Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

2025: Ano Novo de dinâmicas e reflexões nas comunidades portuguesas

A caminharmos a passos largos para o final do ano de 2024, período simbólico e propício à renovação e esperança num futuro melhor, que todos desejamos que passe em 2025 pelo desfecho da Guerra na Ucrânia e no Médio Oriente. E pelo dissipar das incertezas que pairam na economia mundial e o necessário incremento do crescimento global. É também uma etapa oportuna para perspetivar novas dinâmicas para as comunidades portuguesas, as mais genuínas embaixadas da pátria de Camões, espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Desde logo, no próximo ano decorrem as eleições autárquicas portuguesas, nas quais estarão em disputa a eleição de 308 presidentes de câmaras municipais, os seus vereadores e assembleias municipais. Assim como, as 3 091 assembleias de freguesia, das quais sairão os próximos executivos das juntas de freguesia. Nesse confronto de ideias e propostas que os partidos políticos, coligações de partidos políticos ou grupos de cidadãos eleitores que se candidatam às próximas eleições autárquicas, impõe-se, desde logo, um amplo debate sobre o efeito da emigração na perda populacional que entrava o país. No topo das suas opções, prioridades e propostas eleitorais, os agentes locais têm de promover agendas políticas capazes de gerarem em articulação com o poder central e regional, bem como com os meios associativos e demais atores da participação cívica, soluções que contribuíam decisivamente para estancar a perda de população. Assim como, o envelhecimento demográfico nacional associado ao fenómeno migratório, que nos últimos anos tem sido compensado pela entrada no país de imigrantes. No cenário político nacional, torna-se imperioso a assunção da (re)valorização da participação das comunidades portuguesas, através do aumento do número de deputados eleitos pelos círculos da emigração. Dado que os quatros mandatos dos dois círculos da emigração, o círculo da Europa e o círculo de Fora da Europa, constituem uma flagrante sub-representação dos mais de cinco milhões de portugueses espalhados pelo mundo, e que correspondem praticamente a metade da população residente no território nacional. Este esforço de revalorização e respeito pela presença de emigrantes e lusodescendentes em todo o mundo, agora, mais do que nunca, percecionados como um valioso ativo e fator identitário para Portugal, deveria ser acompanhado pela criação de um Ministério das Comunidades Portuguesas. Esta reestruturação no modelo organizacional da política para os portugueses residentes no estrangeiro, além de permitir alcançar uma maior autonomia, dignidade e escala na execução das políticas dirigidas à diáspora, possibilitaria aos emigrantes e lusodescendentes um papel central na sociedade, na política, no desenvolvimento, no crescimento e no aprofundamento da democracia em Portugal. Mais do que uma mera mudança na designação, a criação de um Ministério das Comunidades Portuguesas justifica-se pelo peso no passado, presente e futuro da diáspora na projeção de Portugal no mundo. Ainda nesta linha, a introdução definitiva da História da Emigração Portuguesa nos currículos escolares numa abordagem que vá para além das referências às remessas e aos fluxos de saídas para o estrangeiro, constituiu igualmente um elemento essencial para a dignificação desta constante estrutural da história portuguesa. A conceção de um Museu Nacional da História da Emigração, enquanto espaço de valorização do conhecimento da diáspora portuguesa, e simultaneamente fautor de potencialidades culturais e turísticas, é igualmente um projeto que os governantes deveriam concretizar, aproveitando inclusivamente os financiamentos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Este desígnio e imperativo de (re)valorização da diáspora deve potenciar e articular-se ainda com a rede museológica dedicada à emigração portuguesa, enriquecida por exemplo, pelos acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, ou do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. Um projeto nacional que não pode olvidar os espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro, Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, no Canadá; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália; o Museu Histórico Português em São José, na Califórnia; ou o Museu de Herança Madeirense, em New Bedford, nos Estados Unidos da América. Uma ligação que pode e deve também interligar-se com vários museus nacionais espalhados pela geografia da diáspora portuguesa, e cujos espólios acentuam o contributo marcante da imigração portuguesa no desenvolvimento dessas pátrias de acolhimento. Como, por exemplo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano, localizado em Halifax, na província da Nova Escócia; o Museu Nacional da História da Imigração em Paris; ou o Museu da Baleação de New Bedford. Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia no conhecimento, história e memória da emigração lusa. A todos os portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo, uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Um Natal inspirado nas comunidades portuguesas

O Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que todos desejamos que a breve trecho passe pelo desfecho da Guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, assim como pelo dissipar das incertezas que pairam na economia mundial e o necessário incremento do crescimento global. É neste contexto socioeconómico intrincado, que a solidariedade, a estrela que mais brilha no Natal das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, assume-se como uma verdadeira fonte de inspiração e matriz civilizacional. Nos tempos desafiantes que vivemos, a diáspora lusa mantém um incessante espírito de solidariedade, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal, continuando a apoiar quer os nossos compatriotas no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional. São muitos e variados os exemplos de solidariedade dinamizada nesta quadra natalícia no seio da dispersa geografia das comunidades portuguesas. Por exemplo, na comunidade lusa em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas. A Academia do Bacalhau de Paris (ABP), levou a cabo, uma vez mais, a iniciativa Roupa Sem Fronteiras, através de uma campanha de recolha de roupa, calçado, roupas de casa e brinquedos para lhes dar uma segunda vida, junto daqueles que mais necessitam. Coincidente com o falecimento de António Fernandes, presidente honorário da ABP e um dos principais impulsionadores desta iniciativa solidária. A campanha contou este ano com a participação de mais de 70 voluntários, que se uniram para organizar e enviar 28 paletes de donativos, cada uma contendo 16 caixas de roupas, calçado, brinquedos e artigos para o lar, que serão distribuídos por várias associações dos concelhos minhotos de Braga, Fafe e Cabeceiras de Basto. Outro exemplo paradigmático de espírito solidário da diáspora na quadra natalícia, acontece há vários anos na comunidade portuguesa do Reino Unido, a segunda maior da Europa, formada por cerca de 400 mil pessoas. Desde 2013, ano em que foi criada em Londres, a associação Abraço Solidário, que a coletividade benemérita liderada pela madeirense Zita da Silva, se tem empenhado no apoio a causas sociais, quer junto da comunidade portuguesa no Reino Unido, como também em Portugal. No limiar deste mês, no âmbito do tradicional jantar de Natal solidário, no centro de Londres, uma vez mais foram angariados donativos que vão apoiar instituições, famílias e jovens mais carenciados, quer no Reino Unido, como em Portugal continental e na ilha da Madeira. No seio da numerosa comunidade lusa nos Estados Unidos da Améria (EUA), segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, têm sido constantes, entre outras, ao longo deste ano as iniciativas dinamizadas em prol dos Bombeiros Portugueses. Figuras gradas da comunidade luso-americana, como por exemplo, o dirigente associativo Jack Costa, presidente da Assembleia Geral do Sport Club Português e dos Amigos do Vale USA; os empresários beneméritos José Luís Vale e David Oliveira; e o empresário de restauração Manuel Carvalho, revelaram-se, uma vez mais, decisivos na dinamização de iniciativas que permitiram a angariação de donativos em prol, respetivamente dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, Ourém e Anadia. A campanha mais recente da comunidade luso-americana a favor dos “soldados da paz”, foi realizada no alvorecer do presente mês, no Portuguese-American Center of Suffolk, em Farmingville. Emigrantes e dirigentes comunitários como Adelaide Catarina Ferreira, Eurico Tavares, Crystal Fernandes e Sandra Araújo, entre outros, dinamizaram a angariação de mais de 20 mil dólares em prol da aquisição de um novo veículo de combate a incêndios para os Bombeiros Voluntários de Tábua. Ainda na América do Norte, mais concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá, continua a bom ritmo as iniciativas solidárias em proveito da construção do Magellan Community Centre, isto é, a edificação a breve prazo da “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana. Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes portugueses na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, presidida pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto, que através da colaboração do poder político e da solidariedade luso-canadiana, está a edificar um lar culturalmente específico e inclusivo para a comunidade. Orçado em 120 milhões de dólares, ainda recentemente, através da união de todos os órgãos de comunicação comunitários luso-canadianos na Grande Área de Toronto, foi possível dinamizar uma profícua iniciativa de solidariedade que envolveu as forças vivas da comunidade portuguesa, como seja o caso dos comendadores Manuel DaCosta e Frank Alvarez. E assim alcançar donativos, no valor de mais de meio milhão de dólares, essenciais no apoio à construção desta vindoura casa portuguesa. Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio da diáspora, fortalecem a ideia-chave que mesmo em tempos desafiantes, o Natal é uma época inspiradora de solidariedade nas comunidades portuguesas. Que a solidariedade que emana das comunidades portugueses nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, e nos inspire uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo. Como exortava Madre Teresa de Calcutá, exemplo cimeiro de esperança: “É Natal sempre que deixes Deus amar os outros através de ti…sim, é Natal sempre que sorrires ao teu irmão e lhe ofereceres a mão”.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

