lhe ascender rapidamente, tornando-se diretor de uma empresa francesa aos 26 anos, na região de Seine-et-Marne. Um ano depois, regressou a Vieira do Minho, movido pela saudade da terra natal, onde realizou alguns investimentos e deu início à sua atividade empresarial na construção civil. Contudo, um acidente de trabalho levou-o a regressar a França. Foi aí que, em 1977, fundou uma empresa especializada na construção de vivendas de luxo e conheceu, em Paris, Maximina da Silva, também natural de Vieira do Minho, que viria a tornar-se sua companheira de vida e um pilar fundamental no seu percurso. A empresa “Arthur Brás Construções” afirmou-se, na região de Chantilly, a norte de Paris, como uma referência de qualidade, rigor e credibilidade. Paralelamente, expandiu a sua atividade para o setor da promoção imobiliária, consolidando o “Grupo Arthur Brás”, hoje composto por mais de uma dezena de empresas ligadas à construção, património e investimento imobiliário.
O reconhecimento do seu percurso empreendedor materializou-se, em 2018, com a inauguração, no dia do seu 70.º aniversário, do Hyatt Regency Chantilly, um hotel de quatro estrelas que simboliza o culminar de décadas de trabalho, visão estratégica e capacidade de execução. Apesar do sucesso alcançado em França, Artur Brás nunca quebrou a ligação a Portugal. Discreto, fiel aos valores da família e da amizade, mantém uma relação próxima com o país de origem, sendo hoje um exemplo paradigmático do potencial estratégico da diáspora portuguesa. Num momento em que Portugal enfrenta um dos maiores desafios da sua contemporaneidade — a crise habitacional —, o empresário luso-francês tem vindo a afirmar-se como um agente ativo na resposta a este problema. Em Braga, desenvolve projetos junto à Universidade do Minho e ao Hospital de Braga, com forte procura por parte de docentes e profissionais de saúde. Para além deste investimento num dos concelhos mais dinâmicos do país, onde o crescimento demográfico tem sido particularmente expressivo na última década, Artur Brás impulsionou também a construção de cerca de meia centena de apartamentos em Amares. Simultaneamente, encontra-se a estudar novos projetos em Vieira do Minho, terra que, em 2021, o homenageou no âmbito do 507.º aniversário da sua elevação a concelho. Ao expandir a sua atividade em território nacional, o empresário não só reforça o crescimento do “Grupo Arthur Brás”, como contribui diretamente para o desenvolvimento económico regional, criando emprego, dinamizando o setor da construção e ajudando a fixar população. Mais do que um caso de sucesso individual, o percurso de Artur Brás — marcado também por diversas iniciativas de apoio à comunidade luso-francesa, designadamente na área do futebol e em ações de solidariedade em prol de crianças carenciadas — evidencia, de forma inequívoca, o papel estruturante da diáspora portuguesa no desenvolvimento do país. As comunidades portuguesas no estrangeiro não são apenas depositárias de memória e identidade: afirmam-se, cada vez mais, como agentes económicos e sociais de relevo, capazes de gerar investimento, promover a transferência de conhecimento e construir pontes duradouras entre Portugal e o mundo. Num tempo em que se impõe repensar estratégias de crescimento e coesão territorial, a valorização deste capital humano e empresarial da diáspora revela-se não apenas desejável, mas indispensável. O exemplo de Artur Brás demonstra que o empreendedorismo emigrante não é apenas uma história de superação individual — é, sobretudo, uma alavanca concreta para o futuro coletivo de Portugal.

domingo, 22 de março de 2026

Fundação Nova Era Jean Pina transforma sonhos em realidade para seniores portugueses em Paris

Ao longo das últimas décadas, a diáspora portuguesa tem afirmado, de forma consistente, um notável espírito de solidariedade — um dos mais elevados valores que enobrecem a condição humana e conferem sentido à vida em comunidade. Este desígnio manifesta-se tanto no apoio aos compatriotas radicados no estrangeiro como na permanente ligação solidária a Portugal, numa demonstração inequívoca de coesão e responsabilidade coletiva. Entre os múltiplos exemplos que ilustram esta vocação solidária, destaca-se, de forma particularmente expressiva, a ação desenvolvida pela Fundação Nova Era Jean Pina. Constituída em 2019 pelo empresário português João Pina, radicado na região de Paris, esta instituição tem vindo a afirmar-se como um dos mais relevantes agentes de intervenção social no seio da comunidade luso-francesa — a mais numerosa comunidade portuguesa na Europa. Natural de Trinta, no concelho da Guarda, João Pina emigrou para França na década de 1980, então com apenas 19 anos, acompanhando o fluxo de milhares de portugueses que procuravam melhores condições de vida na pátria gaulesa. Apesar das dificuldades iniciais inerentes ao processo migratório, construiu um percurso empresarial sólido e bem-sucedido na área da construção civil. Hoje, enquanto administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, lidera um conjunto diversificado de empresas com atividade nos setores da construção, limpeza e reciclagem de resíduos. Todavia, o seu percurso não se esgota no sucesso empresarial. Reconhecido em França como Jean Pina, tem desenvolvido, de forma contínua e empenhada, uma intervenção solidária de grande alcance, colocando os recursos e a capacidade organizativa ao serviço dos mais vulneráveis. É precisamente nesta dimensão que se destaca o papel estruturante da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão assenta no lema “Solidariedade em Movimento”. Sob a liderança direta do seu presidente, a instituição tem promovido uma relevante cooperação entre França e Portugal, através da conceção, financiamento integral e concretização de projetos dirigidos a públicos particularmente fragilizados, como idosos, crianças institucionalizadas e pessoas em situação de desemprego. Neste enquadramento, assume especial relevo o projeto “Sonhos sem Idade”, lançado no ano passado pela Fundação. Trata-se de uma iniciativa pioneira, de elevado alcance humano e simbólico, que visa concretizar o sonho de cidadãos seniores portugueses, com baixos rendimentos e beneficiários de apoio social, de viajarem de avião pela primeira vez e visitarem Paris — uma das cidades mais emblemáticas do mundo. Em 2026, a Fundação deu continuidade a este projeto através da sua segunda edição, integralmente suportada do ponto de vista financeiro pela própria instituição, reafirmando o seu compromisso inequívoco com a solidariedade ativa. Entre os dias 19 e 22 de março, quatro seniores beneficiários de apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe deslocaram-se à capital francesa, numa experiência transformadora e profundamente marcante. Esta instituição, de reconhecida relevância na sub-região do Douro, distrito de Viseu, tem desempenhado, desde a segunda metade do século XX, um papel essencial nas áreas da saúde e do apoio social, num território particularmente afetado pelo envelhecimento demográfico. Acompanhados pelo provedor Romeu Santos, pela diretora técnica Andreia Fonseca e pela enfermeira Maria Rodrigues, os participantes tiveram oportunidade de visitar alguns dos mais icónicos locais de Paris, como a Torre Eiffel, a Basílica do Sacré-Cœur, o bairro de Montmartre e o Palácio de Versalhes, culminando com um cruzeiro no rio Sena. Ao longo desta jornada, estiveram permanentemente acompanhados pelo presidente da Fundação e pela vice-presidente, Marie Morgado, num gesto que evidencia proximidade, compromisso e uma liderança ativa e humanizada.
A iniciativa contou ainda com a participação de diversos membros da comunidade luso-francesa, destacando-se o envolvimento de voluntários da associação Soleils de Paris, presidida pela lusodescendente Eleonor Patrício, que tem desenvolvido um meritório trabalho junto de populações vulneráveis na capital francesa. Este encontro intergeracional constituiu um momento de elevado valor simbólico, evidenciando o papel fundamental dos lusodescendentes na preservação e transmissão de valores culturais, onde os mais idosos assumem um papel insubstituível. A experiência vivida por estes quatro seniores representa, assim, muito mais do que uma viagem: constitui a materialização de um compromisso ético e social que dignifica a diáspora portuguesa. Ao promover o envelhecimento ativo e saudável — um imperativo crescente nas sociedades contemporâneas —, a Fundação Nova Era Jean Pina afirma-se como um exemplo paradigmático da capacidade transformadora das comunidades portuguesas no mundo. Num tempo marcado por desafios sociais complexos, iniciativas desta natureza demonstram que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também ação, responsabilidade e solidariedade concreta. E, neste domínio, o trabalho desenvolvido pela Fundação Nova Era Jean Pina, sob a liderança do seu presidente, constitui um testemunho maior do que de melhor Portugal projeta além-fronteiras.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Bastos apresenta na Califórnia obra de homenagem à emigração portuguesa

