Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 11 de março de 2017

Filme "Silêncio" um elogio à Diáspora Portuguesa



Na antestreia em Portugal do filme “Silêncio”, do multipremiado realizador americano Martin Scorsese, o Presidente da República Portuguesa declarou publicamente que a película que adapta o romance homónimo de Shusaku Endo sobre a pungente história do cristianismo no Japão constitui “um elogio à diáspora portuguesa”.

Partilho da ideia de Marcelo Rebelo de Sousa sobre este filme, que durante quase três horas retrata um período marcante da história portuguesa, designadamente a chegada dos portugueses, os primeiros europeus, ao Japão no século XVI, e as perseguições religiosas que os padres jesuítas sofreram durante a sua missão no território nipónico no decurso do século XVII. E subscrevo como o mais alto magistrado da Nação que a obra cinematográfica evoca a “nossa vocação ecuménica de estar em todo o mundo de formas diversas”.

No entanto, é de relembrar que a presença portuguesa no isolado Japão dos séculos XVI e XVII tinha sido já, há duas décadas atrás, refletida na obra cinematográfica “Os Olhos da Ásia”, do realizador João Mário Grilo. A dimensão missionária e evangelizadora dessa presença, assim como as ferozes perseguições movidas pelos xoguns aos missionários portugueses, receosos de uma eventual invasão por parte dos “bárbaros do sul” e temerosos da influência dos jesuítas nos nipónicos, encontram-se magistralmente vertidas no filme estreado em 1997 do cineasta luso.

Uma visão cinematográfica não invalida a outra, antes pelo contrário, complementam-se e alargam horizontes, e todos os trabalhos de qualidade sobre a história e cultura portuguesa são sempre bem-vindos. Mas não caiamos na tentação de valorizar mais o que vem de fora, esquecendo o que de bom se faz e realiza em Portugal, país que deu novos mundos ao Mundo, e que no caso do Japão mudou por completo os hábitos, a língua, a cultura e a história da “Terra do Sol Nascente”.

terça-feira, 7 de março de 2017

Livro sobre a emigração portuguesa apresentado em Bruxelas




No próximo dia 24 de março (sexta-feira), é apresentado na capital da Europa o livro “Gérald Bloncourt – O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores”.

A obra, concebida pelo historiador português Daniel Bastos a partir do espólio do conhecido fotógrafo que imortalizou a história da emigração lusitana para França nos anos 60, é apresentado às 18h30 na Embaixada de Portugal em Bruxelas. 


A apresentação do livro, uma edição bilingue em português traduzido pelo docente Paulo Teixeira, com prefácio do pensador e ensaísta Eduardo Lourenço, contará com a presença do fotógrafo que nas comemorações oficiais do 10 de junho em Paris recebeu das mãos do Presidente da República a Ordem do Infante D. Henrique, e estará a cargo do editor da Orfeu, Joaquim Pinto da Silva, e da socióloga das migrações Maria Beatriz Rocha – Trindade.

Além das fotografias históricas que Gérald Bloncourt captou sobre a vida dos emigrantes portugueses nos bidonvilles dos arredores de Paris, a obra reúne ainda memórias, testemunhos e imagens originais que o fotógrafo francês de origem haitiana realizou durante a sua primeira viagem a Portugal na década de 1960, onde retratou o quotidiano das cidades do Porto, Lisboa e Chaves. Assim como as da viagem a “salto” que fez com emigrantes lusitanos além Pirenéus, e as das comemorações do 1.º de Maio de 1974, que permanecem como a maior manifestação popular da história portuguesa.



Segundo Daniel Bastos, a edição do espólio fotográfico de Gérald Bloncourt constitui “um justo reconhecimento aos protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade”.

Refira-se que a sessão de apresentação incluirá ainda uma prova de vinho de Porto, um produto emblemático da cultura portuguesa, promovida pela De Wijn Fontein Bvba – A Fonte do Vinho, uma empresa portuguesa sediada na Bélgica que se dedica à distribuição de produtos nacionais. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

A crise, a banca e os emigrantes



Uma das dimensões mais sombrias da malfadada crise que atingiu Portugal em 2011, e que obrigou o país a pedir em maio desse ano, um resgate financeiro da ordem de 78 mil milhões de euros, concedido pela União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu, vulga Troika, foi a falência estrondosa dos antigos bancos BES e Banif.

Mergulhados num período de cortes salariais, desemprego, diminuição de poder de compra e direitos, acréscimo de impostos e aumento exponencial da emigração para valores semelhantes aos dos anos 60, aos portugueses, uns mais do que outros, tanto que somos agora confrontados que entre 2011 e 2014 saíram do país cerca de 10 mil milhões de euros para offshores sem a devida fiscalização da Autoridade Tributária (!), foram impostos sacrifícios que nos levaram a apertar o cinto e a arrepiar caminho.