A solidariedade da comunidade luso-americana em prol dos Bombeiros

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações. Ainda este ano, no mês de setembro, numa fase crítica em que Portugal enfrentou dezenas de incêndios, em particular no Norte e Centro do país, ficou patente a coragem e a importância dos Bombeiros. Sendo que inclusive quatro “soldados da paz” tombaram em serviço da defesa e proteção das populações, o herói João Manuel dos Santos Silva, de 60 anos, durante o combate às chamas na freguesia de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, vítima de um problema cardíaco. E os heróis Paulo Jorge Santos, Susana Cristina Carvalho e Sónia Cláudia Melo, quando o carro em que seguiam estes bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha, foi apanhado pelas chamas no combate ao incêndio que lavrou no concelho da Tábua. Exemplos de genuíno serviço de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos de debilidades económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade das comunidades portuguesas no estrangeiro, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos Bombeiros às populações. Um desses exemplos paradigmáticos mais recentes ocorreu no ocaso do passado mês de novembro, no seio da comunidade portuguesa de Farmingville, no condado de Suffolk, em Nova Iorque. Estado norte-americano onde o Censo 2020 nos EUA, indica que vivem e trabalham mais de 58 mil luso-americanos. Mais concretamente, nas instalações do Portuguese-American Center of Suffolk, uma coletividade luso-americana de referência em Farmingville, com cerca de 700 sócios, e que conta nas suas infraestruturas com a Escola “Antero de Figueiredo”, o Rancho Folclórico “Aldeias de Portugal”, uma secção de futebol e outra de motards. Foi nesta genuína montra de portugalidade nos Estados Unidos, que na noite de 23 de novembro (sábado), se realizou um Jantar de Angariação de Fundos em prol da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua, que há 89 anos apoiam a comunidade desta vila portuguesa do distrito de Coimbra. A iniciativa, muito participada, foi dinamizada por dois filhos da terra que não olvidam as suas raízes, mormente Adelaide Catarina Ferreira e Eurico Tavares, e congregou a presença de várias forças vivas da comunidade luso-americana em Nova Iorque, como Crystal Fernandes, Presidente da New York Portuguese American Leadership Council (NYPALC), e Sandra Araújo, Presidente do Portuguese-American Center of Suffolk (PACS). A que se juntaram, elementos da direção e do comando dos Bombeiros de Tábua, assim como do Presidente da Câmara Municipal de Tábua, Ricardo Cruz. No rescaldo do jantar-convívio, abrilhantado por dois conhecidos artistas de música popular portuguesa nos Estados Unidos, Jorge Ferreira e Arlindo Andrade, foram angariados mais de 20 mil dólares que serão aplicados na aquisição de um novo veículo de combate a incêndios para os Bombeiros Voluntários de Tábua. Um relevante apoio financeiro, provido pela comunidade portuguesa de Farmingville, que permitirá deste modo reforçar a capacidade de resposta, em situações de combate a incêndios, da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tábua. Neste sentido, as constantes iniciativas solidárias dinamizadas pelas numerosas comunidades luso-americanas, como foi o caso agora da comunidade portuguesa de Farmingville, engrandecem indelevelmente a mensagem do mais alto magistrado da Nação, proferida no âmbito do Dia Nacional do Bombeiro: «Mensageiros de esperança, os Bombeiros portugueses são o bastião que protege e socorre as nossas comunidades em situações de crise ou catástrofe e o garante de que, independentemente das circunstâncias, há sempre alguém, que com abnegação e altruísmo, se prontifica a ajudar o próximo. Que as múltiplas ações de reconhecimento público possam contribuir para o reforço das capacidades dos Bombeiros, permitindo-lhes desempenhar as suas funções com dignidade. O bem dos Bombeiros de Portugal é o bem de todos os Portugueses. Hoje e todos os dias, continuaremos a homenagear os nossos Bombeiros, verdadeiros guardiões da vida, da paz e da segurança».

domingo, 1 de dezembro de 2024

A (re)valorização da emigração na literatura portuguesa

Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa. Um dos exemplos mais recentes, que asseveram a importância destas obras no campo da mundividência da emigração, mas também da criação literária, até porque como destaca a Professora Catedrática da Faculdade de Letras do Porto, Ana Paula Coutinho, no trabalho O português migrante: uma leitura da revista Peregrinação, conquanto “seja já vasta a bibliografia produzida por nacionais e estrangeiros sobre a emigração portuguesa, a sua dimensão cultural e literária tem sido utilizada, quando muito, enquanto documento de leitura sociológica ou antropológica, mas pouco explorada, desde logo em termos criativos e, consequentemente a nível da crítica literária”. Encontra-se vertida na V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora. O livro dado agora à estampa, é um novo contributo da Oxalá Editora, uma editora na Alemanha, vocacionada para a publicação da obra de autores da diáspora, dirigida pelo jornalista, autor e editor Mário GM dos Santos. Coordenada pela escritora São Gonçalves, presentemente a residir no Luxemburgo, e com prefácio da escritora luso-canadiana Irene Marques, atualmente a residir em Toronto, e que em 2000 doi distinguida com o Prémio Literário Ferreira de Castro, a obra reúne três dezenas de poetas residentes na Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra, Luxemburgo, Suíça e Estados Unidos da América. Como salienta Irene Marques no prefácio da obra: “Nesta coletânea, e talvez, como não poderia deixar de ser, encontramos também poemas que abordam diretamente a emigração e a saudade: saímos de Portugal porque a vida assim nos pediu. Saímos para alargar horizontes (ontológicos, económicos, coisas que dentro de nós pediam e que ainda não tinham nome). Saímos para ver, constatar o que existia para além daquele nosso pequenino mundo à beira-mar plantado. Saímos e agora ponderamos como era esse mundo quando o deixámos, como será agora, como poderíamos ter sido se não tivéssemos dele saído. Sonha-se em voltar, mesmo que só através de uma viagem poética, num vai-e-vem de alma, que romantiza, que enaltece, transportando-nos a uma infância que nunca mais podemos recuperar. Porque a infância é uma outra vida que jamais poderemos reaver. A infância é a saudade”. Neste sentido, a V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora, encorpada por uma trintena de poetas residentes nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, muitos deles já com obra publicada aquém e além-fronteiras, não deixando de contribuir para o fomento da criação literária. Representa um relevante contributo para o conhecimento do fenómeno da emigração portuguesa. Um fenómeno complexo, que nas palavras abalizadas de Eduardo Loureço, um dos maiores pensadores da cultura portuguesa, nos “põe em causa, a diversos níveis, de maneira indirecta, a imagem de nós mesmos, mas por isso deve ser apreendida na sua verdade, de maneira adulta e não servir de pretexto como serve a muita gente, a fantasmas colectivos, uns positivos outros negativos, que têm pouco a ver com ela”. A recente edição da V Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora, e tudo aquilo que ela representa, revivifica a máxima de Emily Dickinson, uma das figuras mais importantes da poesia americana: “Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”.