No arranque de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realiza um ciclo de apresentações na Califórnia, estado norte-americano com a maior concentração de população de origem portuguesa, para dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa.
O livro, bilingue em português e inglês, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseado num levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, será apresentado em importantes centros da diáspora portuguesa na Califórnia. O ciclo de apresentações percorrerá, no arranque de abril, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como berço e coração da açorianidade na Califórnia, o Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos, e o Museu Histórico de São José, instituição dedicada à preservação e valorização da herança cultural luso-californiana. A 6 de abril, a obra será ainda apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço incontornável da memória histórica e identitária da comunidade luso-americana na segunda maior cidade do estado da Califórnia. O ciclo de apresentações culmina a 8 de abril, às 19h00, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José, que assinala este ano o seu 50.º aniversário. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra é apresentada na sequência de um convite endereçado ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana da Califórnia, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos empreendedores e beneméritos se encontram reconhecidos, respetivamente, com uma estátua e um busto nas ilhas açorianas do Pico e de São Jorge. Associam-se igualmente à iniciativa o comendador Manuel Bettencourt, conselheiro das comunidades portuguesas, Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro constitui um itinerário pela memória da emigração portuguesa. Ao percorrer mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante e distribuídos por todo o território nacional, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo nas comunidades e as dinâmicas da memória coletiva. Particular destaque é conferido à emigração para os Estados Unidos da América, país onde residem atualmente mais de um milhão de luso-americanos, reconhecidos pelo seu nível de integração, espírito empreendedor e contributo económico e sociopolítico. Neste contexto, a numerosa comunidade portuguesa da Califórnia, superior a 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, assume especial relevância pelo papel que tem desempenhado no desenvolvimento tanto das terras de acolhimento como das regiões de origem. Autor de várias obras dedicadas à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e de intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de março de 2026

POSSO: meio século ao serviço da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, maioritariamente oriundos dos arquipélagos nacionais, em particular dos Açores — destaca-se atualmente pela sua plena integração, pelo reconhecido espírito empreendedor e pelo relevante papel económico e sociopolítico que desempenha na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos mais recentes censos norte-americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, concentrados sobretudo nos estados de Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É precisamente neste último estado que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas. A presença portuguesa na Califórnia remonta à centúria oitocentista, associada à corrida ao ouro, à dinamização das atividades ligadas à pesca da baleia e do atum e, posteriormente, ao desenvolvimento da agropecuária. Essa presença secular manifesta-se hoje numa densa rede de associações, clubes, paróquias, organizações cívicas e núcleos museológicos que preservam a memória e dinamizam a vida comunitária. No plano do associativismo social, destaca-se de forma particular a Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), uma instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José.
Fundada em 1976, em San José — cidade que concentra uma relevante comunidade portuguesa da Califórnia e uma das mais expressivas dos Estados Unidos —, a Organização Portuguesa para Serviços e Oportunidades Sociais nasceu com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades das populações de língua portuguesa. Prestes a assinalar meio século de atividade, celebrando o seu 50.º aniversário no próximo dia 28 de março, esta prestigiada instituição sem fins lucrativos consolidou-se como uma verdadeira ponte de solidariedade no seio da comunidade luso-californiana. Ao longo das últimas décadas, tem desenvolvido um conjunto diversificado de iniciativas de caráter social, cultural, recreativo e educativo, que reforçam os laços comunitários e promovem a inclusão social. Entre essas iniciativas assumem particular importância, numa época em que se verifica um progressivo envelhecimento da comunidade portuguesa na América — acentuado pela diminuição dos fluxos migratórios provenientes de Portugal —, os programas dirigidos aos seniores luso-americanos. Muitos deles vivem hoje confrontados com problemas de saúde, solidão, ausência de retaguarda familiar ou dificuldades linguísticas. Neste contexto, a POSSO desenvolve um conjunto relevante de programas de acompanhamento e apoio domiciliário, que incluem serviços de agendamento de consultas, transporte, tradução e interpretação, bem como apoio em matérias administrativas e fiscais. Paralelamente, promove diversas iniciativas orientadas para o bem-estar, a nutrição e a vida ativa dos idosos, como a distribuição de alimentos, a confeção de refeições, a medição da pressão arterial, a realização de rastreios médicos e a organização de oficinas de saúde. Como assinala o estudo sociológico A Emigração Portuguesa no Século XXI, entre 2001 e 2011 a percentagem de idosos entre os emigrantes portugueses residentes nos EUA aumentou sete pontos percentuais, passando de 16% para 23%. O alcance e a eficácia deste trabalho resultam, em grande medida, da generosidade e do espírito de voluntariado que continuam a caracterizar a comunidade portuguesa em San José. Um espírito solidário que constitui, simultaneamente, um sinal de respeito pelo legado das gerações pioneiras, de confiança no presente e de esperança no futuro da comunidade luso-californiana. Graças a esse empenho coletivo, a missão, visão e valores da POSSO estendem-se também a outras comunidades que integram o mosaico multicultural da Califórnia. Importa ainda sublinhar que a ação da POSSO não se limita à dimensão social. A instituição tem igualmente desempenhado um papel relevante na valorização da cultura e da língua portuguesas, nomeadamente através da promoção do ensino do português e do apoio a iniciativas culturais que reforçam a ligação identitária das novas gerações às suas raízes. Ao celebrar cinquenta anos de existência, a POSSO afirma-se, assim, como um exemplo paradigmático do dinamismo associativo da diáspora portuguesa e da sua capacidade de mobilização em torno de valores de solidariedade, cidadania e participação cívica. Mais do que uma instituição de apoio social, a POSSO tornou-se um espaço privilegiado de organização comunitária e de afirmação cultural, onde os membros da comunidade não são meros beneficiários de serviços, mas protagonistas ativos na defesa dos seus direitos e na construção de melhores condições de vida. Num mundo cada vez mais interligado, o percurso da POSSO recorda-nos igualmente o papel estratégico da diáspora na projeção internacional de Portugal. Ao longo de meio século, esta instituição tem contribuído para fortalecer os laços entre Portugal e a Califórnia, afirmando a presença portuguesa como uma realidade dinâmica, empreendedora e solidária no espaço norte-americano. Celebrar os 50 anos da POSSO é, portanto, celebrar também a história, o trabalho e a resiliência de gerações de emigrantes portugueses que, longe da sua terra natal, souberam construir comunidades coesas, afirmar a sua identidade cultural e projetar o nome de Portugal no mundo.

