Morgado de Fafe
O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.
segunda-feira, 27 de maio de 2024
As memórias da emigração no espólio do fotojornalista Marques Valentim
Um dos mais conceituados fotojornalistas portugueses da atualidade, Marques Valentim nasceu a 1 de agosto de 1949 em Cascais. O seu percurso como fotojornalista começou aquando da sua comissão de serviço militar obrigatório em Moçambique, como furriel miliciano fotocine, após ter tirado em Lisboa o curso de Fotografia e Cinema, nos Serviços Cartográficos do Exército.
A estadia de 26 meses, entre os anos de 1972 e 1974, na antiga província ultramarina portuguesa, levou-o a percorrer de Norte a Sul, em serviço de reportagem fotográfica, este território africano no período derradeiro da Guerra Colonial.
No regresso a Portugal e, logo após o 25 de Abril de 1974, ingressou na Agência Europeia de Imprensa (AEI) onde cobriu diversos acontecimentos que marcaram o país entre setembro de 1974 e agosto de 1975. A 1 de setembro desse ano, iniciou a atividade de fotojornalista no diário A Luta, no qual permaneceu até à sua extinção, em janeiro de 1979. Integrou então de março a setembro de 1979 a equipa que lançou o Correio da Manhã, sendo que no ocaso desse ano entrou para o Portugal Hoje, onde permaneceu até ao fim desse matutino em 1982.
Com passagens ainda nessa década pelo semanário Off-Side, e o jornal Comércio do Porto, na delegação de Lisboa, Marques Valentim regressou em março de 1986 aos quadros do Correio da Manhã, desempenhando os cargos de repórter-fotográfico, subcoordenador e editor fotográfico, função que exerceu até de outubro de 2002.
Com uma profícua carreira de fotojornalista em órgãos de informação de referência em Portugal, Marques Valentim que passou a vida a fotografar, por paixão, como profissional, sempre com um olhar atento e humanista, é reconhecido por deter um espólio com mais de 100 mil imagens que cobrem acontecimentos marcantes, como por exemplo, a Guerra Colonial. Acontecimento bélico que o suscitou em 2003 a ser coautor com Andrade Guerra e Isabel Trindade, do livro Combatentes do Ultramar, e a colaborar em 2005, no livro A Dor da Nação de Andrade Guerra.
Assim como, de alguns dos momentos mais importantes da construção democrática e os seus protagonistas, seja o caso de Mário Soares ou do capitão Salgueiro Maia, de quem é autor de uma das suas mais icónicas fotografias, profusamente usada nas Comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril.
Conhecido por ao longo de décadas, captar inúmeras imagens de acontecimentos que marcaram a história mais recente do nosso país, Marques Valentim conserva ainda uma parte pouco conhecida do seu espólio, constituído por fotografias praticamente inéditas que retratam a emigração dos anos 70, um fenómeno impactante na sociedade portuguesa contemporânea.
O fotojornalista captou singularmente a chegada nessa época de emigrantes portugueses à estação de Santa Apolónia, em Lisboa, local onde os mesmos carregados com as suas malas de cartão, reencontravam as famílias e se deslocavam para os diversos lugares do seu torrão natal.
Fotografias simbólicas que avivam as memórias da emigração portuguesa, em particular para França nos anos 60 e 70, destino migratório que nesse período, entre a ausência de liberdade e a demanda de melhores condições de vida, impeliu a saída legal ou clandestina de milhares de compatriotas. Muitos deles utilizando o comboio como transporte, mormente o “Sud Expresso”, mítico comboio da CP, que ligava Lisboa, em Portugal, à localidade francesa de Hendaia, junto à fronteira entre Espanha e França.
