Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma consciência crítica contra uma visão de sociedade enfeudada em artificialismos. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente, nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor e historiador Daniel Bastos.

terça-feira, 28 de junho de 2011

As origens remotas do culto da Senhora de Antime ou Senhora do Sol

O concelho de Fafe, à imagem do verdejante Minho, é um caleidoscópio voluptuoso de festas e romarias, particularmente durante o Verão, época do ano em que as famílias são encorpadas pelo retorno dos emigrantes.
Nesta esteira, a Festa em Honra de N. S. de Antime ou do Sol, realizada no segundo domingo de Julho, assume-se como o momento mais importante do conjunto das festividades locais.
Procissão de N.S.de Antime
As origens deste culto perdem-se na voragem do tempo, mas estudos hodiernos evidenciam que a origem remota desta festa está ligada a um culto solar ou ritual de fecundidade.
Alves da Venda na sua análise à “Comuna de Montelongo e as suas gentes” menciona que o lugar Triz em Antime pode ser uma “variante fonética de Tereis, que era uma variante de Tera, a matriarca eponímica de um dos clãs dos Hárpias”. Tribos de caçadores que no III milénio a.C prestavam culto ao Sol, sendo “razoável admitir que Triz ou Tereis fosse o nome da Senhora do Sol venerada em Antime”.
Imagem de de N.S.de Antime
Este culto religioso imemorável terá perdurado após a conquista romana da Península Ibérica. No entanto, quando no séc. IV o Cristianismo se tornou a religião do Império Romano, o culto pagão terá sido cristianizado, isto é, substituído pela veneração à “Senhora de Antime ou Senhora do Sol”.
Ainda no séc. VI, S. Martinho de Dume figura cimeira da conversão dos Bárbaros ao Cristianismo na Península Ibérica, designadamente os Suevos que estabeleceram o seu reino no actual território de Braga, queixava-se que as populações ainda incorporavam práticas pagãs no seu comportamento religioso.
A metamorfose do culto solar pagão em culto cristão de N. S. de Antime ter-se-á processado definitivamente na Idade Média com a fundação do mosteiro de Santa Maria de Antime, já documentado em 1120. Também o saudoso historiador Miguel Monteiro associa o culto de N. S. de Antime “a uma manifestação mágico-simbólica ao Sol como valor masculino a quem são atribuídas capacidades fecundantes”
Esta ideia é corroborada pela tradição documentada na obra de Pinho Leal do séc. XIX “Portugal Antigo e Moderno”, na qual refere: “Grande romaria a Nossa Senhora d’Antime ou Senhora da Misericórdia, ou do Sol. A imagem é de pedra, e com a charola pesa 24 arrobas! Outros dizem que a senhora pesa 8 arrobas e o andor que também é de pedra (!) outros 8. Levam-na na procissão os maiores valentões da frguezia. São 8 rapagões que levam a charola e a Senhora, mas vão outros 8 para os revezar. Apesar da sua valentia, por várias vezes teem alguns ficado esmagados debaixo da imagem; mas, mesmo assim, há grandes empenhos para levarem a charola, porque teem fé de serem bem sucedidos, nos seus casamentos, se tiverem sido condutores da santa”.
Procissão de N.S.de Antime
A procissão de Nossa Senhora de Antime no séc. XIX assumia-se como uma prova pública de virilidade para os rapazes solteiros, como menciona Miguel Monteiro “é um ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, cumprindo assim o rito da passagem de adolescentes para o estádio dos adultos, num hino à fecundidade”.
Associado ao rito da fecundidade, liga-se indelevelmente o conceito de honra como igualmente Pinho Leal, que ainda acerca da procissão de N. S. de Antime no séc. XIX menciona: “Já dos nossos dias, um dos que ajudava a levar a Senhora, andava picado com outro dos conductores, e ao dobrarem uma esquina, tal geito deu, que o andor cahindo sobre o seu inimigo, o matou logo, ficando esmagado; mas esta morte foi immediatamente vingada por um terceiro, que deu no tal amigo uma choupada matando-o immediatamente e ficando a santa e a charola cheios de sangue!”.

Embora este ritual pré-cristão não subsista actualmente, durante a Guerra Colonial, os rapazes mobilizados na década de 60 e 70, na impossibilidade de carregarem o andor, acarretavam um saco de farinha de peso idêntico ao que lhes caberia se transportassem o andor, de modo a obter a protecção divina da Senhora de Antime.
As raízes ancestrais do culto da Senhora de Antime ou Senhora do Sol, indelevelmente ligadas a um culto solar e de fecundidade, emergiram assim como um culto de adequação à simbologia cristã.


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