domingo, 8 de março de 2026

Norberto Aguiar: um rosto incontornável do jornalismo português em Montreal

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Tal realidade é amplamente confirmada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, criaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo. Entre os muitos exemplos de dirigentes associativos e promotores da cultura portuguesa na diáspora — hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal — tem-se destacado, ao longo das últimas décadas, o percurso altruísta de Norberto Aguiar em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, no Canadá. Natural da Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores, onde nasceu em 1954, Norberto Aguiar emigrou para o Canadá em 1975, deixando para trás uma promissora carreira futebolística no Clube Operário Desportivo. Partiu não apenas motivado pela presença dos pais no Quebeque, mas também pelo facto de aquela que viria a ser a sua companheira de vida — a também lagoense Anália, mãe das suas três filhas — ter entretanto emigrado para o país norte-americano.
O jovem casal estabeleceu-se em Montreal, a segunda maior cidade do Canadá, onde a comunidade portuguesa e lusodescendente deverá ultrapassar as 60 mil pessoas. Foi aí que Norberto Aguiar iniciou o seu percurso de emigrante, trabalhando numa fábrica têxtil, enquanto concluía os estudos secundários e aprofundava o conhecimento da língua francesa. No ocaso de 1982, regressou aos Açores, já com três filhas, motivado pelo sonho de retomar a carreira futebolística — que lhe valera a alcunha de “Loirinho do Operário” — e de gerir simultaneamente um projeto empresarial na área da restauração. Contudo, o regresso ao torrão arquipelágico revelou-se breve. Cerca de meio ano depois, o casal decidiu regressar ao Canadá, onde, no ano seguinte, fixaria definitivamente o seu projeto de vida. De volta a Montreal, Norberto Aguiar prosseguiu a sua formação e percurso profissional, aprofundando ao mesmo tempo a ligação à comunidade luso-canadiana. Através da dinamização de uma liga de clubes de futebol no Quebeque, reforçou a sua presença no movimento associativo, experiência que viria a conduzi-lo, nessa mesma época, ao mundo do jornalismo, assumindo funções na redação do jornal A Voz de Portugal. A partir de então, tornou-se uma voz inconfundível no panorama da imprensa de língua portuguesa em Montreal. Essa experiência e dedicação levariam a que, cerca de uma década mais tarde, assumisse o papel de editor e proprietário do jornal LusoPresse, publicação que, ao longo das últimas três décadas, se afirmou como um dos mais relevantes órgãos de comunicação social da comunidade portuguesa em Montreal. Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais — muitas vezes sem o devido reconhecimento das autoridades políticas dos países de origem ou de acolhimento — os jornais da diáspora sobrevivem, em grande medida, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Não raras vezes confrontados com crises económicas e desafios financeiros, vários títulos desapareceram ao longo dos anos. Apesar dessas adversidades, o LusoPresse tem resistido e renovado o seu compromisso com a comunidade. Numa época em que vários jornais da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive no Canadá, o periódico liderado por Norberto Aguiar constitui um exemplo genuíno de dedicação e serviço público. Através de uma informação de proximidade, constrói pontes entre a comunidade luso-canadiana, atenua a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural e contribui para projetar Portugal — e, de modo muito particular, os Açores — na sociedade canadiana. Essa projeção tem sido amplificada na última década pelo trabalho de uma equipa dedicada, onde se destacam nomes como o diretor do LusoPresse, Carlos de Jesus, ou o professor Joaquim Eusébio, que fazem da missão jornalística uma verdadeira vocação ao serviço da comunidade. Para além da imprensa escrita, Norberto Aguiar tem igualmente desenvolvido um relevante trabalho no campo audiovisual, enquanto produtor, realizador e proprietário do programa televisivo semanal LusaQ TV, que tem levado a atualidade lusófona às casas de milhares de famílias em Montreal. Colaborador de diversos órgãos de comunicação social em Portugal e no Canadá, o jornalista lagoense tem sido também um incansável promotor do associativismo luso-canadiano e de múltiplas iniciativas ligadas à identidade e à memória da comunidade portuguesa. Entre elas, destacam-se projetos de promoção da açorianidade, como a implementação do Parque dos Açores, em Montreal, ou a geminação entre os municípios da Lagoa e de Sainte-Thérèse. Não por acaso, o seu percurso de vida, marcado pelo altruísmo e pela dedicação à comunidade, tem sido amplamente reconhecido. Norberto Aguiar foi já distinguido com a Medalha da Assembleia Nacional do Quebeque, com a Medalha da Câmara Municipal da Lagoa e com diversas homenagens no seio da comunidade portuguesa. Mais recentemente, no passado mês de fevereiro, foi agraciado com o “Prémio Portugalidade”, atribuído na XXI Gala do Jornal Audiência, em Vila Nova de Gaia, distinção que reconhece “a dedicação, a persistência e o facto de levar além-fronteiras a voz da diáspora portuguesa”. Um reconhecimento inteiramente justo para quem tem feito do jornalismo uma missão cívica ao serviço da comunidade, dando assim pleno sentido à célebre e intemporal visão de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso.”

domingo, 1 de março de 2026

Casa dos Açores de Hilmar: um pilar da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se intensificou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, essencialmente oriundos dos arquipélagos dos Açores e da Madeira — destaca-se hoje pela sua plena integração, inegável espírito empreendedor e relevante papel socioeconómico e cultural na principal potência mundial. Segundo os dados mais recentes dos censos norte-americanos, residem atualmente nos EUA mais de um milhão de luso-americanos. Só no estado mais populoso do país, a Califórnia, vivem mais de 300 mil, na sua maioria de origem açoriana. Muitos trabalham por conta de outrem, designadamente na indústria, embora sejam também numerosos os que exercem atividade no setor dos serviços ou se distinguem nas áreas científica e académica, nas artes, nas profissões liberais e na vida política. No seio das numerosas comunidades luso-americanas da Califórnia — o estado com maior concentração de diáspora portuguesa nos EUA — proliferam dezenas de associações recreativas e culturais, órgãos de comunicação social, clubes desportivos e sociais, fundações educativas, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais, sociedades de beneficência e instituições religiosas. Existem igualmente espaços museológicos que preservam e divulgam a herança cultural portuguesa, como o History San José e o Portuguese Historical Center. Entre as associações recreativas e culturais que mais têm contribuído, nas últimas décadas, para a dinamização da açorianidade e da portugalidade na Califórnia, destaca-se, de forma inequívoca, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, um dos mais tradicionais e relevantes polos da emigração portuguesa naquele estado. Fundada em 1977, a instituição assumiu, desde a sua génese, como objetivos centrais o fortalecimento da identidade e da memória cultural açoriana, em particular, e portuguesa, em geral, através da música, do desporto, da literatura e da recriação de tradições religiosas, como as celebrações do Espírito Santo. Recentemente, a Casa dos Açores de Hilmar — membro do Conselho Mundial das Casas dos Açores — deu um passo decisivo para honrar o passado, valorizar o presente e projetar o futuro, com o lançamento da primeira pedra da sua nova sede. Trata-se de um espaço orçado em vários milhões de dólares, cuja empreitada foi oficialmente autorizada no final do mês de fevereiro e cuja conclusão está prevista para o final do próximo ano. O novo edifício funcionará como um moderno centro cultural multifuncional, apto a acolher festividades e uma vasta gama de iniciativas, como exposições, concertos, eventos literários, colóquios, programas intergeracionais, encontros sociais e celebrações comunitárias. Este passo constitui simultaneamente um sinal de confiança no presente e no futuro do associativismo luso-californiano, que enfrenta hoje desafios complexos, designadamente o envelhecimento dos seus quadros dirigentes. Com efeito, nas últimas décadas, a América do Norte — Estados Unidos e Canadá — deixou de ser destino prioritário da emigração portuguesa, o que tem repercussões naturais na renovação geracional das estruturas associativas. O futuro do associativismo luso-californiano, à semelhança do que sucede no restante espaço norte-americano, passará inevitavelmente pela diversificação das atividades de animação sociocultural, conciliando a matriz tradicional que sustenta o movimento associativo com novas expressões contemporâneas — como o cinema, a literatura, o design, a dança, o teatro ou a moda — capazes de mobilizar as gerações mais jovens de lusodescendentes, autênticos garantes da continuidade da presença portuguesa. Nesse contexto, a Casa dos Açores de Hilmar afirma-se como um exemplo paradigmático do caminho a trilhar. Nas recentes festividades carnavalescas promovidas pela associação, atuaram e desfilaram dezenas de crianças e jovens lusodescendentes nas áreas da música, do teatro e da dança, perante centenas de convidados e associados, revelando uma vitalidade que constitui motivo de legítima esperança quanto à preservação e renovação das tradições ligadas à açorianidade e à portugalidade na Califórnia.
O passado, o presente e o futuro da Casa dos Açores de Hilmar encontram expressão simbólica na conjugação de experiência e renovação que marca a sua liderança. De um lado, o jovem lusodescendente George Costa Jr., presidente da instituição; do outro, o seu vice-presidente, o comendador Manuel Eduardo Vieira, figura destacada da comunidade portuguesa na Califórnia. A articulação entre a energia transformadora da juventude e a memória acumulada de quem construiu o percurso associativo ao longo de décadas revela-se decisiva: é nesse diálogo intergeracional — entre inovação e experiência, entre continuidade e visão estratégica — que reside a garantia de um futuro sólido para a presença portuguesa na Califórnia e, mais amplamente, na América do Norte.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Diáspora portuguesa formaliza parceria estratégica e reforça ação social em França

