Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma consciência crítica contra uma visão de sociedade enfeudada em artificialismos. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente, nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor e historiador Daniel Bastos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

António Joaquim Vieira Montenegro: um benemérito emigrante “brasileiro” de torna-viagem

António Joaquim Vieira Montenegro (┼1874), natural da freguesia de Travassós foi um emigrante “brasileiro” que enriqueceu no Rio de Janeiro e deixou uma marca indelével no campo da benemerência em Fafe.

António Joaquim Vieira Montenegro
Quadro da Santa Casa da Misericórdia de Fafe,
Lar Cónego Leite de Araújo

Este benemérito fafense insere-se no fenómeno emigratório com raízes profundas na sociedade portuguesa, que no 2.º quartel do séc. XIX se caracterizou pela singular mobilidade migratória para o Brasil, consequência do baixo nível de vida no país assente numa agricultura arcaica e de subsistência, numa industrialização incipiente e um elevado índice de analfabetismo.
António Joaquim Vieira Montenegro, como menciona Miguel Monteiro em Fafe dos “Brasileiros” (1860 – 1930) – perspectiva histórica e patrimonial, Fafe, inclui-se no grupo de «“brasileiros” que foram, inicialmente, gente de um estrato social de parcos recursos, filhos de pequenos proprietários agrícolas ou de comerciantes, apoiados por parentes já instalados no Brasil».
Alguns deles, como António Joaquim de Vieira Montenegro, foram membros activos de lojas maçónicas, e participaram em associações de beneficência e clubes de leitura em cidades brasileiras.
 Nestes espaços de sociabilidade beberam os ideais do mérito, da razão e da solidariedade. “Aristocratizados” pelo dinheiro no retorno à terra de origem influíram profundas transformações socioeconómicas, políticas e filantrópicas.
 Entre 1860 e 1924 fruto desse retorno assomaram em Fafe as marcas, ainda hoje presentes dos “brasileiros”, que já em 1886 eram descritas por José Augusto Vieira na obra O Minho Pitoresco: «vae n’uma phase crescente de prosperidade a velha Fafe e que o elixir da fortuna a remoça deveras; as construções particulares ahi estão na sua abundância para o comprovar, tanto mais que em muitas se lê o sorriso da abastança alegre, que deve animar a physionomia dos seus proprietários. (...) o asylo, o município, o hospital, o passeio, a política formam (…) o caminho do progresso, em que se vae encarreirando o espírito local».
Quando foi aberto o testamento de Joaquim António Vieira Montenegro além de outras disposições, este legava: a) ao Hospital de Fafe 2.000$00o reis; b) à Câmara de Fafe 7.000$000 reis para mandar construir uma escola primária masculina; e c) 14.000$00 para a Câmara mandar construir uma casa para asilo de meninas pobres, sendo a autarquia obrigada a dar a casa pronta dois anos depois de receber o legado, sendo que se estas disposições não fossem observadas no prazo determinado, o legado reverteria a favor do Hospital de Fafe.
O Asilo de Montenegro funcionou desde 1877 até 1959, sendo admitidas no Asilo as meninas órfãs de pai e mãe «sem pessoa que as ampare», as expostas que não tivessem quem as amparasse e as filhas de pais pobres que não pudessem ser alimentadas nem educadas «em virtude de serem doentes ou de avançada edade, ou tendo ellas qualquer lesão pysica» (Arquivo Municipal de Fafe, Asylo de Montenegro). 

A rua Montenegro que recebeu o nome do “brasileiro” benemérito.
Do lado esq. o  Asilo da Infância Desvalida
(Postal antigo da vila de Fafe – 1.º quartel do séc. XX)

O antigo edifício da Infância Desvalida
albergou desde a década de 70 até à década de 90
 do séc. XX o Centro de Saúde  de Fafe

A idade de admissão das meninas no Asilo era entre os 7 e 8 anos, salvo as meninas órfãs de pai e mãe, estas eram entre os 4 e 11 anos. As asiladas podiam permanecer na instituição até completarem 16 anos, «excepto quando alguma asilada se destinga por suas qualidades moraes e especiaes, aproveitáveis dentro do asylo». (Arquivo Municipal de Fafe, Asylo de Montenegro).

Orfãos
 Thomas kennington (1885)

A instrução das asiladas assentava num ensino elementar ajustado à doutrina cristã, e procurava incutir nas meninas a humildade e obediência, visando que adquirissem prática no serviço doméstico, como abalizava o art.º 8 do regulamento do Asilo «trabalhos e prendas adequadas ao fim que teve em vista o instituidor, como são: os trabalhos de agulha, o cosinhar, o lavar e engomar, e finalmente todos os concernentes ao governo interno d’uma casa».

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