domingo, 24 de novembro de 2024

Frank Alvarez: uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em Toronto

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora e benemérita como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso, e desempenham funções de relevo a nível cultural, económico, político e social Nos vários exemplos de empreendedores portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e singular do comendador Frank Alvarez, uma das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em Toronto. Nascido em Arbo, município raiano da Espanha, na província de Pontevedra, comunidade autónoma da Galiza, a 12 de abril de 1944, Frank Alvarez mudou-se, aos oito anos de idade, para a capital portuguesa, onde viveu até 1967. Ainda nessa década, casou-se com o grande suporte e companheira de vida, Dolores, e emigrou para o Canadá, onde se tornou cidadão canadiano e encetou um percurso socioprofissional coroado de sucesso. Mormente, em 1986, através do seu papel fundador na CIRV-FM, uma rádio direcionada para a comunidade luso-canadiana em Toronto, metrópole onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá. E cuja programação, nos primeiros anos, era predominantemente na língua de Camões, contexto que catapultou a estação numa rádio de referência da comunidade portuguesa, tendo vindo a mesma a ser adquirida em novembro de 2016, pela South Asian Broadcast Corporation Inc Ainda no setor da comunicação social, Frank Alvarez obteve no início do séc. XXI permissão da CTRC (Comissão de Radiodifusão e Telecomunicações Canadianas), para o lançamento da FPTV (Festival Portuguese Television). Descrita à época, pela CTRC, como um “serviço nacional étnico de Categoria 2 de televisão especializada direcionada a comunidade portuguesa, da qual uma significante fonte de programação estrangeira será a SIC Internacional”, o empresário luso-canadiano com raízes galegas esteve à frente dos destinos deste relevante órgão de informação da comunidade portuguesa no Canadá durante cerca de duas décadas. Dotado de grande mérito, visão estratégica e capacidade em assumir riscos, a profunda ligação e trabalho no campo da comunicação social em prol da comunidade luso-canadiana, concorreu para que Frank Alvarez, ao longo dos últimos anos, tenha sido alvo de várias distinções. Como em 1998, ano em que foi reconhecido com o grau de Comendador da Ordem de Mérito, uma ordem honorífica portuguesa que visa distinguir atos ou serviços meritórios que revelem abnegação em favor da coletividade, praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas. Entre outras distinções, o comendador Frank Alvarez recebeu também em 2012 a Medalha do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II. E, em 2017, o Prémio Espírito Comunitário, no Centro Cultural Português de Mississauga (PCCM), uma representativa agremiação lusa na província do Ontário, que assim destacou a sua visão fautora da língua portuguesa e causas sociais das comunidades multiculturais, em particular da comunidade luso-canadiana. Um ano antes, a professora Aida Baptista, antiga Leitora de Português no Canadá, e autora de bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, lançou na Casa do Alentejo de Toronto, o livro Frank Alvarez – O Caminho de um português. Uma obra biográfica, que retrata a história do empresário, desde a Galiza, passando por Portugal, até acabar por lançar raízes em terras do Canadá, onde se dedicou ao grande projeto da sua vida, a comunicação social. Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em Toronto, o comendador Frank Alvarez passou no decurso deste ano, a figurar no Portuguese Canadian Walk of Fame, que anualmente laureia portugueses que se têm destacado no território canadiano. Numa fase da vida em que tem procurado passar mais tempo com a família, o espírito empreendedor, a responsabilidade social e o referencial de envolvimento com a comunidade luso-canadiana, continuam a nortear a ação do comendador Frank Alvarez. Como evidencia o papel importante que desempenhou na realização, no passado mês de outubro, de um Radio/Telethon para angariação de fundos para a Magellan Community Charities. Através da união de todos os órgãos de comunicação comunitários luso-canadianos na Grande Área de Toronto, foi possível dinamizar uma profícua iniciativa de solidariedade que envolveu as forças vivas da comunidade portuguesa. E assim alcançar donativos, no valor de mais de meio milhão de dólares, importantes no apoio à construção a breve prazo de um centro, o Magellan Community Centre, orçado em vários milhões de dólares, que irá acolher futuramente seniores da comunidade portuguesa em Toronto. Um projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, que está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder político e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, está a contruir um lar culturalmente específico que irá dispor de profissionais de saúde que falem português. E dinamizará atividades cultural e espiritualmente em ambiente cultural sensível, assim como programas sociais e recreativos em português e alimentação que incluirá pratos tradicionais. Umas das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em Toronto, o exemplo de vida do comendador Frank Alvarez, inspira-nos a máxima do dramaturgo francês Albert Guinon: “O modo mais seguro de fazer a vida agradável é fazê-la agradável aos demais”.

domingo, 17 de novembro de 2024

José Correia: um empresário filantropo da comunidade portuguesa no Canadá

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político. Nos vários exemplos de empresários portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador José Correia, dono da maior companhia de limpeza e manutenção do Canadá. Natural de Albufeira, na zona costeira da região do Algarve, José Correia emigrou para o Canadá em 1967, com 15 anos de idade, ao encontro da figura paterna, que tinha encetado um ano antes uma trajetória migratória transatlântica em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, na esteira de milhares de compatriotas que procuravam também que os seus descendentes não passassem pelo tirocínio do serviço militar obrigatório na Guerra Colonial. A chegada ao Canadá, numa fase de crescimento da emigração lusa para o território da América do Norte, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro “self-made man”. O trabalho, empenho e resiliência, valores coligidos no seio familiar, impeliram desde cedo o jovem albufeirense a trabalhar em “part-time” no ramo da limpeza e manutenção, área que absorvia muita mão-de-obra portuguesa e que estava a ter procura em Manitoba, província localizada no centro longitudinal do Canadá. Concomitantemente, José Correia almejou melhorar o inglês, estudando à noite, e assim desenvolver melhores conhecimentos e práticas em soldagem, eletricidade e desenho, mundividência que o incitou a fundar com um sócio canadiano, em 1967, a Bee-Clean, uma empresa que rapidamente se transformou num grupo de referência nos setores de limpeza e manutenção no território canadiano. Assente desde a sua génese na mão-de-obra portuguesa, a Bee-Clean expandiu-se no decurso das décadas seguintes para o oeste do Canadá, mormente Saskatchewan e Alberta. Sendo que atualmente, o grupo Bee-Clean que tem cerca de 15 mil funcionários, emprega ainda mais de 4 mil portugueses, numa época em que a emigração lusa para a América do Norte tem vindo a diminuir, e possui representações nas várias províncias canadianas, além de marcar ainda presença em Portugal, nos Açores, na China, em Xangai, e nos Estados Unidos, no Iowa. Contexto, que converteu a Bee-Clean Building Maintenance na maior companhia de limpeza e manutenção do Canadá, operando, por exemplo, em edifícios privados e governamentais, aeroportos, hospitais, bases militares e esquadras da polícia. E que concorreu diretamente, para que o emigrante algarvio tenha sido reconhecido em 1998 com o Prémio Empreendedor do Ano pela consultora Ernst & Young; em 2015 distinguido pelo Portuguese Canadian Walk of Fame; e no ano transato considerado Empreendedor do Ano pela Building Owners and Managers Association (BOMA) of Canada, na região das Pradarias. Anda no início deste ano, o empresário luso-canadiano recebeu das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a Comenda da Ordem de Camões, pela sua atividade empresarial e filantrópica para com a comunidade portuguesa no Canadá, nação onde reside e trabalha há meio século. Uma ordem honorifica portuguesa justamente merecida, destinada distinguir quem tiver prestado serviços relevantes à língua portuguesa, á sua projeção no mundo e á intensificação das relações culturais entre os povos, e as comunidades que se exprimem em português e serviços relevantes para a conservação dos laços das comunidades lusas com Portugal. Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa no Canadá, onde vivem e trabalham hodiernamente mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes, o empresário filantropo tem ajudado centenas de famílias portuguesas no processo de legalização, e apoiado generosamente, o ensino da Língua e da Cultura Portuguesa, patrocinando o Programa de Estudos Portugueses da Universidade de Winnipeg. Foi neste sentido, que no passado dia 15 de novembro, a Association of Fundraising Professionals Manitoba, uma organização de referência no campo da filantropia na província localizada no centro longitudinal do Canadá, distinguiu no âmbito dos Prémios de Filantropia de Manitoba 2024, que se realizaram no Centro de Convenções RBC, o casal José e Maria Graciete Correia com o prémio “Filantropos notáveis”. Nos fundamentos da atribuição da distinção, a AFP Manitoba salientou: “Há mais de 50 anos que o casal José e Maria Graciete Correia se dedicam à filantropia, apoiando causas como o acesso à saúde, à educação, à segurança alimentar e à saúde mental. Líder orgulhoso da comunidade portuguesa, os esforços dos Correia têm prestado um apoio crucial à comunidade, às populações vulneráveis e aos indivíduos submetidos a cuidados oncológicos e tratamentos médicos”.

domingo, 10 de novembro de 2024

As primeiras jornadas multidisciplinares da comunidade portuguesa na Austrália

A comunidade portuguesa na Austrália, cujas raízes remontam à segunda metade do séc. XX com a chegada de um grupo de emigrantes da Ilha da Madeira à cidade portuária de Fremantle, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração no continente-ilha, situado no hemisfério sul, na Oceânia. Conquanto, os dados oficiais apontem para que vivam hoje pouco mais de 55 mil portugueses na Austrália, a comunidade lusa encontra-se disseminada por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney, onde é possível encontrar centros culturais e recreativos, restaurantes e bairros onde se pode falar exclusivamente a língua de Camões. Neste esforço de preservação e dinamização da herança cultural portuguesa no território australiano, tem-se destacado nos últimos anos a madeirense Sara Fernandes, natural de São Roque, freguesia do Funchal, atualmente conselheira das comunidades portuguesas em Melbourne e Perth. Estabelecida há mais de uma década anos na capital ocidental, em Perth, a emigrante madeirense, eleita no ocaso do ano transato para o Conselho das Comunidades Portuguesas, acabou de cumprir no passado dia 9 de novembro (sábado), uma das suas promessas eleitorais estruturantes. Nomeadamente, as primeiras jornadas multidisciplinares da história da comunidade portuguesa na Austrália. A iniciativa promovida pela conselheira madeirense, que contou com o apoio de várias entidades, organismos e especialistas, decorreu presencialmente no Club Português de Fremantle, em Perth. Tendo ainda sido transmitida online, cobrindo assim a vastidão territorial da Austrália, o sexto maior país do mundo em área terrestre, com aproximadamente 7,7 milhões de quilómetros quadrados. As primeiras jornadas multidisciplinares luso-australianas dividiram-se em três eixos que deram origem a painéis temáticos dedicados à língua portuguesa, à educação e associativismo, aos serviços sociais e emigração, e o mundo dos negócios e empreendedorismo. Muito participadas pela comunidade luso-australiana, o evento contou, entre outros, com a participação do embaixador de Portugal na Austrália, António Moniz, que encerrou os trabalhos. E do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, que abriu os trabalhos com uma mensagem em vídeo, e não deixou de destacar o papel comprometido e dedicado da conselheira madeirense em prol da comunidade portuguesa na Austrália. Nesse sentido, um bem-haja à conselheira das comunidades portuguesas em Melbourne e Perth. E nela a todos os conselheiros espalhados pelos quatro cantos do mundo, que muitas das vezes sacrificando a sua vida pessoal, profissional e familiar, assumem um olhar de compromisso com os emigrantes portugueses, os mais genuínos embaixadores do país. Hoje, mais do que nunca, faz sentido a afamada expressão pessoana “a minha pátria é a língua portuguesa”. Uma pátria que não se confina às fronteiras tradicionais do mais antigo Estado-nação da Europa, ou se cinge à sua população que vive no pequeno retângulo à beira-mar plantado. Uma pátria, que pelo contrário, espraia-se em várias comunidades e descendentes espalhadas pelos quatro cantos do mundo, indubitáveis portugais onde remanesce a cultura e língua portuguesa, elos comuns da identidade lusófona.