Com mais de meia centena de exposições realizadas aquém e além-fronteiras, o fotojornalista Marques Valentim, empossado em 2012 como Embaixador para a Paz, pela Federação Internacional para a Paz, na esteira de fotógrafos como Gérald Bloncourt ou Gabriel Martinez, que imortalizaram a história da emigração portuguesa para França nas décadas de 1960-70, deixou também o seu cunho no resgate da memória dos protagonistas anónimos da nossa história que além fronteiras lutaram pelo direito a uma vida melhor.
domingo, 26 de maio de 2024
Daniel Bastos distinguido entre os “Portugueses de Valor”
No âmbito da XIII Gala dos Portugueses de Valor, uma iniciativa organizada pela revista da diáspora Lusopress, um relevante meio de comunicação social da comunidade lusa em França, que decorreu no sábado passado (25 de maio) no Teatro-Cinema de Fafe, o escritor e historiador Daniel Bastos, cujo percurso literário tem sido alicerçado junto da diáspora, foi distinguido entre os dez vencedores “Portugueses de Valor” 2024.
Daniel Bastos no decurso da XIII Gala dos Portugueses de Valor que este ano decorreu no Teatro-Cinema de Fafe
A iniciativa, que tem o Alto Patrocínio do Presidente da República, demanda valorizar anualmente portugueses que se encontram espalhados pelo mundo, e cujo percurso profissional, pessoal ou associativo se tem destacado em prol das comunidades portuguesas no campo cultural, empresarial, associativo e solidário.
sexta-feira, 24 de maio de 2024
Apresentação no Porto do livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”
No dia 8 de junho (sábado), é apresentada no Porto a obra “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”.
O livro, concebido pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, é apresentado às 16h00 na livraria Unicepe, um espaço cultural de referência na cidade invicta.
O antigo militar e oposicionista Fernando Mariano Cardeira (ao centro), ladeado do historiador Daniel Bastos (dir.), e do tradutor Paulo Teixeira
A apresentação da obra, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira, estará a cargo do historiador e investigador José Pacheco Pereira, fundador da associação cultural Ephemera, que assina o prefácio do livro.
Nesta nova obra, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, estrutura nacional que tem como missão definir e concretizar o programa de celebração de meio século de liberdade e democracia em Portugal, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nos anos 60 e 70.
Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num conjunto de centena e meia de imagens, são abordados, desde logo, as primeiras manifestações do Maio de 1968 em Paris, acontecimento icónico onde o fotógrafo engajado consolidou a sua consciência cívica e política. E, com particular incidência, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70.
Em plena celebração de meio século de liberdade em Portugal, e das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, esta iniciativa cultural constitui uma oportunidade simbólica de revisitar o país como era há 50 anos. Um dever de memória e um exercício de cidadania no fortalecimento da democracia e da portugalidade, através da importância da história para inquirir o passado, pensar o presente e projetar o futuro.
Segundo José Pacheco Pereira, historiador e investigador que assina o prefácio da obra, “tudo o que constituía contexto dos anos finais da ditadura está presente neste livro, o país pobre, miserável e injusto onde, desde a mortalidade infantil à nascença, ao analfabetismo, aos bairros da lata, à insegurança de viver em sítios errados quando havia um desastre como as cheias de 1967, que matou “naturalmente” os mais pobres e deixou incólumes os mais ricos, mesmo quando viviam em locais onde choveu mais, o movimento estudantil que tinha tirado as universidades ao controlo de regime, o movimento operário reprimido nos seus mínimos direitos, a condição das mulheres vítimas de todas as violências que a censura proibia de contar, já para não falar da repressão, das prisões, da tortura, e, por fim, da guerra colonial”.
Nascido já depois da Revolução de Abril, e com vários livros publicados no domínio da História e da Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as comunidades portuguesas, o percurso do historiador e escritor Daniel Bastos tem sido alicerçado no seio da Diáspora.
Fernando Mariano Cardeira nasceu em 1943, depois de uma trajetória marcada pela deserção, emigração e exílio nas décadas de 1960-70, o antigo oposicionista regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. Foi um dos fundadores da Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61/74), e presidiu à Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória-NAM.
domingo, 19 de maio de 2024
A benemerência dos emigrantes em prol dos Bombeiros
Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações.
Exemplos de serviço de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações.
Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos de debilidades económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à benemerência de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações.
Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado na filantropia do emigrante e empresário de sucesso Mapril Batista. Natural do Bombarral, distrito de Leiria, Mapril Batista partiu para França na década de 1960, na companhia da mãe e do irmão mais velho, ao encontro da figura paterna que emigrara a “salto” em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza.
Empresário multifacetado, com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão na base do prémio COTEC Portugal, que recebeu em 2013 das mãos do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Assim como, das insígnias da Ordem de Mérito, grau de Comendador, que lhe foram atribuídas pelas autoridades portuguesas em 2018, Mapril Batista fundou no alvorecer do séc. XXI a “Les Dauphins”, uma empresa de referência no fabrico e venda de ambulâncias adaptadas em França, contexto que concorre para que Mapril Batista seja conhecido como o “rei das ambulâncias”.
Entre os aspetos mais proeminentes do comendador Mapril Batista, sobressai indelevelmente a sua dimensão benemérita e o profundo apego à pátria de Camões. É nesse sentido, que ao longo dos anos, entre inúmeras outras associações e entidades, o emigrante empreendedor tem prestado um apoio notável à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, uma vetusta corporação que se constitui como uma peça estruturante no serviço prestado à população no litoral da região Oeste.
Entre vários outros apoios, por exemplo, no ocaso do ano de 2016, Mapril Batista ofereceu aos Bombeiros Voluntários da Lourinhã uma ambulância. Em 2020, a sua empresa procedeu à transformação da ambulância da corporação lourinhanense de socorro que integra o PEM - Posto de Emergência Médica do INEM. E no início do ano de 2023, a realização do espetáculo solidário “Insónia” com o ator e apresentador Fernandes Mendes, e cujas verbas angariadas reverteram a favor da aquisição de uma viatura de transporte múltiplo para os Bombeiros da Lourinhã, contou com o patrocínio de Mapril Baptista.
A singular filantropia do emigrante empreendedor em prol dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, levou a que no passado dia 12 de maio, no âmbito das comemorações do 96.º aniversário da associação lourinhanense, Mapril Baptista, sócio benemérito da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, fosse agraciado com o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses. Uma distinção inteiramente justa e merecida, que tem por finalidade galardoar a prática de atos e/ou serviços relevantes de inquestionável contributo para a dignificação da Causa dos Bombeiros.
Uma das figuras mais conhecidas da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, a benemerência do comendador Mapril Baptista em prol dos Bombeiros, na esteira de outros notáveis exemplos que foram ou estão a ser dinamizados no seio da diáspora, evidenciam o cunho solidário de vários compatriotas espalhados pelo mundo e alentam a máxima da poeta e escritora Iara Schmegel: “Bombeiros, aqueles que acendem a chama da esperança”.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
Vigo foi palco de apresentação de livro sobre memórias da ditadura portuguesa
Na passada sexta-feira (16 de maio), foi apresentado em Vigo o livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”.
A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, foi apresentada no Camões - Centro Cultural Português em Vigo.
Mesa da sessão de apresentação em Vigo do livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência” (Da esq. para dir.: o historiador Daniel Bastos, acompanhado do mestre-pintor Orlando Pompeu, e do tradutor Paulo Teixeira)
A sessão de apresentação, que contou com a presença de participantes da Galiza e do Norte de Portugal, esteve a cargo de Orlando Pompeu, um dos mais consagrados artistas plásticos portugueses da atualidade, que destacou os laços culturais entras as comunidades transfronteiriças. E a importância da Revolução de Abril na instituição da liberdade de expressão, na vivência da cultura e na valorização da criação artística.
Refira-se que neste novo livro, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira e prefácio do investigador José Pacheco Pereira, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nos anos 60 e 70.
Mesa da sessão de apresentação em Vigo do livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência” (Da esq. para dir.: o historiador Daniel Bastos, acompanhado do mestre-pintor Orlando Pompeu, e do tradutor Paulo Teixeira)
Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num conjunto de centena e meia de imagens, são abordados, desde logo, as primeiras manifestações do Maio de 1968 em Paris, acontecimento icónico onde o fotógrafo engajado consolidou a sua consciência cívica e política. E, com particular incidência, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70.