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas no estrangeiro reside na sua reconhecida capacidade empreendedora e no enraizado sentido de solidariedade e benemerência. Esta matriz identitária tem sido reiteradamente confirmada pelos percursos de inúmeros compatriotas que, a partir da diáspora, edificam empresas de sucesso e promovem iniciativas de elevado impacto económico, cultural e social, contribuindo simultaneamente para a projeção internacional de Portugal. Entre os empresários portugueses da diáspora — hoje crescentemente valorizados como ativos estratégicos na promoção externa do país — destaca-se o percurso do guardense João Pina, conhecido em França por Jean Pina, uma das figuras mais dinâmicas e solidárias da comunidade luso-francesa. Atualmente administrador do Grupo Jean Pina, sediado na região parisiense e constituído por seis empresas com atividade nos setores da construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, Jean Pina afirma-se como um dos mais relevantes empresários luso-franceses. Todavia, o êxito alcançado no plano empresarial tem sido, de forma consistente, acompanhado por um inequívoco compromisso social em prol dos mais vulneráveis, tanto em Portugal como em França. Esse compromisso ganhou expressão institucional em novembro de 2019, com a criação da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão se sintetiza no lema “Solidariedade em Movimento”. Desde então, a Fundação tem desenvolvido uma ação estruturada e continuada de apoio social, promovendo projetos dirigidos a populações particularmente vulneráveis — idosos, crianças institucionalizadas, desempregados e famílias em situação de fragilidade — contribuindo para a coesão social e para a salvaguarda da dignidade humana nos dois países. Foi neste enquadramento que, no passado sábado, 21 de fevereiro, o presidente da Fundação celebrou um protocolo de colaboração estratégica com a Associação Soleils de Paris, que tem vindo a desenvolver um notável trabalho social junto de pessoas em situação de vulnerabilidade na capital francesa. Com uma intervenção centrada na ação social direta, a associação organiza, na última sexta-feira de cada mês, ações de rua que incluem a distribuição de refeições quentes, vestuário e bens essenciais em várias zonas de Paris.
A relevância do trabalho da associação — composta por cerca de vinte voluntários, entre os quais portugueses e lusodescendentes, e presidida pela jovem lusodescendente Eleonor Patrício — ganha particular significado à luz do contexto socioeconómico francês. Segundo dados divulgados pelo INSEE, em 2023 a taxa de pobreza em França atingiu 15,4%, o valor mais elevado desde 1996, sendo que na área metropolitana da Grande Paris os indicadores superam a média nacional. Trata-se de um cenário que exige respostas complementares às políticas públicas, envolvendo a sociedade civil organizada e o voluntariado. Neste contexto, a assinatura do protocolo entre a Fundação Nova Era Jean Pina e a Associação Soleils de Paris reveste-se de particular importância. Não se trata de um gesto meramente simbólico, mas da formalização de uma parceria estruturada, que garante previsibilidade, continuidade e enquadramento institucional ao apoio concedido. Através da oferta regular de donativos em espécie — designadamente bens alimentares, produtos de higiene e artigos de primeira necessidade — a Fundação reforça a capacidade operacional da associação, permitindo-lhe ampliar e consolidar a sua intervenção junto das populações mais vulneráveis. No próprio ato de assinatura do protocolo foram já entregues trinta sacos contendo bens alimentares e produtos de higiene e limpeza, que serão distribuídos pelos voluntários da associação a pessoas em situação precária, incluindo cidadãos em situação de sem-abrigo na capital francesa. Este primeiro gesto concreto evidencia a natureza pragmática e operacional da parceria agora estabelecida. Num país que acolhe uma comunidade portuguesa estimada em cerca de um milhão de pessoas — a maior da Europa e uma das mais expressivas comunidades estrangeiras em França — iniciativas desta natureza assumem um significado que ultrapassa o plano assistencial. Elas afirmam a maturidade cívica da diáspora portuguesa e a sua capacidade de organização, demonstrando que o sucesso empresarial pode e deve ser acompanhado por responsabilidade social. A celebração deste protocolo constitui, assim, um exemplo paradigmático do papel estruturante que a diáspora e os lusodescendentes desempenham nas sociedades de acolhimento, sem nunca romperem os laços com a pátria de origem. Ao mobilizar recursos, redes e capital humano em prol dos mais vulneráveis, a comunidade portuguesa projeta uma imagem de Portugal como nação solidária, empreendedora e universalista. Num tempo marcado por desigualdades persistentes e desafios sociais complexos, a ação concertada de fundações, associações e voluntários de matriz lusa reafirma que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também compromisso ativo, responsabilidade partilhada e construção concreta de pontes de solidariedade entre povos e territórios.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Chef Anthony Gonçalves: a cozinha portuguesa no topo de Nova Iorque