sábado, 9 de novembro de 2024

Daniel Bastos homenageou Gérald Bloncourt no Porto

No passado sábado (9 de novembro), o historiador da diáspora Daniel Bastos, proferiu na livraria Unicepe, um espaço cultural de referência na cidade do Porto, uma conferência dedicada a "Gérald Bloncourt: o fotógrafo da emigração portuguesa", em homenagem ao “franco-atirador" dos bidonvilles e da emigração portuguesa “a salto” nos anos 60 e 70.
A conferência de homenagem, assinalou os seis anos do falecimento de uma personalidade ímpar que durante mais de duas décadas escreveu com luz a vida dos portugueses em França e em Portugal. Centrada na abordagem do trabalho e percurso de vida do fotógrafo que imortalizou a epopeia da emigração e a génese da democracia portuguesa, a sessão intimista e acolhedora, inclui ainda a reapresentação do livro “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores”. Uma obra concebida e realizada por Daniel Bastos em 2015, que contou com prefácio de Eduardo Lourenço e tradução de Paulo Teixeira, onde é retratado através do espólio de Gérald Bloncourt, a vida dos emigrantes portugueses nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, que já integraram várias exposições em Portugal e França, e que fazem parte do arquivo da Cité nationale de l’histoire de l’immigration em Paris, e do Museu das Migrações e das Comunidades, em Fafe. Assim como, a primeira viagem a Portugal na década de 1960, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves; a viagem a “salto” que fez com emigrantes portugueses além Pirenéus; e as comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, que permanecem como a maior manifestação popular da história portuguesa. No decurso da conferência de homenagem, o historiador da diáspora afirmou que “o trabalho fotográfico de Bloncourt constitui um valioso repositório do último meio século nacional, que resgata das penumbras do esquecimento os protagonistas anónimos da história nacional que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade”.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas: a alma centenária da comunidade luso-americana em São José

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos nacionais, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária. A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hoje na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, encontra-se espargida na Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, em São José, que constituiu um genuíno pilar de fé, de assistência espiritual e pastoral na maior concentração urbana portuguesa na Califórnia. A génese da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas remonta à década de 1910, mais concretamente ao ocaso do ano de 1913, época em que foi adquirido o terreno para contruir o templo e foi apresentada uma petição ao arcebispo Patrick William Riordan, de São Francisco, visando instituir a Paróquia Nacional Portuguesa de Five Wounds. A construção iniciada em 1914 contou com o apoio fundamental e fervoroso de monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, um insigne açoriano nascido na segunda metade do séc. XIX, em Cedros, Ilha do Faial. Ordenado no término da centúria oitocentista, tornou-se vigário na freguesia de São Mateus, Ilha Terceira, tornando-se mais tarde vigário paroquial da Matriz de Santa Cruz, na Ilha das Flores. Em 1912 emigrou para os Estados Unidos da América onde recebeu o título de Monsenhor, um título honorífico concedido pelo papa a certos eclesiásticos por serviços prestados à Igreja. Designado primeiramente para a região agrícola do Vale de São Joaquim, um dos centros da emigração portuguesa na Califórnia, monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, chegou a São José em 1914, tornando-se o grande obreiro e impulsionador da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas. O seu papel basilar, escorado na generosidade constante da comunidade portuguesa, entre 1910-20 calcula-se que tenham entrado no território americano cerca de 150 mil açorianos, ficou plasmado na negociação que encetou em 1916 com o governo português para a compra da madeira do então desmantelado Pavilhão de Portugal da Exposição Panamá – Pacífico, em São Francisco, erigido no ano anterior no âmbito da Exposição Universal que decorreu nos EUA. Inaugurada solenemente, a 13 de julho de 1919, pelo arcebispo Edward Joseph Hanna, de São Francisco, a centenária Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, encerra historicamente a particularidade de ter sido inspirada na traça arquitetónica da Igreja de Santa Cruz, uma das mais expressivas manifestações do período barroco na cidade de Braga, no norte de Portugal. Adornada nas décadas de 1930-40, fase marcada pelo falecimento do monsenhor Henrique Augusto Ribeiro, com mais de três de dezenas de sublimes vitrais, e em constante dinâmica espiritual e pastoral enriquecida pela Irmandade do Espírito Santo. Assim como pela Escola Primária Five Wounds construída e inaugurada em 1960, época em que a emigração portuguesa para a América voltou a aumentar no decurso da erupção do Vulcão dos Capelinhos. Assumindo-se desde o passado à atualidade como a alma da comunidade luso-americana em São José, a Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, na esteira da magnífica obra monográfica assinada por Miguel Valle Ávila no âmbito das celebrações do centenário do templo, “Um Vestíbulo para o Céu”, tem almejado alcançar ao longo das décadas padres de língua portuguesa na liderança da paróquia. Como é o caso hodierno do padre António Silveira, e apoios beneméritos de figuras gradas da comunidade, vivificando-se como casa e escola de comunhão dos fiéis luso-americanos. Numa época de grandes desafios para as comunidades portuguesas nos Estados Unidos, motivada pela conjugação do envelhecimento com a entrada de cada vez menos emigrantes lusos no território. A centenária Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, que assinalou no passado dia 2 de novembro o 110.º aniversário da fundação da paróquia, exprime simultaneamente, a ação pioneira da Igreja Católica no apoio aos emigrantes, e o pilar que a fé e a prática religiosa representam para uma parte significativa dos luso-americanos. Como aclarava, em 2022, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aquando da visita às comunidades luso-americanas da Califórnia, que computou a ida à missa na Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, no âmbito do programa privado do mais alto magistrado da Nação, embora Portugal esteja fisicamente distante de São José, na Califórnia, “tem um território espiritual que cobre todo o mundo. Onde esteja um português, está Portugal, e por isso o nosso território espiritual é muitíssimo maior, é muitíssimo mais vasto do que o território físico, formado pelas ilhas dos Açores, pelas ilhas da Madeira e pelo continente português”. Nesse sentido, o recente 110.º aniversário da fundação da paróquia da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas, orgulhosamente celebrado pelos luso-americanos em São José, através da dinâmica da celebração religiosa, mas também de um jantar-convívio na Irmandade do Espírito Santo (I.E.S.) Portuguese Hall of San Jose, que congregou as forças vivas da comunidade e contou com a presença do Presidente da Câmara de São José, Matt Mahan, e do Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco, Filipe Ramalheira. Revivifica a máxima do filósofo Kierkegaard, considerado o fundador do existencialismo: “A vida somente pode ser compreendida olhando-se para trás, mas somente pode ser vivida olhando-se para frente”.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Gérald Bloncourt: o fotógrafo da emigração portuguesa homenageado no Porto

No próximo dia 9 de novembro (sábado), terá lugar na cidade do Porto a conferência "Gérald Bloncourt: o fotógrafo da emigração portuguesa", em homenagem ao “franco-atirador" dos bidonvilles e da emigração portuguesa “a salto” nos anos 60 e 70.
A conferência de homenagem, seis anos após a morte de uma personalidade ímpar que durante mais de duas décadas escreveu com luz a vida dos portugueses em França e em Portugal, realiza-se às 15h30, na livraria Unicepe, um espaço cultural de referência na cidade invicta. E será proferida pelo historiador da diáspora Daniel Bastos, autor de obras de referência sobre o trabalho fotográfico de Bloncourt ligados à emigração e à génese da democracia portuguesa. O fotógrafo Gérald Bloncourt (1926-2018), acompanhado do historiador da diáspora Daniel Bastos, em 2015, no âmbito do lançamento em Paris do livro “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” Centrada na abordagem do trabalho e percurso de vida do fotógrafo que imortalizou a epopeia da emigração portuguesa, a sessão de homenagem, aberta à comunidade, inclui ainda a reapresentação do livro “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores”. Uma obra concebida e realizada por Daniel Bastos em 2015, que contou com prefácio de Eduardo Lourenço e tradução de Paulo Teixeira, onde é retratado através do espólio de Gérald Bloncourt, a vida dos emigrantes portugueses nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, que já integraram várias exposições em Portugal e França, e que fazem parte do arquivo da Cité nationale de l’histoire de l’immigration em Paris, e do Museu das Migrações e das Comunidades, em Fafe. Assim como, a primeira viagem a Portugal na década de 1960, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves; a viagem a “salto” que fez com emigrantes portugueses além Pirenéus; e as comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, que permanecem como a maior manifestação popular da história portuguesa.

