Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 8 de março de 2026

Norberto Aguiar: um rosto incontornável do jornalismo português em Montreal

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Tal realidade é amplamente confirmada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, criaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo. Entre os muitos exemplos de dirigentes associativos e promotores da cultura portuguesa na diáspora — hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal — tem-se destacado, ao longo das últimas décadas, o percurso altruísta de Norberto Aguiar em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, no Canadá. Natural da Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores, onde nasceu em 1954, Norberto Aguiar emigrou para o Canadá em 1975, deixando para trás uma promissora carreira futebolística no Clube Operário Desportivo. Partiu não apenas motivado pela presença dos pais no Quebeque, mas também pelo facto de aquela que viria a ser a sua companheira de vida — a também lagoense Anália, mãe das suas três filhas — ter entretanto emigrado para o país norte-americano.
O jovem casal estabeleceu-se em Montreal, a segunda maior cidade do Canadá, onde a comunidade portuguesa e lusodescendente deverá ultrapassar as 60 mil pessoas. Foi aí que Norberto Aguiar iniciou o seu percurso de emigrante, trabalhando numa fábrica têxtil, enquanto concluía os estudos secundários e aprofundava o conhecimento da língua francesa. No ocaso de 1982, regressou aos Açores, já com três filhas, motivado pelo sonho de retomar a carreira futebolística — que lhe valera a alcunha de “Loirinho do Operário” — e de gerir simultaneamente um projeto empresarial na área da restauração. Contudo, o regresso ao torrão arquipelágico revelou-se breve. Cerca de meio ano depois, o casal decidiu regressar ao Canadá, onde, no ano seguinte, fixaria definitivamente o seu projeto de vida. De volta a Montreal, Norberto Aguiar prosseguiu a sua formação e percurso profissional, aprofundando ao mesmo tempo a ligação à comunidade luso-canadiana. Através da dinamização de uma liga de clubes de futebol no Quebeque, reforçou a sua presença no movimento associativo, experiência que viria a conduzi-lo, nessa mesma época, ao mundo do jornalismo, assumindo funções na redação do jornal A Voz de Portugal. A partir de então, tornou-se uma voz inconfundível no panorama da imprensa de língua portuguesa em Montreal. Essa experiência e dedicação levariam a que, cerca de uma década mais tarde, assumisse o papel de editor e proprietário do jornal LusoPresse, publicação que, ao longo das últimas três décadas, se afirmou como um dos mais relevantes órgãos de comunicação social da comunidade portuguesa em Montreal. Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais — muitas vezes sem o devido reconhecimento das autoridades políticas dos países de origem ou de acolhimento — os jornais da diáspora sobrevivem, em grande medida, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Não raras vezes confrontados com crises económicas e desafios financeiros, vários títulos desapareceram ao longo dos anos. Apesar dessas adversidades, o LusoPresse tem resistido e renovado o seu compromisso com a comunidade. Numa época em que vários jornais da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive no Canadá, o periódico liderado por Norberto Aguiar constitui um exemplo genuíno de dedicação e serviço público. Através de uma informação de proximidade, constrói pontes entre a comunidade luso-canadiana, atenua a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural e contribui para projetar Portugal — e, de modo muito particular, os Açores — na sociedade canadiana. Essa projeção tem sido amplificada na última década pelo trabalho de uma equipa dedicada, onde se destacam nomes como o diretor do LusoPresse, Carlos de Jesus, ou o professor Joaquim Eusébio, que fazem da missão jornalística uma verdadeira vocação ao serviço da comunidade. Para além da imprensa escrita, Norberto Aguiar tem igualmente desenvolvido um relevante trabalho no campo audiovisual, enquanto produtor, realizador e proprietário do programa televisivo semanal LusaQ TV, que tem levado a atualidade lusófona às casas de milhares de famílias em Montreal. Colaborador de diversos órgãos de comunicação social em Portugal e no Canadá, o jornalista lagoense tem sido também um incansável promotor do associativismo luso-canadiano e de múltiplas iniciativas ligadas à identidade e à memória da comunidade portuguesa. Entre elas, destacam-se projetos de promoção da açorianidade, como a implementação do Parque dos Açores, em Montreal, ou a geminação entre os municípios da Lagoa e de Sainte-Thérèse. Não por acaso, o seu percurso de vida, marcado pelo altruísmo e pela dedicação à comunidade, tem sido amplamente reconhecido. Norberto Aguiar foi já distinguido com a Medalha da Assembleia Nacional do Quebeque, com a Medalha da Câmara Municipal da Lagoa e com diversas homenagens no seio da comunidade portuguesa. Mais recentemente, no passado mês de fevereiro, foi agraciado com o “Prémio Portugalidade”, atribuído na XXI Gala do Jornal Audiência, em Vila Nova de Gaia, distinção que reconhece “a dedicação, a persistência e o facto de levar além-fronteiras a voz da diáspora portuguesa”. Um reconhecimento inteiramente justo para quem tem feito do jornalismo uma missão cívica ao serviço da comunidade, dando assim pleno sentido à célebre e intemporal visão de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso.”

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