Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

domingo, 10 de outubro de 2021

Gabriel Martinez: o fotógrafo dos emigrantes portugueses em Hendaia nos anos 60

Na história da emigração lusa para França nos anos 60, época em que a miséria rural e a ausência de liberdade, num país amordaçado pela ditadura, impeliram a saída legal ou clandestina de mais de um milhão de portugueses, a cidade de Hendaia, na fronteira franco-espanhola, ocupa um dos capítulos mais simbólicos dessa gesta.

Estima-se que cerca de um em cada dois emigrantes cruzou nesse período a fronteira a “salto”, ou como se dizia então com “passaporte de coelho”, isto é, sem passaporte, através de uma viagem clandestina, na maioria da vezes feita ao cair da noite. A arriscada jornada por montanhas, rios e veredas, feita com o apoio dos chamados “passadores”, não raras vezes marcada por episódios trágicos, foi feita por centenas de milhares de portugueses, que após atravessarem os Pirenéus alcançavam a cidade fronteiriça francesa de Hendaia, onde compravam o almejado bilhete de comboio para a Gare de Austerlitz, cais de desembarque da emigração portuguesa em Paris.

Este momento simbólico de espera no cais da estação de Hendaia, onde milhares de emigrantes portugueses extenuados aguardaram ansiosamente o embarque para a viagem que os levou rumo a uma vida melhor, foi profusamente captado no final da década de 1960 pelo fotógrafo francês Gabriel Martinez.

Apaixonado por pintura e desenho, Gabriel Martinez, que tinha assumido a loja de fotografia do pai em Saint-Jean-de-Luz, comuna francesa na região administrativa da Nova Aquitânia, no departamento dos Pirenéus Atlânticos, retratou singularmente, nas palavras do mesmo, “um drama humano, um grande drama humano, famílias inteiras com a casa às costas”.

Emigrantes portugueses na estação de Hendaia - Gabriel Martinez (1969)

 

Nas fotografias a preto e branco, captadas há mais de meio século, o artista oriundo da costa basca, captou numa sala de espera e no cais da estação de Hendaia, homens, mulheres e crianças a dormirem em bancos, braços cruzados em cima de sacos, e muitas malas espalhadas pelo chão ou em cima de mesas, carregadas de sonhos e esperança.

Em 2008, com o apoio de Manuel Dias Vaz, presidente da Rede da Aquitânia para a História e Memória da Imigração, Gabriel Martinez publicou este valioso repositório ilustrado dos emigrantes portugueses em trânsito para Paris no livro “Sala de Espera”, da editora francesa Atlantica, ano em que as imagens foram também adquiridas pelo Museu da Aquitânia, que tem promovido ao longo dos últimos anos várias exposições itinerantes sobre esta etapa marcante da emigração portuguesa para França.

sábado, 2 de outubro de 2021

Emigrateca Portuguesa

 

A emigração lusa, ao longo das últimas décadas, tem recebido uma crescente atenção por parte dos investigadores, que nas suas múltiplas formações e ângulos de análise têm dado um importante contributo para a compreensão deste fenómeno constante na sociedade portuguesa.

Um desses investigadores, que mais tem contribuído para o estudo e conhecimento da emigração portuguesa é seguramente o Professor Catedrático na Universidade de Aveiro, atualmente aposentado, Jorge Arroteia. Com uma formação de base em Geografia, e doutoramento em Ciências Sociais, Jorge Arroteia, que integrou órgãos científicos de vários estabelecimentos de ensino superior, é autor de diversos estudos e projetos de referência no campo da emigração portuguesa.

Natural da freguesia de Monte Redondo, no concelho de Leiria, um território fortemente marcado pelo fenómeno emigratório para o Brasil no início do séc. XX, e nos anos 60 para França, o investigador leiriense fundou em 2009 a “Emigrateca Portuguesa”, uma biblioteca digital especializada em assuntos da emigração lusa.

Constituída por amostras de trabalhos académicos sobre a emigração de nacionais, isoladamente e no seu contexto internacional, assim como por estudos sobre a população e a sociedade portuguesa, as comunidades luso-descendentes residentes no estrangeiro e a imigração em território nacional, este fundo bibliográfico especializado sobre o fenómeno migratório luso tem sido promovido pelo Museu do Casal de Monte Redondo. Um espaço museológico, administrado pela Associação de Defesa do Património Cultural de Monte Redondo, que se encontra instalado na terra natal do investigador leiriense, em edifício próprio, com espaço expositivo, biblioteca e reserva técnica.