domingo, 27 de outubro de 2024

Comendador Manuel Eduardo Vieira: uma visão empreendedora e humanista luso-americana

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial. No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”). Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho e mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador do comendador Manuel Eduardo Vieira. Natural da Silveira, povoado da ilha do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar na América, emigrou em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, serviu de trampolim para um percurso de self-made man que encetou no começo dos anos 70 no estado norte-americano da Califórnia. Com uma trajetória de notável mérito e trabalho hercúleo, tornou-se, a partir do Vale de São Joaquim, através da sua empresa A.V. Thomas Produce no maior produtor de batata-doce biológica do mundo. Contexto que, levou inclusive, na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”. O empreendedor luso-americano, que tem mantido um constate apego ao seu torrão natal através de um extraordinário sentimento filantropo, plasmado na decisão, em 2017, da Câmara Municipal das Lajes do Pico em homenageá-lo com uma estátua na praceta do Centro Social da Silveira, tem sido uma figura muito requisitada pelos órgãos de informação nacionais para abordar as cada vez mais próximas eleições americanas de 5 de novembro. Uma das figuras mais gradas da imensa comunidade portuguesa na Califórnia, latitude da diáspora onde se encontra radicado há meio século, quer na entrevista concedida à CNN Portugal, no início de setembro, como na mais recente facultada à Agência Lusa, o conhecido emigrante açoriano tem sido um genuíno arauto do papel relevante no passado, presente e futuro da comunidade lusa nos EUA. Comendador Manuel Eduardo Vieira Num período desafiante e complexo, em que é notória a polarização do eleitorado norte-americano, revelador da profunda divisão que perpassa a sociedade da principal potência mundial. E cujos resultados terão enormes reflexos políticos, económicos e sociais na América, e no mundo globalizado, a voz civilizada, serena e portadora de esperança do comendador Manuel Eduardo Vieira tem sido um lenitivo perante as incertezas no horizonte. Um dos aspetos mais relevantes das suas intervenções públicas, são indubitavelmente as melhores condições que defende para os imigrantes, assim como a ideia de legalização dos ilegais que já estão na América, trabalham, pagam impostos e têm famílias. Com cerca de 1.500 pessoas a trabalharem na sua fábrica, maioritariamente imigrantes, a visão pragmática e humanista do emigrante picoense, testemunha o papel crucial dos imigrantes na força laboral nos EUA. Ao contrário dos crescentes discursos anti-imigração que campeiam em várias nações, como é o caso dos Estados Unidos, cujos pilares, ironicamente construídos ao longo da sua história pela dinâmica da imigração são agora arremetidos por tentações cada vez maiores de construção de barreiras fronteiriças e ideológicas. O entendimento do empresário benemérito sobre o impacto positivo do fluxo migratório na demografia e na economia norte-americana, assente em bases de integração, responsabilidade e solidariedade, realenta a expressão queirosiana “força civilizadora”. Um dos mais destacados empresários da diáspora, as recentes intervenções públicas do comendador Manuel Eduardo Vieira em órgãos de informação de referência no panorama nacional, não deixam de ser igualmente um sinal de reconhecimento e valorização das várias gerações de compatriotas que, por razões muito diversas, saíram de Portugal, e têm dado um contributo fundamental no desenvolvimento das pátrias de acolhimento e de origem. Um sinal de reconhecimento e valorização dos emigrantes portugueses, os mais genuínos embaixadores da nação, que partiram e se instalaram pelo mundo, merecedores de toda a consideração e respeito. Como é o caso paradigmático do comendador Manuel Eduardo Vieira, um paladino da portugalidade na Costa Oeste dos Estados Unidos da América.

domingo, 20 de outubro de 2024

O apego às raízes e a solidariedade dos emigrantes em prol dos Bombeiros: o exemplo dos “Amigos do Vale USA”

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações. Ainda em meados do mês passado, numa fase crítica em que Portugal enfrentou dezenas de incêndios, em particular no Norte e Centro do país, ficou patente a coragem e a importância dos Bombeiros. Sendo que inclusive quatro “soldados da paz” tombaram em serviço da defesa e proteção das populações, o saudoso herói João Manuel dos Santos Silva, de 60 anos, durante o combate às chamas na freguesia de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, vítima de um problema cardíaco. E os saudosos e valentes Paulo Jorge Santos, Susana Cristina Carvalho e Sónia Cláudia Melo, quando o carro em que seguiam estes bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha, foi apanhado pelas chamas no combate ao incêndio que lavrou no concelho de Tábua. Exemplos de genuíno serviço de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos de debilidades económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações. Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado na dinâmica solidária da Associação Amigos do Vale USA, um grupo de emigrantes oriundos da freguesia do Vale, em Arcos de Valdevez, um concelho do Alto Minho fortemente marcado pelo fenómeno migratório como revelam as suas numerosas comunidades estabelecidas na França, Andorra, Venezuela, Canadá e Estados Unidos da América (EUA). No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, a Associação Amigos do Vale USA, assente no reiterado orgulho que os seus associados nutrem pelas suas raízes, tem ao longo dos últimos anos vindo a assumir-se como uma genuína “família” da diáspora arcuense nos Estados Unidos. Com uma profunda dimensão de solidariedade e humanitarismo, os membros da associação luso-americana, naturais da vila raiana encravada no Vale do Vez, organizaram no início deste ano uma recolha de fundos a favor da Associação Humanitária dos Bombeiros da sua terra-mãe. Uma centenária corporação, fundada no ocaso do séc. XIX, que se constitui como uma peça estruturante no serviço prestado à população do concelho de Arcos de Valdevez, um dos quatro municípios que integram o Vale do Lima. A angariação solidária decorreu em Newark, a cidade mais populosa do estado de Nova Jérsia, nos Estados Unidos, onde reside uma das maiores e mais conhecidas comunidades portuguesas nos EUA. Mais de quatro centenas de emigrantes e luso-americanos, muitos deles com raízes arcuenses, marcaram presença num almoço solidário, no salão nobre do centenário Sport Club Português (SCP), uma vitrina da portugalidade na América, que contou com a presença de uma delegação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez. Além do almoço solidário que angariou 70 mil dólares, verba que permitiu à corporação humanitária arcuense adquirir uma ambulância de socorro pré-hospitalar, completamente nova, os representantes dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez estiveram através do vereador lusodescendente Michael Silva, numa cerimónia de homenagem na Câmara Municipal de Newark. Nesta cerimónia de homenagem, que incluiu ainda uma visita às instalações dos Bombeiros de Newark nº 14, estiveram igualmente presentes Fernando Grilo e Joe Barros, presidente e vice-presidente da União de Clubes Luso-Americanos de New Jersey, Jack Costa, presidente da Assembleia Geral do Sport Club Português e dos Amigos do Vale USA, António Cardoso, diretor do Rancho Folclórico ‘Sonhos de Portugal’, de Kearny, e Emanuel Barros, presidente da Casa dos Arcos. A ambulância de socorro pré-hospitalar ofertada pela comunidade emigrante dos EUA à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, foi oficialmente entregue e benzida no passado mês de agosto, o mês eleito por muitos emigrantes para regressarem às suas terras, e contou com a presença de membros da Associação Amigos do Vale USA, que tinham já no passado recente auxiliado nas obras da igreja local. Como enalteceu no decurso da cerimónia oficial de entrega e bênção da viatura, no quartel da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, o representante da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Cruz, são as comunidades “que acabam por minimizar os danos de subfinanciamento das corporações de bombeiros, quer ao nível autárquico, quer a nível nacional. São os cidadãos, uns mais perto, outros mais longe, que se lançam na ajuda dos bombeiros”.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Empreendedorismo e solidariedade na comunidade portuguesa em França: os exemplos de Fernando da Costa e Mário Martins