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico e político. Entre os muitos exemplos de portugueses e lusodescendentes da diáspora — hoje amplamente reconhecidos como um ativo estratégico na promoção internacional do país — destaca-se o percurso inspirador do chef Anthony Gonçalves, genuíno embaixador da gastronomia portuguesa em Nova Iorque, uma das mais emblemáticas metrópoles dos Estados Unidos da América e do mundo. Filho de emigrantes naturais dos concelhos de Torres Vedras e do Sabugal, que partiram para os Estados Unidos na década de 1960, Anthony Gonçalves não frequentou qualquer escola formal de culinária. A sua formação construiu-se na prática e na vivência familiar, no Trotters Tavern, restaurante português da família em Nova Iorque, onde, desde tenra idade, despertou para a arte da cozinha, guiado pelo pai e pela avó, entre aromas, sabores e memórias que moldaram a sua identidade gastronómica. A paixão pela culinária foi posteriormente aprofundada em contextos de elevada exigência profissional, nomeadamente no Hotel Ritz-Carlton e nos restaurantes 42 e Bellota. Em 2016, assumiu a chefia do restaurante Kanopi, em Nova Iorque. Situado no 42.º andar da torre envidraçada do The Opus Westchester, Autograph Collection, hotel de luxo localizado no centro de White Plains, a pouco mais de meia hora de Manhattan, com vista panorâmica sobre o vale do Hudson, o Kanopi tornou-se, sob a sua liderança, numa autêntica embaixada da cozinha portuguesa em território norte-americano. Através de uma abordagem contemporânea e criativa da tradição gastronómica lusa, apoiado por uma equipa com fortes ligações a Portugal — e com o contributo pessoal de raízes familiares que se estendem também ao Algarve, terra natal da sua esposa — Anthony Gonçalves tem atraído uma clientela exigente e de elevado perfil, que inclui atletas da NBA, figuras do mundo da moda e personalidades da vida política. O menu de jantar é integralmente inspirado na matriz culinária portuguesa; diversos pratos dialogam com os sabores da lusofonia; e a carta de vinhos apresenta exclusivamente referências importadas de Portugal, reforçando a identidade inequívoca do projeto. A excelência, a visão estratégica e a fidelidade às raízes que o chef imprime ao Kanopi — constantemente renovadas através de visitas frequentes a Portugal — têm sido amplamente reconhecidas. O restaurante tem merecido destaque nas páginas do The New York Times, uma das mais influentes publicações internacionais, e Anthony Gonçalves foi, em 2023, semifinalista do prémio anual da Fundação James Beard, na categoria de “Melhor Chef” do Estado de Nova Iorque.
Em 2025, o Kanopi foi distinguido com o “Best Award of Excellence” atribuído pela revista Wine Spectator, no âmbito dos “Annual Restaurant Awards – The World’s Best Wine Lists”, que premeiam as melhores cartas de vinhos entre milhares de restaurantes avaliados a nível mundial. Este reconhecimento evidencia igualmente o trabalho de Danny Martins, sommelier e diretor de vinhos do Kanopi, natural de Coimbra e com ligações a Aveiro, responsável por uma carta com 395 referências, das quais 180 são portuguesas — uma das mais completas seleções de vinhos nacionais no setor da restauração nos Estados Unidos. Também em Portugal o mérito do chef foi assinalado. A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal distinguiu, em 2024, Anthony Gonçalves com o prémio “Portugueses Lá Fora”, reconhecimento atribuído a profissionais que projetam a gastronomia nacional além-fronteiras e que contribuem para o prestígio internacional de Portugal. O percurso de Anthony Gonçalves demonstra, de forma inequívoca, como a cozinha portuguesa constitui hoje um instrumento privilegiado de diplomacia cultural e económica. Através do talento, da inovação e da fidelidade às suas raízes, o chef não apenas afirma a identidade gastronómica lusa num dos mercados mais competitivos do mundo, como também reforça o papel dos lusodescendentes enquanto protagonistas na construção de uma imagem moderna, qualificada e cosmopolita de Portugal. Na mesa do Kanopi, a tradição reinventa-se e transforma-se em narrativa de país. Cada prato servido, cada vinho português apresentado, cada referência à herança cultural comum traduz-se numa poderosa ação de promoção externa. É neste diálogo entre memória e contemporaneidade que a diáspora portuguesa encontra uma das suas expressões mais eficazes de afirmação internacional — provando que, onde houver talento e ligação às origens, Portugal estará sempre representado.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Aneclet Teixeira: empreendedor da diáspora madeirense e guardião da memória coletiva

A emigração constitui uma realidade intrínseca à identidade madeirense, marcando, desde o povoamento do arquipélago até à contemporaneidade, as suas dimensões sociais, culturais, económicas e políticas. A vasta diáspora da denominada “pérola do Atlântico”, estimada em cerca de 1,5 milhões de madeirenses e seus descendentes, transporta consigo, ao longo de gerações, tradições, valores e memórias para destinos tão diversos como a África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, Curaçau, Estados Unidos da América, França, Havai, Inglaterra e Venezuela. É precisamente neste último país da América Latina que se encontra radicada a maior comunidade emigrante madeirense, estimada em cerca de 300 mil emigrantes e descendentes, num universo aproximado de meio milhão de luso-venezuelanos. Trata-se de uma comunidade maioritariamente composta por naturais da Madeira que, apesar de nos últimos anos viver imersa numa profunda crise económica, política e social, tem persistido, desde a segunda metade do século XX, como um pilar estruturante do desenvolvimento urbano, económico e sociocultural da Venezuela. O relevante legado histórico da diáspora madeirense na pátria de Simón Bolívar encontra-se, desde o início da segunda década do século XXI, materializado na missão e visão do Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, freguesia do Faial, concelho de Santana. Este espaço museológico foi idealizado pelo empreendedor e benemérito Aneclet Teixeira, emigrante de sucesso radicado em Caracas, onde, desde a década de 1980, impulsionou e consolidou as cadeias de lojas Rey David. O museu tem como principal desígnio homenagear e perpetuar a memória dos seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais da Fajã da Murta, que, à semelhança de milhares de conterrâneos, iniciaram, na década de 1950, uma trajetória migratória familiar rumo à Venezuela. Detentor de diversos investimentos na América Latina e no seu torrão natal, onde tem apostado de forma consistente nos sectores da hotelaria e do imobiliário, Aneclet Teixeira viu esse percurso reconhecido em 2021, quando, no âmbito das comemorações do Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, foi distinguido pelo Governo Regional da Madeira com a Insígnia Autonómica de Bons Serviços. O empresário luso-venezuelano ergueu, na Fajã da Murta, um espaço museológico que alberga memórias, objetos, correspondência e fotografias da Família Teixeira, constituindo-se como um testemunho vivo da epopeia emigratória madeirense.
A profunda ligação ao arquipélago da Madeira e a notável visão empreendedora de Aneclet Teixeira têm-se materializado, nos últimos anos, num conjunto significativo de investimentos no sector da hotelaria e do turismo, numa região frequentemente distinguida como o melhor destino insular do mundo pelos World Travel Awards. Este contributo relevante para o crescimento económico, a criação de emprego e a geração de riqueza local, regional e nacional traduziu-se, em 2023, na inauguração, no centro do Funchal, do Barceló Hotels & Resorts. Trata-se de um empreendimento turístico de cinco estrelas, resultante de um investimento de várias dezenas de milhões de euros, assente na reabilitação de seis edifícios da baixa citadina, operado pelo grupo Barceló, e dotado de 111 quartos, ginásio, salas de reunião, restaurante à carta, restaurante buffet, lobby bar e rooftop bar BHeaven. Ainda nesse ano, o empreendedor e visionário luso-venezuelano, reconhecido pelo cultivo dos valores familiares e pela preocupação em perpetuar esse legado entre gerações, inaugurou o empreendimento Suites King David. Esta unidade de Alojamento Local, fruto de um investimento superior a cinco milhões de euros, é composta por 15 apartamentos das tipologias T0 e T1, totalmente equipados e com vista privilegiada sobre a Avenida do Mar, o porto e a baía do Funchal. Atualmente, Aneclet Teixeira encontra-se a concluir a reabilitação de uma casa centenária situada na Avenida do Infante, projeto que representa a concretização de um sonho profundamente ligado à memória saudosa dos seus filhos, Renny Xavier e Andrea Daniela, a quem dedica pública e sentidamente uma eterna homenagem. Esta intervenção constitui mais um relevante exemplo de reabilitação urbana de um edifício emblemático da cidade do Funchal, outrora devoluto, agora transformado na sua residência, rebatizada como King David Palace, numa alusão à marca que consolidou na Venezuela e difundiu por toda a América Latina. A moradia preserva a sua estrutura original, integrando elementos de calçada madeirense e portuguesa, e será enobrecida com o brasão da Família Teixeira, esculpido pelas próprias mãos do emigrante luso-venezuelano. Este gesto simbólico reflete, de forma eloquente, a capacidade empreendedora da diáspora portuguesa, que, ancorada numa profunda ligação às suas origens, investe ativamente no desenvolvimento do território pátrio. O percurso de Aneclet Teixeira constitui um exemplo paradigmático de como a emigração, longe de representar um afastamento definitivo, pode transformar-se numa poderosa ponte entre territórios, culturas e gerações. O seu contributo para a preservação da memória histórica da emigração madeirense, materializado no Museu da Família Teixeira, alia-se a uma intervenção decisiva no desenvolvimento da hotelaria, do turismo e da reabilitação urbana na Madeira, sectores estratégicos para a afirmação económica e cultural da Região Autónoma. Através do seu espírito empreendedor, do profundo apego às raízes e de uma visão que conjuga memória, identidade e modernidade, Aneclet Teixeira personifica o papel fundamental da diáspora portuguesa na projeção de Portugal no mundo. A sua ação confirma, com renovada atualidade, a célebre visão de Eça de Queiroz sobre a emigração como força civilizadora, demonstrando que o sucesso além-fronteiras pode — e deve — reverter em benefício do desenvolvimento, da coesão e da valorização do país de origem.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Mecenato da diáspora: a missão solidária de Jean Pina ao serviço da Casa de Portugal em Paris