Em plena celebração de meio século de liberdade em Portugal, a apresentação deste livro em Vigo, assumiu-se como um reconhecimento dos laços históricos, territoriais, culturais e linguísticos entre a Galiza e o Norte de Portugal. Assim, como uma iniciativa simbólica para revisitar os países ibéricos como eram há 50 anos, e apreender a influência da Revolução de Abril no processo de transição para a democracia em Espanha.
Refira-se que a sessão de apresentação no Camões - Centro Cultural Português em Vigo, organismo que tem como objetivo central levar a cultura portuguesa a toda a Galiza, incluiu uma prova de vinho verde, promovida pelos Vinhos Norte, um dos maiores produtores nacionais de vinho verde que procura aliar a tradição de fazer vinho com a inovação no sector.
quarta-feira, 15 de maio de 2024
Memórias da ditadura revisitadas na comunidade portuguesa em Toronto
No próximo dia 1 de junho (sábado), é apresentada em Toronto a obra “Memórias da
Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”. O livro, concebido pelo
historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando
Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado
político, é apresentado, às 10h00, na Peach Gallery em Toronto.
Daniel Bastos
Neste novo livro, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo
Teixeira, e prefácio do historiador e investigador José Pacheco Pereira,
realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de
Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira,
cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes
para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nos anos 60
e 70. Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num
conjunto de centena e meia de imagens, são abordados com particular incidência,
o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento
estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da
deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por
milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar
à Guerra Colonial nos anos 60 e 70. Em plena celebração de meio século de
liberdade em Portugal, e no início das comemorações da Semana de Portugal em
Toronto, a Peach Gallery, localizada na 722 College Street, um dos espaços
culturais de referência da comunidade luso-canadiana, após a apresentação do
livro, exibirá estreia de documentário “África, como eu a vi”, realizado e
produzido por Paul Fajardo, através dos testemunhos de antigos combatentes do
Ultramar. Neste sentido, esta iniciativa cultural no âmago da comunidade
portuguesa em Toronto, metrópole onde vive a maioria dos mais de 500 mil
portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, constitui um reconhecimento
do contributo e papel inestimável da comunidade luso-canadiana ao longo dos anos
no engrandecimento dos valores da liberdade e da portugalidade. Refira-se que a
edição da obra se deveu em grande parte ao mecenato de empresas que partilham
uma visão de responsabilidade social e um papel de apoio à cultura, em
particular, do grupo empresarial do comendador luso-canadiano Manuel DaCosta, um
dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto. Sendo que a
totalidade das receitas da venda dos livros na sessão aberta à comunidade,
reverte a favor da Magellan Community Foundation, uma instituição responsável
pela construção em Toronto, do primeiro lar de cuidados a longo termo para
idosos de expressão portuguesa.
domingo, 12 de maio de 2024
O Homem de Duas Sombras
Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno emigratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais e lusodescendentes, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa.
Um dos exemplos mais recentes, que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração nacional, encontra-se vertido no livro O Homem de Duas Sombras, do professor e autor penamacorense José Manuel Batista, a residir na vila raiana de Vila Velha de Rodão.
Editado pelas Edições Colibri no ocaso do ano passado, o livro, o terceiro do autor, com prefácio da ensaísta e helenista Maria Mafalda Viana, propõe uma reflexão sobre a emigração portuguesa “a salto” da década de 1960-70 para França, inspirada no espólio do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt, que imortalizou a emigração portuguesa no 3.º quartel do séc. XX.
Através da deriva existencial de um homem que enfrenta os fantasmas da memória, como por exemplo, as vivências impactantes dos emigrantes portugueses nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, como os de Saint-Denis ou Champigny, que nos anos 60 albergou mais de uma dezena de milhares de portugueses, tornando-se um dos principais centros de distribuição de trabalhadores de nacionalidade lusa em França.