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é indubitavelmente a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político. Nos vários exemplos de empresários lusos da diáspora, cada vez mais percecionados como um ativo estratégico na promoção e reconhecimento internacional do país, destacam-se os percursos inspiradores e de sucesso de Fernando da Costa e Mário Martins. Natural de Espite, concelho de Ourém, muitas vezes apelidado de berço dos “franceses”, tal é o impacto do fenómeno emigratório neste território do centro do país, Fernando da Costa é um reconhecido empresário no seio da comunidade luso-francesa. Fundador nos anos 90 da empresa Eurelec, uma empresa de referência na inovação e comercialização de material elétrico, com sede em Villiers-sur-Marne, o empreendedor luso-francês que chegou a França com quatro anos de idade, tem uma rede de comercialização de material elétrico em várias cidades gaulesas. Há cinco anos abriu a sua primeira loja em Leiria, sendo que, entretanto, tem delineado planos para se expandir noutras regiões portuguesas. Já o conhecido empresário Mário Martins, natural de Santa Comba, povoação de Vila Nova de Foz Côa, na sub-região do Douro, igualmente enleada pelo fenómeno emigratório, que partiu com 10 anos de idade rumo a Paris em 1974, criou nos anos 80 a MRTI. Uma empresa de transportes nacionais e internacionais de referência no território francês e português, sediada em Les Pavillons-sous-Bois, que num mundo marcado pela globalização, em que os transportes de mercadorias desempenham um papel estruturante, possui uma frota de mais de três centenas de camiões com uma forte presença em Paris, Lyon, Bordéus e Porto. O sucesso que ambos os emigrantes têm alcançado ao longo das últimas décadas, tem sido acompanhado de várias ações de solidariedade para com as suas terras de origem, assim como para com a comunidade portuguesa em França. De facto, amigos de longa data, Fernando da Costa e Mário Martins compartilham um notável espírito solidário, como evidencia, por exemplo, entre várias outras iniciativas, os “batismos de voo” que ao longo das últimas décadas têm proporcionado sorrisos contagiantes a crianças com necessidades especiais. A iniciativa solidária, organizada por Fernando da Costa, que também é piloto e membro do Rotary Club de Crécy-en-Brie, Mário Martins e o também conhecido empresário luso-francês Mapril Batista, esteios da associação “Sonho de Menino”, têm promovido ao longo dos anos inúmeros “batismos de voo” a crianças francesas e portuguesas com necessidades especiais. O raio de ação solidária da associação “Sonho de Menino”, estendeu-se inclusive, em 2020, à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Boticas. Uma corporação transmontana que graças ao apoio financeiro e filantropo dos empresários portugueses em França, Fernando da Costa, Mário Martins, Mapril Baptista e Pedro Lopes, recebeu nesse ano uma ambulância de Transporte de Doentes não Urgentes. Não é, pois, de admirar que no início do presente mês de outubro, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tenha distinguindo, no Palácio de Belém, os dois ilustres compatriotas residentes em França, Fernando da Costa e Mário Martins, com a imposição das insígnias de Comendador da Ordem do Mérito. Uma ordem honorífica portuguesa, justamente merecida, que visa distinguir actos ou serviços meritórios que revelem abnegação em favor da coletividade, praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas. Uma condecoração, que no caso dos emigrantes beneméritos luso-franceses Fernando da Costa e Mário Martins, homenageia os seus respetivos percursos profissionais, e simultaneamente a solidariedade que têm devotado às pátrias de origem e de acolhimento. Duas das figuras mais gradas da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, os exemplos de vida dos emigrantes empreendedores e filantropos Fernando da Costa e Mário Martins, inspiram-nos a máxima do filósofo humanista Friedrich Schiller: “Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos”.

domingo, 13 de outubro de 2024

Memórias da ditadura revisitadas no FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos

No passado domingo (13 de outubro), foi apresentado no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, o livro Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência. A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, foi apresentada na Livraria de Santiago, um dos espaços mais emblemáticos da vila de Óbidos.
A sessão de apresentação, repleta de público, encontros e emoções, integrou a programação oficial da 9.ª edição do FOLIO, um evento que tem atualmente uma das principais programações literárias da Europa e dos países de língua portuguesa. E que este ano decorre de 10 a 20 de outubro, sob o mote da “Inquietação”, assinalando a comemoração dos 50 anos do 25 de Abril e dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões, através da dinamização de quase 600 iniciativas, entre mesas de autor, conversas, lançamentos de livros, apresentações, tertúlias, debates, sessões, masterclasses, exposições e seminários, sempre com o livro como âncora e fio condutor. Refira-se que nesta nova obra, uma edição bilingue (português e inglês), realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, com tradução de Paulo Teixeira e prefácio de José Pacheco Pereira, o historiador da diáspora Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nas décadas de 1960-70.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

As ondas de solidariedade dos emigrantes em prol dos Bombeiros

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os Bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações.
O almoço-convívio dinamizado pelos empresários luso-americanos José Luís Vale e David Oliveira, no dia 14 de julho, congregou vários emigrantes oureenses e compatriotas nos Estados Unidos, que doaram 15 mil dólares aos Bombeiros Voluntários de Ourém Ainda em meados do mês passado, numa fase crítica em que Portugal enfrentou dezenas de incêndios, em particular no Norte e Centro do país, ficou patente a coragem e a importância dos Bombeiros. Sendo que inclusive quatro “soldados da paz” tombaram em serviço da defesa e proteção das populações, o saudoso herói João Manuel dos Santos Silva, de 60 anos, durante o combate às chamas na freguesia de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, vítima de um problema cardíaco. E os saudosos e valentes Paulo Jorge Santos, Susana Cristina Carvalho e Sónia Cláudia Melo, quando o carro em que seguiam estes bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha, foi apanhado pelas chamas no combate ao incêndio que lavrou no concelho da Tábua. Exemplos de genuíno serviço de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações. Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos de debilidades económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações. Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se plasmado no altruísmo do emigrante luso-americano José Luís Vale, natural de Casal dos Crespos, freguesia de Nossa Senhora da Piedade, concelho de Ourém. O empresário na área da construção civil no estado norte–americano de Nova Jérsia tem nas últimas décadas dinamizado um conjunto significativo de iniciativas de apoios aos Bombeiros Voluntários de Ourém, uma entidade de utilidade pública e carácter humanitário que remonta aos primórdios da Primeira República. A sua constante e desprendida generosidade com os Bombeiros de Ourém, contribuiu, por exemplo, para que em 2018, no âmbito do 106.º aniversário da corporação humanitária, fosse possível a chegada de um novo Veículo Florestal de Combate e Incêndios (VFCI-10). Ainda recentemente, no passado mês de julho, José Luís Vale juntou num almoço-convívio na pátria de acolhimento dezenas de amigos e conterrâneos da comunidade luso-americana, angariando 15 mil dólares que foram encaminhados para os Bombeiros de Ourém procederem á aquisição de um veículo escada. O gesto generoso computou ainda no mês seguinte, a 20 de agosto a dinamização de um jantar no torrão natal, tendo então José Luís Vale, acompanhado de vários amigos, recolhido mais 3600 euros que foram entregues aos Bombeiros de Ourém. Refira-se que nesta iniciativa, que congregou vários emigrantes oureenses no território norte-americano, destacou-se igualmente o papel ativo do empresário e dirigente associativo David Oliveira. Natural da freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, concelho de Ourém, David Oliveira é um renomado empresário metalúrgico no Yonkers, burgo do estado de Nova Iorque, onde tem sido no decurso dos últimos anos, um dos principais dinamizadores do Centro Comunitário Português. Nunca esquecendo as suas raízes, o emigrante natural da freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, tem ao longo dos anos contribuído também generosamente para a missão do corpo de Bombeiros de Ourém. Neste sentido, estas ondas de solidariedade dinamizadas por José Luís Vale e David Oliveira em prol dos Bombeiros de Ourém, assim como outras iniciativas que estão ou foram dinamizadas noutras latitudes da diáspora em prol dos “soldados da paz”, dão amplo sentido à mensagem do mais alto magistrado da Nação, no âmbito do Dia Nacional do Bombeiro: «Mensageiros de esperança, os Bombeiros portugueses são o bastião que protege e socorre as nossas comunidades em situações de crise ou catástrofe e o garante de que, independentemente das circunstâncias, há sempre alguém, que com abnegação e altruísmo, se prontifica a ajudar o próximo. Que as múltiplas ações de reconhecimento público possam contribuir para o reforço das capacidades dos Bombeiros, permitindo-lhes desempenhar as suas funções com dignidade. O bem dos Bombeiros de Portugal é o bem de todos os Portugueses. Hoje e todos os dias, continuaremos a homenagear os nossos Bombeiros, verdadeiros guardiões da vida, da paz e da segurança».