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas no estrangeiro reside na sua reconhecida capacidade empreendedora e no enraizado sentido de solidariedade e benemerência. Esta matriz identitária tem sido amplamente confirmada pelos percursos de inúmeros compatriotas que, a partir da diáspora, constroem empresas de sucesso e dinamizam iniciativas de elevado impacto económico, cultural, social e até político, contribuindo simultaneamente para a projeção positiva de Portugal além-fronteiras. Entre os empresários portugueses da diáspora, cada vez mais valorizados como uma mais-valia estratégica na promoção do país, destaca-se o percurso do empresário João Pina, conhecido em França por Jean Pina, uma das figuras mais dinâmicas e beneméritas da comunidade luso-francesa. Natural de Trinta, pequena localidade do concelho da Guarda, João Pina emigrou para França no início da década de 1980, com apenas 19 anos, integrando o vasto movimento migratório de portugueses que então procuravam, na pátria gaulesa, melhores condições de vida. A sua chegada a Paris foi marcada por dificuldades significativas, incluindo um grave acidente que o deixou em coma durante vários dias — episódio determinante que viria a reforçar a sua profunda devoção a Nossa Senhora de Fátima. Superadas as adversidades iniciais, construiu um notável percurso empresarial no setor da construção civil, amplamente retratado na obra biográfica Jean Pina: de sonhador a promotor, da autoria de Elizabete Dente, publicada em 2016. Atualmente administrador do Grupo Jean Pina, sediado nos arredores de Paris e constituído por seis empresas com atividade nos setores da construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, Jean Pina afirma-se como um dos mais relevantes empresários luso-franceses. Contudo, o sucesso alcançado ao longo de décadas no mundo dos negócios tem sido, de forma consistente, acompanhado por um inequívoco compromisso solidário em prol da comunidade portuguesa e dos mais vulneráveis, tanto em França como em Portugal. Este espírito solidário encontrou expressão institucional em novembro de 2019, com a criação da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão assenta no lema “Solidariedade em Movimento”. Desde então, a Fundação tem desenvolvido uma dinâmica notável de apoio social, promovendo projetos dirigidos a populações especialmente vulneráveis — seniores, crianças institucionalizadas, desempregados e famílias em situação de fragilidade — reforçando a coesão social e a dignidade humana nos territórios de origem e de acolhimento da diáspora. Foi neste enquadramento que, no final do mês de janeiro, Jean Pina, enquanto administrador do Grupo Jean Pina e presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, firmou um protocolo solidário com a Fondation Nationale de la Cité internationale universitaire de Paris (CIUP), fundação privada de utilidade pública responsável pela gestão da emblemática Cité Internationale Universitaire de Paris. Instituição singular no panorama universitário francês e internacional, a CIUP promove, desde 1925, o intercâmbio cultural, o diálogo entre povos e a convivência pacífica, acolhendo mais de dez mil estudantes, investigadores e artistas de todo o mundo em dezenas de residências universitárias. Entre as 43 casas que integram este campus universitário de referência destaca-se a Casa de Portugal – André de Gouveia (Maison du Portugal – André de Gouveia), criada em 1967, cuja missão passa pelo acolhimento de estudantes, investigadores, artistas e atletas portugueses de alto nível. Inserida num contexto internacional e cosmopolita, a Casa de Portugal assume-se como uma verdadeira montra da cultura portuguesa em Paris e como um espaço de afirmação da identidade lusófona. Sob a direção do pianista português João Costa Ferreira, que exerce funções desde 2023, a instituição desenvolve uma intensa programação cultural, com cerca de uma centena de iniciativas anuais nas áreas da música, dança, teatro e cinema. É neste exigente quadro de acolhimento de mais de uma centena de estudantes universitários e de intensa promoção cultural — frequentemente limitado por recursos financeiros e humanos escassos — que o protocolo solidário agora celebrado assume particular relevância. A título gracioso, e suportado pelo presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, o acordo insere-se no projeto de renovação da Maison du Portugal – André de Gouveia, contemplando a requalificação de vários quartos, a modernização das casas de banho, bem como a limpeza e valorização do átrio de entrada. Intervenções fundamentais para melhorar as condições de conforto, segurança e dignidade dos residentes, salvaguardando simultaneamente o valor arquitetónico e patrimonial do edifício.
Este protocolo enquadra-se no regime de mecenato previsto no artigo 238 bis do Code général des impôts (CGI), aplicável a donativos efetuados em benefício de organismos de interesse geral, permitindo mitigar os encargos inerentes ao funcionamento desta instituição, que se assume, na prática, como uma verdadeira embaixada cultural de Portugal em Paris. Num país que acolhe uma comunidade portuguesa estimada em cerca de um milhão de pessoas — a maior da Europa e uma das mais expressivas comunidades estrangeiras em França —, a ação solidária contínua de Jean Pina constitui um exemplo paradigmático do papel estruturante da diáspora portuguesa. Mais do que um gesto isolado, este protocolo simboliza uma visão de responsabilidade social, de compromisso com a educação, a cultura e a identidade nacional, demonstrando como o sucesso empresarial, quando aliado à solidariedade, se transforma num poderoso instrumento de coesão, desenvolvimento e afirmação de Portugal no mundo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

John Negreiro Guedes: empreendedorismo e benemerência da diáspora luso-americana ao serviço da terra natal

