Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma consciência crítica contra uma visão de sociedade enfeudada em artificialismos. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente, nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor e historiador Daniel Bastos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Globalização, Política e Dignidade Humana

A essência da contemporaneidade, que encontra a sua génese na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos da América, e foi perfumada pela filosofia iluminista, assenta num valor fundamental para o modus vivendi et operandi democrático: a dignidade humana. A velha estrutura social de Antigo Regime, firmada numa pirâmide social estática e amorfa, fortemente marcada pela desigualdade em que a “honra” de classe abalizava os “privilegiados” e os “não – privilegiados”, jaz à muito nos escombros da História, embora em diversas sociedades hodiernas o paralelismo histórico possa ser ainda facilmente estabelecido e evidenciado, como por exemplo, na Índia ou Nepal, onde o sistema de castas pauta ainda a vida dos grupos sociais.


O paradigma sociopolítico das sociedades democráticas, em que nos contextualizamos, herdeiro dos valores do Iluminismo e marcado actualmente pelo Multiculturalismo, isto é, a existência de diversas culturas na (s) sociedade (s) e consequente emergência e apologia das minorias adopta como exigência para a vida em sociedade o respeito e a promoção da dignidade humana não enquanto mera consideração ou simples gesto caritativo para com o (s) outro (s), mas como refere Charles Taylor enquanto “necessidade humana vital” para o reconhecimento do (s) outro (s) como pessoa. 


Como promover então o exercício da dignidade humana perante a revolução científica, a evolução galopante da técnica, e o derrube das fronteiras a velocidade internáutica?
A dignidade humana no Homem argonauta do milénio, será tanto mais efectiva e exercida, como refere Charles Taylor, consoante acentuarmos a “ênfase moral”, da Autenticidade “ser quem eu sou”, aceitando as minhas diferenças e semelhanças com o outro (s). De facto, para não regredirmos nas conquistas da História, a dignidade e autenticidade humana não se coadunam com o actual exacerbamento dos papéis sociais, fruto de um individualismo monológico, ou seja, fechado em si (nós) próprio (s) sedento de “auto realização e auto – satisfação”.
Nesse sentido, o apelo primordial intrínseco e político, deve valorizar (nos) enquanto “pessoa”, o que exige (- nos) um “ideal dialógico na vida”, isto é, partilha, cedência, respeito, responsabilidade e amor pelo outro (s), como assinala o filósofo francês, Emmanuel Lévinas, em Ética e Infinito: “as possibilidades do outro como as minhas próprias possibilidades, de poder sair do fechamento da minha identidade e do que me foi concedido para algo que não me foi concedido e que apesar de tudo, é meu”.
Assim, a dignidade humana exige (-nos) uma reestruturação profunda da “praxis” e discurso político, que tem que assentar numa cultura de paz, numa cultura de diálogo “multicultural”, numa cultura ambiental e de solidariedade, pilares sólidos da Igualdade, Liberdade, e Fraternidade do séc. XXI. Como aponta o médico humanista Enrique Rojas “A Europa, o velho continente, tem de voltar a redefinir a sua identidade”.

Europa desenhada pelo cartógrafo
Abraham Ortelius (séc. XVI)

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