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Marques Valentim inaugurou exposição “E Depois do Adeus – Fotografias com História” em Famalicão

No passado sábado (28 de setembro), o fotojornalista Marques Valentim inaugurou a exposição “E Depois do Adeus – Fotografias com História” no novo “Espaço Memória” da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Médio Ave, em Famalicão.
O fotojornalista Marques Valentim (ao centro), ladeado de Carlos Sousa (esq), presidente da Casa da Memória Viva, e de Daniel Bastos, historiador da Diáspora, no decurso da inauguração da exposição “E Depois do Adeus – Fotografias com História” A mostra, patente ao público até 13 de outubro, reúne cerca de 50 fotos que documentam episódios e protagonistas da implantação da Democracia em Portugal. Como por exemplo, fotografias alusivas à Guerra Colonial, às primeiras eleições livres, às movimentações político-militares, à Assembleia Constituinte, ao processo de descolonização, até à adesão de Portugal à então CEE. Nascido em Cascais, a 1 de agosto de 1949, Marques Valentim fez a sua comissão de serviço militar obrigatório em Moçambique, como furriel miliciano foto-cine, após ter concluído em Lisboa o curso de Fotografia e Cinema, nos Serviços Cartográficos do Exército. Com uma profícua carreira de fotojornalista em órgãos de informação de referência em Portugal, o espólio fotográfico de Marques Valentim reaviva memórias de personalidades protagonistas de episódios e acontecimentos marcantes que fizeram a História de Portugal.

A emigração portuguesa na obra do mestre-pintor Orlando Pompeu

Um dos mais consagrados artistas plásticos portugueses da atualidade, Orlando Pompeu nasceu a 24 de maio de 1956, na freguesia de Cepães, no concelho minhoto de Fafe. Estudou desenho, pintura e escultura em Barcelona, Porto e Paris, e nos anos 90 progrediu no seu percurso artístico ao ir trabalhar para os Estados Unidos da América, onde expôs na Galeria Eight Four, em Nova Iorque, e depois, Japão, tendo exposto na TIAS – Tokio International Art Show e na Galeria Garou Monogatari em Tóquio. Detentor de uma carreira de quase quarenta anos, bem como um currículo nacional e internacional ímpar, a sua obra consta de variadas coleções particulares e oficiais em Portugal, Espanha, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha, Croácia, Austrália, Brasil, México, Dubai, Canadá, Itália, EUA e Japão. Dentro do estilo pictórico singular, heterogéneo, criativo e contemporâneo que perpassam as diversas fases e dimensões temáticas da obra do artista plástico, encontram-se várias representações alusivas à emigração portuguesa. Em 1989, o artista concebeu uma obra hiper-realista, acrílico sobre tela 130 x100, atualmente na posse de um colecionador particular, intitulada “Portugueses, Emigrantes e Heróis”, que constitui uma grandiosa alegoria da emigração lusa para França nas décadas de 1960-70. Nesse quadro de grandes dimensões, Orlando Pompeu, pinta numa estação de comboios, uma família carregada de malas e de sonhos na demanda de melhores condições de vida, impulso maior que levou mais de um milhão de portugueses a emigrar “a salto” para o território gaulês nesse período.
Orlando Pompeu, “Portugueses, Emigrantes e Heróis” 130 x 100 - acrílico s/ tela. Col. Particular Uma emigração, nas palavras de Eduardo Lourenço, «de sangue, suor e lágrimas, mas que, ao fim e ao cabo, foi uma emigração com sentido e que deu sentido a tantas gerações, a tantas vidas e a tantos portugueses». Que até aos dias de hoje, representam uma das principais comunidades estrangeiras presentes no território gaulês, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, e desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da França. Já em 2018, no âmbito do programa das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas no Canadá, nação que alberga uma das mais dinâmicas comunidades lusas na América do Norte, a Peach Gallery, uma das mais vibrantes galerias de arte em Toronto, deu a conhecer à numerosa comunidade luso-canadiana uma exposição composta por 40 aguarelas sobre papel do reputado pintor. Uma exposição cujas aguarelas foram pintadas com várias representações de símbolos identitários da cultura portuguesa, como a bandeira nacional e a guitarra, que muito contribuem para a construção e reforço da portugalidade. Assim como, com diversos elementos canadianos, como por exemplo, a CN Tower, um símbolo de Toronto, capital da província do Ontário e maior cidade do Canadá, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes neste território da América do Norte. Em agosto de 2022, no âmbito da Festa do Emigrante promovida pelo Município de Fafe, uma iniciativa que congregou um conjunto diversificado de acontecimentos de cariz cultural, social e identitário que pretendeu homenagear os emigrantes locais, o artista plástico inaugurou uma exposição composta pelos desenhos concebidos propositadamente para a ilustração do livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia”. Os desenhos, que arrebataram no Salão Nobre do Teatro Cinema de Fafe, antigos e atuais emigrantes no Brasil, Canadá, França, Inglaterra e Suíça, na esteira da missão primordial do livro assinado pelo escritor e historiador da Diáspora, Daniel Bastos, dignificam, reconhecem e valorizam as sucessivas gerações de compatriotas que saíram de Portugal. Refira-se ainda, que desde 2023, o Museu Histórico de São José, com uma forte componente dedicada à emigração portuguesa para a Califórnia, terceiro maior estado dos Estados Unidos, onde vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, possui no seu acervo uma aguarela do artista plástico alusiva aos fortes laços que unem as duas nações é a presença da diáspora. Na esteira de grandes mestres da pintura portuguesa, que também verteram nos seus trabalhos representações da emigração portuguesa, como por exemplo, Domingos Rebelo, com o quadro “Os Emigrantes” (1929), ou Almada Negreiros, com o tríptico “A partida dos emigrantes” (1947-49). Orlando Pompeu sublima assim a máxima de Orhan Pamuk, escritor e professor turco vencedor do prémio Nobel de Literatura de 2006: “A pintura ensinou a literatura a descrever”. Neste caso traçando com a mestria dos pincéis e tintas uma constante estrutural da história portuguesa.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Memórias da ditadura revisitadas na comunidade portuguesa em Paris

No passado sábado (21 de setembro), foi apresentado na capital francesa o livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”. A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, foi apresentada na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris.
A sessão de apresentação, que encheu a Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris, um centro de irradiação da cultura portuguesa na capital francesa, de emigrantes, lusodescendentes, empresários, líderes comunitários, dirigentes associativos e órgãos de informação da diáspora, esteve a cargo de Paulo Pisco, Deputado eleito da Assembleia da República pelo círculo eleitoral da Europa, que enalteceu o percurso de Daniel Bastos em prol da promoção do papel das comunidades portuguesas. Segundo o mesmo, a apresentação deste livro no ano em que se assinala meio século da Revolução de Abril, acentua o papel da memória histórica, contribuindo assim para uma sociedade mais conhecedora da sua história recente, e mais participativa, plural e democrática. Refira-se que nesta nova obra, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira e prefácio do investigador José Pacheco Pereira, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura portuguesa nos anos 60 e 70. Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num conjunto de centena e meia de imagens, são abordados, desde logo, as primeiras manifestações do Maio de 1968 em Paris, acontecimento icónico onde o fotógrafo engajado consolidou a sua consciência cívica e política. E, com particular incidência, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70. Em plena celebração de meio século de liberdade em Portugal, a apresentação deste livro na capital francesa, como aludiu João Costa Ferreira, Diretor da Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris, constituiu um reconhecimento dos laços históricos que unem Portugal e França. Assim como, da importância da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês. No final da sessão de apresentação do livro na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris, os presentes puderam degustar de uma seleção de vinhos verdes, promovida pelos Vinhos Norte, um dos maiores produtores nacionais de vinho verde que procura aliar a tradição de fazer vinho com a inovação no sector.