A diversidade de trabalhos disponíveis e o interesse em facultar a sua consulta a um público mais vasto justificou, entretanto, a oferta de parte da documentação recolhida à Biblioteca José Saramago - Instituto Politécnico de Leiria, uma instituição de ensino superior, mantendo-se no entanto a divulgação on-line de um conciso acervo digital.

Enriquecida com um repositório de textos agrupados em tornos dos eixos temáticos - Memorial da Emigração Portuguesa / Lusitanis in Diáspora / Migrações e Desenvolvimento -, e uma listagem de sites de instituições nacionais e internacionais relacionadas com o estudo das migrações, a plataforma digital “Emigrateca Portuguesa” constitui uma ferramenta de trabalho útil e prática para o aprofundamento do conhecimento e estudo da emigração portuguesa.  

sábado, 25 de setembro de 2021

A (in)visibilidade dos emigrantes trasmontanos nas fotografias de Eduardo Perez Sanchez

 No decurso do mês de setembro, o fotógrafo autodidata Eduardo Perez Sanchez, nascido em Barcelona, mas há mais de meio século a viver na cidade invicta, apresentou na Cooperativa Árvore, no Porto, o seu primeiro livro, intitulado Trás-os-Montes, Uma Visão a Preto e Branco sobre as Gentes e o seu Viver na Década de 1980.

A obra, resultado de incursões fotográficas que Eduardo Perez Sanchez realizou na década de 1980 em aldeias de Trás-os-Montes, no Nordeste de Portugal continental, como Agordela, Calvo, Sá, Santa Valha e Vilarandelo, destaca-se não só pelo sentido estético, mas também, pelos detalhes descritivos que traduzem a realidade socio-histórica de uma das regiões mais periféricas e deprimidas do país.

Uma realidade de profundo ambiente rural, ainda muito marcante no limiar dos anos 80, um período de consolidação da democracia portuguesa, onde se praticava ainda uma agricultura de subsistência e as estruturas de habitação rural em pedra possuíam diminutas condições de habitabilidade e de conforto, designadamente falta de luz elétrica, água canalizada e saneamento básico.


©Eduardo Perez Sanchez - Trás-os-Montes anos 80

 

Nesses “lugares de memória” transmontanos, captados há cerca de 40 anos pelo fotógrafo luso-catalão, que veem agora a luz dia, abundam essencialmente rostos, expressões, sentimentos e experiências da vida quotidiana de carências e dureza, por que passaram as povoações rurais do interior do país.

A presença constante de mulheres, crianças e idosos nas fotografias realizadas pelo fotógrafo septuagenário autodidata,  na região transmontana na década de 1980, recorda o fenómeno maciço da emigração portuguesa da segunda metade do séc. XX para os países industrializados da Europa Ocidental, especialmente para França, que esvaziou as aldeias do interior nortenho de homens na força na idade.

Um fenómeno marcante na sociedade portuguesa, sobretudo nos anos 60 e 70 durante a ditadura salazarista, quando mais de um milhão de portugueses partiram a “salto” motivados pela procura de melhores condições de vida ou em fuga à Guerra Colonial, e que foi particularmente incisivo em Trás-os-Montes, uma região fronteiriça onde o fardo da ruralidade e a estreiteza de horizontes impeliu uma forte vaga migratória.

A (in)visibilidade dos emigrantes trasmontanos nas fotografias de Eduardo Perez Sanchez, acentua a importância destes na história e identidade da região. A comparação do tempo transcorrido nas imagens a preto e branco do fotógrafo luso-catalão, com a realidade do presente, permite, quarenta anos depois apreender que o fenómeno migratório, malgrado a ligação ao processo de desertificação do interior, possibilitou a canalização de remessas para o sustento das famílias dos emigrantes que permaneceram nas terras de origem, e incrementou o desenvolvimento destes lugares desfavorecidos, ao nível da construção de casas, da aquisição de propriedades ou de estabelecimentos comerciais.