Nas palavras do autor, construído “entre a razão dos esforços e lutas dos emigrantes em busca de uma melhor vida e as emoções amorosas e sociopolíticas de uma vida que se sonha para o futuro”, o livro depois de apresentações no território nacional vai ser lançado no palco principal do seu enredo, ou seja, junto da comunidade portuguesa em França.
Mormente, no dia 30 de maio (quinta-feira), às 19h00, na Pastelaria Belém, em Paris, numa sessão aberta à comunidade luso-francesa e que estará cargo de Didier Caramalho, jornalista da Rádio Alfa, a emissora dos portugueses na capital gaulesa.
Natural de Penamacor, onde nasceu em 1953, José Manuel Batista frequentou o curso de Lettres Modernes na Universidade Paris IV-Sorbonne, que veio a completar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, porquanto os seus familiares diretos foram protagonistas anónimos da epopeia da emigração portuguesa dos anos 60/70. Nesse sentido, a sessão de apresentação em Paris, num espaço de eleição da comunidade portuguesa, imbuída de profundo simbolismo e carga afetiva, constitui um dever de memória e de homenagem a todos os compatriotas que com sacrifício e trabalho alcançaram o direito a uma vida melhor.
domingo, 5 de maio de 2024
Onésimo Teotónio Almeida: um paladino da açorianidade e da portugalidade
No ocaso do mês abril, o professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown, Onésimo Teotónio Almeida, uma das figuras mais proeminentes da numerosa comunidade luso-americana, lecionou a sua última aula numa das academias mais prestigiadas dos Estados Unidos da América (EUA).
Com um percurso académico brilhante, o ilustre açoriano nasceu no Pico da Pedra, no interior da costa norte da Ilha de São Miguel em 1946. Tendo estudado no Seminário de Angra do Heroísmo, e depois de se licenciar na Universidade Católica de Lisboa, emigrou para os EUA em 1972, para estudar Filosofia, pátria de acolhimento onde realizou nessa área o mestrado e doutoramento na Universidade de Brown.
No decurso das últimas décadas fundou, dirigiu e dinamizou o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da instituição de ensino superior que o acolheu, lecionando cursos interdisciplinares sobre valores e história cultural e das ideias, como por exemplo, História Cultural e Intelectual de Portugal e Valores e Mundivisões.
Onésimo Teotónio Almeida
Enquanto académico, mas também na qualidade de investigador e escritor com vários livros de ensaios, e centenas de artigos dispersos ou reunidos em volumes temáticos, Onésimo Teotónio Almeida tem-se debruçado profusamente sobre a relação entre os Estados Unidos e a comunidade luso-americana. Uma comunidade que ronda mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, maioritariamente emigrantes açorianos e seus descendentes, que se destaca hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.
Uma comunidade que no início dos anos 80, em New Bedford, cidade localizada no estado de Massachusetts, foi posta em xeque pela opinião pública norte-americana no seguimento do caso de Cheryl Araújo, uma luso-americana que foi violada no bar Big Dan"s, por quatro portugueses. A defesa acérrima do filósofo açoriano nessa época da comunidade portuguesa foi decisiva para aplacar a tentação de justiça na praça pública norte-americana, que começava a sentar toda a diáspora lusa no banco dos réus, confundindo a árvore com a floresta.
Na missão, dedicação e propósito do escritor e professor, a portugalidade tem assumido indubitavelmente um papel central. Assim expressa em 1994, o seu livro de crónicas Que Nome é Esse, Ó Nézimo?, que inclui o capítulo “Da Portugalidade Como Doença”. E as suas obras, Português Sem Filtro (2011) e A Obsessão da Portugalidade (2017), onde as temáticas ligadas à língua, cultura e identidade, resultantes do seu contacto estreito com as comunidades lusas dos EUA e do Canadá, são eixos de análise e dissecação dos meandros identitários portugueses.
Nunca olvidando as suas raízes arquipelágicas, o cosmopolitismo e a portugalidade dissecada pelo olhar profundo e engajado de Onésimo Teotónio Almeida, que em 2018 foi designado pelo Presidente da República para presidir às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, estende-se também aos fundamentos da identidade açoriana e às suas formas de expressão.