Uma das marcas distintivas das comunidades portuguesas na diáspora é o seu forte espírito empreendedor, patente nas trajetórias de numerosos compatriotas que alcançaram sucesso empresarial e relevância cívica. Entre esses exemplos, destaca-se o percurso inspirador de John Negreiro Guedes, empreendedor e benemérito de referência da comunidade luso-americana. Natural de Vilas Boas, no concelho de Chaves, João Negreiro Guedes emigrou para os Estados Unidos da América no início da década de 1960, com apenas 10 anos, num contexto marcado pelas dificuldades socioeconómicas do interior transmontano durante o Estado Novo. Formado em Arquitetura no Norwalk State College, no Connecticut, fundou no final da década de 1970 a Primrose Companies, empresa de arquitetura e construção sediada em Bridgeport, especializada em projetos comerciais, multiresidenciais e médicos no Connecticut e em Nova Iorque. Com mais de 40 anos de atividade no setor, o arquiteto luso-americano assinou numerosos projetos de referência, entre os quais se destacam o The Birmingham Apartments, em Shelton, o Federal Arms Apartments, em Bridgeport, o Twin Brooks Village Homes, em Trumbull, o Post Road Professional Center, em Westport, ou o Easton Community Center, em Easton. O sucesso alcançado nos Estados Unidos tem sido acompanhado por um apoio contínuo à sua região de origem, à qual John Negreiro Guedes, como é conhecido na América, permanece profundamente ligado por um consistente espírito benemérito. Na aldeia natal, onde regressa com regularidade, financiou diversas iniciativas de caráter desportivo, cultural e recreativo, incluindo a aquisição do terreno para o campo de futebol e a construção da sede da associação cultural. Este compromisso solidário estende-se a outras instituições do concelho de Chaves, com particular destaque para a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago, que tem encontrado em John Negreiro Guedes um apoio determinante ao longo dos anos. Entre os vários contributos de relevo em prol desta corporação, cuja área de intervenção abrange sete freguesias a sul do concelho de Chaves, no distrito de Vila Real, destaca-se a doação, em 2007, de um monitor de sinais vitais. No ano seguinte, ofereceu uma Ambulância de Socorro totalmente equipada, no valor de cerca de 60 mil euros. Em 2017, concedeu um donativo que permitiu equipar todo o corpo ativo com farda n.º 2 e, no início de 2023, possibilitou a aquisição de uma viatura de comando e de duas viaturas destinadas ao transporte de doentes não urgentes. Mais recentemente, durante a última quadra natalícia, o emigrante luso-americano voltou a assumir um papel decisivo ao contribuir de forma substancial para a aquisição de uma nova Ambulância de Socorro (ABSC) para os Bombeiros Voluntários de Vidago. Este meio revelou-se essencial para o reforço da capacidade de resposta da corporação numa área de atuação com cerca de 100,27 km² e aproximadamente 5.300 habitantes, caracterizada por uma forte predominância florestal, mas também por uma crescente presença de estruturas comerciais e industriais, bem como por uma densa rede viária, onde se incluem a A24, a EN2 e várias estradas nacionais e municipais. A nova viatura permite, assim, uma intervenção mais célere, eficaz e tecnicamente apetrechada em situações de emergência. Não por acaso, em reconhecimento do valioso contributo prestado à causa dos bombeiros, a Liga dos Bombeiros Portugueses distinguiu John Negreiro Guedes com o Crachá de Ouro, uma das mais elevadas distinções honoríficas da instituição, destinada a galardoar atos e serviços de inequívoca relevância para a dignificação da causa bombeira. A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidago atribuiu-lhe igualmente a Medalha de Prata da corporação e erigiu um busto em sua homenagem no quartel dos “Soldados da Paz”, descerrado em 2022. O percurso de John Negreiro Guedes constitui um exemplo paradigmático do papel insubstituível que a diáspora portuguesa — em particular a comunidade luso-americana — desempenha na solidariedade social, na coesão territorial e na projeção de Portugal no mundo. Ao conjugar sucesso empresarial com um profundo sentido de responsabilidade cívica e de ligação às raízes, estes emigrantes afirmam-se como verdadeiros embaixadores do país, reforçando laços afetivos, apoiando causas estruturantes e contribuindo, de forma concreta, para o desenvolvimento das suas terras de origem e para a valorização internacional de Portugal.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Liga dos Bombeiros Portugueses homenageia Manuel Carvalho, benemérito da diáspora luso-americana

Um dos pilares fundamentais da proteção civil em Portugal, os bombeiros desempenham um serviço essencial em múltiplas frentes: socorro em acidentes rodoviários, combate a incêndios, resposta a desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, abastecimento de água às populações, salvamento de náufragos, bem como ações de prevenção, formação e sensibilização junto das comunidades. Exemplos maiores de altruísmo e cidadania, nem sempre reconhecidos com a justiça devida pelos poderes públicos, as corporações de bombeiros em Portugal enfrentam, de forma recorrente, sérias dificuldades estruturais, resultantes da crónica escassez de meios financeiros, que em muitos casos condiciona a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, parte desses constrangimentos — frequentemente agravados por contextos de crise económica — tem sido mitigada graças à generosidade de emigrantes portugueses que, um pouco por todo o território nacional, se constituem como um apoio vital ao funcionamento das corporações e à prossecução da sua missão humanitária. Um exemplo paradigmático dessa solidariedade encontra-se na figura do emigrante luso-americano Manuel Carvalho, natural de Tamengos, no concelho de Anadia. Empresário de referência na área da restauração em Mineola, localidade situada a cerca de 30 quilómetros de Nova Iorque, onde aproximadamente 15% dos cerca de 21 mil habitantes são de origem portuguesa, Manuel Carvalho tem vindo, ao longo de várias décadas, a dinamizar um conjunto significativo de iniciativas de apoio aos Bombeiros Voluntários de Anadia, associação humanitária fundada em 1933. A sua notável filantropia tem permitido encontrar soluções concretas para apetrechar esta corporação do coração da Bairrada. Entre as várias ações desenvolvidas, destaca-se a iniciativa promovida após ter tomado conhecimento das dificuldades financeiras vividas pelos bombeiros da sua terra natal, no verão de 2016. Esse contexto levou-o a organizar, no início do ano seguinte, um evento solidário de grande impacto. O jantar, realizado na Churrasqueira Bairrada, estabelecimento de que é proprietário - uma referência no seio da comunidade nova-iorquina- mobilizou a comunidade luso-americana de Mineola e permitiu angariar cerca de 25 mil euros, verba entregue à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia, destinada a apoiar obras no quartel e a aquisição de uma viatura operacional. Esta generosidade constante e desinteressada para com a corporação do seu torrão natal é acompanhada por um envolvimento igualmente ativo no apoio aos bombeiros do território de acolhimento e da terra de origem da sua esposa, Jackie Carvalho. Em reconhecimento desse percurso, Manuel Carvalho é Bombeiro Honorário em Mineola e recebeu, em 2023, a mais alta distinção honorária atribuída pelos Bombeiros da República do Panamá. Ainda no final desse ano, no âmbito das comemorações do 90.º aniversário dos Bombeiros Voluntários de Anadia, foi entronizado como “Embaixador dos Bombeiros Voluntários de Anadia em Mineola”. Na mesma cerimónia, foi-lhe atribuído o título de sócio benemérito n.º 1365, bem como um Diploma de Reconhecimento da Associação Humanitária. É neste quadro de mérito amplamente reconhecido que, no passado dia 10 de janeiro, Manuel Carvalho foi distinguido, no Quartel dos Bombeiros Voluntários de Anadia, com a Medalha de Agradecimento da Liga dos Bombeiros Portugueses. Esta distinção, atribuída pela confederação que representa as associações e corpos de bombeiros voluntários e profissionais em Portugal, destina-se a galardoar pessoas singulares ou coletivas que pratiquem atos de especial relevância em prol da causa dos bombeiros portugueses, em território nacional ou em missões de apoio internacional. Na cerimónia marcaram presença, entre outros responsáveis, o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, e o Presidente da Mesa dos Congressos da Liga, Luís António Vicente Gil Barreiros. Nos fundamentos da distinção, é sublinhado o contributo do «Benemérito Manuel Carvalho, Embaixador dos Bombeiros Voluntários de Anadia em Mineola, por atos de relevância ao serviço da Causa dos Bombeiros Portugueses». Uma distinção que honra não apenas o percurso de Manuel Carvalho, mas também a melhor tradição solidária da diáspora portuguesa, que continua a fazer do compromisso cívico e da gratidão às raízes uma marca identitária incontornável.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Manuel Eduardo Vieira e a Ordem do Infante D. Henrique: um rosto maior da diáspora portuguesa na América