sábado, 14 de setembro de 2024

André Fernandes: um “self-made man” luso-americano

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial. No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”). Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso de sucesso do empresário e piloto de corridas, André Fernandes, umas das figuras mais proeminentes da numerosa comunidade luso-americana no estado de Nova Iorque. Natural de Cabeda, distrito de Vila Real, o emigrante transmontano integra a plêiade de empresários luso-americanos que se evidenciam no ramo da construção civil, quer predial, quer de infraestruturas, no árduo e competitivo mercado norte-americano. No caso concreto do emigrante transmontano, André Fernandes encetou há duas décadas um percurso notável de genuíno “self-made man” através da criação e liderança da ASF Construction & Excavation Corp., uma empresa de construção civil que se tem assumido nos últimos anos como líder de betão em Nova Iorque e na Flórida. Dois importantes estados norte-americanos, onde a diáspora lusa está significativamente implantada, e tem desempenhado um importante papel ao nível do progresso e desenvolvimento socioeconómico. Com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, e dotado de uma energia incansável, o trabalho e resiliência de André Fernandes transformou a ASF Construction & Excavation Corp, numa empresa de referência nas áreas de escavação, bombagem de betão, fundações para estruturas, pavimentos ou aluguer de guindastes. Nos vários serviços prestados pela empresa luso-americana de construção civil, a visão e missão da mesma assenta em padrões de excelência, rigor e sustentabilidade, premissas que permitem que com o passar do tempo, a ASF Construction & Excavation Corp continue a trilhar os caminhos da inovação e acompanhamento das necessidades do mercado norte-americano. Entre as obras mais emblemáticas onde se encontra o cunho da empresa do emigrante com raízes transmontanas, destaca-se recentemente o maior arranha-céus da cidade de Newark, com mais de 600 apartamentos. Um empreendimento singular que marca indelevelmente a paisagem urbana da cidade mais populosa do estado de New Jersey, e onde se encontra uma das mais representativas comunidades portuguesas nos Estados Unidos. No profícuo rol de projetos de prestígio que têm o cunho da empresa liderada pelo luso-americano André Fernandes, encontram-se, entre muitos outros, o Ridge Hill High Rise Building, o Larkin Plaza High Rise Building,e o Modera Hudson, ambos na cidade de Yonkers, no estado de Nova Iorque. Ou, o NewRo Studios, o 500 Main Street, o Milennia, e o Multi Storied Building, ambos na cidade de New Rochelle, a sudeste do estado de Nova Iorque. Uma das facetas mais conhecidas do empresário luso-americano, é igualmente a sua paixão pelo desporto automóvel. Na qualidade de “gentleman driver”, o também piloto e empresário da ASF Motorsport integrou recentemente o competitivo pelotão da Porsche Carrera Cup North America. Aos comandos de um Porsche 992 GT3 CUP representou as cores nacionais numa das corridas de apoio ao Grande Prémio do Canadá de Fórmula 1, que se disputou em junho deste ano, no lendário Circuito Gilles Villeneuve, em Montreal. A paixão pelas corridas, combinada com o apego às raízes lusas, tem levado a que o emigrante empreendedor e piloto radicado em Nova Iorque, venha com regularidade competir a Portugal, mormente a Portimão, Estoril ou ao torrão natal, em Vila Real. Ainda no ano passado, integrou o pelotão da edição 2023 da Porsche Sprint Challenge Ibérica e esta época apontou foco ao Campeonato de Portugal de Montanha JC Group, marcando presença nas rampas da Arrábida e Porca de Murça, alcançando dois pódios na Categoria GT. Uma das figuras mais proeminentes da numerosa comunidade luso-americana no estado de Nova Iorque, o percurso de sucesso do emigrante, empresário e piloto de corridas, André Fernandes, inspira-nos a máxima de Walter Elliot: “Perseverança não é uma corrida longa, são muitas corridas curtas, uma após a outra”.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Monumentos a Camões na Diáspora: símbolos identitários das comunidades portuguesas

2004 é o ano em que se comemoram os 500 anos do nascimento de Camões, o maior poeta português e símbolo cimeiro da língua portuguesa e da nossa cultura. Nas palavras do tradutor e poeta húngaro Árpád Mohácsi, o autor do poema épico do povo português, Os Lusíadas, é “um poeta de primeira classe, um dos melhores escritores de sonetos da literatura mundial”. Uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental, Camões foi adotado, sobretudo a partir do séc. XIX, como símbolo de portugalidade. O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrado anualmente a 10 de Junho, data da morte do poeta, e assim designado desde a Revolução de Abril, presta, portanto, homenagem a Portugal, aos portugueses, à cultura lusófona e à presença portuguesa no mundo, através da figura de um dos maiores nomes da literatura universal. Não é, pois, de admirar, que um pouco por todo o território nacional tenham sido erigidos, ao longo dos anos, inúmeros monumentos alusivos a Luís de Camões. Um símbolo nacional que em estruturas comemorativas, como esculturas ou bustos, alinda e enobrece, de modo marcante, a paisagem de muitos espaços públicos de cidades portuguesas. Menos conhecidos do público em geral, mas não menos repletos de simbolismo e sentimento pátrio, são também vários os exemplos de monumentos alusivos a Camões erigidos no seio da Diáspora. Perpetuando e dinamizando na esteira de D. Rui Valério, patriarca de Lisboa, “a valorização da portugalidade integrada e interpretada numa mundivisão mais ampla”. Por exemplo, em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoa, foi inaugurado no dia 19 de outubro de 1987 por Jacques Chirac, então primeiro-ministro e presidente da Câmara Municipal de Paris, na presença de Mário Soares, então presidente da República Portuguesa, um busto do poeta que fica no final das escadas da Avenue de Camões, Paris 16ème, bem perto dos jardins do Trocadero. No entanto, a primeira estátua de Camões na capital francesa foi inaugurada no dia 13 de junho de 1912, nos anos iniciais da Primeira República. Um busto, enorme, encomendado ao escultor italiano Luigi Betti, e instalado num pedestal com cerca de 5 metros de altura, que após vários imprevistos se encontra atualmente no Jardim Camões da Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris, um centro de irradiação da cultura portuguesa na capital francesa. Já no Luxemburgo, onde cerca de 100 mil portugueses representam praticamente 15% da população total do Grão-Ducado, assumindo-se como o mais importante grupo estrangeiro no país desde os anos 80, foi oferecida em 2006 à capital luxemburguesa, pela CCILL – Câmara de Comércio e Indústria Luso-Luxemburguesa, e a Santa Casa da Misericórdia do Luxemburgo, uma estátua de Camões. Resultado da generosidade de três empresários portugueses no Grão-Ducado, mormente António Silva, José Veiga e Manuel Cardoso, o busto de Camões no Luxemburgo foi transferido em 2016, de Bonnevoie para a Praça Joseph Thorn, onde se encontra presentemente, em frente às instalações do Instituto Camões. Na América do Norte, concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, desde o alvorecer de junho de 2013, ano em que o espírito empreendedor e benemérito do comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos empresários portugueses em Toronto, impulsionou as obras de revitalização da praça de Camões (Camões Square). Encontra-se, no centro da maior cidade do Canadá, entre outros relevantes símbolos e estruturas de engrandecimento da portugalidade, um imponente busto de Camões, o maior poeta da língua portuguesa. No seio da dispersa geografia da Diáspora, a comunidade portuguesa em Macau, cifrada em milhares de compatriotas, e elo fundamental da cultura e presença secular lusa no Oriente, usufrui desde a centúria oitocentista, e após vicissitudes várias, um dos mais afamados bustos do poeta, na Gruta de Camões. O próprio, terá vivido em Macau durante dois anos, apontado a tradição lendária que terminou nesta gruta, local incontornável de visita na hodierna região autónoma na costa sul da China continental, Os Lusíadas, a obra mais importante da literatura de língua portuguesa. Estes monumentos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados nas pátrias de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia na perpetuação e dinamização da cultura e identidade lusa na Diáspora. De tal modo que é nestes autênticos marcos de portugalidade, que as comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo realizam incontornavelmente as celebrações simbólicas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Revivendo assim anualmente um sentimento inefável, paradigmaticamente expresso por Fernando Pessoa: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Paris é palco de apresentação de livro sobre memórias da ditadura portuguesa

No dia 21 de setembro (sábado), é apresentado em Paris o livro “Memórias da Ditadura – Sociedade, Emigração e Resistência”. A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico inédito de Fernando Mariano Cardeira, antigo oposicionista, militar desertor, emigrante e exilado político, é apresentada às 17h30 na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris.
O fotógrafo Fernando Mariano Cardeira (esq.) acompanhado do historiador Daniel Bastos A apresentação do livro, uma edição bilingue (português e inglês) com tradução de Paulo Teixeira, e prefácio do historiador e investigador José Pacheco Pereira, estará a cargo de Paulo Pisco, Deputado eleito da Assembleia da República pelo círculo eleitoral da Europa. Nesta nova obra, realizada com o apoio institucional da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Daniel Bastos revela o espólio singular de Fernando Mariano Cardeira, cuja lente humanista e militante teve o condão de captar fotografias marcantes para o conhecimento da sociedade, emigração e resistência à ditadura nas décadas de 1960-70. Através das memórias visuais do antigo oposicionista, assentes num conjunto de centena e meia de imagens, são abordados, desde logo, as primeiras manifestações do Maio de 1968 em Paris, acontecimento icónico onde o fotógrafo engajado consolidou a sua consciência cívica e política. E, com particular incidência, o quotidiano de pobreza e miséria em Lisboa, a efervescência do movimento estudantil português, o embarque de tropas para o Ultramar, os caminhos da deserção, da emigração “a salto” e do exílio, uma estratégia seguida por milhares de portugueses em demanda de melhores condições de vida e para escapar à Guerra Colonial nos anos 60 e 70. No ano em que se celebra meio século de liberdade em Portugal, a apresentação deste livro em Paris, constitui um reconhecimento dos laços que unem Portugal e França, e do contributo da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas, ao longo dos anos no engrandecimento dos valores da liberdade e da portugalidade. Refira-se que a sessão de apresentação na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Internacional Universitária de Paris, um centro de irradiação da cultura portuguesa na capital francesa, incluirá uma prova de vinho verde, promovida pelos Vinhos Norte, um dos maiores produtores nacionais de vinho verde que procura aliar a tradição de fazer vinho com a inovação no sector. Nascido já depois da Revolução de Abril, e com vários livros publicados no domínio da História e da Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as comunidades portuguesas, o percurso do historiador e escritor Daniel Bastos tem sido alicerçado no seio da Diáspora. Depois de uma trajetória marcada pela deserção, emigração e exílio nas décadas de 1960-70, Fernando Mariano Cardeira regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. Foi um dos fundadores da Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61/74), e presidiu à Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória-NAM.