Na esteira do insigne escritor e professor açoriano Vitorino Nemésio, autor no segundo quartel do séc. XX do termo açorianidade, Onésimo Teotónio Almeida na missão, dedicação e propósito do seu percurso pessoal e académico tem-se debruçado intensamente sobre a condição histórica, geográfica, social e humana do ser açoriano.
Assim, se apreende no livro Minima Azorica. O meu mundo é deste reino, que reúne os principais textos açóricos escritos pelo professor catedrático da Universidade de Brown ao longo de vinte anos (1994- 2014). Mais do que uma obra, um verdadeiro desígnio da sua vida, onde o mesmo assume, que mais “do que um lugar “de onde”, os Açores foram-me sempre um lugar “onde”. Costumo dizer que não emigrei, só alarguei fronteiras, tanto para oriente como para ocidente. Por isso as margens do Atlântico se me aproximaram e fizeram um rio. A ida para Lisboa e, poucos anos depois, para os EUA, fez-me dar conta de um generalizado desconhecimento do meu arquipélago, mesmo de realidades tão simples como a sua geografia. Vicissitudes diversas levaram-me a embrenhar-me no estudo da cultura açoriana e, de modo especial, da sua produção literária”.
Ilustre académico com uma brilhante carreira, vasta produção e vários prémios, a trajetória de vida Onésimo Teotónio Almeida, genuíno paladino da açorianidade e da portugalidade, e reconhecido pelo sentido notável de humor e humildade, a mãe de todas as virtudes. Escora o retrato justamente traçado pelo Presidente da República aquando da entrega em 2018 do Prémio D. Diniz ao escritor natural dos Açores: “Por ser um português na América, Onésimo pode escrever sem nacionalismos nem masoquismos. Digamos que tem atuado como um lusitanista iluminado sem que essa iluminação signifique aqui sentido de medida, cautelas quanto a grandes eloquências, ceticismo em relação ao politicamente correto tão em voga na universidade americana”.
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Vigo é palco de apresentação de livro sobre memórias da ditadura portuguesa
No próximo dia 16 de maio (quinta-feira), é apresentado em Vigo o livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”.
A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, é apresentada às 18h00 no Camões - Centro Cultural Português em Vigo.
O artista plástico Orlando Pompeu (ao centro), ladeado do historiador Daniel Bastos (dir.), e do tradutor Paulo Teixeira
A apresentação do livro, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira, e prefácio do historiador e investigador José Pacheco Pereira, estará a cargo de Orlando Pompeu, um dos mais consagrados artistas plásticos portugueses da atualidade.
Nesta nova obra, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nas décadas de 1960-70.
Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num conjunto de centena e meia de imagens, são abordados, desde logo, as primeiras manifestações do Maio de 1968 em Paris, acontecimento icónico onde o fotógrafo engajado consolidou a sua consciência cívica e política. E, com particular incidência, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70.
Em plena celebração de meio século de liberdade em Portugal, a apresentação deste livro em Vigo, constitui um reconhecimento dos laços históricos, territoriais, culturais e linguísticos entre a Galiza e o Norte de Portugal. Assim, como uma iniciativa simbólica para revisitar os países ibéricos como eram há 50 anos, e apreender a influência da Revolução de Abril no processo de transição para a democracia em Espanha.
Refira-se que a sessão de apresentação no Camões - Centro Cultural Português em Vigo, organismo que tem como objetivo central levar a cultura portuguesa a toda a Galiza, incluirá uma prova de vinho verde, promovida pelos Vinhos Norte, um dos maiores produtores nacionais de vinho verde que procura aliar a tradição de fazer vinho com a inovação no sector.
Nascido já depois da Revolução de Abril, e com vários livros publicados no domínio da História e da Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as comunidades lusas, o percurso do historiador e escritor Daniel Bastos tem sido alicerçado no seio da Diáspora.
Depois de uma trajetória marcada pela deserção, emigração e exílio nas décadas de 1960-70, Fernando Mariano Cardeira regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. Foi um dos fundadores da Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61/74), e presidiu à Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória-NAM.
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