A comunidade portuguesa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença se consolidou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, maioritariamente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores — distingue-se hoje pela sua plena integração, pelo seu inegável espírito empreendedor e pelo relevante papel económico, social e até político que desempenha na principal potência mundial. No seio desta numerosa comunidade lusa, que segundo os dados mais recentes dos censos norte-americanos integra mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, sobressaem múltiplos percursos de vida que corporizam o chamado American dream. Histórias de homens e mulheres que, partindo muitas vezes do nada, ascenderam social e profissionalmente graças ao trabalho árduo, ao mérito e a uma notável resiliência. Entre essas trajetórias exemplares destaca-se, de forma particularmente inspiradora, o percurso do comendador Manuel Eduardo Vieira, hoje reconhecido como o maior produtor mundial de batata-doce biológica e uma das figuras mais marcantes da comunidade portuguesa na Califórnia. Natural da Silveira, pequena localidade da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira emigrou aos 17 anos, em 1962, num contexto marcado pelo início da Guerra do Ultramar. Antes de se fixar nos Estados Unidos, partiu para o Rio de Janeiro, ao encontro de um tio que o acolheu a pedido da mãe e lhe proporcionou a possibilidade de prosseguir estudos para além da 4.ª classe, concluída na terra natal, no seio de uma família humilde. A permanência no Brasil, durante cerca de uma década, foi determinante: permitiu-lhe formação nas áreas da Contabilidade e da Gestão, experiência profissional em diversas empresas, o encontro com a futura esposa, Laurinda — também emigrante, natural de Chaves — e foi ainda o berço de nascimento dos seus três filhos. A ida para os Estados Unidos ocorreria no início da década de 1970, quando os pais e o irmão Artur já se encontravam emigrados na Califórnia, trabalhando no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás. Foi nesse contexto que Manuel Eduardo Vieira teve o primeiro contacto direto com a atividade agrícola em solo norte-americano. O esforço persistente e a recusa em desistir perante as adversidades — bem patentes no facto de estudar inglês à noite e trabalhar no campo durante o dia — moldaram um homem que construiu, a pulso, o seu percurso de sucesso. Um momento decisivo ocorreu em 1977, quando o tio lhe propôs a aquisição da empresa A.V. Thomas Produce, então dedicada à produção de batata-doce em cerca de 20 hectares, com uma única linha de tratamento e embalagem instalada num simples barracão, na cidade de Livingston. Com engenho, visão estratégica e capacidade de inovação, o duplo emigrante açoriano relançou a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo práticas pioneiras, como a certificação de produção biológica em 1988, ou, mais recentemente, a batata-doce em embalagem individual, pronta a ir ao micro-ondas. Paralelamente, expandiu a exploração agrícola, que hoje ultrapassa os 1200 hectares. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, esta realidade transformou a empresa na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios superior a 50 milhões de euros e cerca de mil trabalhadores nas épocas de colheita. Não é por acaso que, na década de 1990, a cadeia de supermercados Safeway lhe atribuiu uma placa de matrícula personalizada com a designação “King Yam” — o “Rei da Batata-Doce”. Empresário de mérito reconhecido, Manuel Eduardo Vieira viu o seu percurso distinguido em 2013, ao vencer a primeira edição dos Best Leader Awards (BLA) EUA, na categoria Lifetime Achievement. Dois anos antes, o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, já lhe havia atribuído a Comenda da Ordem do Mérito. Apesar do sucesso alcançado, mantém uma ligação profunda e afetiva à sua terra natal. Em 2017, foi inaugurada, na praceta do Centro Social da Silveira, no concelho das Lajes do Pico, uma estátua em sua homenagem, sendo ele o principal benemérito da construção do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo. A obra simboliza a generosidade que tem estendido a inúmeras associações da ilha do Pico. O seu nome permanece gravado no coração dos conterrâneos, tanto na pátria de origem como na de acolhimento. O seu percurso de vida e a sua constante filantropia valeram-lhe já cerca de duas dezenas de distinções internacionais, nacionais, regionais e locais, entre as quais se destaca a 18.ª Chave de Ouro do Município das Lajes do Pico, atribuída ao longo de mais de 500 anos de história da vila apenas a personalidades de mérito extraordinário. É neste quadro de mérito amplamente reconhecido que, no passado dia 6 de janeiro, Manuel Eduardo Vieira foi condecorado em Lisboa pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem do Infante D. Henrique, distinção destinada a reconhecer serviços relevantes prestados a Portugal, no país e no estrangeiro, bem como contributos para a projeção da cultura, da História e dos valores portugueses. Na cerimónia realizada no Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, o Chefe de Estado enalteceu o percurso profissional do condecorado e a sua ação filantrópica junto da comunidade luso-americana e de Portugal, destacando-o como uma figura maior da comunidade portuguesa na Califórnia e um símbolo inequívoco do dinamismo, da capacidade de liderança e da força afirmativa da diáspora portuguesa, que continua a projetar e a dignificar Portugal além-fronteiras através do exemplo, do trabalho e da generosidade.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Natal Solidário da Fundação Nova Era leva amor e esperança a centenas de famílias, unindo Portugal, França e a Diáspora

A campanha solidária de Natal “Um Natal de Amor, um Presente de Esperança”, promovida anualmente pela Fundação Nova Era, voltou, no final de 2025, a afirmar-se como uma das mais relevantes iniciativas de solidariedade social no espaço luso-francês. A ação levou apoio material, dignidade e conforto humano a centenas de famílias em situação de vulnerabilidade, tanto em Portugal como em França, reforçando o papel da diáspora portuguesa como agente ativo de coesão e desenvolvimento social. Sob a presidência do empresário e benemérito luso-francês Jean Pina, profundamente ligado às comunidades portuguesas no estrangeiro, a Fundação Nova Era voltou a mobilizar uma ampla rede de voluntários, parceiros institucionais e embaixadores locais, traduzindo o espírito natalício em respostas concretas às necessidades mais urgentes. No âmbito desta edição da campanha, foram distribuídos mais de 1.000 cabazes solidários, compostos por bens alimentares e produtos essenciais. Parte dos donativos foi entregue diretamente às famílias, enquanto outra foi enviada em paletes para instituições sociais, permitindo uma distribuição mais estruturada, eficaz e equitativa. Em Portugal, a iniciativa abrangeu várias regiões do país. Na Guarda, terra natal do empresário e benemérito luso-francês, a ação contou com a colaboração da Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação da Guarda, garantindo que a ajuda chegasse de forma célere e digna aos beneficiários. O envolvimento dos embaixadores locais, Luís Vendeiro e Beatriz Pissarra Vendeiro, revelou-se decisivo para o sucesso da campanha, com o apoio de Sónia Monteiro, colaboradora da Fundação Nova Era há vários anos, cuja dedicação foi amplamente reconhecida. Em Longos, freguesia do concelho de Guimarães, a distribuição decorreu através da Casa da Criança, com o contributo do embaixador Miguel Neves, reforçando o compromisso da fundação com o apoio a crianças e famílias em contextos de maior fragilidade social. Também no Minho, mas já em Fafe, a parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação local permitiu o envio de cerca de 2.000 quilos de bens alimentares e produtos de limpeza, aumentando significativamente a capacidade de resposta social durante o período natalício. A campanha teve igualmente um impacto expressivo junto das comunidades portuguesas em França, sublinhando a importância da diáspora no apoio solidário ao território de origem e às próprias comunidades emigrantes. Foram distribuídas várias centenas de cabazes em cidades como Lyon, Saint-Étienne, Grenoble, Castres, Paris e Yvelines, com especial destaque para Mimizan, onde o forte envolvimento local foi determinante para o êxito da iniciativa. Paralelamente à ação solidária, a Fundação Nova Era anunciou uma reestruturação interna, com a nomeação de Marie Françoise Morgado, natural de Vide Entre Vinhas (Celorico da Beira), para o cargo de Vice-Presidente da instituição. Esta nomeação reconhece o seu trabalho exemplar e o contributo logístico decisivo, particularmente na coordenação das ações solidárias desenvolvidas em território francês. À qual se soma, a cooperação excecional do embaixador na região de Le Havre, Flipe Pereira, bem como da esposa e filha, Manuela e Salomé Pereira, assim como do responsável da empresa de transportes JB7, Joaquim Brandão e filha Rita Brandão. A campanha “Um Natal de Amor, um Presente de Esperança” traduz, assim, o compromisso contínuo da Fundação Nova Era com os valores da solidariedade, união e responsabilidade social, demonstrando como a mobilização da diáspora portuguesa — em especial em França — continua a desempenhar um papel fundamental no apoio às comunidades, aquém e além-fronteiras, transformando gestos de partilha em verdadeiras oportunidades de esperança.