O processo de falência do BES e do BANIF, reveladora da fragilidade do sistema financeiro português, já manifesta no descalabro do BPN e BPP, foram um dos vários episódios inconcebíveis desses tempos recentes que ainda oneram e continuarão a onerar o erário público.

A indignidade de vários banqueiros, a ineficiência dos reguladores, as irreais promessas de bonança de políticos, e a impunidade da corrupção e paralisia dos processos judiciais, atingiu com particulares requintes de malvadez milhares de emigrantes.

Convencidos a aplicarem as suas poupanças, na maioria dos casos, de uma vida de trabalho e sacrifício, em depósitos que afinal eram aplicações financeiras, malgrado as soluções já encontradas para muitos casos, subsistem manifestações de lesados e são inúmeros os episódios de vidas totalmente destruídas. 

Perante as ausências de princípios éticos, e os exemplos de desamparo a que estão deixados vários compatriotas residentes no estrangeiro, será que responsáveis económicos e políticos nacionais terão moralidade para pedir aos emigrantes que continuem a investir em Portugal? Uma coisa é certa, para o bem do país é primordial que os nossos emigrantes permaneçam dispostos a abraçar o desígnio de ajudar no desenvolvimento de Portugal.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O Festival das Migrações, Culturas e Cidadania



No início deste mês de março, realiza-se uma vez mais, no Grão Ducado do Luxemburgo, um país da Europa setentrional circundado pela Bélgica a oeste, a França a sul e a Alemanha a leste, uma nova edição do Festival das Migrações, Culturas e Cidadania, que atrai todos os anos milhares de pessoas.

Este ano, assinala-se a 34.ª edição desta iniciativa do Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE), que constitui um ponto de encontro anual dos estrangeiros no Luxemburgo, que representam cerca de metade da população do país. O português é mesmo uma das cinco línguas mais faladas no país depois do francês, luxemburguês e alemão, tanto que em 2015, havia mais de 90.000 portugueses no território, representando 17% da população do Luxemburgo.

Valorizar as culturas e partilhá-las, assim se pode resumir a essência deste evento multicultural que inclui exposições, concertos, encontros literários, projeções de filmes e gastronomia dos quatro cantos do mundo.

No decurso do festival na LuxExpo no Kirchberg, decorre a 17ª Feira do Livro e o 5º encontro de culturas e artes contemporâneas, ArtsManif, que como em edições anteriores contará com a presença de escritores e artistas dos quatro cantos do mundo, inclusive do espaço lusófono, que têm nestes dias um palco privilegiado para a promoção e divulgação dos seus trabalhos. 

Numa época em que a tentação de construção de muros a separar povos e culturas é grande, onde os populismos parecem ganhar terreno à custa das consequências económicas, da crise de refugiados e de intolerâncias religiosas, o Festival das Migrações, Culturas e Cidadania é uma pedrada no charco que agita as águas, reafirmando a premência da construção de uma cidadania europeia e mundial ativa, assente no primado universal da diversidade cultural, das minorias e dos valores dos direitos humanos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Portugal, o segundo país da Europa com mais emigrantes



As notícias vinculadas recentemente pela generalidade da imprensa escrita são reveladoras da dimensão (des)estruturante do fenómeno migratório na sociedade portuguesa.

Sustentados no último relatório do Observatório da Emigração, uma estrutura técnica e de investigação independente criada com base num protocolo assinado, em 2008, entre o Instituto Universitário de Lisboa e a Direção Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, os cabeçalhos dos órgãos de informação são expressivos e reveladores: “Portugal é o segundo país da Europa com mais emigrantes”.

Os dados atualizados do Observatório da Emigração indicam que durante o ano de 2015, o número de saídas de Portugal para o estrangeiro manteve-se inalterado, ou seja, mais de 100 mil compatriotas procuraram sobretudo em países como o Reino Unido, a França, a Suíça, a Alemanha e Angola, melhores condições de vida e de trabalho que a pátria de Camões teima ciclicamente em não conseguir proporcionar a parte significativa dos seus filhos.

Entre os países mais procurados pelos emigrantes portugueses encontram-se ainda Espanha, Bélgica, Moçambique, Luxemburgo, Holanda, Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, Canadá, Áustria, Noruega, Itália, Suécia, Irlanda e Macau.

A nível europeu, acima de Portugal na triste sina de "país de emigração" só se encontra a república de Malta, cuja população estimada não ultrapassa meio milhão de habitantes e que tem 24,7% dos seus naturais emigrados. No caso português, segundo dados da Organização das Nações Unidas em 2015 viviam no estrangeiro 2,3 milhões de lusitanos, isto é, 22% da população.

Enquanto da parte de todos os agentes e responsáveis políticos portugueses não se concertar uma estratégia, uma visão de futuro para o país, os dados da emigração permanecerão inquietadores e denunciadores da desertificação, empobrecimento, e envelhecimento de Portugal.